segunda-feira, 11 de junho de 2018

Descobrimentos

Anda por aí um debate sobre o nome a dar ao museu que se pretende fazer em Lisboa sobre as viagens de Quinhentos. Perante a sugestão de que se chamasse “das descobertas” ou “dos descobrimentos”, logo surgiu uma opção “de recuo”, a propor o nome de “a viagem”. Acho mal.

As viagens tituladas pela coroa portuguesa, desde o ataque a Ceuta, foram quase sempre operações de conquista (com exceção das desertas ilhas atlânticas), com toda a violência que isso à época implicava. Afonso de Albuquerque foi um guerreiro sanguinário e os outros capitães das frotas e das naus não devem ter sido muito mais meigos. Pode imaginar-se o modo como foram tratados os árabes, os negros ou os indianos e outros orientais que lhes apareceram pela frente, nessas expedições para encher alforges e porões, tendo como alibi ideológico a expansão da cruz. A captura e uso de escravos, com a desenfreada exploração laboral e sexual, fez parte integrante da empresa ultramarina e Portugal foi dos Estados europeus que prolongou essa selvática prática até mais tarde. O nosso atraso histórico é, aliás, recorrente: um século depois, quando já quase toda a Europa tinha descolonizado, por cá ainda se falava do “Ultramar” e do “Portugal do Minho a Timor”.

O Estado Novo, prosseguindo, aliás, uma velha narrativa colonialista republicana, pretendeu dar a essa aventura além-Europa uma aura de santidade civilizacional. Usou “Os Lusíadas” como bíblia apologética e capturou oportunisticamente em favor de um patriotismo de regime essa parte da nossa História, consagrando-a de forma caricatural, em textos e momentos hagiográficos, de que a Exposição do Mundo Português (que já ecoava modelos alheios) foi o mais curioso exemplo. A minha geração deve ter sido a última que foi atulhada por uma historiografia gongórica, de que muita da estatuária que por aí anda é aliás tributária.

A notável aventura marítima foi o que foi. Foi fantástica no que representou de inventividade e ousadia, marítima e não só, e o mundo credita-nos isso sem o menor problema, penso mesmo que muito menos do que deveria, à luz do esforço feito por um pequeno povo, numa ambição quase planetária. 

Acho, contudo, sem o menor sentido - e até de uma despropositada arrogância histórica por parte da geração atual, que parece achar ter o direito de poder julgar as anteriores - estar a fazer juízos de valor sobre atos cometidos à luz de conceitos e princípios que estavam muito distantes dos nossos de hoje. Uma coisa é podermos reagir com horror a crimes cometidos na idade contemporânea, quando já vigoravam padrões de valores civilizacionais muito próximos dos atuais - como os assassinatos em massa promovidos pelos nazis, ou os crimes do colonialismo mais recente, já dentro do século XX. Outra coisa é andar a escolher seletivamente episódios ou práticas de um passado distante, assumindo culpas (repito, à luz dos princípios de hoje) por atos como a inquisição, o colonialismo ou a escravatura. É que, por essa ordem de ideias, estaremos, um destes dias, a pedir contas a alguém pela brutalidade das invasões bárbaras, antes da nossa nacionalidade. E esses ciclos nunca terão fim.

Voltemos às descobertas. São descobertas ou achamento, como se debateu no Brasil? Para Portugal, entidade invasora, detentora do olhar que enformou a sua perspetiva de titular desses atos, foram descobertas, de terras e de gentes que o poder português dominou - à força, claro, porque, que eu saiba, as operações de conquista foram sempre feitas pela violência, às vezes extrema e impiedosa. E, claro, com massacres, agressões de toda a ordem, desrespeito total pelos povos encontrados, por muito que, aqui ou ali, pudesse ter havido práticas menos constrangentes. Mas reconheçamos isso, com toda a frontalidade, agora sem ter de recorrer à ganga apologética que o discurso historiográfico da ditadura nos impôs, mas igualmente sem prescindir, nem por um segundo, de relevar o caráter fantástico e pioneiro da empresa das navegações, no que ela teve de avanço para o conhecimento e abertura do mundo.

Nós somos, como povo, o somatório dos vários segmentos sucessivos da nossa História. No terreno colonial, outros a sofreram para que, deste lado, o país de então pudesse beneficiar - na exploração dos recursos económicos e humanos, com uso de escravatura e trabalho forçado, ignorando e espezinhando as identidades dos povos, com práticas racistas em que o “outro” foi, muitas vezes, apenas uma “coisa”. Nesse aspeto, podendo a colonização portuguesa ter tido alguns matizes próprios, basicamente ela seguiu um padrão muito comum aos restantes conquistadores europeus. Foi o que foi e assim deve ser estudada, entendida e exposta, com total transparência histórica. 

Dificilmente conseguiremos consensualizar uma discurso comum sobre a História. Aliás, não vejo qualquer vantagem nisso. No trabalho sério em torno do passado, importa apenas não esconder nenhum aspeto da verdade, devendo, contudo, estar sempre preparados para que essa leitura seja diferente, de acordo com as diversas perspetivas, também elas decorrentes da experiência de cada um. Divulguemos e exponhamos os factos, todos os factos.

No que toca ao museu sobre a aventura marítima e colonial portuguesa, acho, sem a menor hesitação, que deveria ser um “museu das descobertas”, da mesma maneira que devemos aceitar, com toda a naturalidade, que, do lado de quem sofreu uma invasão brutal do seu território, possa e deva ser feito um “museu da exploração colonial”. São as duas faces de uma mesma verdade. Pretender a reconciliação dos olhares, como que “hierarquizando-os”, nunca será aceite por todos, é um artificialismo que não conduzirá a nada. Em particular à tal verdade.

30 comentários:

Anónimo disse...

Museu das Descobertas parece-me muito bem, caro Francisco. Nós descobrimos os outros e os outros descobriram-nos a nós, com as coisas boas e más de um lado e do outro.

Pelo que pude ver, em muitas dezenas de viagens privadas e profissionais pelo Mundo fora, do Bangladesh ao Benim e da Índia à Indonésia, a percepção que os outros têm hoje de nós é francamente positiva, com as excepções de alguns dos sítios de onde saímos há menos tempo. Tempo que aliás apaga muitas coisas, boas e más. Daí ser necessário um Museu das Descobertas.

Um abraço

JPGarcia

Joaquim de Freitas disse...

« Voilà » um excelente texto ! Frontal, realista e na linha do que gosto ler neste excelente blogue do Senhor Embaixador Seixas da Costa. Se eu soubesse escrever assim, não retiraria nenhuma palavra.

Quando penso que um amigo meu se zangou comigo porque lhe disse que no dia em que Mouzinho de Albuquerque enviou para o fundo do Mar Vermelho um barco cheio de duas centenas de peregrinos que iam para a Meca, só porque eram muçulmanos, numa zona controlada pelos Portugueses, de Socotra e Ormuz a Goa, enquanto São Francisco Xavier apregoava a fé cristã no Oriente …Portugal tinha demonstrado exactamente o que o motivava na expansão marítima planejada pelo Infante...

Já era a mundialização com tudo o que ela supõe de excessos, com a força ao lado da economia, isto é da cupidez, coberta com um véu de boas intenções que se chamava nesse tempo “civilização cristã”, impondo a sua lei, exactamente como a que conhecemos hoje, obra imperialista doutro nível, coberta com o véu dos “valores ocidentais”que justificam a destruição de países inteiros e a morte, não de algumas centenas de peregrinos, mas de milhões de pobres seres humanos que não nos fizeram nada.

E que, como aqueles povos longínquos cujas riquezas exóticas cobiçamos nos séculos das “Descobertas”, têm a desdita de viver sobre riquezas mal odorantes, certo, mas cuja possessão faz parte da geo estratégia dos impérios modernos: a energia.

Os países que forneciam os escravos ontem, também interessam hoje: são os mesmos! Mas com a diferença que não os vamos buscar com os nossos barcos: são eles que pagam as “passagens” nos barcos da morte, que deixam muitos pelo caminho no Mediterrâneo.

Quantos europeus sabem o que era o “comércio triangular”, imaginado pelos comerciantes e concessionários das administrações coloniais, que consistia a carregar mercadorias num sentido e escravos no regresso? E se os dois irmãos ibéricos foram os “inventores”, as outras grandes potências europeias também se lançaram rapidamente no mesmo “negócio”.

A Igreja considerava o comércio de escravos uma oportunidade de estender o Evangelho. Ela parecia ter esquecido um preceito do Êxodo, que diz que quem rouba um homem e que vendeu ou segurou nas suas mãos será punido com a morte. Ao escrever estas palavras, penso no que se passa neste momento na Líbia…que os “valores da democracia ocidental” libertaram …

É por isso que a igreja tinha tomado uma posição favorável para o comércio negro. Mas havia um Código. O código preto impunha no primeiro artigo que todos os escravos fossem baptizados.

Foi em vista da grande cristianização dos negros que a igreja tinha mostrado a sua vontade de ajudar a escravidão. Que cruzadas tinham vindo a estabelecer, pelos factos, que as guerras conduzidas para os interesses da Santa Sé sempre foram justos e que os frutos dessas guerras eram bons…

Em Valladolid, na famosa “Controvérsia”, os mesmos vão preocupar-se de saber se os Índios tinham ou não uma “alma”…

Hoje, é a Europa que anda à procura da sua alma…

Anónimo disse...

Mas então o uso dos Lusíadas só vale quando lhe interessa?

E Portugal foi o último a descolonizar? Só, como pequeno exemplo, a atual Rainha da Inglaterra fartou-se de descolonizar depois de Portugal e ainda não chegou ao fim!

Chamem-lhe o "arrumo da colonização" porque, por este texto, o Sr. classifica os portugueses como a escória dos países e aquilo não será um museu!

Anónimo disse...

como já sugerido por outrem: Museu de Portugal (sempre podia ir sendo acrescentado)

Albertino Ferreira disse...

Tem toda a razão. Qualquer dia os contestatários desse Museu até põem o Camões no index. Terão coragem para tal?

Manuel Silva disse...

Senhor Embaixador:
Acho o seu texto de uma qualidade reflexiva ímpar e quase sem mácula.
E de uma grande coragem perante a vozearia de um grupo de pessoas hoje muito influente, que marca as agendas mediáticas e políticas, roçando, às vezes, a intolerância perante simples ideias contrárias.
Foi o que fizeram alguns perante a Carta dos 100 historiadores, que é um documento reflexivo de uma enorme moderação e correcção na forma de apresentar e sustentar uma visão diferente do assunto, na boa tradição da discussão académica.
Grupo composto por uma grande heterogeneidade de pessoas, quer quanto às filiações ideológicas, quer quanto às perspectivas historiográficas.
Ou agora teremos de passar a pensar todos da mesma maneira? Passou a ser proibido discordar?
E os tais donos da verdade e da pátria fizeram o mesmo em relação a alguns intervenientes posteriores no debate, acusando-os do que eles nunca pretenderam e ofendendo-os sem apelo nem agravo.
Eis o pormenor de que discordo no seu texto: «como os assassinatos em massa promovidos pelos nazis, ou os crimes do colonialismo mais recente, já dentro do século XX.»
Podia ter acrescentado os crimes dos regimes totalitários marxistas, desde a URSS ao Cambodja, passando pela China e etc.
Aquilo com que, de facto, não concordo: a rapidez com que conclui que o museu se deve chamar das descobertas, apresentado o contraponto de um museu da exploração colonial.
Isso seria a perpetuação da clivagem ideológica, achas para uma fogueira inapagável. O termo colonial só adquiriu a carga negativa muito recentemente, portanto, até por essa razão, seria um termo anacrónico em relação ao tempo em que o colonialismo de Quinhentos e Seiscentos foi praticado. Nuance a que o senhor se refere muito bem anteriormente.
Estas são as minhas únicas discordâncias num texto que considero corajoso, de grande qualidade e exemplar.
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P. S. Creio que terá lido o extenso artigo de António Manuel Hespanha, saído recentemente no Jornal de Letras: «Um museu sobre Portugal à escala do mundo de hoje». Aí põe as coisas no devido lugar, sugerindo um título mais inclusivo da diversidade de aspectos de que a Expansão Marítima Portuguesa se revestiu. Isto porque, segundo a corrente metodológica crítica do discurso ou viragem linguística (linguistic turn), o nome das coisas nunca é neutro.

Anónimo disse...

Desde logo há que cuidar da língua. Propor Descobertas é ignorar que Descobertas é um galicismo. Vem do francês découverte. Em português da época e desde sempre usava-se sim DescobrIMENTOS. As descobertas serão francesas, os descobrimentos é que são portugueses.

Anónimo disse...

mouzinho de albuquerque? nao seria o afonso?

josé ricardo disse...

Fiquemos então pelos dois lados da controvérsia: museu das descobertas e da exploração colonial.

Joaquim de Freitas disse...


mouzinho de albuquerque? nao seria o afonso?
11 de junho de 2018 às 11:16


Tem razão . Apresento as minhas desculpas.

marta disse...

Bravo!

Joaquim de Freitas disse...

“Nós descobrimos os outros e os outros descobriram-nos a nós, com as coisas boas e más de um lado e do outro.”

Francamente, Senhor J.P.Garcia, existe uma diferença entre nós e eles: Eles, os outros, não nos pediram para os descobrir. Impusemos a nossa presença, com os nossos canhões e as caravelas. Os nossos missionários e a nossa religião. Até o nosso Tribunal da Inquisição, contra os recalcitrantes. Eles não se impuseram. Nós, sim.


Agimos como Atila, o outro “Flagelo de Deus”, que não convidamos.

Joaquim de Freitas disse...

O Senhor Manuel Silva em razão, quando escreve: - “Podia ter acrescentado os crimes dos regimes totalitários marxistas, desde a URSS ao Cambodja, passando pela China e etc.”

Autêntica Caixa de Pandora!

A guerra civil Russa, não devendo nada à guerra civil Chinesa, à guerra civil Espanhola, à guerra civil Americana, que provam bem que o homem tem essa peculiaridade em relação aos animais para lutar por qualquer outra coisa além de sua própria sobrevivência.

O homem luta pelo poder, conquista, religião e às vezes nem sabemos o porquê. Nada parece ser capaz de parar os conflitos, as guerras são como as cabeças da hidra de Lerna, um cessa, dois outros aparecem com as suas consequências.

Imaginemos que os Americanos não tinham bombardeado a pista Ho-Chi-Minh no Cambodja, o famoso “Bico de Pato” ! Teria havido a guerra civil? Mas isso também significa que não teriam invadido o Vietname. Rescaldo da colonização.

Quem pensa hoje na segunda guerra do Congo , a maior da historia da África moderna? Participaram nove países africanos e cerca de 30 grupos armados. Estima-se que tenha feito 5,4 milhões de vítimas, não só por armas e violência, mas também pelas fomes e doenças daí resultantes. Milhões de pessoas foram forçadas a deixar as suas casas para procurar refúgio nos países vizinhos. ..Tantos como os da Revolução Russa.
Rescaldo da colonização.

Quem se recorda de Timur ou Tamerlao? Guerreiro turco-mongol que conquistou grande parte da Ásia Central e ocidental no século XIV. Entre 15 e 20 milhões de mortos…O número de vítimas foi explicado pelo facto que exterminava os habitantes das cidades que tinham resistido. Como os Nazis em França, em Oradour-sur-Glane, …

Como esquecer que pelo assassinato dum arquiduque de Áustria, em Sarajevo, morreram entre 15 e 65 milhões na Europa, em 1914/18?

E na segunda guerra mundial, entre 45 e 75 milhões? Rescaldo da primeira…

E tantos, tantos outros….

Victor Hugo dizia: Deux grands problèmes pendent sur le monde : la guerre doit disparaître et la conquête doit continuer.

Anónimo disse...

Isto do materealismo histórico está nos genes dos portugueses mesmo sem perceberem o que são investigações históricas.

Na intitulada "História da História de Portugal sec XIX-XX" publicada em 1996, percebe-se que o estudo da História em Portugal esteve sempre a par com o regime vigente.

É que um curso de História só apareceu no "Curso Superior de Letras" no tempo do reinado de D. Perdro V mas o que se trabalhou foi em função do que outros publicistas escreveram sem preparação universitária depois de 1834. Veja-se o que publicou a Academia das Ciências e até a Academia da História.

Frequentar documentos públicos, para escrever a História, é uma coisa muito demorada, e se então os documentos não estão faceis de identificar...pode ser impossivel consultá-los.
Em Portugal é sempre preferido citar outros autores e até outras interpretações.

Não temos tradição de historiadores independentes e não pagos senão pelos poderes públicos e por isso com pouca reputação no meio internacional.

Enfim não deverei bater mais no ceguinho.

Anónimo disse...

E que tal "Museu da sede de Poder"?

Anónimo disse...

11 de junho de 2018 às 14:01,

Eu nem sabia que havia a disciplina de História antes do século XIX, veja lá que disparate que até pensava que a História tinha sido uma invenção desse século da invenção de todas as ciências e da construção das nações e dos povos, uma coisa que tinha sido desenvolvida a par do positivismo que andou associado à crença de que se podia alcançar verdades absolutas.

E ainda por cima os malandros foram-se pôr a fazer História à sombra das universidades pagas pelos poderes, coisa inaudita que nunca se viu em mais nenhum país do mundo - basta ler os currículos dos historiadores lá de fora.

Tertúlia do Fado disse...

Começar no Século de Quinhentos é historicamente muito tarde. Será antes, no Século de Quatrocentos, que tudo começa (e acaba), o resto, a seguir, é mais ou menos fantasia e continuidade.

Devemos notar que o grande impulsionador do movimento é o Infante Dom Henrique, apelidado Henri le Navigateur pelos francófonos. Por conseguinte, seria mais apropriado designar tal museu como Museu das Navegações Portuguesas. Nisso os Portugueses daquela época foram pioneiros e distinguiram-se. Tudo o resto foi repetir o que outros povos iam fazendo, seja descobrimento, comércio, evangelização ou outra forma de atividade e de intervenção.

Museu das Navegações até é um nome bonito e sugere a globalização associada ao intercâmbio entre os povos, permitido e promovido pelas navegações. Também podia ser o Museu dos Navegantes Portugueses, pois é disto que se trata.

Anónimo disse...

Esse pessoal devia ler um livro do Profº Joaquim Barradas de Carvalho, "O significado das palavras descobrir, descobrimento" (creio que é este o título) publicado há uns anos atrás pela Imprensa nacional-Casa da Moeda. Talvez ficassem mais calmos ...

Cumprimentos
DVS

Francisco Seixas da Costa disse...

A Tertúlia do Fado deveria saber que o século de Quinhentos é o que começa em 1401...

carlos marques disse...

Considerando que a expressão "descobertas" arrasta - apesar das intenções, que até podem ser as melhores! - uma conotação inequivocamente paternalista, eurocêntrica, etnocêntrica - no limite, racista! - por que não recorrer, em alternativa, à muito menos contestável, mais objectiva e mais rigorosa (aliás já consagrada em muita da historiografia portuguesa, mais avançada e recente!) designação "expansão"?
Na verdade, a "expansão" - dos negócios, dos mercados, da apropriação de mercadorias e de território - foi a grande motivação e o resultado concreto mais assinalável da epopeia que começou com as navegações e com as conquistas portuguesas.

Anónimo disse...

Ao Sr.Joaquim de Freitas. Vamos supor que os europeus tivessem ficado pela Europa. Como seria, cá e lá?

JPGarcia

Anónimo disse...


se pensarmos que a Revolução Francesa terá ocasionado tantas vitimas em poucos anos, como a Inquisição terá feito em 300 anos, segundo alguns cálculos que se podem ler um pouco por todo o lado, isso não impede que seja considerada um dos acontecimentos mais importantes da história quase contemporânea do mundo ! baseada no pensamento iluminista que se espalha pelos outros países...
o Assiento cedido pela Espanha no tratado de Utrecht (1713), que concedia à Coroa da Inglaterra o monopólio de exportacão de escravos da África para a América Espanhola permitiu á Inglaterra desenvolver-se enormemente…
os portugueses nas suas viagens marítimas também sofriam martírios, escorbuto, doenças de todo o tipo,
a viagem à India era extremamente arriscada
Magalhães partiu com cerca de 240 homens, só regressaram uns 20 homens ?...
são os naufrágios, os ataques dos piratas…
as lutas pela defesa dos pontos de comércio...
a mundialização que se fez com tantas tragédias… a historia tem episodio muito dolorosos ! e não é fácil encontrar representações "objetivas"e que merece que também se faça referencia ao trabalho dos homens indígenas e escravos que contribuíram para a riqueza das nações e a criação de um novo mundo e que se utilize os testemunhos e os textos da época em que homens, mulheres e crianças companheiros da tragédia, criaram laços e criaram sociedades que ainda hoje existem

Anónimo disse...

Creio que faz falta em Portugal e em Lisboa um museu dos Descobrimentos, que exponha de forma coerente os descobrimentos portugueses desde a Madeira, aos Açores, passando pela costa de África atê ao Caminho Marítimo para a Índia.

O salto tecnológico que os navegadores portugueses deram nos séculos XV e XVI foi fantástico e permitiu que o mundo tenha hoje o aspecto que tem, claramente marcado pelo ocidente, que permitiu um desenvolvimento bastante grande de todo o planeta.

Deveríamos aproveitar as comemorações da viagem de circunavegação iniciada por Fernão de Magalhães para avançar com a criação do Museu dos Descobrimentos.

Anónimo disse...

Não, Embaixador, Quinhentista refere-se ao século XVI. D. Manuel, Camões e essa gente. Assim como o romance Oitocentista é o do século XIX.

Anónimo disse...

A catty esqueceu-se de mencionar o essencial:

1. Direcção das caravelas não respeitava a paridade
2. Não havia casas de banho trans nas naus e caravelas
3. Não havia opção vegan nas refeiçoes a bordo

Reaça disse...

Mas que porra de complexos.

Ora se se descobriu e definiu e localizou em mapas o "Estreito de Magalhães" algumas centenas de ilhas no Pacífico, e desenhado em mapas o inimaginável percurso marítimo à volta do mundo, se já se tinha feito o mesmo com o Caminho Marítimo para a India, e vice-versa, se antes disso, Pedro Álvares Cabral já tinha pé-ante-pé, sem os índios saberem que no Brasil não havia índios, numa viagem de ida e volta sem se perder no caminho...o que foi isto se não "descobrimentos"?

"Descobertas" mostradas ao mundo em mapas, e lá que os indios não soubessem ler os mapas para saberem onde se localizava a sua aldeia, a culpa não era dos portugueses dos espanhois e dos portugueses.

Descobrimentos sim!

Joaquim de Freitas disse...

Ao Senhor J.P. Garcia, que escreve : « Vamos supor que os europeus tivessem ficado pela Europa. Como seria, cá e lá?”


Caro Senhor : Não creio que de qualquer maneira os povos restariam para sempre separados pelos oceanos. Muito antes dos Portugueses e dos Espanhóis, outros povos tinham encetado as grandes navegações na Ásia., por exemplo.

Para responder à sua “suposição” , claro que ninguém pode dizer o que seria o Mundo se não tivesses existido o movimento de “curiosidade” do desconhecido …

E pensei muitas vezes que para nós, Portugueses, sobretudo após Aljubarrota, qual outro destino poderíamos “inventar”, senão o do Oeste, para lá dos mares, no caminho oposto ao do nosso vizinho…?

Por outro lado, se conhecemos o resultado da expulsão dos Judeus e dos Muçulmanos de Espanha, pelos reis católicos, não sabemos o que seria hoje a Espanha se isso não tivesse acontecido. E não é ao Senhor, que é bom conhecedor, que vou explicar que Al-Andalus era, em muitos aspectos, radicalmente diferente da Europa cristã.

Enquanto a Europa rural empobreceu, Al-Andalus era uma região de prósperas cidades orientadas para o comércio. Os seus produtos, incluindo vidro, papel, couro, ourivesaria e sedas, gozavam de grande fama na Índia. Os soberanos muçulmanos geralmente toleravam cristãos e judeus e incentivavam a diversidade cultural.

As contribuições dos muçulmanos enriqueceram a cultura espanhola. A civilização Hispano muçulmana participou da era dourada do Islão.

A ciência, a medicina e a filosofia floresceram, especialmente em Córdoba, a capital. Estudiosos islâmicos espanhóis, como Averroes, estudaram as obras de Aristóteles e outros filósofos gregos, que foram traduzidos para o latim antes de serem disseminados para o resto da Europa.

Assim, poderíamos questionar como seria a Europa hoje, se tivéssemos continuado a evoluir a partir de três culturas diferentes?

A Europa evoluiu graças aos três objectivos majores da época de 1500: - Económicos, Científicos e Religiosos. Desenvolver a ciência da navegação, para atingir as fontes dos produtos de luxo procurados pelo Mercado, e continuar a reconquista das terras muçulmanas, voto piedoso da Cristandade.

Movimento caracterizado exclusivamente pelo princípio da colonização, afim de explorar a riqueza do país colonizado para enriquecer a metrópole.

Muitos dos problemas que afectam o nosso Mundo hoje têm a sua origem nestes objectivos egoístas dos Europeus.

Só falta saber porque é que os grandes Impérios da mesma época, grandes civilizações, não iniciaram o movimento em sentido inverso, do Oriente para o Ocidente: - a China, a Índia, a Turquia e a Pérsia.
Haveriam menos inquilinos no Canal Saint Martin e Calais se os Europeus tivessem tido no início objectivos mais solidários com os povos que exploraram durante séculos.

Portugalredecouvertes disse...


Sr. Embaixador,
os portugueses até se fartaram de fazer filhos e tratar da miscigenação como ninguém! e com filhos por essas paragens, havia que lhes dar de comer, então era necessário transportar plantas de um lado para o outro, e animais, e construir igrejas para o catecismo e para registar os nascimentos e os casamentos, e conventos para as escolas, e para dar assistência aos doentes, ou seja construir por lá o que havia na Europa e educar os filhos mestiços à maneira dos primos da Europa, ou não seria assim ? parece-me que há logica nisso e parece-me que as pessoas têm muito desejo de criar os filhos em paz, e isso a milhares de quilómetros de distância, não devia ser fácil com gente de culturas tão diferentes, mas o espírito de pais e filhos é universal, e no Brasil por exemplo, essa miscigenação foi a base das grandes famílias e a grande estrutura da colónia
cumprimentos Sr. Embaixador

Abbar Farida disse...

J’ai apprécié votre texte et votre hésitation quant au choix de l’appellation de ce musée est légitime.
Se fixer sur « Musee des découvertes « serait très flatteur pour les Portugais qui s’enorgueillissent de tous leurs explorateurs,mais serait une insulte à l’Histoire celle que l’on s’est évertué jusque là à occulter?
Celle qui a enregistré le début de la destruction de l’Afrique justement avec le Prince Henri Le Navigateur qui s’est adonné à l’esclavge Et la traite négrière...en pillant toutes les richesses.
Vous qui aimez citer J.Chirec ne s’est -Il pas adresse à son peuple en ces termes: »l’argent que nous avons dans nos porte-monnaie nous l’avons volé en pillant les richesses de l’Afrique « ?
A l’heure où le problème des migrants devient un sujet brûlant d’actualite Il est bon de se demander pourquoi et refaire ressurgir ce devoir de mémoire...
Alors votre musée je l’appelerai « Musée d’Histoire »

Anónimo disse...


il serait aussi de montrer les mines d'or et d'argent de la peninsule ibérique pillées pour construire Rome et payer les légions, sans parler des peuples iberiques transformés en esclaves