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quinta-feira, junho 14, 2018

Política da tecla


Na minha infância, em férias, ouvia dizer que uma irmã do meu pai, a tia Regina, que “tinha trabalhado na Intendência”, dactilografava de forma exímia, e havia mesmo tido direito a um prémio nacional, por rapidez de execução. Por anos, já reformada, vi-a colaborar com os irmãos nos respetivos trabalhos, usando uma máquina muito antiga e ruidosa, uma belíssima Remington, que tão bem ficava naquele escritório de Viana do Castelo. Recordo-me de tardes de “concerto” de teclado, no rés-do-chão da casa do Largo Vasco da Gama, preparando peças para o tribunal ou artigos para o “Comércio do Porto”.

O teclado da Remington, que ainda tinha sido do meu avô, o qual morrera já nos anos 20, era AZERTY, letras iniciais que contrastavam com o HCESAR da máquina que via o meu pai usar no seu escritório da Caixa Geral de Depósitos, lá por Vila Real, onde vivíamos. Já não me recordo da explicação que então me deram para a existência dessa diferença de teclados, que por muitos anos me intrigou.

Por uma qualquer razão, mas talvez por que o modelo fugia ao convencional, passei a adorar os teclados AZERTY. (Os latinos europeus usam AZERTY, os britânicos QWERTY e os alemães QWERTZ).

Contudo, a minha primeira máquina de escrever, comprada em Lisboa em 1971, numa casa de penhores da rua do Loreto, em segunda mão (“está como nova”, garantiu-me o homem do “prego”, e era verdade), foi uma Olivetti portátil, coberta a plástico azul, com teclado HCESAR. Tive-a por muitos anos e, sem exagero, escrevi com ela milhares de páginas - nas vidas académica, associativa e política, em cartas, artigos e traduções, e, em especial, nos trabalhos para a Ciesa-NCK com que ganhei bem a vida trabalhando imenso, à noite e em fins de semana, nesses anos 70, de paralelo com as minhas tarefas no MNE (era proibido, eu sei!, mas já prescreveu...). A Olivetti tinha um defeito: avariava-se-lhe muito o “i”, letra que, quando se partia, eu ia substituir a um quatro andar na Almirante Reis. Depois, um dia, em Madrid, numa montra, apaixonei-me por uma máquina elétrica e comprei-a. Era “estrangeira”, era linda, era diferente, era de teclado AZERTY... Já a mandei “às urtigas” e continuo a guardar a Olivetti com o nostálgico carinho com que me acompanhou para a Noruega e para Angola. Depois, em 1987, comecei a trabalhar com computadores e nunca mais parei. E a Olivetti lá está, jubilada, numa prateleira em Vila Real.

(Num lugar onde trabalhei, mas, como Cervantes abria o Quixote, “de cujo nome não me quero lembrar”, espalhei um dia, entre as secretárias, a “galga” de que a padroeira das dactilógrafas era Santa Tecla, nome de um monte espanhol frente a Caminha. Meses depois, ouvi a mentirola repetida e credibilizada por outra pessoa e nunca tive coragem de confessar ter sido eu o autor da patranha.)

Há pouco, ao ler as memórias de Pedro Rolo Duarte (“Não respire”, um excelente livro, infelizmente póstumo), vi a menção de que o HCESAR fora uma determinação da ditadura. Fui à procura e deixo aqui o preâmbulo do decreto do Estado Novo que decidiu essa “política da tecla”: “Não há que estranhar a intervenção do Estado nesta matéria, porque cabe na sua orientação de imprimir uma feição nacionalista a todos os ramos de actividade, disciplinando-os em benefício do país”. 

É nestes raros momentos que me sinto (apenas só um pouco, depois recomponho-me e logo melhoro) um bocadinho liberal.

É a vida!

Pode ser que seja apenas "wishful thinking", mas fiquei ontem com a sensação de que André Ventura já se está a ver, daqui a semana...