quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O solo do Coroliano



Ontem, soube que o meu velho amigo Coroliano Gonçalves Clemente está com problemas graves de saúde. O Coroliano, filho do senhor Clemente, polícia, era um dos meus companheiros de aventuras, nos últimos anos do liceu em Vila Real.

Lembro-me de ele ser um garboso graduado da Mocidade Portuguesa, ramo de atividade pelo qual nunca fui tentado a enveredar. Estou a vê-lo, mangas da camisa verde arregaçadas, sobre as calças castanhas, botas de Vanguardista, com os galões de Comandande de Bandeira (categoria abaixo de Comandante de Falange e acima de Comandante de Castelo - algumas das hierarquias dessa associação onde eu nem sequer tive interesse de chegar a Chefe de Quina). 

O Coroliano era um pouco mais velho do que eu e, contrariamente a mim, fez vida por Vila Real. Alto, sempre um pouco curvado, fomo-nos cruzando e dando abraços de reencontro, ao longo dos anos, nas minhas visitas à cidade, onde ele era bancário, ali ao lado da Sé. Mas já há muito que o não vejo.

Por essa primeira metade dos anos 60, nas aulas de “Canto Coral”, o Coroliano, o Edmundo, o Chico Abel e eu criámos um “núcleo” que se colocava estrategicamente no topo do auditório e que se dedicava a desenvolver um processo de desestabilização das aulas. O professor era uma figura pequena, de seu nome Mário Neves, a quem dávamos, sei lá bem porquê, o nome de Quelhas. Lembro-me de que o Quelhas, uma figura pequena e lingrinhas, tinha uma Isetta, um patusco e minúsculo carro, cuja porta de abria pela frente. Por qualquer razão, o Quelhas, visivelmente, detestava-me, talvez porque eu teimasse em desinquietar as aulas e em rir à sua passagem. Fui expulso duas vezes das aulas do Quelhas.

Um dia, esse nosso “núcleo” aproveitou uma pausa na aula e testou uma breve canção que eu tinha aprendido com um amigo da família, e que há dias ensaiávamos nos intervalos. Na altura eram muito vulgares, na televisão, os grupos, em especial americanos, que cantavam “a capela”, sem música. Acho que nos inspirámos neles. A curta letra da “canção” que eu trouxera não era notável: “O circo desceu à cidade / numa tarde de imenso calor / trazia focas e ursos / e até um grande domador”. Depois, separadas as palavras com ênfase, dizia-se: “Mas / a principal atração / era o rapaz do trapézio voador / que num salto de grande emoção / se estatelava com grande fragor”. O Coroliano tinha-se especializado, entre o “grande emoção” e o “se estatelava”, a produzir na madeira da bancada em frente dos nossos assentos, um “solo” de imitação de bateria, para criar “suspense”. O Quelhas, tomado de surpresa pela ousadia, tinha deixado prosseguir a cantoria mas irritou-se com o “solo” do Coroliano, que levou à conta de gozação. E pô-lo “na rua”. 

Foi o bom e o bonito! O pai do Coroliano, embora já aposentado da polícia, mantinha toda a “doçura” inerente à profissão e sabia-se que, logo que soubesse da expulsão do filho, ia ter uma reação irada. Foi necessário uma “delegação de meninas” ir implorar ao Quelhas que “limpasse” a falta ao Coroliano, caso contrário o senhor Clemente dar-lhe-ia “um enxerto de criar bicho” (espero que as novas gerações entendam isto). A diligência teve sucesso, o Quelhas recuou e, pasme-se, autorizou mesmo a que, na aula seguinte, repetíssemos a “performance”, que recolheu fortes aplausos. Mas o historial do “quarteto” esgotou-se, para sempre, nesse minuto de glória.

O Coroliano, nesse dia legitimado pelo Quelhas, fez o seu “solo” manual na madeira com um garbo nunca visto. Não sei se ele ainda se lembra desse momento da nossa fátua glória, mas anoto-o aqui com um abraço de forte amizade, agora que a vida parece que lhe está a pregar uma partida, desta vez sem qualquer graça.

2 comentários:

graça correia de barros disse...

o circo desceu à cidade
numa tarde de imenso calor
mas o sucesso da noite
é o rrrrapaz do trapézio voador
com ele vinham tambem
focas camelos e caes
mas o sucesso da noite
é o rrrapaz do trapézio voador
e ao dar o salto mortal
ao rufar dum imenso tambor
deu com as costas no chão
o rrrrapaz do trapézio voador
levaram no para o hospital
e mandaram chamar o doutor
disse estar agonizante
o rrrapaz do trapezio voador
....
e junto à campa fria
botou fala o regedor
e assim acaba a história
do rrrapaz do trapézio voador
....
mas o rapaz tinha um filho
um miudo de imenso valor
que há-de vir a ser um dia
o rrrapaz do trapézio voador

As reticências são as partes da letra que não me lembro
o meu pai cantava nos isto qdo eramos crianças
se souber o resto da letra , gostava muito que ma ensinasse
obrigada
graça

Francisco Seixas da Costa disse...

Tem imensa piada, cara Graça, mas eu só sei que escrevi, pelos vistos uma versão muito limitada do texto original. Obrigado pelo seu interesse.