sábado, 23 de junho de 2018

Waldir Pires


Aos 92 anos, morreu agora uma grande figura da política brasileira, Waldir Pires. O brasileiro comum conhece mal este homem político discreto, que teve o seu primeiro cargo no governo em 1950, esteve exilado pela ditadura militar, foi ministro de várias pastas, foi candidato à vice-presidência da República, ocupou vários cargos parlamentares e foi, por duas vezes, governador da Bahia.

Conheci-o em Brasília, quando fazia parte do governo de Lula. Waldir era um homem encantador, com um sorriso bom e uma permanente “boa onda”. Falámos algumas vezes, numa das quais me contou a sua aventurosa fuga para o Uruguai, com pormenores deliciosos. O seu último cargo foi como ministro da Defesa e tenho bem presente uma coisa que me disse - e em que tinha toda a razão: “depois da minha luta contra o regime militar, o facto de hoje ser aceite por eles como ministro, sem o menor problema, é a prova da democraticidade das suas chefias”. Só posso desejar que Waldir Pires se não tenha enganado.

No Brasil, por razões que não interessa agora explicar, toda a estrutura da aeronáutica civil mantém-se sob o controlo dos militares, pelo que o ministro da Defesa superintende no setor. 

Um dia, o caos instalou-se no serviço de transportes aéreos do Brasil. Creio que foi uma greve dos controladores que desencadeou uma crise que praticamente paralisou o país por uns dias. No Brasil, com aquela dimensão, viajar de avião é a regra, dado que as distâncias terrestres são imensas e, além disso, em grande parte do território, as estradas, quando as há, estão longe de ser recomendáveis. Essa crise nos transportes ficou conhecida como o "apagão" aéreo (a palavra "apagão" nasceu numa crise energética que deixou sem eletricidade o país, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, e, a partir daí, o brasileiro passou a utilizar o termo para designar tudo o que "está parado").

O ministro foi então pessoalmente acusado de inoperância na resolução rápida da crise e, meses depois, na sequência de um desastre aéreo, foi obrigado a demitir-se. Estive na sua despedida e na serena substituição no Ministério da Defesa por Nelson Jobim, outro bom amigo com quem, ainda há dias, almocei por aí.

No Brasil, há uma magnífica revista chamada “Piauí”, que faz um excelente jornalismo. Grande no formato, com papel "pesado", grafismo atraente mas sóbrio, tem artigos longos mas muito substanciais, embora num estilo solto que leva a que a qualifiquem como "uma revista sem gravata". Ora a "Piauí", no número editado imediatamente após o "apagão aéreo" inseriu um histórico e irónico editorial com o título "Obrigado, Waldir!" 

Porquê? O texto ligava a caótica gestão que o ministro teria feito da situação, obrigando as pessoas a esperar, às vezes por dias, nas salas de espera e no chão dos aeroportos, à exponencial subida no número de exemplares da "Piauí" vendidos. E explicava (si non è vero, è ben trovato): a "Piauí" é uma revista com longos artigos, que precisam de muito tempo para serem lidos. Ora, segundo o divertido texto, fora precisamente o facto das pessoas "terem mais tempo", isto é, estarem bloqueadas e sem nada para fazer nos aeroportos a razão do sucesso editorial desse mês. E, por essa razão, agradecia ao ministro do "apagão aéreo" a involuntária contribuição dada para o seu sucesso...

Tendo conhecido o humor de Waldir Pires, tenho a certeza de que se riu desta graça, como se ria de muitas outras coisas divertidas da vida, que foi merecidamente longa e bem cheia. 

1 comentário:

Anónimo disse...

todo político, pode-se ver de dois ângulos, depende do lado que se está!