sábado, 15 de janeiro de 2011

Tunísia

As reações, em geral cautelosas, particularmente da comunidade internacional ocidental, face às mudanças em curso na Tunísia estão a ser interpretadas de forma negativa por certos setores com expressão mediática, nomeadamente aqui em França. Alguns comentadores interpretam as declarações de poderes políticos externos, que começam a exprimir alguma simpatia com a nova onda democrática tunisina, como um mero exercício de cinismo ou mesmo de hipocrisia, atentas as relações que a generalidade desses poderes mantinha com o regime deposto de Ben Ali. E,  em especial, condenam a falta de uma aberta atitude de apoio, desde a primeira hora, àquilo que parece poder ser um novo tempo político no país, iniciado na rua e com expressão já nas instituições.

Acho que devemos ser prudentes e ter o sentido da medida das coisas. O regime deposto na Tunísia, cujo perfil político não oferecia dúvidas a ninguém, era o interlocutor reconhecido da comunidade internacional. Não eram desconhecidas as suas limitações em matéria de respeito pelos Direitos Humanos ou pelos princípios democráticos, mas era-lhe igualmente creditado um esforço de desenvolvimento económico e social, embora com um saldo seguramente distribuído de forma condenável. Mas a Tunísia não era - longe disso! - um "pária" no mundo internacional. Pelo contrário era, no seio do mundo árabe, um parceiro com o qual, por exemplo, a União Europeia mantinha um diálogo estruturado - o qual incluía, como é bom que se saiba, uma chamada regular de atenção para questões tão importantes como os presos políticos ou a liberdade de informação. Se os países democráticos, europeus ou não, só mantivessem relações com Estados que respeitam a pureza dos princípios democráticos e outras práticas que são caraterizadoras do Estado de direito, o seu universo diplomático seria muito reduzido. O diálogo com regimes "diferentes" constitui um elemento essencial do quadro diplomático internacional - e isso não é cinismo, é mero realismo, só condenado por quem nunca teve responsabilidades em matéria de relações externas.

Mas posso também perceber que alguma da hesitação da comunidade ocidental tenha, por detrás, uma outra preocupação: o receio de que um certo tipo de evolução política possa abrir a porta à emergência, em termos de influência ou poder, das forças integristas islâmicas, cuja progressão no seio da sociedade tunisina Ben Ali tinha combatido. É este, muito provavelmente, o dilema que atravessa alguns Estados amigos da Tunísia. Os quais, no entanto, estarão seguramente muito interessados em ver emergir, a partir do novo poder político em Tunis, uma sólida democracia, respeitadora dos grandes princípios que marcam a comunidade ocidental e geradora de um efeito benéfico extra-muros, induzindo o respeito pela vontade popular noutros países da região. Se possível, sem serem necessários os elevados custos humanos que a revolta do povo tunisino está a ter de suportar.

18 comentários:

Ana Paula Fitas disse...

Caro amigo Senhor Embaixador Seixas da Costa,
Com votos de Bom Ano, aproveito para lhe agradecer o texto que aqui publicou e de que faço link lá, no A Nossa Candeia.
Abraço fraterno.

Carlos Cristo disse...

Meu caro Francisco,
Sábios, como é hábito, os seus comentários.
Estive, neste ano findo, três vezes na Tunisia. Surpreendi-me por não haverem evidências de miséria, pela tranquilidade, pela organização do espaço, pelas infraestruturas. Busquei os indicadores socio econômicos que não são nada maus, para a região.
Parece que, debaixo do tapete das aparências as coisas não estavam tão bem, mas preocupa-me muito imaginar que os fanáticos religiosos possam estar a provocar esta situação para a dominarem. A comunidade internacional precisa deixar a platéia e ir para o palco.

Mário Machado disse...

Embaixador,

O senhor está certo como dizemos: "Prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém".

Mário Machado disse...

PS: Publicarei esse texto em minha página com todas as indicações de autoria e link para o original, contudo o autor pode se quiser pedir que retiro sem nenhum tipo de "bad feelings".

Abs,

Anónimo disse...

a revolução do jasmim está em curso.

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Caríssimo Senhor Embaixador Francisco Seixas da Costa,

Este clarificador texto, que o Senhor Embaixador aqui nos deixa, alerta-nos para a provável situação de impasse que se gerará no desenvolvimento económico-social da Tunísia devido às naturais quebras de fluxos turísticos e ao ambiente revolucionário de mudança.

Esperamos que se possa instalar rapidamente um clima de paz e que as forças integristas não se evidenciem neste quadro de revolta popular, porque a Europa sempre temeu desde os anos 80 o poder de afirmação das correntes integristas e daí o sentido de prudência e de realismo que os responsáveis ocidentais têm de assumir perante esta reviravolta face ao "statuo quo".

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
Eu estive lá, em 1982, por 3 meses em Sfax a preparar uma frota de material circulante para o enviar para a Turquia, dado que a prospecção que foi levada a cabo, pela minha companhia, não foi encontrado petróleo.
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Depois de já uns anos Árabia Saudita e Emiratos, fui encontrar na Tunísia um regime muçulmano, tolerante e não o da linha dura que tinha, antes, observado.
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Gente dócil para ligação, presente a caldeação de sangue da passagem de várias etnias europeias.
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E o que mais me surprendeu foi que em Sfax (com muita história na II Guerra Mundial e com dois cemitérios de combatentes alemães e aliados)encontrei uma mesquita judaica e perguntei ao agente, tunisino, que representava a minha companhia o facto e diz-me: nós na Tunisia vivemos, harmoniosamente, com todas as religiões.
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País fascinante, onde se bebia vinho, largos olivais, muito turismo e ficaram em mim gratas recordações da minha passagem pela Tunisia.
Saudações de Banguecoque
José Martins

Alcipe disse...

"Cross your fingers" ou

"Faz figas a Satanás!"

Tudo depende da força da sociedade civil e da capacidade dos radicais islâmicos em capitalizarem os descontentamentos das camadas mais desfavorecidas.

Já vimos o filme, sim, mas o final é sempre diferente...

Anónimo disse...

Esperemos que não seja mais um país a cair no fanatismo religioso...

Entre a ditatura e o fanatismo religioso "venha o diabo e escolha"!

Isabel BP

Alcipe disse...

Parecemos os prudentes ocidentais em 1974 a comentar o 25 de Abril, ponderando que "o Caetano era mau, sim, mas agora o perigo comunista?"

Guilherme Sanches disse...

Obrigado por tão esclarecedores conhecimentos em tão poucas palavras. E sem cobrar nada.
Um abraço

José Martins disse...

Senhor Embaixador,

Por lapso, no meu comentário, cometi um erro.

O correcto: "encontrei uma sinanoga judaica e perguntei..."

"encontrei uma mesquita judaica e perguntei"
Saudações de Banguecoque
José Martins

Helena Sacadura Cabral disse...

Muito inteligente este post, Senhor Embaixador.
E delicioso o segundo comentário de Alcipe cujo sentido de humor aprecio cada vez mais. Além da poesia, claro!

Julia Macias-Valet disse...

LA VOLONTÉ DE VIVRE

Lorsque le peuple un jour veut la vie
Force est au destin de répondre
Aux ténèbres de se dissiper
Aux chaînes de se briser...

Souffle alors un vent violent dans les ravins,
Au sommet des montagnes et sous les arbres

Qui dit :

« Lorsque je tends vers un but
Je me fais porter par l’espoir
Oublie toute prudence
Je n’évite pas les chemins escarpés
Et n’appréhende pas la chute
Dans les flammes brûlantes.
Qui n’aime pas la montagne
Vivra éternellement au fond des vallées » ...

Abou El Kacem Chebbi
(1909-1934)

Nao sera por acaso, que dois versos deste poema fazem parte da letra do hino nacional da Tunisia (Humat Al-Hima)

Santiago Macias disse...

Tenho, por motivos profissionais, acompanhado a situação no Magrebe com relativa regularidade.
Ben Ali, tal como Bourguiba o fizera antes (o episódio da laranjada durante o Ramadão é hoje impensável), combateu os islamitas com sucesso. Creio, contudo, que há motivos para preocupação. As carências da população são sérias e os líderes radicais espreitam. Foi assim na Argélia há 20 anos e a situação está longe de estar controlada.
O mais espantoso é o nosso alheamento (político, jornalístico etc.) face à realidade tunisina. Como se fosse uma coisa muito distante.

Anónimo disse...

Num país maioritariamente jovem, com falta de esperança num futuro que tarda em chegar, o apelo cada vez mais insistente para a radicalização da fé, onde os fundamentalistas por força do petróleo têm cada vez maior influencia, deixa adivinhar tempos difíceis para as populações e muita incerteza para as diplomacias da UE.
Senhor Embaixador, para terminar deixo uma questão para reflexão ou comentário se assim o entender. Como é possível que numa crise declarada há cerca de um mês, a Embaixadora de Portugal em Tunes se encontre de férias em Portugal?
Eduardo Antunes

Anónimo disse...

So quando eclodem estas revolucoes e que os nossos comentadores despertam para a realidade.Quanto a realpolitik externa,o tema e muito subjectivo.A politica externa de Salazar foi uma verdadeira realpolitik.Hoje alguns dos politologos chamam-lhe politica externa maquiavelica...

Gil disse...

Não deixa de ser curioso que o ferro-de-lança do Ocidente na guerra contra o extremismo islâmico tenha procurado refúgio numa das pátrias dos seu "inimigo", a Arábia Saudita - depois, é verdade, de a França, num gesto que não é inédito, ter escorraçado o seu outrora aliado.
Já agora, é conveniente algum rigor quando se fala de temas muito delicados; "islamitas" são os seguidores do Islão e é um pouco abusivo assimilá-los aos extremistas muçilmanos.