quinta-feira, 3 de junho de 2010

Misericórdia de Paris

Confesso que foi para mim uma surpresa, antes de assumir funções como embaixador em França, constatar a existência de uma Santa Casa da Misericórdia em Paris. Não esperava que existisse uma Misericórdia em França, não obstante vir do Brasil, onde existem várias instituições congéneres. Vim a saber que a Misericórdia de Paris existe desde 1994, tendo sido criada sob o impulso do meu colega Tadeu Soares e que desempenha um papel muito meritório no apoio aos setores mais carenciados da nossa comunidade.

Foi à luz da valia desse trabalho já executado que não hesitei em apoiar a Misericórdia de Paris quando, há meses, nos propôs estabelecer uma parceria com a Embaixada. Em decorrência dessa articulação, tive muito prazer em apoiar a sua pretensão, positivamente acolhida, para vir a obter apoios do Estado português no contexto das atividades no Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão.

Desde há uns anos que o discurso descritivo que envolve a comunidade portuguesa em França tende a sublinhar os casos de sucesso, em matéria de integração e de percursos profissionais bem conseguidos. É natural que assim aconteça, não apenas porque essa é uma realidade evidente em muitos setores mas igualmente porque é sempre importante darmos exemplos que possam sustentar o otimismo.

Porém, ser positivo não exclui o dever de sermos realistas. E a realidade aponta para a existência de casos individuais de pobreza e de exclusão social, quer em setores mais antigos da nossa comunidade, quer em faixas etárias mais novas, atingidas pelo desemprego e pela precariedade laboral. É verdade que essas pessoas têm ao seu dispor os serviços assistenciais franceses, mas torna-se importante que saibamos ajudá-las a melhorar o acesso às ajudas e a encaminhá-las para as entidades que as possam ajudar, para além de as habilitar a um recurso aos instrumentos de apoio social que o Ministério dos Negócios Estrangeiros português também tem disponíveis.

O que a Misericórdia de Paris agora se propõe fazer é, precisamente, desenvolver um conjunto de tarefas no seio das quais se institua um "observatório" que nos ajude a desenhar um retrato mais claro e dinâmico dessas situações de desregulação individual, em ligação com as estruturas consulares, com a rede associativa portuguesa, com ONG's e outras entidades francesas, privadas ou oficiais, que operam nessa área. 

Na apresentação do projeto da Misericórdia, que teve lugar na Embaixada na passada 2ª feira, na presença de umas largas dezenas de figuras da nossa comunidade, bem como da sociedade civil e de instituições oficiais  francesas, tive oportunidade de assinalar o caráter ambicioso desta iniciativa. Sublinhei igualmente os números impressionantes e crescentes de pessoas que, por toda a Europa, mas também em França e em Portugal, vivem abaixo do limiar de pobreza, o que hoje é agravado pela crise económica que atravessamos, a qual não abre hipóteses de rápida recuperação de tais situações. E chamei a atenção, muito em particular, para o fenómeno, que é cada vez mais evidente, da chegada de novos imigrantes portugueses, fruto das dificuldades laborais no nosso país, o que constitui um facto a que temos obrigação de estar muito atentos, pelos impactos sociais que daí podem resultar.

Espero sinceramente que a Misericórdia de Paris possa, na linha da tradição antiga que consagrou o relevante papel social de instituições congéneres, reforçar cada vez mais as suas tarefas como agente prestigiado da nossa sociedade civil. Ela poderá contar sempre com o estímulo e com o apoio concreto da Embaixada para esse seu benemérito trabalho.  

5 comentários:

Manuel ANTUNES DA CUNHA disse...

Mais uma vez, o nosso agradecimento pelo apoio fundamental prestado pela Embaixada de Portugal. Se me permite, deixo aqui o endereço do nosso site : www.misericordiadeparis.com

Com os melhores cumprimentos

Manuel Antunes da Cunha

Rubi disse...

Curioso que a realidade da comunidade portuguesa no Reino Unido nao e' tao positiva. Os problemas de integracao sao maiores, assim como a pobreza, e ha' um grupo significativo de portugueses com uma formacao muito fraca. Claro que ha' casos de sucesso a nivel empresarial, e jovens formados em bons cargos, mas a realidade da maioria e' ainda pouco simpatica. Penso, ou quero acreditar, que tambem se deve ao facto de ser uma emigracao mais recente, nao tao antiga como a da Franca.

margarida disse...

Crescentemente serão necessárias atitudes, iniciativas e movimentos destes, quer das instituições assistenciais e caritativas, quer dos pólos de representação das várias nações em Diáspora.
Justa e digna parceria, que enobrece os propósitos de ambas.
Aplauso.
(embora desejasse que não tivessem muito que fazer...)

Helena Sacadura Cabral disse...

Chamo aqui a atenção para o post "LIVROS" no qual coloquei um comentário, cumprindo assim a promessa de informar como se podem enviar livros para Moçambique.
Obrigada!

Anónimo disse...

Bem Hajam.
Isabel Seixas