segunda-feira, fevereiro 01, 2021

Marcelo: venham mais cinco!*


O “Diário de Noticias” pediu ontem a 22 pessoas, um muito curto depoimento sobre o que elas esperam do próximo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa.

Aqui fica o meu:

Nenhum governo sairia indemne de um trauma nacional como o que foi provocado pelos efeitos económico-sociais desta pandemia. Nesse contexto, um Presidente da República relegitimado por eleições tem excelentes condições para ser visto pela opinião pública como um fator de “acalmação” política. Marcelo Rebelo de Sousa pode vir a ficar na nossa História contemporânea como um presidente que soube fugir à tentação de sair de Belém arbitrando em favor da família política de onde é oriundo sem, para tal, necessitar de ser simpático ou acomodatício com os socialistas. Necessita apenas de ser percecionado pelos portugueses como alguém que, em cada momento, fez aquilo que o país sentiu como sendo o que era necessário.”

* Espero que os “velhoquistas” me não desiludam e mostrem a sua indignação pela “infelicidade” do título que escolhi.

domingo, janeiro 31, 2021

Uma entrevista de vida


Quem nisso tiver interesse, pode assistir a uma conversa, talvez mais do que a uma entrevista, onde se fala da vida e do papel que a diplomacia nela teve.

Pode ver, clicando aqui.

“Observare”


O último programa “Observare”, na TVI 24, onde se fala da Venezuela, do Brasil, das Primaveras Árabes e de alguns outros temas, pode ser visto clicando aqui.

Amândio Silva


Foi há menos de oito dias. Tinha no meu telefone nota de um telefonema do Amândio Silva. Como, muito pouco tempo antes, numa conversa com o Carlos Cristo, eu tinha perguntado se o Amândio não tinha ainda escrito as suas memórias - um relato, por mínimo que fosse, sobre a sua extraordinária vida - pensei que o circuito se tivesse “fechado” e ele me viesse falar disso mesmo. Foi nessa convicção que lhe liguei de volta!

Mas não! O telefonema era para me transmitir um convite para estar presente num debate ... que iria ter lugar em 10 julho próximo! Uma iniciativa organizada pelo seu querido “Mares Navegados”, um belo grupo de gente com farta memória democrática, para cujas publicações o Amândio já me tinha desafiado por várias vezes, ao longo dos últimos anos. Sem sucesso, porque a minha vida, feliz ou infelizmente, é o que é.

Depois do detalhe sobre o objeto da conversa, perguntei-lhe pela sua saúde. Senti-o hesitante, vago, como se fosse tema que não lhe interessava abordar. Respeitei e não insisti. Horas depois, relatei o episódio ao Carlos Cristo, seu grande amigo. E, comungando na pena de sentirmos o Amândio bastante “em baixo”, mudámos de conversa, porque a falta de saúde daqueles que estimamos é o pior assunto que se pode abordar.

Conheci o Amândio Silva no Brasil, numa visita que me fez na embaixada, depois da minha chegada, estimulado por amigos comuns. E amigos ficámos. Eu tinha o seu nome registado desde há muito, da História, da coragem da LUAR, do belo assalto ao avião da Tap entre Casablanca e Lisboa, de tantas outras saudáveis e corajosas aventuras contra a ditadura. O Amândio Silva fazia parte da minha memória admirativa dos combatentes pela liberdade. Pela nossa liberdade.

Pode dizer-se que o Brasil, que o tinha recolhido em tempos convulsos, nunca verdadeiramente tinha abandonado o Amândio. Ficara-lhe na fala, na fonética e na sintaxe. E na muita e vasta vida que teve por lá, que muitas vezes era evocada por quem o conhecia.

O Amândio era um homem grande, cordial, com um abraço apertado, imenso. Fazia parte de uma geração que, depois do 25 de abril, nunca se fixou bem nas prateleiras ideológicas com que o regime político se institucionalizou. Na luta contra o fascismo, houve alguma, não muita, gente assim. O Amândio era um democrata desalinhado. A LUAR, a sua LUAR, foi também isso mesmo. E ele tinha toda essa graça heterodoxa, a pairar sobre as convições profundas que o alimentavam. Como ele, houve várias outras pessoas que acabaram por ficar numa espécie de terra de ninguém, às vezes sujeita às diatribes dos ortodoxos e, claro, dos caluniadores daqueles que lutaram de armas na mão pela democracia. Tenho, porém, uma coisa por muito segura: ele esteve sempre do lado certo da História!

Passou uma semana sobre aquela minha conversa com o Amândio. Numa limpeza ao meu email, encontrei um texto que ele me tinha mandado, já há cinco anos. Era uma carta a José Pedro Castanheira, sobre uma questão de 1975, sobre a LUAR e a FUR. Um testemunho muito interessante, que não vem agora ao caso.

O texto ali ficou, sobre a minha mesa. Até hoje! Até à data em que soube, pelo Carlos Cristo, que o Amândio tinha morrido Apetece-me dizer um palavrão! Vou resistir. Vou apenas dizer o que agora me apetecia dizer-lhe: Adeus, Amândio! Muito obrigado por tudo quanto fez para que pudéssemos ser livres. E quem nos dera a nós ser tão livres como você sempre conseguiu ser.

O lixo político

As eleições presidenciais tiveram lugar há uma semana.

Acabaram mesmo? Anda-se pelas ruas do país e aí estão cartazes e mais cartazes, a poluir a paisagem, uns em cima dos outros. Ninguém obriga ninguém a retirar esse lixo. Há uma cobardia política coletiva que impede que acabe com esta vergonha!

Em Lisboa, no Marquês, no Saldanha ou no Campo Pequeno, é um mar de placards políticos. Já experimentaram ver se isso acontece na Praça da Concórdia, em Paris, na Trafalgar Square, em Londres, na Times Square, em Nova Iorque, ou junto ás portas de Brandeburgo, em Berlim?

Num livro há semanas publicado, um dirigente de um grupúsculo confessou que passou horas a andar de carro, para tentar encontrar um lugar “vago” para colocar um cartaz do seu bando. E até escreveu que achava a lei atual, na matéria, demasiado permissiva. Acabou por pôr o cartaz numa via rápida, embora com receio manifesto de criar acidentes.

Noutro episódio, contou que encontrou um lugar que achou adequado mas que a empresa de publicidade achou dasagradável ter de cortar vegatação para permitir a implantação do placard. 

Aconteceu-lhe alguma coisa? Foi multado? Qual quê! A selva da propaganda política permite isto! E o conluio objetivo das autoridades faz o resto.

Platitudes


Mais do que o cansaço que sinto nas pessoas, preocupa-me o desânimo. É que a falta de perspetivas não é boa conselheira.

Esta pandemia tem vários tempos e já percebemos que nenhum nos garante o sentido do seguinte. Todos experimentámos a descompressão que o fim do primeiro grande confinamento nos trouxe. O ar livre, as esplanadas, com mais ou menos erros. Os restaurantes abriram, o negócio retomou, adaptámo-nos a um tempo que, longe de ser livre, parecia promissor.

Depois, de súbito, surgiram números pouco sossegantes. Dados contraditórios. E novas preocupações. Fechámo-nos mais. Em muitos casos, (confessem lá!), já com menos uso de gel nas mãos, com menor cuidado com o calçado.

A esperança na vacina que aí vinha dava-nos, contudo, um horizonte, embora sem datas. (Mas a vacina, salvo para alguns poucos, já se percebeu, vai demorar. Há que saber viver sem ela, até ver. Até vir.)

Depois foram as festas, o Natal, o discurso voluntarista sobre o prazer da reunião, com cuidados ao sabor do bom senso de cada um. (Confesso que tive logo um mau pressentimento). E o amigo que nos dizia que a prima chegava ao aeroporto sem lhe perguntarem nada.

Agora, isto. E o presidente já avisou: está para durar. Imagino que alguns digam: ele sabe tanto como nós. Esse enfraquecimento nas certezas que o poder nos comunica também não ajuda muito. Não ajuda nada!

Olho para a cara das pessoas e, por detrás das máscaras, imagino empregos perdidos ou em risco, negócios arruinados ou em desespero, empréstimos com prestações apenas adiadas, miúdos em casa, em casas pequenas, sem condições, com nervos em franja, vontade de sair, o medo à doença, tensões à flor da pele. E, sempre e até ver, a falta de um horizonte, a reforçar o tal desânimo.

Isto não está fácil! (Ora bolas, ele está para aqui a escrever o óbvio! Filosofia barata, como antes se dizia, é o que isto é!). Caramba! Também tenho direito às minhas platitudes, ou não? Durmam bem, se puderem.

sábado, janeiro 30, 2021

“Observare”


Na TVI, depois do jornal da meia noite, de sábado para domingo, poderá ver o ”Observare”, um programa sobre temas internacionais.

Com uma convidada especial, iremos falar da Venezuela, do Brasil, dos 10 anos das primeiras “primaveras” árabes. Eu lembrarei ainda a crise política na Itália e a luta dos democratas na Bielorrúsia.

Chinas

Ninguém de bom senso pode dizer que o sonho chinês de unificação com aquilo que é hoje Taiwan é uma ideia ilegítima. Ninguém com um mínimo de respeito pela democracia deve aceitar que isso possa ser feito sem ter em conta a vontade expressa de quem vive hoje em Taiwan.

Lei eleitoral

Quando não se quer fazer uma coisa, utiliza-se o estafado argumento de que há coisas mais prioritárias para fazer. José Magalhães já denunciou: os partidos vão uma vez mais arrastar os pés para não rever a lei eleitoral: voto da emigração, voto eletrónico, etc. Ninguém reclama?

Salvação?

Miguel Sousa Tavares, que tem muitas vezes razão, desta vez, no “Expresso”, não tem nenhuma: o PR criar um “governo de salvação nacional” é uma péssima ideia. Daria, a quem dele ficasse de fora, à esquerda ou à direita, uma arma demagógica e populista muito perigosa.

sexta-feira, janeiro 29, 2021

Já agora...

Nos Bilhetes de Colares, José Cutileiro falava muito do seu amigo Lowater, o “sábio de Kew”, um liberal que andava cá por Portugal, sem sucesso aparente, a sugerir a privatização dos cemitérios. Estranho muito que nenhum liberal da nova fornada tenha ainda avançado com a ideia.

Vacinas

Devo confessar que estou espantado - para dizer pouco - com a decisão de alargar a vacinação a um tão largo número de cargos públicos. Quem decidiu isso não se deu conta da polémica que ia criar? Não há um mínimo de bom senso?

Lei do mercado

Se Adolfo Mesquita Nunes assumir a liderança do CDS, uma “start-up” política que por aí anda vai entrar em falência rápida.

Decência

Gente que tenho por decente diz esta barbaridade: a única maneira de afastar o PS é, por muito que custe ter de concluir isso, fazer uma aliança com o “diabo”, isto é, com o Chega. É falta de confiança em conseguir vir a conquistar o eleitorado do PS e falta de ética política.

Escumalha

A melhor punição para a escumalha que “fura fila” na hierarquia de aplicação das vacinas é muito simples: assegurar que não tomam a segunda dose. Ficariam depois à espera da sua vez...

Liberais

Na história das ideias, o liberalismo foi uma doutrina política muito estimável e bem útil à fundação das democracias. Desde há uns anos, a sua filosofia foi praticamente capturada pela direita e vive um percurso extremado e radical, muito distante dos seus princípios fundadores.

Governo

Já aqui disse que tenho a profunda convicção de que, nas atuais circunstâncias, ninguém faria melhor à frente do governo do que António Costa. Mas não quero deixar de lamentar que o governo não assuma abertamente onde falhou e por que falhou, pedindo desculpa por isso.

“Pega na lancheira...”

A um comentário “escandalizado” por os deputados terem refeições, quando trabalham fora de horas, perguntei por aqui se se esperava que levassem lancheiras. Caiu o Carmo e a Trindade, como se fosse um insulto a quem usa lancheira! O miserabilismo é a doença infantil da demagogia.

Alertas

Àqueles “alertas” na internet do género “já há um golo na Mata Real”, com a espertalhice de nos quererem obrigar a abrir o link, para poderem contabilizar o clickbait, já tenho uma resposta: desligo a origem dos alertas. Há mais quem nos diga de quem foi o golo.

Eutanásia

Há questões, óbvias para muitos, que para mim o não são. A eutanásia é uma delas. Aceito sem dificuldade o princípio, mas interrogo-me sobre os possíveis abusos. Porque não sei, confio em quem tem obrigação de saber ou toma decisões bem informado. E não mando “bitaites”.

Hortaliças de Estado

Há poucas semanas, soube da morte de Carlos Westendorp. Foi uma figura relevante da diplomacia espanhola: ministro dos Assuntos Exteriores, ...