A convite da Sociedade de Geografia, fiz hoje uma palestra sobre os problemas com que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa se defronta para o seu pleno desenvolvimento. Era este o tema que me havia sido proposto e entendi segui-lo à letra.
Imagino que, no auditório, muitos tivessem ficado algo chocados quando elenquei, sem subterfúgios e com total frontalidade, cerca de três dezenas de razões pelas quais, a meu ver, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa é o que hoje é - e, infelizmente, não é mais do que isso.
Acho que, de quando em vez, faz falta um pouco de verdade, crua e dura, nesse muito complexo e contraditório mundo de quantos se exprimem em língua portuguesa. É que há por ali sentimentos ambivalentes e realidades bem curiosas.
Imediatamente antes de fazer a palestra da Sociedade de Geografia, tinha estado numa reunião em que alguém contou que visitava Angola no dia em que se realizava um Sporting-Benfica. Essa pessoa disse do seu espanto (e do seu agrado, já agora), ao ouvir numa rádio luandense uma referência ao jogo, em que designava o prélio como o “dérbi da Segunda Circular” - com a absoluta certeza, por parte do radialista, de estar a ser plenamente entendido pelos seus ouvintes locais.
Não pude deixar de lembrar-me, naquele momento, de um timorense que conheci em Nova Iorque, que nunca visitara Portugal, e que me disse que um dia gostaria de conhecer ”a segunda ponte do Feijó”, lugar até onde chegavam as filas de trânsito nas manhãs lisboetas, que a rádio lhe reportava nas tardes do seu Timor natal.