Imagino que haja pessoas, em especial senhoras, que vão detestar esta historieta. Mas ela, à sua maneira, ilustra um Portugal de um outro tempo que, até como exemplo negativo, vale a pena registar. Eram esses anos 1971/73, em que eu era funcionário da Caixa Geral de Depósitos.
A pausa do almoço era entre as 12.30 e as 14.00 horas. Comia-se pelas tascas do Bairro Alto ou de Santa Catarina e, no final, aguardava-se a abertura da “porta grande”, impreterivelmente às duas horas, para iniciar o período da tarde. Nesses minutos que antecediam o nosso regresso ao trabalho em dias de sol, encostava-me, com alguns colegas, à parede fronteira à Caixa, entre a antiga Bijou do Calhariz e a estimável Tabacaria Martins, sob a placa antiga de mármore que refere as suas qualidades.
Num dos dias iniciais desse meu primeiro emprego, vi surgir dos lados do Loreto a figura de um homem com um sorriso aberto, um ar que me pareceu um tanto atoleimado. Dirigiu-se ao nosso grupo e, pelo modo como foi recebido, logo percebi que era objeto de algum gozo entre os seus r meus camaradas de profissão.
“Então, ó Meireles, como é que correu a jornada?”, ouvi da parte de um deles. O Meireles (o nome aqui não importa), respondeu: “Razoável! Razoável! Uma meia dúzia”. Nesse instante, a “porta grande”, no passeio em frente, abriu-se e todos nos precipitámos para ela. Fiquei sem saber o que diabo era a “jornada” do homem.
Esqueci o assunto mas, dias depois, a cena repetiu-se: lá vi o tal Meireles juntar-se a nós, também sobre a hora de abertura da porta. Desta vez, a expressão usada por ele foi outra: “Quatro bilhas! Não foi mau!”. E toda a gente riu.
Pela escadaria, a caminho da minha sala de trabalho, perguntei a um amigo o que era, afinal, aquela “contabilidade” de “bilhas”: “O Meireles é um pateta, um tarado sexual. Há anos que tem como diversão, à hora de almoço, passear pelo Camões e pelo Chiado e apalpar o rabo a senhoras, vindo depois para aqui anunciar quantas “bilhas” conseguiu fazer...”. Fiquei siderado. Que grande besta! Mas, pronto, era assim mesmo!
O Meireles, ou lá como se chamava, correspondia a um modelo de javardo que, embora extremo, passava entre nós com alguma tolerância, e até algum divertimento por parte de quem, afinal, acedia ao seu convívio, na Lisboa desse tempo.
Várias vezes, ao longo deste quase meio século, me tenho perguntado se o tal Meireles, ou lá como ele se chamava, não terá, algumas vezes, recebido, de algumas senhoras que molestava, um par de bem merecidos estalos.
Lembrei-me deste episódio nesta altura em que uma reação bem saudável parece emergir na sociedade internacional (e na portuguesa, por arrasto) quanto ao respeito devido à dignidade das mulheres, posta então em causa por figuras do jaez do Meireles, ou lá como ele se chamava.