sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O bigode e o Thanksgiving


Devo ao "Tranksgiving", o Dia de Ação de Graças, a tradicional festa da família nos Estados Unidos, que ontem se comemorou, o facto de não usar bigode. Eu explico.

Aí por 1969, talvez para me dar um ar menos ortodoxo ou mais revolucionário, decidi passar a andar de pêra e bigode. Ao entrar para o meu primeiro emprego, em 1971, reduzi-me ao bigode, que continuei a utilizar no serviço militar e, mais tarde, na diplomacia, neste caso complementado com um cabelame que, posso imaginar!, deve ter então aterrado os meus novos chefes. Colocado como diplomata na Noruega, em 1979, "levei" comigo esse bigode de uma década, com que já tinha casado e "entrado" no 25 de abril. 

No ano em que completava três anos de Oslo, e se presumia fosse transferido, o meu embaixador de então disse-me: "Com o aspeto que esse bigode lhe dá, o MNE ainda o manda para a América Latina". Como sou dado a fartas coincidências, logo na semana seguinte recebi uma carta do nosso embaixador no México, que tinha sido meu diretor-geral, a convidar-me para ir trabalhar com ele (não fui, acabei por ir para Angola). Contei da carta ao meu embaixador, que, ufano da previsão, me retorquiu em inglês: "I told you so!".

Fiquei a matutar naquela coisa do bigode poder condicionar um percurso diplomático. É aqui que entra o "Thanksgiving". Nesse novembro de 1991 fomos convidados por casal da Embaixada americana para passar com eles essa festa da família. Lembro-me que nos tocou muito o gesto da Judy e do Bill Stevens, porque ao ambiente dessa ocasião só se partilha com os amigos mais chegados.

Na conversa depois do lauto jantar de perú, contei a história do bigode e da premonição do meu embaixador. O Bill, que tinha uma forte bigodaça, disse-me: "Por que é que não tiras o bigode? Olha! Se tirares o teu, eu também tiro o meu!". A conversa continuou e, a certo passo, ele propôs: "E se tirássemos já?". Imagino que foi alguma conjuntural euforia etílica que me levou a concordar. Minutos depois, regressámos ambos à sala sem os nossos fartos bigodes. No meu caso, interrompendo um hábito (e uma imagem) de cerca de 12 anos.

Lembro-me sempre do meu "falecido" bigode nas noites do Thanksgiving. Como a de hoje. E, às vezes, pergunto-me que será feito da Judy e do Bill Stevens, republicanos empedernidos, nesses tempos de Reagan, a quem eu provocava com a minha admiração por Jimmy Carter. Terão votado Trump?

1 comentário:

Anónimo disse...

Curioso, e não leve a mal, mas tenho impressão que entre os embaixadores mais descontraidos que aparecem nestas suas historietas não me lembro de ver um alemão um francês.

Os embaixadores correspondem, tão assim, à imagem dos povos que representam?



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