Seguidores

Se quiser ser informado sobre os novos textos publicados no blogue, coloque o seu email

quarta-feira, novembro 01, 2017

Os dias da Catalunha



O saldo do conflito na Catalunha, até ao momento, parece confortar a estratégia do governo espanhol. Tudo indica estar a decorrer como o executivo de Madrid desejaria, desde o modo surpreendentemente pouco conflitual como se processa a implementação do artº 155 da Constituição, até à sujeição (também bem mais fácil do que seria provável) das forças independentistas ao modelo eleitoral de dezembro, passando pelo (mais expectável) comportamento dos atores judiciais e pela “ajuda” dada pelo comportamento menos curial de Puigdemont. Como cereja no bolo, as ruas catalãs encheram-se no passado fim de semana de gente, com uma dimensão sem precedentes, para recusar a secessão.

A declaração de independência acabou por não ter nenhuma sequência institucional sustentável e a atitude do chefe do governo catalão, quer na véspera da declaração, quer nos momentos subsequentes a ela, revelaram ao mundo uma figura indecisa e errática e, mais do que isso, sem um carisma capaz de levar atrás de si, sob uma orientação clara e determinada, o conjunto de forças que antes havia estado na base da realização do referendo. 

O “melhor” que poderia acontecer a Puigdemont - vale a pena ser claro - teria sido ser detido, erigindo-se em vítima da repressão anti-independência. O movimento republicano poderia apontar ao mundo o seu “mártir”, o governo espanhol estaria sob forte crítica e vigilância quanto ao modo como ia tratar o prisioneiro, tanto mais que já tinha pago um preço internacional pelas ações repressivas no dia do referendo. Mas o patético episódio belga foi bastante penalizante para a sua imagem.

A meu ver, o referendo, em especial a legitimidade política que os independentistas dele procuraram retirar, acaba por ser a principal “casualty” de todo este processo. Porquê? Porque o referendo era o “alfa e o ómega” da legitimidade para o governo declarar a independência. Desde logo, e como primeiro sinal de tibieza, ao optar por sujeitar essa declaração ao voto do parlamento catalão, Puigdemont mostrou falta de coragem, porque nada o obrigava a fazê-lo. Agora, a progressiva resignação à realização das eleições de dezembro, determinadas pelo poder central (e não por proposta própria), assumida pelas forças políticas independentistas, representa um recuo humilhante. Estas forças, ao perceberem a inevitabilidade do “refrescamento” do parlamento - ideia que algumas dentre elas antes rejeitavam liminarmente - terão concluído que, se acaso não concorressem, ficariam sem um palco político legal para a continuidade da sua luta. Mas isso também significa que o independentismo reconhece implicitamente não ter força suficiente para boicotar o ato eleitoral - e essa é uma constatação política muito importante.

Mesmo que tudo continue a correr de acordo com a agenda do governo espanhol, a sua aposta não está ganha à partida. Se acaso os partidos independentistas vierem a obter uma maioria no novo parlamento, a questão da secessão, mais cedo do que tarde, voltará a reabrir-se. Se isso não vier a acontecer nas próximas eleições - e esse cenário, num quadro de possível bipolarização, é talvez o mais provável -, a ideia da independência catalã entrará num período de algum adormecimento político. Mas, como todos estes tropismos nacionalistas, renascerá sempre um dia mais tarde.

Seguidores

Quem quiser receber os post publicados neste blogue basta inserir o seu email onde, em cima, figura a palavra "seguir".