sábado, outubro 23, 2021

Aristides de Sousa Mendes


(Intervenção que ontem proferi na homenagem a Aristides de Sousa Mendes, na Casa das Artes, no Porto, numa iniciativa promovida pelos deputados do PS ao Parlamento Europeu)

Quero, antes do mais, manifestar o meu agradecimento à Dra. Isabel Santos, pelo amável convite que me formulou, para estar intervir nesta ocasião, representando, nesse seu simpático gesto, todos os colegas do seu partido no Parlamento Europeu. 

É, para mim, um privilégio - ao mesmo tempo, pessoal e profissional - a circunstância de estar aqui hoje, neste que é um tempo feliz, um tempo de tributo nacional à figura de Aristides de Sousa Mendes, personalidade que o Panteão Nacional, a velha igreja de Santa Engrácia, acaba de consagrar. 

De certa forma, esta tardia atitude de reconhecimento e de justiça para com esta personalidade, que hoje aqui nos reúne, acaba por assemelhar-se às históricas atribulações temporais da construção da igreja onde a sua memória fica para sempre guardada. Ironicamente, quase que poderíamos dizer que a justiça em torno de Sousa Mendes também seguiu um penoso caminho, similar àquele que marcou as “obras de Santa Engrácia”, como o povo antes dizia.

Há dias, dei comigo a pensar - e julgo que todos quantos estão nesta sala poderão fazer um idêntico exercício - quando teria sido a primeira vez que ouvi falar da figura de Aristides de Sousa Mendes. Ontem mesmo, decidi fazer essa pergunta a três conhecidos historiadores contemporâneos portugueses: quando é que tomaram conhecimento da existência de Aristides Sousa Mendes? 

Sem exceção, todos ficaram na dúvida, mas também todos tinham uma comum certeza, a mesma que eu tinha: isso só aconteceu após o 25 de abril, já na década de 80. Note-se que estamos a falar de acontecimentos ocorridos nos anos 40. Só quatro décadas depois é que eles chegam ao domínio público em Portugal, mesmo a entidades especializadas.

E a sensação que tenho é que essa informação, pelo menos no que me toca, surgiu de fontes do exterior, creio que de origem judaica, que seriam depois retomadas entre nós. 

Eu já era então funcionário diplomático - entrei para a carreira nesse belo ano que foi 1975 - quando soube que tinha havido um diplomata português que, durante a Segunda Guerra Mundial, havia desobedecido às ordens da ditadura - melhor, às ordens do ditador, que era então também ministro dos Negócios Estrangeiros do governo que chefiava. Essa pessoa, esse diplomata, havia decidido facilitar a emissão de vistos para Portugal a alguns milhares de refugiados, que apressadamente procuravam escapar à sina que a invasão nazi da França lhes dava como sinistro destino.

Terá sido por esses tempos, em que o nome de Aristides de Sousa Mendes surgiu pela primeira vez a muitos de nós, não há muito tempo aportados ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, que fomos confrontados com uma outra surpresa: afinal, Aristides de Sousa Mendes era bem conhecido dentro do ministério em que trabalhávamos. É verdade: ficou logo muito claro que, no seio das Necessidades, o nome de Aristides de Sousa Mendes estava longe de ser desconhecido. 

Sousa Mendes fazia já parte, como o tempo ajudou a constatar, daquilo que era considerado uma “vergonha” para uma certa carreira. Uso a palavra com todo o peso como a ouvi, por mais de uma vez. É que ele tinha sido a cara de quem tinha ousado dizer não a uma determinação do Estado Novo. O facto dessa instrução ser ignóbil - e é pedagógico lê-la, para se saber do que falamos - não absolvia minimamente quem se opusesse ao seu cumprimento. Era a questão da disciplina - temo mesmo falar de lealdade - que separava Sousa Mendes de quantos entendiam que ordens com um selo oficial eram para cumprir sempre, não eram para discutir nunca.

E aqui entronca uma segunda dimensão, porventura já com um viés político, e até social, que marca o olhar das Necessidades sobre as ações do cônsul rebelde. É que Sousa Mendes - e este é um aspecto muito interessante e que espero que entendam na aceção que quero significar - era “um deles”, era alguém que sempre se mostrara consonante com as finalidades do regime, que até tinha um irmão que fora ministro de Salazar. 

Sousa Mendes não era sequer um dissidente ideológico, alguém que se passara para o “outro lado” do mundo a preto e branco do Portugal de então, desses tempos das listas do MUD e resistência frentista contra o Estado Novo. Sousa Mendes era, muito simples e dignamente, uma pessoa de formação conservadora e o facto de o ser, a circunstância de não haver, por detrás das suas ações, uma motivação ideológica que pudesse ser vista como de oposição, torna - a meu ver - muito mais notável e genuína a sua revolta contra desumanidade que as circulares lhe queriam impor.

Nesse seu sobressalto ético, Aristides de Sousa Mendes encarna um corpo moral de valores que passa por cima de todas as ideologias. Fosse ele um homem de esquerda e dir-se-ia que cumpria uma agenda política. Ora sendo ele uma figura com anteriores e evidentes simpatias pelo Estado Novo, que então lhe queria “forçar a mão”, o seu gesto representa o que de mais nobre uma figura humana pode ter: a coragem de lutar, sem medo, pelo direito mais básico do seu semelhante, o direito à proteção e à vida.

No Ministério dos Negócios Estrangeiros, infelizmente para a honra do convento de Nossa Senhora das Necessidades, o tom oficioso predominante, por muito tempo, mesmo já bem dentro da democracia, e até titulado por figuras já aparentadas com essa democracia, era marcado por uma diabolização da imagem de Aristides de Sousa Mendes. Esse tom ia desde uma miserável e até hoje recorrente imputação de motivações financeiras, até a uma, mais benévola mas não menos menorizante, sobranceira desculpabilização, feita na base de uma perturbação mental que teria embotado, sem remissão, o equilíbrio do seu comportamento.

Como disse, tudo isto se passava já bem dentro do regime democrático, através de figuras que tenho por pessoas de bem (e eu gosto do conceito, não admitindo que ele seja apropriado por ninguém ), pessoas que eu me tinha habituado a respeitar profissional e humanamente. Essas pessoas, e não eram tão poucas quanto isso, sendo por décadas maioritárias em postos elevados da casa, continuaram, alguns mesmo até ao final da sua vida, completamente “colonizados” por esses preconceitos.

Alguns estarão a pensar: afinal não será de estranhar, atenta a estirpe social e política que sempre marcou a natureza da Carreira durante o Estado Novo, onde as escassas exceções de gente comprometida com a democracia mal sobreviviam num mar de obediência quase acrítica face ao regime. As coisas podem não ser bem assim, há “nuances” a considerar, mas admitamos, por simplificação, que esta pode ser uma justificação satisfatória.

Portanto, se por esse lado não há surpresas, por que razão o “outro lado“ nunca abriu a boca, a clamar do escândalo? Por que será que nunca ninguém, na oposição democrática portuguesa, alguma vez suscitou o facto de ter havido um funcionário público do Estado Novo que arruinou a sua profissão, a estabilidade da sua vida e dos seus familares, num gesto que, tendo configurado, no plano formal, uma desobediência burocrática, tinha atrás de si uma clara motivação ética, com consequências humanas que se vieram a revelar extraordinárias? 

Caramba! Passaram décadas! Havia panfletos, denúncias, sobre demissões, atos arbitrários e outras patifarias do fascismo. Nem uma palavra sobre Sousa Mendes! E, nesse outro lado da moeda, tinha havido um homem que, com coragem e dignidade, salvara muitas vidas. Lutando abertamente contra a vontade de Salazar!

Ninguém sabia? Ora essa! Se as Necessidades tinham sabido, e bem, ao ponto de o demitirem, a ala democrata que sempre existiu lá dentro, por muito escassa que fosse, não o sabia também? Por que é que isso aconteceu? Porque ele não era - outra vez - “um dos nossos”? Porque não era um anti-fascista, porque Sousa Mendes não tinha credenciais populares ou de esquerda? 

Imagino que possa ser considerado de menos bom gosto trazer aqui esta questão, nos termos em que a coloco. Mas faço-o porque acho extraordinário que os democratas portugueses, tantos anos decorridos depois da revelação dos pormenores deste caso, nunca tenham posto em causa a cumplicidade objetiva que, com o seu silêncio, acabaram por ter com o comportamento miserável da ditadura portuguesa.

Esta questão da “invisibilidade” do fenómeno Sousa Mendes, na vida política de quantos lutavam pela democracria em Portugal, podia-nos levar muito longe.

Há precisamente 27 anos, a Associação Sindical dos Diplomatas Portugueses, cuja direção eu integrava, decidiu criar um prémio para estudos académicos em matéria de política externa portuguesa. Recordo-me bem de logo ter sido aproximado por colegas - mesmo da minha geração - que entendiam que o nome de Aristides de Sousa Mendes, que tínhamos proposto para ser o nome do prémio, pudesse afinal vir a ter outros titulares, em moldes rotativos. Conhecendo bem “do que a casa gasta”, pressenti logo o que aí viria, no futuro, em matéria de patronos alternativos…

Nos anos seguintes, Jaime Gama, ministro dos Negócios Estrangeiros em dois governos do PS que tive o gosto de integrar, soube assumir as atitudes que se impunham, para a recuperação da imagem e estatuto de Aristides de Sousa Mendes. 

Teve como opositora a resistência de algum “establishment”, que procurou convencê-lo de que pairavam sobre Sousa Mendes persistentes nuvens de suspeição, que recomendavam grande prudência no reconhecimento da legitimidade das ações do cônsul rebelde. O movimento contra Sousa Mendes só se atenuou quando as leis inexoráveis da vida se foram impondo aos seus detratores. 

Quando, em 2007, era eu então embaixador no Brasil, um programa e concurso televisivo, em torno dos “Grandes Portugueses”, trouxe o nome de Aristides de Sousa Mendes à ribalta, escrevi um artigo de regozijo no “Diário de Notícias”. Logo recebi três cartas iradas de antigos colegas de carreira, lamentando a minha solidariedade com a figura do cônsul ostracizado.

Por estes tempos, essas vozes desapareceram, mas talvez não seja por acaso - melhor, sei bem que não é por acaso - que uma nova força política, que faz do ódio e da discriminação o eixo da sua doutrina populista, surge, por estes dias, a espalhar as habituais insídias contra Sousa Mendes.

Sousa Mendes ainda incomoda um certo país, ainda incomoda um certa camada diplomática tributária da pior herança do antanho, ainda motiva um certo ranço discriminatório, a que não é alheio algum anti-semitismo - é preciso dizer isto alto, com todas as palavras.

Sou, fui, um diplomata da democracia, com quase quatro décadas ao serviço da República. Tive um grande orgulho em ter sido um servidor público. Habituei-me a trabalhar sobre regras de disciplina e de lealdade funcional, num regime democrático que nos oferece todos os necessários “checks and balances” de um país livre.

O exemplo de Aristides de Sousa Mendes foi, até ao final da minha carreira pública, uma forte inspiração, no sentido de me ter ajudado a concluir que um serviço público sem ética, desprovido de valores e de sólidos referentes morais, que não questione a legitimidade daquilo que é levado a promover, numa espécie de “realpolitik” oportunista, é algo cuja dignidade não só é muito duvidosa como é simplesmente amoral. 

Como pessoa de bem, Aristides de Sousa Mendes, nessas horas angustiadas e confusas de Bordéus, terá prenunciado Régio: “Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí”. 

Não foi. Para sua honra e para nosso orgulho.

quinta-feira, outubro 21, 2021

Dona inflação

Está aí a chegar. Devagar, como quem não se quer fazer sentir de forma súbita. É uma senhora que todos nós conhecemos, de quem muitas vezes nos queixamos, mas que, por muito surpreendente que possa parecer, faz falta aos ciclos da nossa vida. Chama-se dona Inflação.

“A Arte da Guerra”


Esta semana, a minha conversa com António Freitas de Sousa, no “A Arte da Guerra”, o podcast da plataforma audiovisual do “Jornal Económico”, começa por abordar a posição alemã no processo de diálogo europeu com Ancara, bem como as ambições regionais da Turquia, com especial nota para a sua pouco abordada mas muito forte agenda africana. Depois, falamos do crescendo de tensões entre o Reino Unido e Bruxelas, pelo flagrante incumprimento britânico do protocolo que subscreveu sobre a Irlanda do Norte, não obstante recentes gestos de apaziguamento da Comissão Europeia. Na terceira parte do programa, tratamos da exemplaridade do processo democrático em Cabo Verde, demonstrado nas últimas eleições presidenciais. É feito um paralelo com os casos, também muito diferentes entre si, de São Tomé e Príncipe e da Guiné-Bissau.

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quarta-feira, outubro 20, 2021

As democracias de que a América gosta


Joe Biden tinha anunciado, ainda antes da sua eleição, a intenção de fazer uma Cimeira das Democracias, logo no primeiro ano do seu mandato. 

Assim, nos dias 9 e 10 de dezembro, um grande exercício telemático terá lugar, sob convite do presidente americano, envolvendo 77 países. 

Dois deles não são membros da ONU: o Kosovo, já com independência declarada mas só reconhecida por alguns, e Taiwan, uma democracia também sem o estatuto de membro da ONU e que os EUA sempre consideraram, formalmente, ser um território da “única” China).

As Nações Unidas têm, nos dias de hoje, 193 países. Descontados o Kosovo e Taiwan, fica a saber-se que Washington acha que há 118 países que não cumprem os “mínimos” para serem considerados democráticos (tirando o Butão, Andorra, Mónaco, Lichtenstein e São Marino, que, pelos vistos, não se “veem” da América, embora todas as ilhotas do Pacífico e Caraíbas por ali estejam).

Tem alguma graça olhar constatar que, nessa matriz de generosa escolha, se irão encontrar grandes expoentes democráticos como são Rodrigo Duterte, das Filipinas, ou Jair Bolsonaro, do Brasil. 
Atenta a lógica dessas e de outras presenças, é legítimo estranhar algumas ausências: Marrocos, Bósnia-Herzegovina, Jordânia. Outras, embora esperadas, como a Turquia e a Hungria, não deixam de ser de notar. 

Nenhum país no norte de África figura na lista dos convidados, tal como acontece com qualquer monarquia do Golfo. E Moçambique, a par da Guiné-Bissau e a Guiné Equatorial, é um Estados membros da CPLP que não foi escolhidos.

Joe Biden só por demagógica precipitação se deixou enredar neste estranho e inútil exercício seletivo. 
A pergunta é, eu sei!, uma impossibilidade absurda, mas merece ser feita: se a América ainda estivesse no tempo de Trump, com o seu sistema eleitoral “in shambles” e um Capitólio sob ataque de uns maluquinhos estimulados pelo chefe do Estado, será que seria convidada para a cimeira?

O PS e o seu orçamento

Em 2015, aquando da criação da Geringonça, o potencial efeito negativo pressentido na imagem externa do país, pela associação do PCP e BE à área de poder, viria a ser compensado pela criação de um “firewall” nas questões dos compromissos europeus, da NATO e em tudo quanto aqueles dois partidos tinham de mais desviante face ao que até então fora qualificado como o “arco da governação”.

O facto de um presidente com o perfil de Cavaco Silva, depois de todas as suas cassândricas adivinhações, ter acabado por dar posse ao governo de António Costa, acabou, ironicamente, por conferir a este maior credibilidade do que aquela que derivava da lógica política da solução encontrada. (O recente artigo de Cavaco Silva no “Expresso” é o pedaço de pão com que tenta tirar a espinha que traz encravada na garganta, desde 2015).

A fim de ser entronizado no poder, o PS teve de pagar um preço na reversão de privatizações nos transportes, bem como em algumas outras medidas de sentido idêntico. Fê-lo, contudo, com conta, peso e medida, por forma a não assustar investidores e prejudicar uma primeira impressão que queria criar.

Um terreno em que o PS foi sempre muito cauteloso foram as leis laborais, onde o “risco” Portugal poderia facilmente subir. É que os socialistas sabem que operam sempre num ambiente de potencial suspeição, quando adotem medidas que possam ser lidas, numa União Europeia muito “market-oriented”, como incompatíveis com os níveis nacionais de competitividade e, por isso, como menos sustentáveis na ação dos operadores económicos nacionais. Salvo escassas exceções, algumas apenas conjunturais ou de oportunidade, estes últimos não costumam esbanjar grande simpatia face ao Largo do Rato.

Grande parte da imprensa económica, aliás, é um espelho tão perfeito do preconceito que até se converteu num reflexo caricatural desses mesmos meios. Há também por aí um micro-partido que se esforça, à saciedade, para ser visto como leal súbdito político desses interesses.

À esquerda, o “abraço do urso” do PS aos parceiros acabou por tornar-se algo desconfortável para estes, pelas consequências eleitorais que se conhecem: os votantes tenderam a agradecer ao partido que lidera o governo e acabaram por ser “ingratos” para quem, afinal, terá forçado o PS a certas medidas.

Mas será que “forçou” mesmo? O PS é, gostem alguns ou não, um partido de esquerda e há nele muito boa gente que apreciou vê-lo seguir uma agenda de reversão das loucuras do tempo da Troika, fosse isso feito por pressão à sua esquerda ou por convicção própria. O caso das 35 horas na Função Pública é um caso típico de uma medida que visivelmente agrada às bases de votantes socialistas. No PS, há muito quem pense que, se é para executar políticas de direita, então há outros partidos no mercado. (Não vale a pena tentar conciliar o inconciliável: uns verão sempre as 35 horas como uma medida injusta e sem racionalidade económica, outros considerá-la-ão um passo no caminho certo e um gesto de justiça e de grande alcance).

O PS não o dirá nunca mas há que reconhecer que governou, embora com habilidade, nas margens da sua própria credibilidade política, no modo como esta é vista à esquerda. Na utilização imoderada do perverso mecanismo das cativações, que chega a ser insultuoso face à vontade democrática que antes aprova os orçamentos em sede parlamentar, e no incumprimento objetivo de compromissos assumidos com os parceiros, muitas vezes apenas para fazer “um bonito” na Europa, o PS foi, algumas vezes, longe demais. E está a pagar por isso.

É que os socialistas sabem que o PCP opera sempre com uma agenda “de rua”, seja para compensar a sua fragilidade nas urnas, seja para reforçar o seu poder, quando este ainda não declinara. No dia em que o PCP pressentiu que o custo de apoiar o PS na AR se tornava demasiado, essas “tropas” ficaram muito mais à solta. (Há uma interessante dialética entre o PCP e a CGTP que é uma das chaves da vida política na esquerda portuguesa, coisa que só raramente aconteceu entre o PS e a UGT). Terá chegado o momento do divórcio?

Nas horas que correm, para o PS, a questão é que muitas das medidas que os parceiros exigem para votarem este OGE, a serem aceites, poriam em causa a imagem de rigor que, desde 2015, quis preservar a todo o preço - perante o país e face à Europa. Essa é a fronteira que António Costa sabe que não pode atravessar. Não lhe invejo a tarefa! Mas desejo-lhe muito boa sorte.

domingo, outubro 17, 2021

“Hush-hush”


Não, não é um fantasma. É o reflexo no espelho de uma senhora que, desde que saímos de Campanhã, fala incessantemente com uma amiga a quem passa segredos que “peço que não contes a ninguém”. A amiga pode não contar, mas eu estou farto de os saber e também farto de a ouvir. Durará a chamada até Coimbra B?

Um recado a Moedas

O excelente jornal ”Mensagem de Lisboa” ouviu algumas pessoas, a quem pediu uma - e só uma - sugestão para o novo presidente do município de Lisboa, Carlos Moedas. Aqui fica a minha:




Mesas seguras


Tenho a mania de experimentar novos restaurantes. Mas há dias em que me sinto mais conservador e decido ir a locais seguros, sem surpresas, onde sei que não vou ter novidades mas tenho uma garantia segura de qualidade.

Foi o caso de ontem e hoje, nas menos de 24 horas que passei no Porto, onde, esta manhã, vim fazer uma “função” numa universidade.

Ontem, chegado a Campanhã, passei pela “Cozinha do Manel”, onde o Zé António tinha guardada para mim uma mesa, numa noite (felizmente) bem cheia de clientes. É a minha “cantina” preferida no Porto, ao lado de um hotel onde habitualmente me alojo, um ambiente solto, amável, de cozinha portuguesa tradicional. 

Hoje, antes de regressar a Lisboa, apanhando o Alfa Pendular em Campanhã, fui almoçar ao Líder, um pouso igualmente muito seguro perto da praça Velasquez, nas Antas, regido pela simpatia do Manuel Moura. Um restaurante de famílias aos fins de semana, de negócios nos dias úteis. 

As boas mesas nunca passam de moda.



sábado, outubro 16, 2021

“Observare”


No “Observare” desta semana, um programa que cumpriu precisamente um ano de existência, desde que surgiu na TVI24 - inicialmente, sob a moderação de Pedro Pinto e, depois, de Filipe Caetano e Pedro Bello Moraes - Luís Tomé, Carlos Gaspar e eu próprio falamos das reticências das instituições polacas face aos compromissos europeus do país, das contradições entre os discursos de Beijing e de Taipé e das tensões entre o Japão e a Rússia em torno das ilhas Curilhas. Pela minha parte, abordo o que parece poder ser o início de alguma “normalização” da Síria por parte dos seus vizinhos, o atentado terrorista na Noruega e o gesto positivo da Comissão Europeia para facilitar uma solução para a Irlanda do Norte, no contexto do Brexit.

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Touros


Acabo de descobrir, no caos das minhas estantes, um livro que há muito já havia perdido de vista.

Creio que foi em 1996, em Estrasburgo, que o Álvaro Guerra me brindou com este “La Corrida du 1er Mai”, de Jean Cocteau, primeira edição, de 1957.

A oferta tem uma história. O Álvaro, como bom vilafranquense, era um grande apreciador de touros e da tauromaquia. Eu, pelo contrário, era e sou um opositor das corridas de touros.

Durante os extraordinários jantares (digo bem, extraordinários, pelo requinte e sofisticação que a Helena colocava nesses ágapes) que o casal Guerra me oferecia na sua residência em Estrasburgo, onde ele era embaixador junto do Conselho da Europa, durante os anos em que dirigi as delegações às reuniões ministeriais da organização, tínhamos constantes mas sempre amigáveis discussões sobre a “legitimidade” das festas de touros no mundo contemporâneo.

O Álvaro desfiava-me então, para além de gente de esquerda, nomes e nomes de pessoas de grande qualidade intelectual, que adoravam espetáculos de touros - de Hemingway a Mailer, a Georges Bataille e a tantos outros. Numa dessas noites, deu-me esta obra admirativa da corrida, escrita por alguém que era um génio que ele sabia que eu apreciava - Jean Cocteau.

Não me convenceu, claro, e eu desafiei-o: “Escreva aí no livro uma dedicatória, para ficar bem registado o seu esforço em fazer-me mudar de convicções”. O Álvaro recusou: “Desculpe, mas não faço isso. Só assino livros meus, nunca livros que ofereço”. E fazia bem. Por isso, neste livro, comprado por ele num “bouquiniste” alsaciano, não consta o seu nome.

Ao encontrá-lo, há pouco, no dia em que, em Portugal, foi anunciada a lei que sobe a idade com que se pode assistir a uma corrida de touros, num óbvio “cerco” progressivo àquele espetáculo, lembrei-me de que este não seria um dia muito feliz para o Álvaro Guerra, um excelente amigo, jornalista e escritor que a vida fez diplomata. Mas isso que importa, se ele já se foi desta vida, há quase 20 anos?

sexta-feira, outubro 15, 2021

Partido

Não creio existir, na vida política portuguesa, partido mais autofágico e compulsivo destruidor de líderes do que o PSD. Descontando, claro, o PPD.

Ciro

Ciro Gomes, candidato presidencial brasileiro, é conhecido pelo descontrolo verbal, que sempre o leva a nunca perder uma oportunidade para perder uma oportunidade. A sua inegável inteligência é desservida por uma ambição desmedida. O que disse, de “grosso”, sobre Dilma Rousseff não só passou o limite como foi revelador da sua cumplicidade póstuma com golpes políticos baixos. Ciro conformou assim, a muitos mais, o que bastantes dele já pensavam.

Varela

Declaração de desinteresse: já tentei, mas não consigo interessar-me pelo caso Raquel Varela - seja contra, seja a favor. Mas desejo as maiores felicidades a quem se dedica ao assunto.

CD era…

"Uma direita democrática, liberal, conservadora, de matriz democrata-cristã devia saber que sociedade defende e com que medos e fantasmas se recusa a conviver. Qualquer hesitação baralha os eleitores, legitima discursos dúbios e dilui fronteiras fundamentais". Raquel Vaz Pinto

Ebulição política

Os jornalistas que escrevem sobre o PSD têm algum subsídio especial por estarem sempre a fazer horas extraordinárias? É que a ebulição política laranja obriga a uma cobertura mediática única…

Lei de cernelha?

Se o governo fizer uma lei a determinar que só possam assistir às touradas maiores de 16 anos (era para ser 18, mas não houve coragem?) e, no texto, logo abrir um “buraco” a subterfúgios e interpretações dúbias, não tenho um nome para isso que me evite a suspensão das redes sociais.

Quando um homem quiser?

As primeiras iluminações de Natal em Lisboa não rimam bem com o verão que ainda por aí anda.

BRE


Faço parte de uma geração diplomática para quem os interesses da indústria têxtil portuguesa estiveram sempre na primeira linha das preocupações profissionais. Passei horas, dias, anos a tentar explicar a ouvidos estrangeiros que, por detrás da invejada capacidade competitiva dos nossos têxteis, havia vidas, gente, empregos. Era difícil fazer entender aos nossos interlocutores o que era a tragédia social que se anunciava no Vale do Ave, se o nosso têxtil tivesse dificuldades em ser exportado. Vivi isso, anos seguidos, na União Europeia, no auge de uma globalização que se procurou fazer muito à nossa custa. Mas já me tinha acontecido antes.

As minhas angústias com o têxtil português tinham começado na Noruega, quando fui, como primeiro posto, para a nossa embaixada em Oslo, no final dos anos 70. Ambos os países eram então membros da EFTA. Nesse contexto, Portugal tinha-se obrigado a “auto-limitar”, dentro de rígidos limites quantitativos, aquilo que, em matéria têxtil, exportava para a Noruega. Foi a saga dos BRE, os Boletins de Registo de Exportação, uma espécie de autorização “rara“ que os nossos produtores disputavam junto do Instituto dos Têxteis: quem não obtivesse BRE não exportava e, ano após ano, era-nos exigido que emitíssemos menos, em mais posições pautais.

Numa tarde desses anos, passei pela montra de uma loja de Oslo. Estava à venda uma belíssima camisola tradicional norueguesa, bege, com desenhos em tons de castanho. Era muito cara. “Ficava-te lindamente!”, disse-me a minha mulher. “Não compro têxteis a esta gente! Era só o que faltava! É uma questão de princípio!” E continuámos a passear, pela neve.

Semanas depois, no dia do meu aniversário, acordei com a camisola embrulhada, como presente. Fiz de conta que me zanguei. 

Há dias, na minha terra, em Vila Real, abri uma gaveta e lá estava ela. A bela camisola norueguesa! Ainda gosto dela, mais de quatro décadas depois. Mas olho-a como uma eterna traição ao têxtil português.

Não vão ser tantos...

... os que hoje levo para a praia, mas não anda muito longe disto.