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domingo, novembro 05, 2017

Notícias do divórcio


Quando um casal se divorcia, a prova mais evidente da falta de caráter é alguém vir para a rua contar histórias dos tempos de alcova. Sinto o mesmo com os trânsfugas políticos. Entristece-me ver pessoas que, no passado, eram de um fanatismo atroz, que zurziam sem piedade quem se lhes opusesse na luta política, passarem depois a dóceis cordeiros e criativos ideólogos dos setores políticos que antes diabolizavam, em universidades ou folhas de papel ou de écran, contando mesmo histórias auto-flagelantes desses outros tempos, para ganharem credenciais nas novas hostes. Se tivessem um mínimo de pudor, estavam discretos, em homenagem àquilo em que um dia sinceramente acreditaram e apregoaram. É que, ao mudarem de forma tão drástica, ficará sempre a dúvida sobre se deixaram de acreditar ou se apenas mudaram de verdade porque “ the times they are a-changin’ “.

Vem isto a propósito da Revolução Russa e da comemoração do seu centenário. Nada me custa ver figuras da direita radical, que andaram pela “Cidadela” coimbrã ou pelo “Resistência” lisboeta, de faca afiada contra Lenine e os seus bolcheviques, denunciarem o “gulag”, embora o seu “benchmark” à época, em matéria de regimes, também deixasse muito a desejar à decência. E acho perfeitamente natural que gente que nunca se aventurou nos meios radicais, democratas de esquerda ou de direita, que foram acordando com sinceridade para as tragédias do comunismo soviético, hoje manifeste o seu repúdio pelo ato fundador desse regime. 

Mas o mesmo respeito já não me merecem figuras que um dia tiveram Estaline por farol, quer os que se prolongaram no agnosticismo embaraçado que o PCP manteve face ao “pai dos povos”, quer os integrantes dos grupos maoístas que nos atazanaram por anos a cabeça e as paredes. Vê-los agora ajudar à festa contra a Revolução de Outubro, desdobrando-se em colunas de oportunidade, só deve merecer a nossa gargalhada. Ao lê-los, dei comigo a pensar que a citação de Willy Brandt (“não é bom social-democrata aos quarenta quem não foi marxista aos vinte”) poderia ter um novo fraseado: não é um bom reacionário aos quarenta (ou mais...) quem não foi um fanático estalinista aos vinte!

Entrevista ao "Público"

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