quarta-feira, 16 de junho de 2010

O sorriso

O ambiente era descontraído, a conversa ia mole, entre homens, com tudo o que isso significa de libertação da linguagem, por vezes a níveis vocabulares que o bom gosto desaconselharia. Esse era, contudo, o preço para garantir uma conversa fácil, entre amigos e amigos de amigos, alguns quase desconhecidos, ligados apenas pela vontade de um hora de convívio, nesse ambiente com sonoridades diversas de língua portuguesa. Da matriz imperativa dessa conversa faziam parte, claro, as mulheres.

O nosso diplomata, já há muito em posto, era uma figura bem conhecida dos meios sociais locais, havia-se cruzado, em todo o largo tempo que levava de vida na cidade, com tudo quanto "era gente", conhecia as figuras e as historietas que a cada uma estavam associadas. Como dizem os anglo-saxónicos, o nosso homem "went native", o que significa, muitas vezes, o risco acelerado de propensão para a asneira. Acontece a todos, podem crer...

Naquele fim de tarde, entre cerveja e whisky, a conversa derivou para uma determinada senhora, um figura pública localmente bastante conhecida, embora não pelos respetivos atributos estéticos, cuja ausência, aliás, contrastava com o seu conhecido proselitismo sentimental.

A certo momento da conversa, o nosso homem baixou a guarda da prudência social e lançou para a mesa: "É horrorosa! É uma das mulheres mais feias do mundo! Não entendo como tem tanto sucesso entre os homens". Parte dos circunstantes, apanhada a boleia da má-língua, logo adiantou comentários similares, alguns a roçar o mau gosto, espraiando-se pelos êxitos afetivos da senhora.

Até que, do fundo de um sofá, se ouviu a voz de um comparsa só conhecido de alguns, que até então se tinha mantido pouco loquaz: "Podem achá-la uma mulher feia, mas devem reconhecer que tem um sorriso muito bonito. Aliás, essa foi uma das razões que me levou a casar com ela".

Não valerá a pena tentar descrever a mudança no ambiente, depois desta frase de quem, sendo embora divorciado há muito da senhora em causa, havia feito questão, com apreciável garbo, de vir a terreiro defender a respetiva honra. O ambiente tornou-se irrespirável.

13 comentários:

margarida disse...

Bem feito! Os homens são excessivamente rudes e cruéis. O verniz estala ao menor embate com os seus pares, parece que sem a rudeza não se entendem!
E a senhora de quem tanto escarneciam nunca se pronunciaria dessa forma sobre eles, que por certo bem o mereceriam.
Um homem pode não ser belo, mas tendo carisma é sempre 'pretendido', já numa mulher a fórmula complica-se.
E a subtil equação confunde muitas mentes limitadas.
Nem quero imaginar o que diriam, cruzes...
Invejosos com maus fígados e ainda piores corações!
Aplauso para o ex consorte - esse sim, inequivocamente um cavalheiro!

(sim, hoje acordei um nadinha indisposta com o sexo "forte" e esta leitura não ajudou...)

Maria Climénia Rodrigues disse...

Assim como que a modos, usando e abusando do título da crónica do Sr.Embaixador, ...O Sorriso..., venho (e porque privei de perto,nos tempos do Dr. Franco Nogueira, na altura Mne,com muitas conversas de salão,nos Passos das Necessidades,numa altura em que era vedado o acesso á carreira diplomática do chamado sexo fraco, ou seja, das mulheres...o que não impedia que entre as mulheres dos serviços de protocolo,secretárias,que eramos poucas,também explanássemos as opiniões sobre o sexo forte que por lá deambuláva...)aqui deixar uma singela homenagem, a uma Mulher, que por aqui vai deixando a sua opinião de quando em quando, e que teve o privilégio de assistir a um magnífico desfile, no Palais Royal, de uma de suas filhas, a promissora Charlotte Winter,que fez passar parte da sua colecção,perante o orgulho de muitos amigos e sobretudo da Helena Oneto, que, conseguiu ser Mãe,Pai,Amiga das filhas, por quem lutou num País, não distante, mas adverso ao sucesso de mulheres portuguesas (que não fosse no plano doméstico),e está agora a colher os frutos de saber que valeu a pena,viver fora da família,dos amigos,da revolução por que tanto lutou,e que sempre manteve o SORRISO,mesmo nas situações mais adversas.
...Este, poderá parecer um texto, um pouco desfazado, do tema que o nosso querido Embaixador, deixou em aberto, mas é uma oportunidade de deixar expressa, de uma mulher que lutou e luta aqui em Portugal, por um Mundo Melhor, a outra Mulher que lutou e luta em França, também por um Mundo melhor,em que normalmente são as mulheres motivo de diz que disse, das conversas masculinas,pela sua beleza e não muitas vezes pelo seu valor, e pelas lágrimas e suor que muitas vezes,não tranparecem nos seus SORRISOS.
Este, pode ser um comentário, um pouco "baralhado", e possivelmente pouco entendido, por quem lê estas crónicas, possivelmente de tão atabalhoado que está nem será publicado,mas...é de certo modo uma homenagem a todas as Mulheres Coragem, que muitas vezes só são apreciadas pela sua beleza e não pelo seu forte VALOR...

Anónimo disse...

Achei imensa graça ao pertinente comentário de Margarida. Os homens não costumam ser assim tão pouco cuidadosos, mas por vezes, acontece a alguns. Quanto a sermos, entre nós, “rudes e cruéis”, ou, “menos elegantes” neste tipo de apreciações, é, em parte, verdade. Serão as mulheres melhores? Quero crer que sim, que a Margarida terá razão. Já o “ex” foi, na verdade, um Cavalheiro! Não queria estar no lugar do tal diplomata. Imagino o ambiente!
Aqui há uns anos atrás, assisti igualmente a uma cena embaraçosa. Um determinado Embaixador oferecera um almoço a algumas pessoas, entre as quais estava um colega dele, um pouco mais novo. A certa altura, o Embaixador, já não me recordo a que propósito, fez um qualquer comentário jocoso (mas não desrespeitoso) relativo ás mulheres de raça negra. Concluído o comentário, o tal colega mais novo, mexendo-se na cadeira, pigarreou e disse: “bom, Senhor Embaixador, a minha mulher é de origem cabo-verdiana!” Silêncio sepulcral! Ficámos todos a olhar uns para os outros e o Embaixador, apanhado assim de surpresa, procurou “compor o ramalhete”, mas, coitado, de forma desastrosa, piorando ainda mais as coisas: “bom, as cabo-verdianas são diferentes, sempre o foram. São uma gente à parte!” O tal colega acrescentou então, sorrindo: “na verdade, o pai de minha mulher é de origem angolana, mas deixe lá Embaixador. Mudemos de conversa.” O velho Embaixador, fez-se pálido e já não falou mais. E poucos minutos depois alçámos dali para fora. O ambiente, inadvertidamente criado, assim o “exigia”. Isto há dias em que o melhor é estarmos calados, ou não nos levantarmos da cama! Tanto quanto vim, mais tarde a saber, quer o Embaixador e aquele seu mais jovem colega ainda se riram daquela situação e mantiveram sempre um relacionamento cordial.
P.Rufino

José Barros disse...

A mulher não vale só pela beleza mas também não só pelo sorriso. As mulheres valem por aquilo que são. Como os homens. E sem querer minimizar os segundos diria mesmo que, de vez em quando, elas são mesmo seres superiores.

Helena Sacadura Cabral disse...

Bravo Climénia. Parabéns pelo seu sentido texto.
Não conheço pessoalmente a Helena Oneto. Mas sei alguma coisa das suas lutas. E conheci um tio, uma pessoa adorável e admirável. É uma família e peras!
Ainda bem que se deu ao trabalho de fazer este comentário. Por ela e por todas as mulheres que se revêem nela.
Por mim, declaro já que fiquei muto contente!

Helena Sacadura Cabral disse...

Margarida ele há feias tão bonitas... Sempre acreditei nisto. E também no facto de certas feias saberem muito bem como fazer sucesso entre os homens!É que a fealdade leva-as a desenvolver outros atributos...

Anónimo disse...

Estou sem palavras...

Gostei do sorriso como arma de arremesso e advocacia da verdadeira beleza(pode ser romantismo ), mesmo em desespero de causa tão real e imutável quanto sensibilidade fútil que a todos assola.

O sucesso referido é a prova provada que afinal nem tudo está perdido, e não era só mas também o sorriso...

Agora convenhamos que feio feio é ser ignorado, ou digno de pena porque invejado?!!!... grande Senhora de certeza...A desafiar a genética e a hereditariedade...
Já nem vou ao mérito de suscitar intensidade unânime de comentários, autênticos indagadores de enigmas construídos em fantasias...Virtuais denunciadores de desejos recônditos...Pronto está bem... Psicanálise...
Isabel Seixas

Helena Oneto disse...

As histórias de embaixadores e/ou outros diplomatas contadas sempre com imensa piada pelo nosso Embaixador são das poucas coisas que ainda me fazem rir hoje em dia. Gostava de comentar esta do sorriso mas, depois de ler o comentário da minha grande amiga Maria Climénia, que muito me comoveu, fiquei sem verbo.
A emoção turva-me os olhos e não consigo escrever mais nada senão um grande obrigada à Climénia e à Helena Sacadura Cabral que merecem os mesmos elogios.

Julia Macias-Valet disse...

Ao contrario da Helena SC, conheço pessoalmente a Helena O. e nas poucas vezes que a cruzei passamos (eu e o Bruno) uma soirée muito agradavel. E rimos a bom ri juntos com esta historia do "Sorriso". As nossas gargalhadas encheram mesmo de inveja alguns "regards étonnés" !

Quanto à historia do "Sorriso" eu diria que alguns homens sao como as crianças que se maravilham mais pelo papel do que pelo conteudo da prenda...

Guilherme Sanches disse...

Com os maridos a trabalhar em digressão profissional por França, duas senhoras resolvem emagrecer o cartão dourado pelas lojas de Paris, apanhando um táxi, por acaso conduzido por uma senhora, que a seu lado transportava um cão.

Uma das passageiras, com rápido acesso ao novo-riquismo sem passar pela educação ou cultura, ia comentando a cidade, libertando vernáculas expressões de admiração à passagem pelas ruas da cidade.
Na hora de pagar, comentou para a amiga:

- Que cão tão bonito! É mais bonito que a dona!

- E mais educado do que a senhora... responde a taxista.

Também era portuguesa.

Não são só "os" homens.

Helena Sacadura Cabral disse...

Adoro este blogue, Senhor Embaixador.
Neste meu momento menos bom, devo-lhe a si e aos seus comentadores - mulheres e homens de uma fidelidade total - algumas das minhas mais saudáveis gargalhadas.
Bem hajam todos!

Maria Climénia Rodrigues disse...

Helena Sacadura Cabral, uma Mulher que em Portugal, sempre tem mantido a Diferença, Mesmo nas Horas mais adversas, não perca o seu Sorriso, porque ele é muito preciso,nestes dias pardos que se vivem em Portugal. Coragem é uma palavra, que certas Mulheres sabem ter...
Este é de facto, um dos melhores blogues, que circulam, e os temas abordados, são sempre um Bem para começar ou terminar os dias...

Anónimo disse...

À Dra. Helena

Com a pretensão de lhe suscitar

Um sorriso...

A sala de espera
Deu lugar
Ao casal...
A Sra. de setenta e dois anos
O Sr. de oitenta anos

A senhora recomendava:
Dizes à sra. doutora
Que tens essa "rangeleira";
Que ressonas; que tens gases;
Varizes;que te dói a hérnia;
que precisas dos comprimidos para dormir toda a noite...
Já no consultório, a médica de família mau grado a senhora, estimula o Sr. a expor as suas próprias preocupações dizendo:

Então Sr. .....o que O preocupa?

Oh! Sra. Doutora eu tenho mas é uma grande falta de potência...
Se a Senhora me arranjasse mas era uns comprimidos...

Ó Homem tem mas é juizo... Nem pense sra. Doutora...

E a médica tossiu...Pigarreou...E
In Isabel Seixas
histórias/Estórias contadas por Enfermeiras