domingo, 6 de junho de 2010

O Hino

Agora que nos aproximamos do Dia Nacional português, vale a pena notar o triste facto de que ainda há muitos portugueses, mais em Portugal do que no estrangeiro, que não conhecem a letra do Hino Nacional. Verdade seja que o nosso hino não "ajuda" muito, pelas fórmulas arrevezadas que utiliza, tributárias da sua linguagem oitocentista, marcada pela indignação exaltada contra as perfídias britânicas do "mapa cor-de-rosa".

Aliás, e a talhe de foice, vale a pena explicar que aquele suicidário e algo masoquista "contra os canhões, marchar, marchar", presente no refrão, é uma versão retificada da letra original, onde se lia "contra os bretões, marchar, marchar" - porque o hino tinha sido construído para reagir à afronta de Londres.

E, para quantos não saibam, aqui deixo duas outras partes da antiga e longa versão oficial de "A Portuguesa", cujo conteúdo remete claramente para o espírito original anti-ultimatum:

Desfralda a invicta Bandeira,
À luz viva do teu céu!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu
Beija o solo teu jucundo
O Oceano, a rugir d'amor,
E teu braço vencedor
Deu mundos novos ao Mundo!

e ainda

Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal do ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.

A primeira versão oficial do hino, que surgia no "Diário do Governo", tinha aquelas três partes, além de três repetições da estrofe (Às armas...). Por isso, não é raro ser essa a versão utilizada por uma orquestra ou banda estrangeira, na receção a um dignitário português.

Recordo-me de um embaraço por que passei, em 1980, na Noruega, aquando da visita de Estado do presidente Ramalho Eanes. Embora fosse o organizador da visita, não me passou pela cabeça verificar a partitura que ia ser usada pelos noruegueses, isto é, saber se seria a versão curta ou a longa, até porque sou "nulo" em matéria de pautas de música.

No início de um almoço oficial no Rådhus (câmara municipal) de Oslo, acabada que foi a execução da primeira parte do nosso hino (a que é vulgarmente utilizada), os portugueses presentes iniciaram uma salva de palmas, arrastando consigo os noruegueses. Com surpresa, verificaram que a orquestra "arrancou" para uma segunda parte, repetindo a primeira. Chegada ao fim desta, os presentes avançaram então, mais decididos, para nova salva de palmas. E não é que a orquestra "atacou", de novo, com mais uma repetição?!

Por jeito próprio ou como quem "connait la musique" (expressão aqui apropriada), o nosso presidente mantinha-se impávido. O resto dos portugueses mostrava alguma perplexidade, com Fernando Reino, chefe da casa civil de Belém e até há pouco embaixador em Oslo, a fuzilar-me interrogativamente com o olhar. Só sosseguei quando os músicos noruegueses se aquietaram, por fim...

Depois desta cena, e tal como tem acontecido a muitos meus colegas, já me tem sido dado ouvir esta "tripla" versão do hino pelo mundo fora. Nessas ocasiões, o único problema é quando há portugueses a cantar alto a letra do hino. Coitados, lá repetem mais duas vezes o "Heróis do mar...". É que ainda estou por encontrar alguém que saiba a versão completa.

5 comentários:

Alcipe disse...

No Brasil usa-se muito a versão completa, porque a nossa comunidade não gosta que o nosso hino seja mais curto que o brasileiro... A versão oficialmente aprovada, por lei, excluíu já essas duas estrofes, pelo que havia sempre discussão dos dirigentes da Comunidade com as casas regionais sobre a dimensão do hino que se ia executar...

Helena Sacadura Cabral disse...

Delicioso post.
Primeiro, pela expressão "Dia Nacional português". Gostei. Nunca tinha ouvido.
Segundo, pela magnífica história que me fez lembrar o meu querido António Alçada Batista e o seu empenhamento em mudar o hino!
Convenhamos que tinha alguma razão, ele que era um natural pacifista...
Terceiro, porque tenho ouvido o hino cantado com verdadeiros impropérios de quem não conhecendo a letra...pura e simplesmente inventa maravilhas linguísticas!

Unknown disse...

Eu sei que toda a gente sabe quem são, mas não teria ficado mal uma palavra de apreço pelos autores da música e da letra do nosso Hino.

Anónimo disse...

"Dia Nacional português".

Adoro pleonasmos mais inteligentes os dissimulados...

Não sei porque associação de ideias lembrei Uma colega que apresentou o seu trabalho de investigação aludindo a uma tabela com a distribuição de grávidas por sexo, ainda não havia nenhuma do sexo Masculino.
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Concordo com Francisco

Acho o nosso Hino Lindo algo prolixo, mas lindo intenso...
Algo difícil de memorizar, talvez rebuscado mas hipnotizante...

Pois da minha parte parabéns aos autores pelo insight intemporal, Brilhante genial.
Isabel Seixas