quinta-feira, maio 06, 2021

 


Verdes, na Escócia


Era um domingo. Creio que foi em 1993. Perto de Glasgow. Numa bomba de gasolina, numa localidade pequena.

Atestei o depósito, entrei na loja, levei, de uma prateleira, o “Sunday Times Scotland” e fui pagar. Ao balcão, uma senhora, na casa dos (então meus também) quarenta, com uns olhos verdes. Deslumbrantes.

Chegado à porta, voltei atrás e disse à senhora, sem grande jeito para estas coisas: “Não vai levar a mal se eu lhe disser uma coisa? Tem uns olhos lindíssimos! É só isso que queria dizer-lhe!”.

Ela sorriu, levemente, e disse “Thank you!”

A minha dúvida é se ela tomou nota da matrícula, do nome no cartão de crédito, se isto pode ser considerado assédio e se o crime terá prescrito, não obstante eu poder invocar imunidade diplomática. Estou a brincar? Não, já não sei se estou a brincar!

“A Arte da Guerra”


Falamos da reunião entre a União Europeia e a Índia, das atribulações de Emmanuel Macron com os militares franceses e, finalmente, do modo como o papa Francisco está a gerir a transparência financeira do Vaticano.

Pode ver aqui.

Ser “benfiquista”!


Há muitos anos, num corredor das instalações do serviço do MNE que tratava da Europa comunitária, ali pela Visconde de Valmor, revelei que ia nessa noite à Luz ver um jogo internacional em que intervinha o Benfica. E saiu-me a frase: “Vamos lá ver se ajudamos os lampiões a passarem esta eliminatória!”. 

Vi então um jovem colega, o José Menezes Rosa, franzir o sobrolho e, sorridente, lançar com ar definitivo: “Um sportinguista nunca quer que o Benfica ganhe, em nenhuma circunstância!”

Anotei a doutrina. Não sei por onde anda no mundo, nos dias que correm, o meu bem mais jovem colega José Menezes Rosa. Mas gostava de saber. Apenas para lhe perguntar se, na tarde de hoje, no jogo entre o  clube da Luz e uma equipa do norte cujo nome agora me escapa, ele não vai ser um fervoroso “benfiquista”. Eu até as “papoilas saltitantes” vou cantar!

Sancho


Aqui por Lisboa, há alguns, poucos, restaurantes em que a moda quase não toca. Muitos dirão: e ainda bem! Um deles é o "Sancho", na Travessa da Glória. bem junto aos Restauradores. É um restaurante que conheço há várias décadas, que não aparece com frequência nos guias, que não anda nas bocas da crítica, mas onde, desde há muito, se pode encontrar uma cozinha sólida, sã, com uma qualidade constante que, não lhe conferindo um espaço de destaque nos Michelin & Cia, lhe garante um lugar na simpatia de muita gente que o frequenta, alguns com persistente e leal regularidade. Voltei lá, não há muito tempo, para um almoço de trabalho, com um amigo. Cheguei antes dele. Disse o seu nome e logo alguém ordenou: “Leva o senhor embaixador à mesa do senhor doutor...”. Como já lá não ia há uns tempos, tive de fazer “de conta” de que não fiquei surpreendido por me terem identificado (ou teria sido o meu amigo que alertou, como hipótese mais modesta). O almoço foi agradável e, a aquilatar pela lista que no início consultei, os preços estão numa escala de razoabilidade. Não posso dizer que saí esmagado de luxúria gastronómica, mas - com a franqueza com que digo sempre aquilo que penso dos locais que visito - posso dizer que fiquei satisfeito. Uma cozinha de restaurante para uso regular é aquilo mesmo: qualidade sustentada, serviço atencioso, cuidado com os clientes, tudo coisas que, nos tempos que correm, fico sempre contente por encontrar em Lisboa. Não sei quando vou voltar ao Sancho, mas, da próxima vez que andar pelo pelo fundo da Avenida da Liberdade, vou-me lembrar deste restaurante onde, pela primeira vez, nos anos 60, um tio que já lá vai há muito me levou a almoçar, numa primeira aprendizagem das mesas de uma Lisboa que, felizmente, ainda conseguimos reencontrar nos dias de hoje.

quarta-feira, maio 05, 2021

Pensem nisto!


O futuro e a nossa segurança passam por aqui.

Nunca interromper!


Por muitos anos, em Campo de Ourique, havia dois restaurantes cuja clientela se dividia bastante, ideologicamente. 

Os socialistas iam muito ao “Tachinho” (nada de graças, está bem?) e os social-democratas enchiam o “Comilão” (aqui, se quiserem fazer humor, façam favor!)

Talvez porque sou “do contra”, sempre fui um frequentador deste último e só raramente passava pelo primeiro. 

O “Comilão” é talvez o restaurante português a que o PSD pode chamar mais “a nossa casa”. Uma das suas paredes está cheia de fotografias de figuras gradas da constelação histórica social-democrata. Mas não só!

Um dia, recomendei a um amigo que fosse lá almoçar. Quando lhe perguntei que tal tinha sido a refeição disse-me: “Entrei cheio de apetite mas perdi-o logo, ao olhar a parede...”

Passos Coelho, que vivia perto, além de um grande amigo da casa, foi um seu frequentador regular. Mas encontrei por lá, ao longo dos muitos anos de cliente que também sou, uma miríade de gente do PSD. Não sendo dessa “freguesia” política, devo dizer que fui sempre muito bem tratado no “Comilão”, porque aquela é uma casa em que, no que toca a clientes, não há sectarismos!

Há mais de duas décadas, no meus anos de passagem pela política, gostava muitas vezes de almoçar por lá sozinho, com uma montanha de jornais e papelada para ler. Ia tarde, quando a maioria dos clientes já tinha zarpado. Os meus amigos Cardoso e Nelson (o primeiro, um sportinguista de raça, o segundo um lampião de carteirinha) arranjavam- me então duas mesas anexas, onde eu podia estender todo o meu “material”.

Numa dessas vezes, quiseram-me colocar junto de uma mesa onde estavam, num evidente “tête-à-tête” de conspiração, duas figuras muito importantes e muito conhecidas, ambos antigos e futuros ministros, do PSD. Na altura, o líder do PSD era o chefe da oposição ao governo de que eu fazia parte e sabia-se que a sua condução das hostes social-democratas estava longe de fazer a unanimidade (um velho hábito no PSD, como é sabido). A coreografia da conversa apontava para estarem a “cortar na casaca” do seu líder...

À entrada, eu tinha cumprimentado essas pessoas, que naturalmente conhecia, e procurava uma mesa adequada aos meus propósitos de leitura. O Cardoso, simpático, apontou-me um lugar, o qual, porém, logo notei que estava a “hearing distance” dos dois interlocutores da oposição. 

Eles, simpáticos e urbanos, sorriram, sem reagir, à ideia de me irem ter ali ao lado, preparando-se, pela certa, para terem de baixar o tom da conversa ou serem obrigados a modulá-la à luz do novo circunstancialismo. 

Eu tomei então a iniciativa de recusar o espaço que me era oferecido e, por forma a ser ouvido pelas duas figuras políticas, disse: “Muito obrigado, mas nessa mesa não pode ser. Não se estraga nunca uma boa conspiração contra um adversário...” Ambos riram e eu lá fui, para mais longe. 

Daqui a dias, tenciono regressar ao “Comilão”. Desta vez, espero poder comemorar uma coisa com o meu amigo Cardoso e receber os parabéns do meu amigo Nelson.

terça-feira, maio 04, 2021

País sem censo

Como já se previa, lá mudou a data para resposta ao Censo! Por que razão, neste país, quem cumpre os prazos vive sempre sobre pressão mas o lóbi dos incumpridores - por desleixo, por descaso, por se estarem “nas tintas” - consegue sempre uma boleia da vontade oficial?

Que medo! Vem aí o comunismo!


Este ano, em que celebra o seu centenário, está a ser de indiscutível glória para o PCP.

Uma paranóia bizarra de alguma direita anda por aí a relançar o "espetro" do comunismo. Podemos imaginar o que isto deve fazer rir, na sua tumba em Highgate, o velho Marx, o qual, curiosamente, comemoraria amanhã o dia em que veio ao mundo, lá por Trier ou Trèves, conforme queiram chamar à terra. Aliás, ele e o seu compincha Engels já tinham falado de como esse espantalho sempre assustava alguns, logo no primeiro parágrafo do seu célebre Manifesto.

O que é mais ridículo é que o tema, que se pensava que tinha caído fragorosamente com o muro, há uns anos, lá por Berlim, ressurja agora de forma caricata - apontando-se como modelos “de referência” o maluquinho dos mísseis da Coreia do Norte, o patético genérico de Chávez que, em fato de treino, atazana os venezuelanos ou os herdeiros empobrecidos dos reformados da Sierra Maestra, a quem o bloqueio americano ofereceu décadas de caribenho alento patriótico. Se o perigo vem dali...

Bem dizia o velho Karl que a História surge uma primeira vez como tragédia e uma segunda como farsa. O anti-comunismo, ao que se vê, também: andou em outros tempos pelo “Diário da Manhã” e pelo “Novidades” para acabar hoje no “ Observador”. Que maldade! Não se faz!

Alentejo desencantado

Há um país hipócrita que nasceu agora para a realidade das condições de vida miseráveis dos trabalhadores estrangeiros que trabalham nas estufas alentejanas. É escandaloso alguém vir manifestar surpresa perante uma questão que já nos envergonha há muitos anos.

O sal da vida

Gosto que o Sporting ganhe. Fico feliz pelo facto do meu clube ter conquistado um título internacional em futsal. Mas confesso que o futsal é uma modalidade que não me entusiasma minimamente. E também acho que não tenho de pedir desculpa por isso.

segunda-feira, maio 03, 2021

Então, nada?

“Então não publicas nada no teu blogue, hoje?”.

Já estava à espera disto, confesso. As novas tecnologias dão-nos uma vida impossível: três horas de Zoom de manhã, almoço a correr, gravação de um programa via Spype, uma reunião empresarial via Teams, ida à garagem (“a estimativa do conserto aponta para cerca de mil euros)”, duas horas a dar uma aula via Zoom, jantar à pressa e, agora, ir a uma reunião do outro lado da cidade servem de desculpa?

domingo, maio 02, 2021

Justiça

Nas redes sociais, houve uma acusação grave contra uma pessoa publicamente conhecida. Hoje, essa pessoa anunciou ter recorrido à Justiça, contestando a imputação que lhe foi feita. Num Estado de direito, uma acusação não é uma condenação. Deixemos que a Justiça decida.

Mãe

Alguém me fez notar, há tempos, algo que já me tinha ocorrido: naquilo que escrevo, refiro muitas vezes o meu pai e, muito raramente, a minha mãe. 

É uma verdade. Posso presumir que isso se deva ao facto de o meu pai ter sido uma pessoa com uma postura mais singular, mais afirmativa, mais “vocal” (no sentido anglo-saxónico), às vezes até mais cortante, na linha da tradição familiar que vinha da ala da família que era a sua. Lembro-me dos qualificativos que ele dava a algumas tipologias de comportamento, que nos ajudavam tão bem a perceber logo como alguém era. Como sobreviveu, por uns anos, à minha mãe, tendemos a concentrar ainda mais nele, e nas suas atitudes e ditos, a nossa atenção.

Não me recordo de ouvir algo de similar à minha mãe, a qual, no entanto, não deixava de ser uma personalidade bem forte e com imensa influência no curso de “funcionamento” da família, muito em especial junto do meu pai. Por isso, porque era mais dado a utilizar essas expressões - “isso é muito dos Costas”, ria-se a minha mãe -, ficaram-me, do meu pai, essas “citações”, que, às vezes, tendo a recriar no meu próprio estilo. 

Dela, da minha mãe, ficaram-me coisas essenciais, atitudes eternas de vida, ternuras que guardo, coisas que nem se escrevem. 

Hoje, dizem, é o dia das mães. Lembrei-me da minha, como me lembro todos os dias - e já lá vão 20 anos.

Deixo, como sua lembrança, e uma vez mais, este poema de Eugénio de Andrade que, quando o li, há uns poucos anos, me pareceu que lhe era dedicado:

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte. 

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
Dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Turismo de família


Tenho uns familiares que estão a pensar comprar uma propriedade, algures no Alentejo, para aí instalar um “turismo rural”. O entusiasmo da família com o empreendimento está a ser tal que todos já prometem ir lá passar uns dias. 

Temo que venha a passar-se o que, nos anos 20, do século passado, aconteceu com umas tias, irmãs da minha avó materna, que, aproveitando o que tinham recebido de uma herança, instalaram, nas Pedras Salgadas, o “Hotel Colonial”, num tempo em que ir “para as águas” estava na moda. 

Ao que consta, toda a imensa a família se aprontou logo a lá ir passar férias - na época “alta”, claro. Não faço ideia que preços “especiais” foram praticados. Só sei que o empreendimento acabaria por se revelar um desastre, como negócio...

“Observare”


Aí está o “Observare” desta semana. Neste programa da TVI, sob a moderação de Pedro Bello Morais, com Carlos Gaspar e Luís Tomé, fazemos um bosquejo das questões do mundo, desde o “estado da arte” da presidência portuguesa da União Europeia ao discurso de Joe Biden, ao final dos primeiro 100 dias da sua presidência, abordando igualmente a questão de Cabo Delgado. Pela minha conta, sublinho as controvérsias que envolvem o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, bem com saúdo a decisão do Parlamento Europeu de suspender a imunidade diplomática a um criminoso grego, que se escudava por detrás de um partido neo-nazi.

Pode ver aqui.

Avisem-me, está bem?


Queria pedir o favor de me avisarem quando a ponte suspensa de Arouca deixar de ter visitantes. Nessa altura, quando puder passar por lá (aproveitarei, já agora, para ir almoçar ao “Parlamento” e encontrar, pela cidade, a nossa amiga Josefina e, se calhar, o Joaquim Brandão, como me aconteceu da última vez), gostaria de ter essa experiência. Mas não antes!

Faço parte de uma “raça”, por mania própria, que faz questão de “não ir” às novidades. 

Todos os anos, faço uma deliberada abstinência às aparições fílmicas. Quando surgem películas que estão escaladas para ou já tiveram Óscares, a minha reação automática é não as ver. Deixo passar - a sério! - um ano ou dois. Passo quase vergonhas nos “dinêrs en ville”, quando toda a gente já comenta um filme e eu, olimpicamente distante, digo: “Ainda não vi!”. Já olhei muitas caras espantadas a mirar-me de pasmo. A minha mulher vive menos bem com isto, porque há muito percebeu (ter começado a namorar comigo há 56 anos, dá para me conhecer já um pouquinho) que eu faço isto deliberadamente. E começa a irritar-se! Por este andar, daqui a vinte e tal anos, há uma crise no casamento!

Com a ficção literária, atuo da mesma forma. “O Nome da Rosa”, do Umberto Eco, é a minha coroa de glória. O filme, com o Sean Connery, saiu mesmo antes de eu ter lido o livro. Mesmo os que não tinham lido o livro já o comentavam, sempre comigo a deixar cair: “Já sei que é bom. Um destes dias leio!”. Um dia, li. Desde que a Elena Ferrante entrou na moda, eu coloquei-me à distância. Cá em casa, já passaram todos - mas todos! - os volumes e eu... nada! Já me tinha acontecido o mesmo com o “Memorial do Convento”: deixei passar dois anos sobre a edição, antes de o ler. Com os policiais nórdicos, foi a mesma coisa: eu ainda andava pelo Ellery Queen e pelo Dennis McShade e o pessoal cheio de ler sobre neve salpicada de sangue lá no cimo da Europa. Até na não-ficção isso se passa: o tempo que eu andei para ler o “Diplomacy”, do Kissinger! E ainda tenho em atraso, claro, todo o António Damásio. E tantas coisas mais!

Ultimamente, como quase deixei de ver televisão, a “snobeira” mudou de registo: só no dia 29 de abril li o (excecional!) discurso do presidente da República no 25 de abril (repito, um extraordinário discurso!). E tenho assim perdido, pelo menos no “timing” dito adequado, algumas outras coisas “imperdíveis”. Há um amigo, que me telefona quase todos os dias, que até hoje não entende como é que eu, com todas estas “falhas”, ainda consigo escrever nas redes sociais e na imprensa! 

Mas sou assim, que se há-de fazer! 

Há lá maior prazer do que encontrar um “finaço” do Porto e, perante a pergunta “O que é que achaste do Euskalduna?”, poder responder (a quem tem a ideia de que eu conheço ali desde a Badalhoca aos estrelados Michelin), com deliberada indiferença: “Nunca lá fui! Vale a pena?”

Há muitos anos, arrependi-me bastante desta atitude. Vivia no estrangeiro e, no Dona Maria, exibia-se o “Passa por mim no Rossio”. Eu adorava teatro de revista, como gosto imenso de fado (desde o chungoso ao aristocrático, com exceção do “Avenidas Novas” - um dia explico isto). Quando vinha a Lisboa, nunca havia bilhetes. Como não meto cunhas (quem alguma vez tiver recebido uma cunha minha pode escrever isso, em caixa alta, nos comentários), e aquilo continuava “na moda”, fui deixando passar a oportunidade. Até que a revista saiu de cena. Um dia contei isto ao José Bouza Serrano, que chefiava um gabinete de um governante com autoridade na noite lisboeta. Escandalizou-se: “Ó Francisco, podias ter dito! Arranjava-te, com gosto, dois bilhetes!”. Não pedi, perdi a revista. Dessa, não me perdoei!

Pronto(s)! Não gosto de ir às novidades! Era só isto que queria dizer. Ah! E pedir que me avisem quando aquilo em Arouca estiver “sem povo”!

sábado, maio 01, 2021

Notícias do fim do mundo

Um grande amigo contou-me que costumava dizer aos seus conhecidos estrangeiros que, se um dia se anunciasse o fim do mundo, uma maneira de se protegerem era virem viver para Portugal: cá, tudo chegava com dez anos de atraso! Hoje, ao ler algumas “ondas” que por aí andam, podemos concluir que o tempo de espera de certos ciclos se encurtou: as coisas chegam cá mais rapidamente. Só que o estilo de abordagem lusa do tema é como o bife, é “à moda da casa”.

Sociologia empírica


Há pouco, deu-me para olhar para as estatísticas de visitantes deste blogue, oferecidas pelo próprio sistema. Não resisti a fazer alguma breve interpretação do números, sempre tendo presente que visitas não equivalem necessariamente a leitores. Por exemplo, não acredito ter leitores nos 176 países de onde houve visitas registadas ao blogue. Por isso, valendo o que vale, aqui fica essa análise.

O blogue começou a ser publicado em fevereiro de 2009, quando era embaixador em Paris, lugar que ocupei até janeiro de 2013. O estilo dos textos, dadas as funções institucionais que desempenhava, era relativamente contido e politicamente neutral, naturalmente sem incursões pelas questiúnculas que então dividiam o país. Os índices de leitura do blogue foram crescendo, de forma sustentada, à medida que ele se tornava conhecido.

De 2013 a 2015, tendo deixado de ter funções oficiais, o blogue mudou de registo. Passei a poder tomar posições sobre temas que, no passado, me estavam vedados. E, com naturalidade, os textos passaram a fazer transparecer a minha aberta oposição ao governo que estava então em funções, em especial em artigos que escrevia para jornais. Os níveis de leitura aumentaram bastante. Até ao período do início da “geringonça”, o número de visitantes mensais chegou quase aos 100 mil.

Quando, a partir daí, passei a apoiar a nova solução de governo, o número de visitantes declinou: ser “da situação” não só não acarreta popularidade como afasta quem é hostil...

Os “boosts” que se notam, com súbitos altos e baixos, que passam a ocorrer entre um certo momento de 2016 e o início de 2018 têm uma razão muito especial: houve ali “mão” de uma empresa que, um dia, me informou querer “potenciar” mecanicamente as visitas ao blogue, com vista a poder propor-me, com a inclusão de publicidade, a sua exploração comercial (isto “fabrica-se”, sabiam?). Como acabei por não me mostrar interessado em retirar qualquer rendimento comercial do blogue (que poderia chegar aos dois mil euros/mês, ao que fui informado), a partir de janeiro de 2018 as “máquinas” desligaram-se e o blogue regressou aos seus “verdadeiros” visitantes. Confesso que foi um sossego, porque, nesse período “eufórico” de números, eu não percebia exatamente quantas pessoas me liam e qual era o “acréscimo” artificial que essas “máquinas” faziam.

Desde o início de 2018, passou então a registar-se uma descida de visitas, até cerca de 30 mil visitantes/mês, em inícios de 2019. Pensei que esse “trend” estivesse a ditar o declínio inexorável do blogue. Porém, a partir de inícios de 2020, houve uma sensível recuperação de leitores, que ultimamente não têm baixado dos 50 mil/mês. Convém notar que, a partir de 2013, grande parte dos textos passou a ser publicada, quase simultaneamente, no Facebook, pelo que muitos dos antigos leitores do blogue se deslocaram para esta nova plataforma, onde há hoje mais de 17 mil seguidores.

Há dois fatores que, verifico, influenciam bastante os “picos” ocasionais de leitura. Por um lado, o número de textos publicados (em 2020, aumentei bastante o número de posts, porque passei a reproduzir ali alguns dos textos curtos que publico no Twitter), com o número de leitores a acompanhar esse volume crescente de produção, mês após mês. O segundo - e, verdadeiramente, o mais decisivo - é quando algo publicado no blogue suscita alguma polémica pública, com consequente procura do Google. Esses textos passam a ter uma leitura excecional e as visitas ao blogue disparam logo.

Mas há uma realidade que creio inescapável: os blogues desta natureza, isto é, de ideias e sem objetivo comercial, estão a ficar fora de moda. Além disso, os blogues individuais dão muito trabalho a alimentar e começam(os) a ser raros os que se sustentam no “mercado”. As pessoas deslocam-se, cada vez mais, para outras plataformas nas redes sociais, até porque escasseia a paciência para ler textos longos, como os que por aqui frequentemente publico. Porém, até eu um dia me cansar, este blogue vai continuando.

Quanto às estatísticas, como as que aqui trago, confesso que elas me são quase indiferentes. Às vezes, passo meses sem as olhar. Não que o número dos meus leitores seja irrelevante, longe disso!, mas porque este exercício de escrita simplória é, pelo menos no meu caso, feito muito “para mim”, para registo pessoal de opiniões e de memórias. Porém, hoje, na madrugada do dia do trabalhador, deu-me para fazer, em modo impressionista, este “trabalho de casa”, que achei curioso, em especial para uso de quantos ainda se dão ao simpático cuidado de me lerem.

sexta-feira, abril 30, 2021

A geografia da vida



O inferno das máscaras retira a naturalidade às relações humanas e, em especial, à alegria dos bons encontros fortuitos. Damos de frente (ia dizer “de caras”, mas, afinal, é só meia cara) com pessoas que julgamos conhecer e, a menos que um de nós arrisque identificar-se, ficamos a olhar-nos de modo estranho, até que desistimos de consumar esse potencial reconhecimento. 

Há poucas horas, numa cerimónia oficial, fiquei sentado ao lado de uma senhora de idade (constato agora que tem 23 anos mais do que eu e já há anos que sou "um senhor de idade"). Fizemos um cumprimento leve com a cabeça e coloquei a minha própria a pensar: quem poderá ser esta senhora? Ela estava ali com um estatuto similar ao meu. Aquele cabelo dizia-me alguma coisa! Demorou um minuto até se me fazer luz. 

Aquela senhora tinha sido minha professora, nos idos de 1968. Era a professora catedrática de Geografia, Raquel Soeiro de Brito, reconhecida como uma das figuras mais marcantes daquela especialidade académica a nível nacional. 

Há cinco anos, num tempo em que ainda não andávamos no atual baile pandémico de máscaras, no dia em que ambos tínhamos tomado posse das funções que ainda hoje ocupamos, a professora Raquel Soeiro de Brito tinha tido a gentileza de atravessar uma sala do Palácio de Belém para vir ter com este seu antigo aluno, a quem saudou com generosa simpatia. Fiquei encantado com o seu gesto! 

Falámos então desses tempos antigos no Palácio Burnay, na Junqueira, numa escola onde preponderava Adriano Moreira, tendo ela lembrado que, no seio do corpo docente, eu tinha uma imagem de “revolucionário” (era dirigente estudantil e tive por ali alguns conflitos, mas, na realidade, eu era um “paz de alma”, ao lado de outros). A faculdade era o ISCSP, que na altura tinha um "U" no final da sigla, tal como o país tinha um "Ultramar" cujas geografias a professora Raquel Soeiro de Brito nos ensinava a conhecer melhor. 

A professora Raquel Soeiro de Brito é hoje uma senhora de 96 anos, com um aberto e agradável sorriso. Na ocasião, devo dizer que não consegui ter coragem de dizer-lhe que, como professora, há mais de meio século, ela projetava, com aquele seu ar quase nórdico, uma imagem um pouco intimidante e que dela recordava umas graças cortantes, das quais alguns colegas eram frequente alvo. 

Há pouco, quando ainda pensei relembrar-lhe quem eu era, para o que me preparava para tirar a minha máscara por um instante, o “dono da casa”, do Palácio de Belém, entrou no espaço onde estávamos, a cerimónia teve início e eu perdi assim o ensejo de saudar, como devia ter feito, a minha antiga professora de Geografia. 

É que gostaria de lhe ter dito que, se no exame que fiz no fim das suas aulas teóricas não passei então de um mísero e justo 13, eu viria, afinal, a ter o privilégio de uma imensidão de “aulas práticas”, na muita geografia de algum mundo por onde a vida me fez andar. E que, para esse meu olhar de andarilho, incessantemente curioso, muito tinha contribuido o que tinha decantado das suas lições, sempre marcadas por uma leitura culta, interdisciplinar, aberta, interrogativa, à procura da riqueza das coisas que sempre está por detrás das coisas que estão à vista. Fico para sempre a dever-lhe isso.

Jornalismos

A conversa, moderada por Maria Flor Pedroso, reuniu no Clube dos Jornalistas três profissionais da área do jornalismo, ao final da tarde da ...