sexta-feira, 8 de junho de 2018

Que Espanha vem aí?


Lá pela "nossa vizinha Espanha", ou pelos "nuestros hermanos", expressões do jornalismo sem imaginação, há agora um novo governo. É um executivo de oportunidade, no mais puro sentido do termo. Alguns, críticos, dirão mesmo que é um governo que cavalga uma onda política oportunista, e até podem ter alguma razão. Mas é o governo de Espanha e isto, para o país co-ocupante da península, é sempre a forte realidade com que há que contar.

A Espanha é um corpo político imensamente complexo e mutante. Incomparavelmente mais complexo do que Portugal, com uma dinâmica de mudança muito maior do que neste lado da península. Mantém, dentro de si, fatores potenciais de divergência muito fortes, parte dos quais ligados à sua heterogeneidade regional, outros fruto de clivagens sociais e políticas que, tendo raízes históricas profundas, devemos resistir sempre a ler viciadamente sob essa luz. 

Por isso, mais do que estar a "cavar" insistentemente nos referentes do antecedente, julgo que, para um país como Portugal, interessa olhar de frente para a Espanha contemporânea e tentar nela identificar os elementos que, no tempo mais recente, podem vir a ser os "drivers" do futuro do país, porque são esses que podem ter implicações importantes sobre nós.

No plano do novo arranjo governativo, há que notar ter havido uma preocupação no sentido de dar um sinal à Europa de que, naquilo que releva dos compromissos assumidos, Madrid seguirá "business as usual". No fundo, trata-se de seguir o bom exemplo de Lisboa, local onde, às vezes, a Espanha, sem o admitir, se inspira para alguns dos seus passos internos. 

Nesse terreno europeu, há, contudo, uma interrogação que persiste: será que o PSOE teve tempo e arte para negociar, como foi feito na Geringonça, que alguns companheiros de percurso se comprometessem a "olhar para o lado", enquanto o realismo prevalecia? É que, do que se conhece do compromisso político obtido por Pedro Sánchez, fica a ideia de que a “pressa” em tirar o PP do poder sobrelevou o cuidado no detalhe, o qual, contudo, pode ser a chave do sucesso, ou não, da governação futura. A Espanha tem uma importância no quadro europeu que não se compadeceria com atitudes equívocas neste âmbito, particularmente num tempo em que a Itália é já uma dor de cabeça maior e suficiente.

Olhando a composição do novo governo espanhol, e seguindo quantos conhecem os novos ministros, fica a sensação de que Sánchez quis desenhar um executivo forte, com nomes testados em setores vários, como que a compensar a sua própria inexperiência governativa. Ao ler-se esses comentadores, a impressão global que ressalta é francamente positiva. 

Restará saber se este governo terá a solidez política para enfrentar os embates que aí vêm, seja nas delicadas tensões autonómicas, seja nos sensíveis impactos sociais das restrições ditadas pelos compromissos em Bruxelas. No primeiro caso, há uma incógnita enorme: que terá Sánchez prometido a algumas autonomias que possa tê-las levado a dar luz verde à sua indigitação? O que dirá a nova Moncloa a Barcelona? No segundo caso, o primeiro teste ao novo presidente do governo vai ser a questão do orçamento, matéria em que o PP, numa “révanche” muito politiqueira, já se afastou da posição que assumira enquanto ainda governo.

Em Santa Cruz – expressão com que, nas Necessidades, designamos o palácio homólogo em Madrid -, Portugal cruza-se com uma cara nada estranha, um ministro de Filipe Gonzalez, o catalão Josep Borrell. Antigo presidente do Parlamento Europeu, e bem nosso conhecido – recordo-me que foi um difícil negociador da questão do regime dos rios peninsulares, que só se fecharia com um governo PP... -, Borrell é aquilo a que os anglo-saxónicos chamam “a safe pair of hands”, isto é, alguém a quem a diplomacia espanhola pode ser entregue com toda confiança. Competente, sabedor, consciente de todos os riscos. Uma caução de responsabilidade num governo que vai estar sob constante prova. E a que só podemos desejar felicidades, até porque é na prosperidade da Espanha que reside grande parte da nossa sorte – no sentido de destino, claro.

6 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Cuidado… Foi o movimento popular que deitou abaixo o neo franquista Mariano Rajoy, que governava a Espanha como uma “colónia”, como uma “propriedade privada” do seu partido, o “partido popular”, ex partido franquista reciclado. Corrupto até à medula. O caso Gurtel é espectacular…

O PSOE, fracturado e desacreditado, para milhões de espanhóis, atraiçoou, votou com o PP textos anti sociais fundamentais, orientações reaccionárias, obedeceu a quatro patas aos dicktats da finança e da UE, colado ao partido da extrema-direita.

Pedro Sanchez manobrou com inteligência, mas restará na linha europeia. A nova democracia apregoada será uma operação de “lifting” cosmética…

Mas tive prazer em ver estes fachos receber uma boa chicotada, o que não tinha acontecido desde 1931….Ma a Espanha plural, de todas as Espanhas, não é para amanhã…

Anónimo disse...


O amigo de Freitas bate nos fachos espanhois para não sonhar com os franceses!... cuidado que ainda acaba com o Collomb* na cama!

cumprimentos


*que também la chegou afastando fachos...

Joaquim de Freitas disse...

Caro Anonimo de 9 de Junho de 2018 às 02:33 :

Collomb geriu bastante bem uma grande cidade francesa. Claro que a pasta de Ministro do Interior foi a recompensa de Macron ao primeiro trânsfuga de peso do PS. Mas demonstra por vezes o peso da idade na pasta difícil que é a sua, numa Europa que não sabe o que fazer dos migrantes, que chegam todos os dias nas nossas ruas, com alguns terroristas misturados !

A Europa não tem rumo, mas tem uma tendência:- se os herdeiros de Franco foram postos na rua, na Itália eles reaparecem, com a chegada da extrema-direita , aliada ao movimento “Cinco Estrelas “, com retórica xenófoba , consequência da negação permanente de escolhas democráticas e da violência anti-social das instituições europeias.

A guerra entre as burguesias continentais é visível. Alguns procuram a protecção de Bruxelas, quando outros procuram mais liberdade para o seu capitalismo nacional, sem hesitar em procurar o apoio dos chamados movimentos populistas para o conseguir.

As políticas de austeridade, desde sempre, tiveram a função de atomizar as resistências sociais, numa clara intenção de eliminar as vantagens adquiridas desde o fim da ultima guerra, consideradas pelas elites económicas e financeiras como uma heresia...

Assistimos mesmo à interferência do Comissário do Orçamento de Bruxelas, sobre as intenções de voto… Cinismo absoluto quando se pretende criar uma Europa democrática…

O resultado, hoje, está lá, com o ressurgimento das forças nacionalistas de extrema-direita e o surgimento de movimentos de demagogos que pretendem defender os interesses da burguesia mas certamente não os do povo.

Em Espanha, como na Itália, os novos governos, mesmo com cores diferentes, vão gerir segundo as regras impostas por Bruxelas, o que quer dizer no melhor dos interesses do capital.

Anónimo disse...

O caro deFreitas não quis atacar o antigo maire de Lyon..

mas fiquei curioso com a sua opinião sobre os migrantes..

imagino que neste momento seja daqueles que não tem muito por onde votar.. nem FI nem FN e o macron...
o PS(F) paz à sua alma agora que estão em Ivry...

cumprimentos

Joaquim de Freitas disse...

Caro anónimo : Eu só disse que Collomb geriu bastante bem a cidade de Lyon, que conheço bem, por residir a 100 quilómetros e lá ir frequentemente.

Collomb é obrigado a aplicar a politica do seu mestre. Quando se engolem sapos a deglutição é longa, sobretudo quando se é socialista, num governo dirigido por um homem da banca…que é tudo excepto de esquerda, e que tem projectos reformistas anti sociais como nunca se viu.

Mas, como escrevi, a tarefa do Ministro do Interior não é fácil, com o problema dos migrantes, que nenhum governo precedente resolveu. Talvez porque é um problema sensível para o qual só existe uma solução: a integração na sociedade francesa, com os riscos que isso comporta.

A integração supõe meios importantes, e uma economia florescente, que possa absorver esta mão-de-obra. Ora nem um nem outro existem actualmente, sem esquecer o facto que muitos destes migrantes, frequentemente anglófonos, desejam “unicamente” passar para o RU, onde têm por vezes família e amigos. O “bouchon” de Calais ou de Dover é resistente…

Por outro lado, a sociedade francesa, como outras sociedades europeias, influenciada pelo FN, e agora não só, “escorrega”, actualmente para uma xenofobia crescente, provocada pelo facto que certas correntes migratórias do passado nunca se integraram correctamente como se esperava. Nem todos têm a capacidade de adaptação dos Portugueses…que, alguns, são, aliás, cada vez mais …xenófobos!

E se o panorama económico se escurece no horizonte, com as perspectivas de guerra comercial com o louco da Casa Branca, a tarefa será cada vez mais difícil para o socialista Collomb.

Mesmo se a oposição a Macron é átona, à esquerda, e dissonante, à direita, não vejo como melhorar a situação em França antes dos quatro anos que restam do mandato de Macron…por quem não votei, Caro anónimo…

Anónimo disse...

obrigado pela paciência em responder às minhas provocs caro deFreitas

bem haja