Agora que nos aproximamos do Dia Nacional português, vale a pena notar o triste facto de que ainda há muitos portugueses, mais em Portugal do que no estrangeiro, que não conhecem a letra do Hino Nacional. Verdade seja que o nosso hino não "ajuda" muito, pelas fórmulas arrevezadas que utiliza, tributárias da sua linguagem oitocentista, marcada pela indignação exaltada contra as perfídias britânicas do "mapa cor-de-rosa".
Aliás, e a talhe de foice, vale a pena explicar que aquele suicidário e algo masoquista "contra os canhões, marchar, marchar", presente no refrão, é uma versão retificada da letra original, onde se lia "contra os bretões, marchar, marchar" - porque o hino tinha sido construído para reagir à afronta de Londres.
E, para quantos não saibam, aqui deixo duas outras partes da antiga e longa versão oficial de "A Portuguesa", cujo conteúdo remete claramente para o espírito original anti-ultimatum:
Desfralda a invicta Bandeira,
À luz viva do teu céu!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu
Beija o solo teu jucundo
O Oceano, a rugir d'amor,
E teu braço vencedor
Deu mundos novos ao Mundo!
À luz viva do teu céu!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu
Beija o solo teu jucundo
O Oceano, a rugir d'amor,
E teu braço vencedor
Deu mundos novos ao Mundo!
e ainda
Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal do ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.
Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal do ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.
A primeira versão oficial do hino, que surgia no "Diário do Governo", tinha aquelas três partes, além de três repetições da estrofe (Às armas...). Por isso, não é raro ser essa a versão utilizada por uma orquestra ou banda estrangeira, na receção a um dignitário português.
Recordo-me de um embaraço por que passei, em 1980, na Noruega, aquando da visita de Estado do presidente Ramalho Eanes. Embora fosse o organizador da visita, não me passou pela cabeça verificar a partitura que ia ser usada pelos noruegueses, isto é, saber se seria a versão curta ou a longa, até porque sou "nulo" em matéria de pautas de música.
No início de um almoço oficial no Rådhus (câmara municipal) de Oslo, acabada que foi a execução da primeira parte do nosso hino (a que é vulgarmente utilizada), os portugueses presentes iniciaram uma salva de palmas, arrastando consigo os noruegueses. Com surpresa, verificaram que a orquestra "arrancou" para uma segunda parte, repetindo a primeira. Chegada ao fim desta, os presentes avançaram então, mais decididos, para nova salva de palmas. E não é que a orquestra "atacou", de novo, com mais uma repetição?!
Por jeito próprio ou como quem "connait la musique" (expressão aqui apropriada), o nosso presidente mantinha-se impávido. O resto dos portugueses mostrava alguma perplexidade, com Fernando Reino, chefe da casa civil de Belém e até há pouco embaixador em Oslo, a fuzilar-me interrogativamente com o olhar. Só sosseguei quando os músicos noruegueses se aquietaram, por fim...
Depois desta cena, e tal como tem acontecido a muitos meus colegas, já me tem sido dado ouvir esta "tripla" versão do hino pelo mundo fora. Nessas ocasiões, o único problema é quando há portugueses a cantar alto a letra do hino. Coitados, lá repetem mais duas vezes o "Heróis do mar...". É que ainda estou por encontrar alguém que saiba a versão completa.

No Brasil usa-se muito a versão completa, porque a nossa comunidade não gosta que o nosso hino seja mais curto que o brasileiro... A versão oficialmente aprovada, por lei, excluíu já essas duas estrofes, pelo que havia sempre discussão dos dirigentes da Comunidade com as casas regionais sobre a dimensão do hino que se ia executar...
ResponderEliminarDelicioso post.
ResponderEliminarPrimeiro, pela expressão "Dia Nacional português". Gostei. Nunca tinha ouvido.
Segundo, pela magnífica história que me fez lembrar o meu querido António Alçada Batista e o seu empenhamento em mudar o hino!
Convenhamos que tinha alguma razão, ele que era um natural pacifista...
Terceiro, porque tenho ouvido o hino cantado com verdadeiros impropérios de quem não conhecendo a letra...pura e simplesmente inventa maravilhas linguísticas!
Eu sei que toda a gente sabe quem são, mas não teria ficado mal uma palavra de apreço pelos autores da música e da letra do nosso Hino.
ResponderEliminar"Dia Nacional português".
ResponderEliminarAdoro pleonasmos mais inteligentes os dissimulados...
Não sei porque associação de ideias lembrei Uma colega que apresentou o seu trabalho de investigação aludindo a uma tabela com a distribuição de grávidas por sexo, ainda não havia nenhuma do sexo Masculino.
Isabel Seixas
Concordo com Francisco
ResponderEliminarAcho o nosso Hino Lindo algo prolixo, mas lindo intenso...
Algo difícil de memorizar, talvez rebuscado mas hipnotizante...
Pois da minha parte parabéns aos autores pelo insight intemporal, Brilhante genial.
Isabel Seixas