sexta-feira, 4 de junho de 2010

Israel e Portugal (1)

A polémica que envolve Israel, com uma forte reação internacional em face do violento ataque militar contra um grupo de barcos civis que levavam ajuda humanitária destinada aos palestinianos de Gaza, tem tido fortes repercussões em Portugal. O governo português manifestou o seu repúdio pela atitude israelita, embora alguns setores políticos internos tenham contestado a forma como esse protesto se objetivou.

Neste contexto, e porque tal não é muito conhecido e tem contornos curiosos, que ajudam a interpretar a política externa portuguesa desde os anos 50 à atualidade, gostava de deixar, em dois posts, algumas notas breves sobre a questão da relação histórica entre Portugal e Israel, essencialmente baseadas nos dados factuais referidos num artigo da minha colega Manuela Franco, cujo texto completo pode ser lido aqui.

Num segundo post, deixarei também um testemunho pessoal que talvez possa ser interessante para alguns leitores deste blogue.

Israel nasce, como país, em 1948 e, no ano seguinte, ingressa nas Nações Unidas (contrariamente a Portugal que, por veto da URSS, apenas seria admitido na ONU em 1955). Ainda nesse ano, o governo israelita anuncia a Portugal, numa carta do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, o seu ingresso na comunidade internacional, com vista a promover o respetivo reconhecimento por Lisboa. O silêncio português foi a resposta. 

Não resulta muito clara a razão deste posicionamento português, não parecendo decorrer, como alguns aventam, de uma atitude anti-semita do regime salarazista. Muito menos de um seguidismo com a atitude de Madrid. Tudo parece indicar que Portugal temia provocar uma reação de hostilidade por parte dos países árabes, num momento em que a Índia se tornava independente e começavam a aparecer nuvens de preocupação em torno do futuro das possessões portuguesas naquele espaço. Colocar todo o mundo árabe contra si, agravando o isolamento internacional do país, parecia, assim, estar na base da atitude reticente de Lisboa face a Tel-Aviv. O facto de Portugal ter então reforçado a sua presença diplomática em várias capitais árabes parece, em pleno, confirmar esta teoria.

Em 1953, perante uma insistência israelita, o MNE português opta, de novo, por não reconhecer Israel, argumentando que, se o fizesse, estaria a tomar posição num momento de forte tensão israelo-árabe. Num gesto timorato de dimensão limitada, Portugal faz entretanto chegar a Israel, em 1954, a indicação de que veria com bons olhos a abertura de uma representação consular em Lisboa e, embora não encarasse, por ora, o estabelecimento de uma sua representação similiar em Israel, pedia autorização para tal, no futuro. Com esta atitude, Portugal assumia que isso funcionaria como um reconhecimento implícito do Estado judaico. Por isso, a posição portuguesa, transmitida à Embaixada que procederá ao contacto, deixa claro que a autorização da abertura do consulado "far-se-á sem ser precedida ou seguida de qualquer forma de reconhecimento expresso, que nas circunstâncias actuais não seria conveniente". Era o mais longe que Lisboa estava então disposta a ir.

O mundo árabe, entretanto, mostrou evoluir para uma atitude favorável à autodeterminação dos povos coloniais, contrariando as "esperanças" que a ditadura portuguesa nele havia colocado, nomeadamente numa potencial contradição com os novos regimes da "África negra". Em 1959, no quadro de algumas relações económicas entretanto já existentes, Portugal e Israel subscrevem um "acordo comercial e de pagamentos". No ano anterior, havia sido dada, depois de muito tempo de espera, a acreditação para o primeiro cônsul israelita. O despacho justificativo de Salazar é exemplar de realpolitik: "Os países árabes não mudarão de posição quanto a nós seja qual fôr a decisão que tomarmos. Israel votará a favor". As "contas" na batalha das Nações Unidas, com sucessivas condenações de Portugal, estavam a ser, desde 1955, a grande preocupação portuguesa.

Israel tem, entretanto, uma surpreendente evolução de posição face à política colonial portuguesa, menos por um desagrado com as reticências persistentes de Lisboa e, muito mais, determinada por uma tentativa de "cavalgar" politicamente algumas independências africanas, ao que parece num acordo implícito com Washington. Com o início das guerras coloniais nas possessões africanas de Portugal, essa posição vai-se agravando. Em 1967, Lisboa protestou informalmente pela atribuição por Tel-Aviv de bolsas de estudos a líderes independentistas das colónias portuguesas e chamou a atenção para o facto de armas israelitas terem aparecido em posse da Frelimo. Nesse contacto, Portugal invocou mesmo a proteção dada a judeus durante a 2ª guerra mundial, como forma de melhor denunciar a "ingratidão" de Israel. Afinal, as ações de Aristides Sousa Mendes iriam acabar por ter alguma utilidade, para o tardio argumentário salazarista...

Esta atitude negativa de Israel face à política colonial portuguesa enfureceu Lisboa, que passou a abster-se, nas Nações Unidas, na votação de questões israelo-árabes, talvez na ingénua esperança de atenuar a hostilidade deste últimos. Com a utilização da base das Lages, pelos EUA, para abastecimento de Israel, durante a guerra do Yon Kypur, em 1973, Portugal acabou por suscitar a aberta indignação de todo o mundo árabe, que decretou um embargo petrolífero ao nosso país. Atitude, aliás, injusta. Portugal não fez isso para ajudar Israel: fora submetido a um humilhante diktat americano, a que não conseguira furtar-se.

O 25 de Abril chegou, entretanto. Num post futuro falaremos de como as coisas evoluíram a partir de então. 

8 comentários:

Anónimo disse...

Bem Resta-me aguardar o 2º post...
Entretanto vou tentar clarificar as palavras "difíceis"...

Isabel Seixas

V disse...

A leitura deste post e a do artigo de Manuela Franco não abalaram a minha convicção que, uma vez mais, o governo português se limitou a submeter-se ao "humilhante diktat americano".
Esperemos pelo 2º post, caro Embaixador.
V

Anónimo disse...

Difíceis??!!!

Helena Sacadura Cabral disse...

Excelente post, Senhor Embaixador.
A visão selectiva de Obama é, neste assunto, evidente!

Anónimo disse...

Meu Caro

Política é política, portanto não é a relação que o salazarismo manteve com Israel que tira ou põe o quer que seja ao comportamento de Israel enquanto Estado desobrigado do cumprimento das regras internacionais mais elementares.
O facto de os fascistas portugueses não "gostarem" de Israel não atribui a Israel qualquer tipo de crédito.
Depois, é preciso que se diga, caso contrário a história não se percebe, que não foi Portugal que cedeu a base dos Açores aos americanos durante a guerra de 73. Tratou-se de um brutal ultimato do imperialismo americano, no qual se dizia expressamente que a bem ou a mal as Lages seriam utilizadas.
A única coisa que fica por saber - e nunca se saberá - é se em vez de no Governo estarem Marcelo e Rui Patrício estivessem Salazar e Franco Nogueira, tudo se teria passado na mesma.
Porquê a questão? Porque durante a 2.ª Guerra Mundial Roosevelt ameaçou fazer o mesmo ou pior (invadir os Açores) e acabou por ser dissuadido por Churchill que temia a reacção de Salazar.
Os factos são factos e não é por Salazar ser quem foi e ter feito o que fez que deixam de o ser
CP

O Bei de Tunes disse...

Caro Embaixador

Ouvir Manuela Franco falar sobre Israel é o mesmo que ouvir Pinto da Costa falar sobre o FCP
BT

Anónimo disse...

A alguns comentadores: peço que leiam o que eu escrevi e não aquilo que gostariam que eu tivesse escrito, por favor! Além do mais, este post não tem nada a ver com as responsabilidades israelitas nos recentes incidentes. Este blogue, como já terão percebido, tem limites óbvios de análise e, por essas e por outras razões (algumas delas essa coisa decisiva que é o facto de eu nele escrever apenas aquilo que me apetece...), não ando a sempre comentar acontecimentos, embora frequentemente os aproveite. Os incidentes em que Israel interveio foram apenas o pretexto para falar de um tema muito diferente - de que se sabe pouco - que se prende com as relações entre Israel e Portugal.

Francisco Seixas da Costa

Anónimo disse...

Difíceis como a metáfora do anonimato...

Aquela que só existe para potenciar o imaginário emergente da descoberta

Refúgio do Medo...Aquele que temos de nós.
Que nos Inibe de mostrar o rosto da identidade Simplesmente o Nome...
Há quem diga que é Covarde... Na... Que ideia ... Só a máscara da crise de pânico da fraqueza patológica... Tem cura sim...
Vê?
Difíceis??!!!
Porque sim...

Basicamente a tradução do Avatar...
Mudam-se os Ditadores com efeitos especiais ... Passam agora a Ser
os que eram antes explorados que inovação...
Isabel Seixas