domingo, janeiro 23, 2022

Teste

Um teste ao vosso sentido democrático: imaginem que, nas eleições de dia 30, o Chega tinha hipóteses de ganhar e que, por uma qualquer moscambilha, tinham possibilidade de impedi-lo. Faziam-no? (E não venham com a falsa simetria com o Bloco, está bem?). Não vale a pena responderem. Pensem!

Vote!

Fui votar por antecipação. Como sempre fiz no passado, mas por maioria de razão nos difíceis dias que correm, agradeci aos membros da mesa de voto a sua disponibilidade cívica para nos ajudarem a praticar a democracia.

Viena


Comprei este óleo, por uma pechincha, há quase 20 anos, num leilão no Doroteum, em Viena. Representa a Stephansplatz, onde o Graben (onde vivi, entre 2002 e 2005) encontra a Kartnerstrasse. 

De memória, passando por lá, há não muito tempo, tentei fotografar uma perspetiva idêntica. Encontrei-a agora nas minhas fotografias. Constato que não é bem a mesma coisa. 

sábado, janeiro 22, 2022

Até que enfim!




Fim de todas as portagens? Claro que sim! E já vem tarde! E também dessa obrigação, iníqua e absurda, que é o ter de pagar a água, a eletricidade, o gás, a renda de casa ou proceder à liquidação de empréstimos aos bancos - esses agiotas! Antecedendo, claro está, essa medida essencial que é a gratuitidade da gasolina e do gasóleo. Algum partido falou disto? É o falas! Estão todos feitos com a Galp, a BP, a Repsol e companhia!

E também ninguém fala, já viram? na necessidade, urgente e imperiosa, da eliminação desse abusivo (e até incomodativo) hábito que é a apresentação da conta no final das refeições, nos restaurantes, ou à saída das lojas, depois de uma simples compra. Então, se precisamos das coisas (se não precisássemos, vá lá!) há direito de alguém vir pedir-nos dinheiro por elas?! É um absurdo, mas ninguém toma uma atitude! “Não se paga nada!“ tem de ser, mais cedo ou mais tarde, a palavra de ordem na vida portuguesa. 

Finalmente, o nosso país aproxima-se, fulgurantemente, do glorioso momento de libertação em que acabará por ser proposta, por algum partido decente, essa medida, básica e mais do que justa, que é o fim definitivo de todos os impostos - um inaceitável açambarcamento dos nossos recursos privados pela sinistra máquina do Estado, para alimentar calões e políticos, uma das maiores violências a que os cidadãos continuam a ser abusivamente sujeitos. É preciso “secar” de vez essa máquina deletéria que é a administração pública!

Têm dúvidas sobre a legitimidade desta medida? Ai sim?! Então por que razão ninguém tem a coragem de levar referendo - esse tão sensato e nada demagógico nem populista método de aferição de vontade coletiva - a simples pergunta: “Quer continuar a pagar impostos?” Têm dúvidas sobre o resultado do referendo? Eu não. Mas eles não têm coragem… Cambada de cobardes, é o que é! 

Anseio, alías, pelo dia em que seja igualmente aprovada a revogação da medida - iníqua, repressiva e iliberal - que é a proibição da caça aos gambozinos, decisão de matriz gonçalvista que, estranhamente, ainda persiste no ordenamento legal nacional. O PAN não gosta? E ninguém se importa com o que pensa a CAP? E dizem-se eles democratas! 

Zambeze


Fui lá, pela primeira vez, já há muitos anos. E gostei. Volto, de quando em vez, sempre sem me arrepender. Fica a meio caminho entre a rua da Madalena e o castelo, por detrás do CDS, um pouco antes do Chapitô, com o qual partilha uma deslumbrante vista sobre Lisboa. O Zambeze apresenta uma bela e competente lista onde, juntamente com a culinária portuguesa, se podem encontrar algumas notas gastronómicas moçambicanas (tal como acontece no Ibo, no Cais do Sodré), tendo aliás ao seu serviço pessoal da mesma origem, que são de uma extrema gentileza e eficácia (mas, hoje, a cozinha esteve um tanto lenta). Come-se ali muito bem, numa excelente relação qualidade/preço. E para estacionar o carro, naquela área? já estou a presumir o leitor a perguntar. É muito fácil. O Zambeze fica no topo de um prédio com um amplo parque de estacionamento, ainda por cima com um conveniente Pingo Doce na base.

A senhora loira


Ao final da tarde de ontem, entrei na livraria Férin. Depois da Bertrand, a Férin é, seguramente, a mais antiga livraria de Lisboa. Nunca me aproximo das suas duas montras sem me lembrar da angústia de Artur Corvelo, a personagem de “A Capital”, de Eça de Queiroz, tentando perceber se o seu “Esmaltes e Jóias” estava a vender bem. Não estava.

As mesas da Férin, desde que a conheço, têm uma lógica de apresentação única, entre todas as livrarias da capital. Oferecem-nos, muitas vezes, belas surpresas, em especial em livros estrangeiros, onde Lisboa é quase um deserto. Ontem, deparei com as memórias de um diplomata brasileiro que me interessaram e que comprei. E, de caminho, lembrei-me de um episódio antigo. Logo perceberão porquê.

Foi um jantar com umas dezenas de convidados, na residência do embaixador egípcio, na Asa Norte de Brasília. Tínhamos chegado ao Brasil há poucos dias, nesse início do ano de 2005. O meu colega do Egito quis ter a amabilidade de nos convidar, quase de imediato, dando-nos assim as primeiras boas-vindas, talvez por indicação do seu antecessor, que era nosso amigo em Viena.

O jantar era um esplêndido "buffet". À entrada, soubemos a mesa que nos competiria mas, mais tarde, quando lá chegados, verificámos que não havia cartões, que era "free seating", o que não nos permitia conhecer com facilidade quem eram os nossos comparsas da refeição. Uma das exceções era eu. A embaixatriz, delicada, convidou-me para ficar à sua direita, como convidado de honra do jantar. No meu outro lado, sentou-se uma senhora, cujo nome e nacionalidade não entendi bem, na rápida e algo atabalhoada apresentação que fizemos, com outros convidados à mistura. À mesa, toda a gente se expressava em inglês. Era uma mulher loira, com a pele muito clara e um sorriso sereno. Uma interessante companheira de mesa, logo pensei.

Durante alguns minutos, conversei com a nossa agradável anfitriã. Depois, na alternância protocolar do costume, voltei-me para a vizinha do outro lado e troquei com ela algumas palavras de circunstância, de elogio sobre a comida, sobre a casa ou qualquer outro tema para encher o tempo. Na mesa, as conversas prosseguiam em inglês. Não tinha percebido a nacionalidade da senhora, mas não lha perguntei, porque não queria dar a ideia de que estivera desatento, quando ela me fora apresentada. Disse cá para mim: com o tempo, lá chegarei! Quantas vezes, na vida, isso me aconteceu! E fui-me divertindo com o processo de adivinhação. 

Desde o início, fiquei com a sensação segura de que devia ser nórdica. Talvez mulher de diplomata (pela idade dela, imaginei que o "partner" já podia ser embaixador), porque tinha um discurso bem cosmopolita. Não entrou no "talking shop" sobre a política local, típico das "chères collègues", pelo que concluí que não era, ela própria, uma embaixadora estrangeira em Brasília (eu, recém-chegado, ainda não conhecia a maioria dos meus colegas). Estava bem vestida, mas num estilo clássico, o que excluía que fosse de uma qualquer ONG. Não tinha também a linguagem viciada de algum pessoal de organizações internacionais. Não lhe notei aquelas "inspirações" quase asmáticas, tipicas das interjeições, que as norueguesas costumam fazer. E não tinha o toque "viseense" do falar islandês. O seu inglês (que não era o típico americano ou outro "nativo", o que excluía que fosse britânica ou irlandesa) não tinha o "arranhado" dos dinamarqueses, nem a tonalidade algo rural que identifica, "por uma pinta", os finlandeses. Fez um comentário simpático sobre qualquer coisa da Rússia, pelo que, de imediato, deduzi que não podia ser originária de um país báltico. E, claro, pela mesma razão, também não seria polaca. Aliás, algumas ideias que perpassavam no seu discurso, com alguma "rightousness" um tanto puritana e pouco "free-marketeer", fizeram-me afastar, em definitivo, a hipótese de ser de um antigo país comunista da Europa. É isso, por exclusão de partes, devia ser sueca! Teria estado em outro posto antes de Brasília ou não? Arrisquei:

- Did you come to Brazil straight from Sweden?

Olhou-me, surpreendida:

- From Sweden? No!

Já não tinha recuo. Tive de perguntar:

- But where are you from?

- From Brazil, of course! 

Aí dei uma gargalhada do tamanho da sala. Revelei que era o novo embaixador português (ela explicou depois que achara que eu era, imagine-se, grego!) e a "loira sueca", afinal brasileira de gema, disse-me que era diplomata, casada com um outro diplomata brasileiro, que estava sentado no outro lado da mesa. E que, curiosamente, o seu último posto fora… Lisboa! Convém ter sempre muita atenção nas apresentações, concluí, uma vez mais.

O livro de memórias que ontem estava à venda na Férin foi escrito por aquele que era então marido da senhora. E que já não o é, nos dias de hoje. Contudo, com insuperável elegância e continuada amizade, o livro também é dedicado à sua antiga mulher. Bonito!

sexta-feira, janeiro 21, 2022

Cabeças no ar



O exercício da diplomacia, em postos de elevada tensão, em países em conflito armado, necessita de escapes que permitam aligeirar os dias, permitindo conferir ao quotidiano, às vezes muito cansativo, rotineiro e exasperante, alguma graça. A imaginação joga assim um papel essencial e uma boa gargalhada, num ambiente pesado e difícil, acaba por ser um bálsamo.

Esta é uma história passada na nossa embaixada em Luanda, na primeira metade da década de 80 do século passado. Pela cidade, havia recolher obrigatório, vivíamos quase todos num mesmo prédio onde também trabalhávamos, Luanda praticamente não tinha comércio nem restaurantes, as batatas, os ovos, o café (!) e muitas outras coisas eram, por cada um de nós, adquiridas em Lisboa e chegavam, todas as semanas, pela ansiada mala diplomática. Salvava-se o sol, a cerveja, o whisky e a amizade. E a idade que então tínhamos.

No pressuposto de que a embaixada de Portugal era a mais bem informada da capital angolana - o que, aliás, era pura verdade - os nossos diplomatas eram muito procurados por colegas ocidentais sobre temas da política local, sobre a situação militar no país, para tentar “tirar nabos da púcara”, “checkar” boatos e, muito em particular para saber “quem era quem” que emergisse na “nomenklatura” do regime, qual a sua importância relativa futura no processo político decisório. Pressupunham eles que nós “bebíamos do fino”! Às vezes sim, às vezes sabíamos tanto como eles! 

Um dia, entrei no gabinete do ministro-conselheiro, José Guilherme Stichini Vilela, substituto temporário do embaixador, que estava à conversa com o seu homólogo britânico. Era um amigo comum e, não havendo segredos entre nós, sentei-me por lá.

Ouvi-o então contar ao homem do “Foreign Office” uma história espantosa, que metia cabeças humanas encontradas num saco, algures nos arredores de Luanda, tudo envolvido em contornos políticos misteriosos e não esclarecidos. Sem mostrar um mínimo de surpresa (essa impassibilidade é a atitude que se espera de um diplomata, mesmo perante a coisa mais absurda do mundo), eu estava intimamente espantado! Aquilo não podia ser verdade! Se fosse, eu teria sabido antes! A juventude tem destas coisas: eu achava então que, por ali, sabia “tudo”, que nada me escapava, da guerra ao “gossip” político de Luanda e à “futungologia”. 

Logo que saído o britânico, seguramente já a congeminar a feitura, para Londres, de um “bem elaborado telegrama” (expressão que, em outros tempos, era muito comum nas Necessidades), perguntei ao José Guilherme o que era aquilo a que eu tinha assistido. 

Ele tinha acabado de levar o “bife” ao elevador, e escangalhou-se a rir. Tinha-lhe apetecido divertir-se, fora tudo uma pura invenção! “Como eu disse ao tipo que era um mero boato que nos tinha chegado, não nos compromete”, retorquiu-me, com uma gargalhada. Acho que contámos o episódio ao cônsul-geral, Fernando Andresen Guimarães, que ainda se lembrará do assunto, mas rapidamente arquivámos a questão.

Passaram umas semanas. Pela mala diplomática, com carimbo de “secreto” e recomendação de que fosse mantida toda a confidencialidade, chegou à embaixada, de Lisboa, em papel sem timbre, numa informação oriunda “dos serviços de informação de um país amigo”, a historieta que o britânico tinha recolhido na nossa embaixada. Sem essa menção, claro. O José Guilherme, entre gargalhadas, ao ler o texto, reagiu: “ Há aqui coisas menos precisas! Ele não foi totalmente fiel à minha informação!”. Foi um momento de galhofa, à custa da “pérfida Albion”.

quinta-feira, janeiro 20, 2022

“A Arte da Guerra”


A reaproximação do Irão à Organização de Cooperação Islâmica, um breve balanço de um ano de presidência de Joe Biden nos EUA e as atribulações de Boris Johnson e do príncipe Andrew no Reino Unido são os temas desta semana na minha conversa com António Freitas de Sousa em “A Arte da Guerra”, na plataforma digital do “Jornal Económico”. 

Pode ver aqui.

David Davis


Ontem, na Câmara dos Comuns, o deputado conservador britânico David Davis lançou uma espécie de “bomba atómica” política, ao apelar, da bancada “tory”, a que o primeiro-ministro Boris Johnson saia de Downing Street.

Davis é um “maverick” da política britânica, uma figura que nunca receia a polémica. Foi o primeiro responsável ministerial para o Brexit, pasta em que ficou famoso por parecer olhar com alguma distância os dossiês técnicos e insistir em proclamações políticas incendiárias. Demitiu-se depois, com estrondo, do governo de Theresa May. Esteve então muito próximo de Boris Johnson, de quem vinha a dar sinais de afastamento nas últimas semanas e que agora parece pretender minar no seio do partido.

Conheço pessoalmente David Davis há mais de 25 anos. No final de 1995, acabado de entrar para o governo de António Guterres como secretário de Estado dos Assuntos Europeus, fui por ele convidado a ir a Londres. Era então o meu contraparte no governo britânico, como vice-ministro para a Europa. Era uma figura agradável, galhofeira, com a piada cáustica britânica, que dava ares de não se levar excessivamente a sério, o que é sinal de inteligência. É visceralmente anti-europeísta e, por mais de uma vez, deu sinais de ter ambições primo-ministeriais. 

Tinha-o conhecido bem, ao longo desse ano, em várias reuniões do “grupo de reflexão”, organizado no seio da União Europeia, para rever o Tratado de Maastricht. Portugal era representado nesse grupo pelo professor André Gonçalves Pereira, de quem eu era o “número dois”, ao tempo em que tinha o cargo de subdiretor-geral dos Assuntos Europeus.

O convite de Davis ocorreu por ocasião da primeira reunião em Bruxelas a que fui na minha nova função. Durante o almoço com os restantes colegas, Davis disse, a rir: “Um destes dias, os meus funcionários começam a ter ideias de me substituir”. Era uma referência ao facto de me ter conhecido, durante meses, como diplomata e, de um momento para o outro, ver-me no governo. Mas também era apenas uma graça: no Reino Unido, só pode ser membro de governos quem tem um assento parlamentar. Nenhum funcionário do Foreign Office, salvo de abandonar a profissão e conseguir ser eleito, pode aspirar a entrar para um governo. Com uma exceção: se for aristocrata e, por essa via, ter lugar na Câmara dos Lordes.

Na visita que fiz a Londres, Davis recebeu-me com grande simpatia, tendo mesmo feito uma entrevista conjunta comigo na BBC.

O novo governo britânico parecia inquieto quanto ao “novo” Portugal. Tentava perceber se o recém-empossado governo português, chefiado por António Guterres, ia introduzir alguma clivagem, em matéria de política europeia, face à linha seguida pelo anterior executivo, de Cavaco Silva. Alguma coisa devia ter “transpirado” de Lisboa que levava essa perplexidade. Imaginei que fosse a postura muito pró-europeísta de Guterres que estivesse a preocupar os britânicos, que cada vez se viam mais isolados no debate europeu.

Quando, depois de um almoço que me ofereceu no Foreign Office, eu disse a Davis que ia ter um encontro na nossa embaixada com um representante do Partido Trabalhista, vi-o reagir, perplexo: “Vais-te encontrar com os meus adversários?” Eu esclareci: “Quando os vossos ministros forem a Lisboa, asseguro-te que acharemos normal que eles se encontrem com figuras do PSD ou do CSD”. E rimo-nos.

De facto, a preocupação britânica tinha algum fundamento: é possível datar o início dos governos de António Guterres como o ponto de viragem para um crescente afastamento entre Portugal e o Reino Unido, no âmbito da Europa. Embora, depois de 1997, com o governo trabalhista de Tony Blair, tivesse havido alguma aproximação entre os primeiros ministros português e britânico, no terreno de Bruxelas, que me competia gerir, as dissonâncias foram sempre muito grandes, salvo nas questões de Defesa e Segurança e na atitude face à importância de manter o laço transatlântico. Nunca mais se atenuaram, julgo saber.

Veremos agora se Davis, com a sua ousada provocação a Boris Johnson, consegue o mesmo efeito que a célebre intervenção de Geoffrey Howe acabou por ter na queda de Margareth Thatcher, em 1990. Comparando o nível das personalidades envolvidas neste teatro de poder, pode talvez concluir-se que, três décadas depois, os atores têm uma grandeza bem diferente.

quarta-feira, janeiro 19, 2022

O mapa




Encontrámo-nos no Chiado, há dias. Tinhamos iniciado o nosso conhecimento em Angola. Ele pertencia a uma empresa portuguesa, eu trabalhava na nossa embaixada, onde estive colocado entre 1982 e 1986.

Já não nos víamos há muito tempo. Por isso, surpreendeu-me, quando exclamou: “Ainda me lembro do seu mapa. em Luanda!” Por um instante, não percebi. Depois, como dizem os brasileiros, “caiu a ficha”.

Em Luanda, tinha a meu cargo, além da área da cooperacão, a recolha da informação político-militar. Vivia-se a era de guerra civil, entre o Estado angolano e a guerrilha da UNITA. A nossa “intelligence”, nesse tempo, não tinha por lá ninguém dedicado ao tema. Por isso, cabia-me a mim ajudar o embaixador na elaboração dos relatórios sobre a evolução da situação que se vivia por todo país. Tarefa nada fácil. Salvo escassos voos para capitais de províncias, não nos era permitido sair de Luanda, nem tal era seguro. Tinhamos apenas um consulado em Benguela.

Acresce que o ambiente político bilateral era oficialmente muito tenso, com as relações entre os governos de Lisboa e Luanda marcadas por acusações e bastante desconfiança, potenciada esta pelo facto da UNITA atuar, em Lisboa, com uma liberdade que irritava fortemente as autoridades angolanas. Portugal era, em especial por isso, zurzido com regularidade no “Jornal de Angola”, a voz impressa do regime. 

Valha a verdade que, nos contactos pessoais locais, essa tensão era menos evidente. Os angolanos são dos povos mais cordiais com que contactei e, mesmo nesses tempos complexos, todos criámos amizades, que, no meu caso, até hoje perduram. Digo mesmo mais: se a vida era então difícil para nós, diplomatas, ela era bem mais difícil para a generalidade dos angolanos com quem contactávamos. E, paradoxalmente, era graças a essas pessoas que tudo se tornava um pouco mais fácil. Nunca esquecerei isso.

A embaixada trabalhava assim de forma deliberadamente discreta, procurando não correr o risco de pisar quaisquer linhas vermelhas, à luz dos limites que a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas impunha.

Um diplomata não é um espião, não usa meios ilegítimos, apenas coleta dados que sejam publicamente acessíveis e, naturalmente, procura juntar todos os elementos relevantes que possa recolher ou que, por qualquer via, lhe cheguem. A experiência obrigava a aferir sempre as coisas à luz de dois critérios essenciais: a credibilidade da fonte e a verosimilhança da notícia.

Luanda era um contínuo vespeiro de boatos, às vezes de desinformação. A todas as pessoas da embaixada, do Consulado-Geral ou dos serviços comerciais, chegavam diariamente “notícias”, que era preciso “recortar”, para as transformar em “informação” útil. Retirar de tudo aquilo o que pudesse ser a ”fotografia” da realidade era uma tarefa muito complicada. Mas fascinante.

Interessava-nos mapear constantemente a situação em todo o território angolano, procurando saber com precisão onde estavam cidadãos e interesses portugueses (o que, às vezes, era facilitado pelo respetivo recurso aos serviços consulares), tentando antecipar os riscos que corriam, em função da evolução do conflito no terreno, que era decisivo interpretar diacronicamente. Não podíamos, por exemplo, permitir a colocação de cooperantes, pagos pelo Estado português, em locais que entendêssemos perigosos, independentemente a opinião das autoridades angolanas. Já tínhamos mesmo pagado o preço de erros cometidos nesse âmbito.

Como é óbvio, num quadro de guerra civil, era vital ir acompanhando a relação de forças entre as duas partes, bem como as zonas por onde andavam os militares cubanos que assessoravam as forças armadas angolanas - as “gloriosas FAPLA”, na linguagem mediática oficial e única. E também era importante, no cômputo político desse tempo de Guerra Fria, onde o Portugal de então tinha o seu “lado”, saber onde e quantos “cooperantes” de “países de Leste” por ali andavam, bem como aquilo que faziam.

As conversas com cidadãos portugueses vindos das cidades do interior, nas suas deslocações a Luanda, tornavam-se importantes. Por eles, conseguiamos um retrato do ambiente que se vivia em cada cidade, da sua segurança, dos problemas de abastecimento, do ambiente social que se vivia, da atitude face às autoridades e face à UNITA. Esses portugueses eram uma espécie de “honorable correspondants”, para utilizar o modelo que a França criaram nas suas antigas colónias. Às vezes, perante a ausência de dados sobre uma determinada cidade, eu pedia ao Consulado-Geral: “ Se aparecer por aí alguém de X, liguem-me, porque gostava de falar com essa pessoa”.

Angola é muito grande, as cidades tinham mudado de nome e a guerra obrigava-nos a procurar descortinar zonas que nos eram completamente desconhecidas. Os nossos mapas, bastante precários, eram “do tempo do colono”, como então se dizia por lá.

Um dia, recebi uma proposta a que não resisti. Alguém se oferecia para me vender um grande mapa de Angola já com toda a toponímia atualizada. Era impresso na União Soviética! Preço? Duas garrafas de whisky.

O mapa não trazia nenhum segredo de Estado! Era uma mapa normal, copiado dos anteriores, com o desenho orográfico (montes e rios), as estradas (a maioria, por essa época, intransitáveis, por insegurança e degradação) e os caminhos de ferro (então parados). Ter os novos nomes das localidades dava-lhe um sentido prático inestimável.

Pressenti, contudo, estar na “borderline” das regras da Convenção de Viena. O mapa chegava-me por uma via ínvia, fora do mercado (mas onde é que estava o mercado?) A tentação falou mais alto. Comprei o mapa, coloquei-o na parede do meu imenso gabinete no edifício da então rua Karl Marx (tinha sido antes rua Vasco da Gama e é hoje avenida de Portugal) e, nos primeiros dias, foi um corropio de visitas, sob a minha constante ausência de resposta à pergunta “Onde é que arranjaste isto?”. É que, em toda a Luanda, quase não havias lojas abertas, pelo que era impensável haver um mapa “made in URSS” à venda. E eu não fora entretanto a Moscovo, onde seguramente também o não conseguiria obter.

Por esse tempo, no “Jornal de Angola”, eram publicados, com alguma regularidade, comunicados das FAPLA, onde eram (sempre) anunciadas “estrondosas vitórias” sob as forças da UNITA. Comecei a colocar no mapa pequenas marcas desses combates, com nota das datas. Acontece que a UNITA, em Lisboa, passou a difundir comunicados do teor similar, anunciando as “extraordinárias vitórias” das FALA (as suas forças armadas) sobre o “inimigo”, quase sempre também com datas dos incidentes. O mais das vezes, cada “equipa” reclamava vitória no mesmo “jogo”.

Ora a nós, mais do que quem ganhava ou perdia as batalhas, interessava-nos, como observadores, anotar a geografia dos combates. Porquê? Porque isso ia permitindo perceber que, semana após semana, a UNITA, tal como se pressentia, ia ganhando terreno e aproximando-se de Luanda. Lembro-me de, a certa altura, com base na observação cumulativa desses sucessivos episódios militares, e olhando-os sob a lógica das linhas orográficas por onde a progressão era mais fácil, chegar a prever a iminência de determinados ataques dos guerrilheiros a duas cidades. Que acabariam por ter lugar.

Um dia, tive a visita de um militar angolano no meu gabinete. Vinha por um assunto bem concreto, ligado a uma questão técnica qualquer. Olhou o mapa, aproximou-se e viu as notas com as datas dos confrontos. Antes que ele fosse mais longe em qualquer especulação, disse-lhe que tudo era retirado das comunicações oficiais angolanas e dos comunicados da UNITA. Vi que ficou algo perplexo. Desde logo, com certeza, por eu ter o mapa. Por coincidência ou não, nas semanas seguintes, as notícias divulgadas pelas “gloriosas FAPLA” passaram a ser bem menos detalhadas.

Pouco tempo depois, regressei de Luanda a Lisboa. O meu mapa “soviético”, de que o conhecido que encontrei no Chiado se lembrava, por lá ficou. Ainda ali existirá, quatro décadas depois?

terça-feira, janeiro 18, 2022

Os galos, a capoeira e coisas de pintar a manta

Na história das administrações americanas existe um conflito potencial clássico entre o responsável pelo ”Ministério dos Negócios Estrangeiros” (”State Secretary” que dirige o “State Department”) e o Conselheiro de Segurança Nacional (“National Security Advisor”). São, por assim dizer, dois ”galos” na mesma capoeira da ação externa.

É claro que houve já casos de serena coabitação entre os titulares de ambos os cargos, normalmente feita à custa do apagamento de um deles - e houve também exemplos de transição do NSA para “State Secretary”, mas não o contrário, claro. O facto de se tratar de terrenos “cinzentos”, com responsabilidades que podem conflituar, ajuda bastante à possibilidade de conflito. A circunstância do NSA estar fisicamente mais próximo do presidente tem redundado, muitas vezes, numa sua maior capacidade de influência junto do “chefe”. Mas não é irrelevante que o “State Secretary” tenha, sob o seu controlo, toda a máquina diplomática, em especial externa. Na realidade, a chave para esta equação é e será sempre o grau de audição que cada um desses protagonistas consiga obter por parte do presidente.

Resta acrescentar que, por vezes, surge um terceiro elemento que pode interferir nesta disputa, que é o “ministro da Defesa” (“Defense Secretary”) e, em casos raros, o diretor da CIA, às vezes através de jogos de alianças, que se tornam mais evidentes nas crises ou em tempos mais avançados dos mandatos.

Lembrei-me disto, há pouco, ao ler uma entrevista do NSA Jack Sullivan à “Foreign Policy”. Será que está garantida a sua compatibilidade com o “State Secretary” Anthony Blinken? Não faço ideia, embora a grande experiência de Joe Biden na área externa o torne menos dependente dos dois colaboradores principais nesse domínio, quiçá assim contribuindo para a paz inter-institucional.

E por cá, perguntará o leitor? Nós não vivemos num regime presidencialista. Embora o presidente da República tenha competências na área externa, o governo tem, nesse domínio, um papel central, quer através do ministro dos Negócios Estrangeiros, quer por via do próprio primeiro-ministro - neste caso, cada vez mais no terreno dos Conselhos Europeus, onde o nefando Tratado de Lisboa retirou visibilidade e influência direta ao chefe da diplomacia. Por isso, uma boa articulação entre o ministro dos Negócios Estrangeiros e o assessor diplomático do primeiro-ministo é essencial. E ela, ao que me chega, está bem e recomenda-se.

Mas nem sempre aconteceu no passado. A pequena história da paróquia provou que, em alguns casos, o choque de egos pode tornar-se letal. E quando, pelo meio, existia uma comunicação social que, embora tida por “independente”, era tudo menos isso, chegou a ser possível inventar, em tardes de canivetes curtos, histórias falsas de pintar a manta!

Este blogue

Os leitores atentos deste blogue - e são bastantes, em média mais de 1500 por dia - já se terão dado conta de que por aqui houve, no passado fim de semana, algumas alterações no “lay out”. Talvez se surpreendam se lhes disser que essas alterações foram involuntárias, provocadas por uma intervenção “técnica” desastrada, própria do “nabo” informático que continuo a ser. Estou a tentar regressar à “estaca zero”, mas não prometo resultados para breve, porque as horas são escassas e o saber não abunda.

segunda-feira, janeiro 17, 2022

Horta Osório



Nunca falei com António Horta Osório, mas confesso que há muito que tenho admiração por uma pessoa que, com indiscutível mérito, fez um percurso notável na banca internacional, unanimemente reconhecido. 

Por essa razão, e porque não faço parte de quantos se comprazem com a queda ou os azares dos “poderosos”, fazendo dessa atitude de cedência ao populismo uma filosofia invejosa de vida, lamento a recente crise que envolveu a sua carreira. O extraordinário trajeto profissional de Horta Osório, que está longe de ter acabado, merece melhor.

Em toda esta história, é curioso observar como a persistência cansativa da pandemia, de certa maneira, nos acaba por igualar humanamente. Afinal, nós e esses “poderosos” somos feitos da mesma massa e, perante situações quase limite, acabamos por revelar forças ou fragilidades insuspeitadas.

domingo, janeiro 16, 2022

A polémica do dia

Pronto! Com a decisão australiana sobre o tenista sérvio está criado um folhetim com todos os ingredientes: vedetas, política, teorias da conspiração e até pandemia. O mundo vive para consumir (e discutir) este tipo de histórias. Até à próxima.

Coisas simples

“Olha! Está um belo dia de sol!” Com os anos, dei por mim a valorizar cada vez mais as pequenas coisas positivas do quotidiano, mas, igualmente, a fazer um esforço para tentar preocupar-me o mínimo possível com o que acaso me corre mal, desde que não sejam coisas essenciais. Se chego junto do meu carro e vejo que tem um (novo) risco na pintura, digo cá para mim “que chatice!”, mas tento passar logo adiante, na lógica de que “o que não tem remédio remediado está”. Se perco a carteira, com os documentos, dou a mim mesmo um quarto de hora para me irritar, antes de ”esfriar” e tentar passar adiante, listando o que há a fazer para cancelar o cartão de crédito e ter um novo cartão de cidadão (Bem me basta tê-los perdido! Que me adianta aborrecer-me mais?) Esta técnica de viver, desde há uns tempos, inclui não ver praticamente telejornais, nem ler, nos jornais, notícias com títulos sobre “o que correu mal”. Dou-me conta de que também fujo, cada vez mais, aos “dramalhões” do cinema, às obras (mesmo que primas) angustiadas, às tragédias, aos filmes (mesmo que imperdíveis) e aos livros que “fazem pensar” e a coisas assim. (Alguns dirão: estás a perder coisas essenciais da vida). Por que será que “ando” assim ? Não tenho uma ideia segura, embora pense que talvez tenha a ver com o facto do hoje ser o primeiro dia do resto da minha vida, de estar sol e de eu achar que tenho ainda de aproveitar a tarde, porque a manhã já se foi. Deixo-os com esta filosofia de pacotilha, antes de ir almoçar, com bons amigos, a um restaurante sobre uma praia. Não compliquemos a vida! 

sábado, janeiro 15, 2022

“Lamassa”


É no meio do Estoril, terra com ruas onde sempre me perco. Instalações simples, arejadas, sem luxos. Tem poucos lugares. Ou se vai às 19:00 ou às 21:00. O serviço é atento, profissional, diligente. Tem uma lista de vinhos que surpreende. A conta foi justa. Come-se muito bem no Lamassa, a julgar pela experiência, que há que repetir. Lead: Pelos vistos, há um belo italiano no Estoril.

Campanha

Embora tenha visto poucos debates, mas pelas sínteses que vi e pelo que fui lendo, fiquei com a sensação de que esta campanha eleitoral está a ser esclarecedora e útil, salvo na prestação de alguns cromos histriónicos que tentam compensar pelo basqueiro a rerefação nas ideias.

Tréguas hipócritas

Depois do debate Costa-Rio, assistimos a valentes exercícios de hipocrisia. Pedronunistas mortos por ver Costa pelas costas juraram a pés juntos que o primeiro-ministro tinha arrasado. Passistas em travessia do deserto foram enfáticos nas loas à prestação daquele que detestam ver na liderança. No dia 30, tudo volta à normalidade.

É isto!

 


Quando teremos esta coragem? 

sexta-feira, janeiro 14, 2022

“If you go to San Francisco…”


Quem me mandou a mim procurar o link tão tarde?! Já estão esgotados os voos Madrid-S. Francisco por 190 euros!

Enfim, fiquei a recordar aqui

A dignidade da República

O incidente na sala de um partido na Assembleia da República não é um "fait-divers". Sem a menor ironia, acho aquilo gravíssimo.  ...