quinta-feira, 2 de novembro de 2017

José Carlos de Vasconcelos


Foi num “convívio”, nome que então se dava a eventos culturais organizados pelas associações de estudantes, no final de 1968, no palacete da Junqueira, onde então funcionava o ISCSPU, que me cruzei pela primeira vez com José Carlos de Vasconcelos. O Zé Carlos (como nos dias de hoje o trato) tinha ido com o Tóssan (quem se lembra dele?) ler poesia aos estudantes que nós éramos. Tratava-se, com certeza, dos belos panfletos rimados que o neo-realismo então proporcionava, para animar as hostes e, subliminarmente, ir acendendo o rastilho que, seis anos depois, nos traria a liberdade. Caramba, já passou quase meio século!

José Carlos de Vasconcelos era já então um jornalista prestigiado, que iria fazer o seu curriculum no “Diário de Lisboa”, no “Diário de Notícias”, em “O Jornal” e, depois, na “Visão”. Antes, fora dirigente universitário em Coimbra, onde se licenciou em Direito, formação que lhe permitiu manter, simultaneamente, uma carreira de advocacia, durante a qual, nomeadamente, defendeu presos políticos da ditadura. Nos anos 80, fez uma incursão pela política ativa, sendo deputado pelo PRD.

O Zé Carlos e eu fomo-nos vendo e conhecendo melhor ao longo da vida, mantendo um contacto esporádico mas sempre muito cordial, construindo mesmo uma amizade que hoje também nos leva a trabalhar em conjunto numa instância da Fundação Calouste Gulbenkian. Às vezes, tenho conseguido corresponder aos seus cíclicos pedidos para colaborar no seu “JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias”, mas, aqui entre nós, a minha vida nem sempre me tem permitido estar à altura desses seus generosos convites. Vou tentar mais e melhor, no futuro, prometo.

Há uma década precisa, num colóquio na Casa Fernando Pessoa, em que ambos participávamos a convite de Inês Pedrosa, fiz notar que estavam três embaixadores no nosso painel. A sala ficou perplexa, porque só contava o embaixador Lauro Moreira, representante do Brasil na CPLP, e eu próprio. Expliquei que o terceiro embaixador presente se chamava José Carlos de Vasconcelos, “embaixador da língua portuguesa”, alguém que, com persistência e uma dedicação sem paralelo, mantinha o JL como um magnífico elo de ligação entre todas as culturas que se expressam em Português. Disse-o, não como uma flor de retórica ou para ser simpático para com o Zé Carlos, mas porque, muito sinceramente, mantenho por ele e pela atividade que desenvolve uma imensa admiração e respeito. 

O Zé Carlos tem hoje todo o reconhecimento que poderia desejar ter, de Portugal ao Brasil, passando pelos países africanos de língua portuguesa, por Timor e Macau. Escrevi “poderia”, porque a sua modéstia condu-lo a não procurar as ribaltas que a qualidade da sua ação plenamente justificaria. O seu jornal, ao longo das dezenas de anos de vida (difícil) que leva, é hoje um arquivo ímpar dessas culturas e de quantos cuidam em cultivá-las e ligá-las. Quem dera que fosse possível mantê-lo assim no futuro.

Esta nota, neste momento, tem uma justificação de oportunidade. É que o José Carlos de Vasconcelos acaba, muito justamente, de receber uma nova distinção, desta vez o Prémio cultural Vasco Graça Moura, sucedendo ao primeiro galardoado, Eduardo Lourenço. Imagino que ele o receba com aquele seu sorriso jovial, aquela forma simples de se apresentar ao serviço na vida, simultaneamente atenta e viva, numa espécie de juventude eterna que visivelmente lhe dá o ânimo para continuar a sua bela tarefa de cidadania cultural.

Um forte abraço, Zé Carlos! 

6 comentários:

Azinheira disse...

Partilho a admiração pela pessoa e homem da cultura e das letras que é o JCV. Obrigada por nos lembrar que seres humanos como ele estão bem vivos e entre nós para nos ajudar a iluminar o percurso da vida. Abraço.

Onesimo Almeida disse...

Eu faço aspas, spas, aspas.
Não ficou tudo dito porque não se pode fazê-lo apenas numa entrada de blogue, mas ficou um belo retrato.
Obrigado por ele e obrigado ao Zé Carlos por tudo o que tem feito.

Onésimo

Anónimo disse...

Parabéns por esse bem merecido prémio que o Zé Carlos Vasconcelos mais que merece!
E obrigado por esse bonito retrato de uma pessoa a quem a cultura portuguesa deve tanto.

Želimir Brala, Zagreb

dor em baixa disse...

Jovem entusiasmado nos longínquos anos 60 lembro-me que um poema seu terminava com "Tricota teu verso, tricota, Meu grande filho da pota".

José Fontes disse...

Caro Senhor Embaixador:
Conheci o JCV nos idos de 1973, em plena campanha para as últimas eleições do Estado Novo, em que, à chamada Oposição Democrática de então, comandada por José Tengarrinha, foi dada alguma liberdade de expressão e de movimentação (pelo menos nas zonas politizadas à volta de Lisboa e na da Margem Sul).
Mas essa liberdade não era tanto para a exercerem mas antes para que os simpatizantes anónimos aparecessem à luz do dia e ficassem mapeados.
Por isso a sede da Oposição Democrática na localidade onde eu vivia temporariamente, a Cova da Piedade, funcionou, pelo menos, até 15 dias ou 3 semanas após a data das eleições (explicável à luz deste propósito e por onde eu, imberbe e ingénuo jovenzito, passava quase todas as noites, pois havia uma exposição permanente de livros políticos e afins).
O JCV, com o Zeca Afonso, o Carlos Paredes e o Fernando Alvim animaram uma sessão cultural em que foram apresentadas, julgo que pela 1.ª vez, músicas do disco do Zeca «Venham Mais Cinco», que seria editado em Outubro de 1973, já depois do acto eleitoral.
O JCV leu o poema Antoninho ou Salazarinho, não me lembro bem do título (em que glosava o ditador fazendo jogos de palavras com o nome).
Um verdadeiro acto de coragem numa sala repleta de Pides.

José Fontes disse...

Adenda ao meu comentário anterior:
Esqueci-me de dizer que a referida sessão pública se realizou na SFUAP - Sociedade Filarmónica União Artística Piedense, ainda nas velhinhas instalações do Largo 5 de Outubro.