sábado, 29 de janeiro de 2011

O ocidente e a "rua árabe"

É difícil e arriscado procurar reduzir a modelos simplificados de explicação realidades que são muito complexas. O vento de instabilidade que afeta vários Estados árabes, para além das sementes de mútuo contágio, traduz realidades e relações de força muito diferentes. Mas não deixa de ter pontos comuns.

Com graduações e formatos institucionais diversos, todos esses regimes em crise são marcados por fortes sistemas de autoridade, às vezes sob a forma de uma figura predominante, noutros casos com uma preeminência das forças armadas, noutros ainda com uma combinação de ambos os fatores. Ora a História ensinou-nos - ensinou-nos? - que todos os formatos institucionais que não sejam regularmente legitimados de forma democrática têm, a prazo, uma necessária fragilidade. Essa fragilidade agrava-se se o sistema não conseguir proporcionar um desenvolvimento económico, com eficaz distribuição da riqueza e, como se viu claramente no caso tunisino, se não for capaz de corresponder aos anseios de uma classe média emergente, aculturada aos padrões ocidentais. De forma clara, o fim das barreiras de informação tem também um crescente e importante papel, até porque é na juventude que a ela tem acesso, muitas vezes sem emprego e sem perspetivas, que assenta muita da potencial "mão-de-obra" manifestante.

No caso do mundo árabe, estes fenómenos cruzam-se ainda com a presença do fator religioso, que tem uma relevância diferenciada em cada caso nacional mas que, onde e quando emerge com força, por via de proselitismo de influência ou mesmo por via democrática, coloca desafios de outra natureza. É que o Islão tem uma mundividência diferente de todas as outras grandes religiões, influenciando todas as áreas da vida quotidiana, a que a política não escapa. E, nas suas versões mais radicais, é incompatível com os modelos democráticos tradicionais.

Se a vida internacional não fosse uma coisa muito séria, quase poderíamos dizer que se torna hoje irónico ver o mundo ocidental a fazer figura de "barata tonta" face ao terramoto que abala o mundo islâmico: tanto se sente tentado a prolongar (sem o assumir abertamente) uma "realpolitik" que acaba por ser cúmplice de certas situações que (apenas retrospetivamente) acha intoleráveis, como aparece excitado (mas, lá no fundo, receoso com o que dai pode resultar, poque não dispõe de influência para condicionar o rumo das coisas) perante o aflorar desorganizado da vontade popular em certos Estados. 

Por uma vez, sejamos francos: o mundo desenvolvido euro-americano está - no mundo árabe, na África negra ou em certas zonas asiáticas - simplesmente a colher, não aquilo que plantou, mas o que deixou crescer, porque lhe dava jeito. E, claramente, não sabe hoje o que fazer.

15 comentários:

Julia Macias-Valet disse...

O mundo arabe esta a "rebentar pelas costuras"...os jovens (e nao so) têm vontade de democracia, 30 anos de poder ja nao é possivel no século XXI. E a seguir a Hosni...vem Gamal ?

Mônica disse...

Francisco
Voce explicou direitinho agora temos que torcer pela paz no mundo

com carinho Monica

Anónimo disse...

Do meu ponto de vista poderíamos incluir outros países que árabes e africanos e diria, ainda, que não só “deixaram crescer aquilo que lhes dava jeito” mas, também, mais de uma vez, colhem frutos do que “plantam”...
Porque sobre o que se passa na Tunísia, pode parecer incrível que estes tiranos exerçam o seu poder com o apoio internacional, e que possam esbanjar o país com a cumplicidade de governos e outros políticos “amigos” que lhes expressam palavras de elogio ou silêncios comprometedores... é óbvio que a prevaricação que servia de regra e a dimensão do enriquecimento pessoal não podiam passar despercebidas e que isto acontecia perante os olhos de quem não queria ver. E é quase sempre só quando os tiranos se esborracham que os ventos sopram diferentemente...
Simultaneamente a este “terramoto político” na Tunísia, constata-se que outro Presidente que tinha abandonado o seu país em condições muito semelhantes, há 25 anos, o Baby Doc, acaba de regressar a Haiti. Teria já gasto onde vivia desde então, aqui no sul da França, todo o dinheiro que ele e o seu pai antecessor desviaram de Haiti matando à fome e à pancada a população quando esta tentava resistir? ou quereria dar um sinal de esperança a Ben Ali e sua excelsa esposa que o exílio dourado não é assim tão ingrato e até se pode esperar um possível regresso?

Anónimo disse...

Subscrevo!
Acrescentaria um outro elemento, parte da tal globalização a que as sociedades desses países também não escaparam: a Net, Twitter, Facebook, etc, acabaram por vir a ter um papel difusor de ideias (ocidentais?), hábitos, valores, costumes,que então penetravam naquelas mesmas sociedades de uma forma menos, digamos, "subversiva".
Como muito bem refere, regimes, ou formatos institucionais, que não sejam regularmente legitimados, têm a prazo os dias contados.
Resta saber como todo este turbilhão, nos países onde está a eclodir irá acabar. E se irá alastrar ainda a outras países. Aqui, ocorreu-me a Arábia Saudita.
Vamos seguir e aguardar pelo desenrolar dos acontecimentos.
P.Rufino

patricio branco disse...

o que se passa nestes países árabes é em certa medida semelhante ao que se passou com o mundo comunista leste europeu em 1989-90. A gota fez transbordar o copo e a partir de agora é dificil segurar a corrente dos protestos e voltar à situação anterior. Mubarak terá muita dificuldade em se manter, mesmo substituindo o governo ou com profundas reformas democraticas e o mesmo com o seu filho que ele preparava para a sucessão. Não chegarão às próximas eleições e eles sabem isso.
O enigma é o factor religioso como se diz FSC na entrada do blogue, sobretudo o radical. No entanto, o egipto não é o irão nem o afganistão, é um estado mais laico, bastante ocidentalizado. Passamos então ao papel das FFAA no processo. Qual será?

Alem da tunísia e do egipto, irá haver mais movimentos semelhantes (já começaram)noutros países. Uma onda de renovação tal como na europa de há 20 anos. Por mim, não lamento mubarak nem ben ali, já tiveram a sua parte de poder, Mas estou inquieto pelo futuro desses países.

CybeRider disse...

E que tal se os seguidores do blogue com perfil no facebook pressionassem o "gosto" nesta página?

http://www.facebook.com/pages/Francisco-Seixas-da-Costa/133392116703959?ref=sgm

Eu já fiz a minha parte! Consciente de que todos somos ainda assim muito poucos.

E sinceros agradecimentos ao autor pelo melhor texto do dia sobre este assunto complexo!

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro CybeRider: mas eu não estou (julgo eu!) no Facebook!

CybeRider disse...

Efectivamente penso que se trata de uma nova funcionalidade da rede social, quando fazemos uma pesquisa que eventualmente não produza resultados, ela é redireccionada para a Wikipédia e cria automaticamente uma página ligada ao conteúdo ali existente de quem procuramos. Penso que é este o mecanismo. Eu procedi assim, e encontrei a página que refiro que contava já com 8 seguidores -lamento não ter sido o primeiro- neste momento ainda somos só 14. Mas faço votos para que o número aumente rapidamente!

cunha ribeiro disse...

É bom que nos preocupemos com o que se passa nos países árabes onde a revolta se espraia.

Mas olhem que não vejo os europeus livres de que o DOMINÓ lhes venha a cair em cima.
Nos países europeus há muito político, e muita política, a pedir ao povo que saia à rua. E PORTUGAL nunca esteve tão necessitado de "jovens que se revoltem"...

Julia Macias-Valet disse...

Caro P. Rufino penso que antes da Arabia Saudita, a "onda sismica" vai muito provavelmente afectar a Jordânia, a Siria, a Étiopia...deixando Israel numa situaçao muito pouco à vontade.

Anónimo disse...

Estimada Júlia,
Posso estar redondamente enganado, mas julgo que a Jordânia escapará, “so far”, à convulsão. Quanto à Síria, neste momento já devem estar “preparados” e, por outro lado, têm “apoios”, no mundo islâmico, dada a sua proximidade geográfica com Israel e a sua posição anti-Israel. A Síria é um baluarte anti-israelita, que o mundo árabe não subestima. Bem pelo contrário. Mas, quem sabe? Nisto de crises políticas, às vezes acontecem as situações mais imprevisíveis!
Quando mencionei o regime de Riad, não queria com isto dizer que acreditava que uma crise idêntica eclodisse aí. Tenho mesmo sérias dúvidas. Mas também posso estar muito enganado. Não me admiraria todavia era que outros países venham a ser afectados. Pode acontecer. Aguardemos. Já a Etiópia, não sendo um país muçulmano, so to say, e com características diferentes, não a estou a ver a ser atingida por esta onda de revolta. Uma vez mais, posso também aqui estar enganado. Previsões fazem-nas os nossos comentaristas caseiros, a propósito de tudo e nada. Com os resultados que conhecemos. Não eu. Longe de mim. Quanto a Israel ficar numa posição pouco à vontade, creio que já assim está há muito a esta parte, desde que optou então por políticas pouco responsáveis, conservadoras, agressivas, que atentam contra os Direitos Humanos, pouco flexíveis, arrogantes, não-dialogantes, enfim, numa espiral de rotura que contraria aquilo que Yitzhak Rabin pensava e por causa disso veio a ser assassinado, por extremista judeu.
Por mim, enquanto cidadão do Mundo, limito-me a observar à distância, no confortável sofá de minha casa, o desenrolar dos acontecimentos. E esperar que, de toda esta convulsão política saiam soluções melhores do ponto de vista económico-social para aqueles povos.
P.Rufino

Julia Macias-Valet disse...

We'll see...

Bem sei que Etiopia nao é um pais muçulmano, mas quem falou aqui de revoltas religiosas ?

Os paises que enumerei têm uma ampla experiência em repressão e defesa dos regimes autoritários.

Anónimo disse...

Cara Júlia,
Nunca vi essa situação como de revoltas religiosas. Estamos ambos de acordo. São conflitos de outra dimensão e características bem diferentes. Que querem uma mudança de regime, menos autoritátio.
Abraço!
P.Rufino

Julia Macias-Valet disse...

Um abraço também para si, P. Rufino : )

Anónimo disse...

Parece-me que Portugal pode estar muito mais proximo de um movimento identico ao que acontece atualmente no mundo muculmano do que se pensa.
Mesmo paises como a Espanha, Grecia, Irlanda, Italia, Bulgaria e Romenia, nao me parecem que estejam a salvo.
Os motivos nao sao muito diferentes do das populacoes do Egito e Tunisia. Desemprego, pobreza, desigualdade na distribuicao da riqueza e dos sacrificios para "ultrapassar" a crise, fim dos apoios estatais para grandes franjas da populacao, aumento da inflacao (principalmente nos bens de primeira necessidade. Agravado pelo aumento do preco do petroleo), a falta de credibilidade da classe dirigente e politica em geral, e a percepcao da populacao de que aqueles sao incapazes de melhorar a sua situacao ou sequer de apontar um caminho, etc.
A unica diferenca e nao serem regimes autoritarios e repressivos.
Quanto a periodica legitimidade democratica dada aos governos, so funciona quando os eleitores acreditam nos partidos e no sitema politico. Como se tem visto com o aumentar da abstencao e votos em branco nas eleicoes em Portugal, as populacoes estao alheadas, desconfiadas e descrentes da politica e dos politicos.
Espero que nao, mas vamos la a ver se a Europa nao e sacudida pelas ondas de choque vindas do Mediterraneo.