sexta-feira, janeiro 29, 2021

Liberdade, liberdade...

Olhando a comunicação social, fica a ideia de que qualquer titular de uma chefia no SNS se sente como o inalienável direito se queixar dos meios de que dispõe ou das orientações oficiais. Um embaixador ou um cônsul que experimente atuar assim e logo verá que há uns mais iguais do que outros...

Ainda Marcelo

Marcelo Rebelo de Sousa deu-se ao luxo de se “estar nas tintas” para aqueles que, sendo embora do campo político de onde ele era oriundo, estavam imensamente furiosos com o seu primeiro mandato. Não é segredo revelar que foi também por isso que muita gente de esquerda votou nele.

Brasil

Atenção à política brasileira: para Bolsonaro conseguir “emplacar”, como por lá se diz, o seu candidato à presidência da Câmara de Deputados, garantindo alguém que não aceitará o processo do seu “impeachment”, terá de abrir o governo à “velha política”, renegando o prometido.

Venezuela

Há um tema de aberta dissonância entre a UE e os EUA. O novo “MNE” americano, Blinken, anunciou, no Senado, que Washington continua a considerar Juan Guaidó “chefe de Estado“. A Europa já não lhe reconhece esse estatuto e trata-o apenas como “interlocutor privilegiado”. A seguir.

quinta-feira, janeiro 28, 2021

A vida relativa


Eu andava nos últimos anos do liceu. Uma noite, a rádio, no dia seguinte a televisão, no outro dia ainda os jornais do Porto que se liam lá por casa, em Vila Real, trouxeram o relato dramático do desastre. 

As fotografias, no preto e branco da época, mostravam as imagens de uma parte de um comboio que embatera contra uma ponte. Era em Custóias, junto ao Porto. Morreram 90 pessoas, que vinham da Póvoa e de Vila do Conde, depois de um domingo de praia.

Para mim, esse número pareceu-me sempre uma monstruosidade. Quase 100 pessoas! Caramba!

No ano anterior, a cobertura de cimento da estação do Cais do Sodré, em Lisboa, tinha caído, provocando meia centena de mortos. Um número impressionante! Mais ou menos o mesmo número de pessoas (o número exato nunca se soube, ao certo) que, duas décadas depois, não muito longe de Viseu, em Alcafache, viriam a morrer num acidente com o Sud Expresso, a caminho de França.

Trago comigo na cabeça esses números, desde sempre, como uma espécie de “benchmark” negativo das nossas tragédias coletivas. 

Hoje, ao ouvir que, só no dia de ontem, a pandemia levou mais de 300 vidas, não tive nenhum arrepio, só senti imensa pena. Como a gente se habitua às coisas, como tudo se torna tão relativo!

quarta-feira, janeiro 27, 2021

Um outro país que aí existe


Numa destas noites, para escapar ao debate político nas televisões, nas margens das regras de confinamento, saí a pé uns quarteirões. Deparei, numa porta iluminada, com uma loja de produtos de alimentação e de primeira necessidade. Não precisava de nada, mas entrei. Uma cara escura, com uma máscara negra, deu-me um “boa noite” com sotaque. Para justificar a incursão, comprei qualquer coisa, de que, verdadeiramente, não sentia falta. Ao contrário do que costumo fazer com os estrangeiros com quem calha cruzar-me no mundo do comércio, nos restaurantes ou nos Uber, não perguntei de onde era. Sri Lanka ou Bangladesh ou Paquistão seria, com certeza, a resposta. Mas podia ser o Nepal, mas raramente a Índia.

Desde que me conheço, tenho um sentimento muito sincero de simpatia pelos estrangeiros que trabalham entre nós. Sinto-me feliz por ser parte de um país que acolhe gente vinda um pouco de todo o mundo, fazendo nós assim, sem o assumirmos, uma espécie de retribuição pelo facto de, desde há séculos, muitos compatriotas nossos terem andado fora de fronteiras à procura de melhor vida e de aí terem tido, com maior ou menos dificuldade, oportunidades para navegar o seu destino.

Quando por aí me cruzo com caboverdeanos ou angolanos ou santomenses, a esses quase que os não coloco nesse mundo de forasteiros imigrados. São “da casa”, tal como muitos brasileiros. Mas acho imensa graça ao facto de haver chineses um pouco por todo o lado, de ter migrantes do Leste europeu quase confundidos connosco, de poder ter gente do Industão no nosso comércio de bairro. Encontrar gente diversa a partilhar a nossa vida, saber interagir com eles, respeitá-los e dar-lhes oportunidades de mostrar que são bem vindos e que gostamos de os ter por cá torna-nos um país melhor.

Por que é que falo disto agora? Porque Portugal, gostemos ou não de ouvir isto, vai entrar numa crise económica, e que, por muitas “bazucas” que houver, elas só terão efeitos a prazo pelo que, no imediato, virá por aí algum desemprego. E o desemprego que, como é sabido, afeta, em prioridade, os imigrantes, cria pobreza, instabilidade social e criminalidade, não sendo de excluir que alguns estrangeiros possam ser apanhados nessa malha. E como sabemos que a imprensa do crime não tem a menor ética anti-xenofóbica ou anti-racista, sendo mesmo atiçada pela onda nacionalista que agora chega, as pessoas decentes vão ter a obrigação de assumir uma resposta política a uma rejeição dos estrangeiros, que pode estar aí ao virar da esquina.

terça-feira, janeiro 26, 2021

Já é azar!


Conseguir um estacionamento perto do oculista, com uma farmácia em frente, onde “aviei” uma receita que trazia à mão desde ontem, prenunciava um bom início de tarde. Esta Lisboa pandémica, tem uma vaga em cada esquina. Função executada, regresso ao carro. Não abre! Não abre? Não abre! Ó diabo! Será a pilha?

O Smart tem 10 anos, 20 mil quilómetros e faço trinta por uma linha com ele, nesta quarentena, pelos altos e baixos da cidade. A chave tem essa idade e a pilha, imagino, não é, com certeza, mais nova. Comprei-o em Paris, um ano e pouco antes de regressar a Lisboa. Foi num stand junto ao Trocadéro, a um luso-descendente simpático e falador (em francês), satisfeito por vender um carro ao embaixador da terra dos pais. Nunca nos deu problemas. Só hoje!

Ainda bem que a EMEL está de férias! Se o carro não arrancar, fica mesmo ali. Há, lá por casa, outra chave. Se não, avança o reboque do ACP. De qualquer forma, é uma chatice! Agora, lá tenho de ir à vida de Uber ou de táxi. Usar o mínimo possível transportes alheios tem sido a minha regra nesta época. Mas lá terá de ser!

À lisboeta clássica, chega-se um transeunte, pelo passeio. “Então não abre, é? Deve ser da humidade”. Sei lá se é! Só sei que o carro não dá sinal! Vou à porta contrária, forço a fechadura. Nada! Passaram-se, entretanto, cinco minutos, comigo a hesitar sobre o que fazer.

Aproxima-se, entretanto, outro cidadão, este atravessando a Avenida António Augusto de Aguiar: “É capaz de ser da chave!”. Olha o espertalhote! Até aí chegou o Neves! “Com esta deve dar!”, diz o homem, com o que devia ser um sorriso por detrás da máscara: “É que este é o meu carro. O seu deve ser aquele, que está ali, um pouco mais acima, farto de acender as luzes...”

E lá fui para o meu carro.

segunda-feira, janeiro 25, 2021

Rosalina Machado


Era uma mulher-sorriso, uma presença muito agradável, a simpatia em pessoa. Conheci-a, há muitos anos, através de amigos comuns. Era uma figura solidária, uma empresária corajosa. Na última década, encontrámo-nos na tertúlia “Grupo Amizade”, sob o simpático acolhimento do João Flores, que há meses desapareceu. A Rosalina, no dia seguinte ao seu marido Francisco, sai hoje de cena. Muito triste.

Para os próximos anos

Já muita gente disse isso, mas acho que é importante repetir que os fascismos e populismos são respostas erradas para problemas reais. Se não se perceber isto, os Venturas e quejandos continuarão a progredir e a ser vistos como a solução.

Uma leitura (útil) de Paulo Querido

“A recomposição da direita portuguesa não se fica pelo Chega. O partido Iniciativa Liberal tem feito um caminho praticamente simultâneo. 

Ambos nasceram dentro de um período de dois anos a tempo de disputar as eleições de 2019, ambos elegeram um deputado à Assembleia da República, ambos sangram os outros dois partidos da direita, ambos têm crescido em reconhecimento e em intenções de voto. 

O IL tem tido uma subida menos acentuada, refletindo a diferença entre populismo e responsabilidade, bem como a diferença entre grunhice e educação. Por cada eleitor educado que o IL tirou ao CDS, o Chega tirou três eleitores arrivistas e topa-tudo ao PSD. 

Mas o IL é um poço de equívocos. Muitos vêem nele uma movimentação tão ou mais perigosa para a democracia que o Chega. A hiper-valorização do capitalismo enquanto valor é a principal responsável por essa visão redutora. Os valores sociais que estão presentes no IL raramente ou nunca afloram no confronto de argumentos. Os mantras do “mercado”, do “capitalismo” e da meritocracia e a aversão, ódio mesmo, ao setor público conspurcam de tal forma as conversas que o liberalismo de costumes não tem a menor hipótese de comparecer na mesa. 

Socorro-me da Wikipedia para estabelecer que as ideias e partidos que adotam o liberalismo social são considerados de centro. Assim, os liberais sociais encontram-se entre os mais fortes defensores dos direitos humanos e das liberdades civis, embora combinando esta vertente com o apoio a uma economia em que o Estado desempenha essencialmente um papel de regulador e de garante do acesso de todos (independentemente da sua capacidade económica), aos serviços públicos que asseguram os direitos sociais considerados fundamentais. Todavia no liberalismo social, o Estado não tem obrigatoriamente de ser o fornecedor do serviço público, tendo apenas de garantir que todos os cidadãos têm acesso a serviços públicos básicos, independentemente da sua capacidade económica. 

Ora, o Iniciativa Liberal nasceu agrupando liberais puros e impuros. Estes dois grupos têm um passado pouco recomendável: ambos estiveram na fissão do PSD, empurrando o cabide sublimemente formado na juventude do partido para todas as ideologias, Pedro Passos Coelho, para a liderança, encomendando-lhe uma cartilha neo-liberal bem robusta. (A troika diz mata? Meninos do coro! Moles! Nós dizemos esfola! Nem mais um feriado para a corja!)

O neo-liberalismo — a desregulação selvagem somada à destruição de direitos do trabalho e, em países sem tradição liberal como Portugal, à canalização dos recursos públicos para a iniciativa privada — dominou os primeiros passos da geração de liberais impuros, empolgados com o empoderamento que a blogosfera lhes concedeu no início do século.

Os que andaram com Passos ao colo nos media e chegaram ao tristemente célebre governo de desnorte nacional de Passos/Portas, entre ministros, secretários de Estado, gabinetes e comissões de serviço na Imprensa, eram mais thatcheristas e reaganistas que os próprios mãe e pai do neo-liberalismo. Finda, com traumático estrondo, a irrepetível deriva neo-liberal do PSD, os que não se tinham comprometido demasiado na aventura foram à procura de nova saída. Como deviam. 

À sua espera de braços bem abertos estavam os liberais puros — tão puros que não se tinham metido no comboio de assalto ao PSD e à Assembleia da República. Outros nem sequer andaram alguma vez com o crachá da esfinge de Reagan nem com o pullover estampado com o icónico rosto de Thatcher a vermelho e azul. 

Um pouco como o Bloco de Esquerda a reunir tribos com práticas divergentes, o partido Iniciativa Liberal reuniu tribos liberais com passados divergentes: liberais sociais misturados com neo-liberais duros. 

Ora, enquanto na direção (da fundação aos atuais corpos) pontificam os puros, o combate nas ruas tem estado a cargo dos impuros, muitos dos quais não conseguiram despir a tempo o fato-macaco passista. O grosso da imagem do partido resulta da atividade destes nas redes sociais. Os cartazes irreverentes não se sobrepõem, muito menos o discurso ponderado do presidente do partido e deputado à AR — e do candidato à Presidência da República, já agora. 

Não admira, portanto, a confusão. E a desconfiança.”


https://pauloquerido.medium.com/

10 “tweets” da noite eleitoral


* A direita não ganhou esta eleição. O vencedor matemático desta eleição chama-se bloco central e concorreu sob o heterónimo de Marcelo Rebelo de Sousa.

* Muito a sério: é importante que Ana Gomes tenha ficado à frente de André Ventura. (Porque há prioridades em política, não contribuí para isso). Pode ser só simbolismo, mas o simbolismo é significativo em política.

* Marcelo Rebelo de Sousa (31.5.19). ”Há uma forte possibilidade de haver uma crise na direita portuguesa nos próximos anos. (Por isso é que) “o Presidente (...) é importante para equilibrar os poderes”.

* No dia em que Rio sair (o que pode acontecer com um resultado desastroso nas autárquicas), o “passismo” (com o próprio ou alguém por ele) regressará. Nessa altura, a IL desaparecerá e o balão Ventura desinflará. Mas o Chega veio para ficar e será com certeza aliado desse PSD.

* Com sincera pena o digo: o CDS é, nos dias de hoje, uma mera realidade virtual.

* O discurso de Rui Rio é das maiores ficções políticas desta temporada.

* Ventura teve um excelente resultado mas isso não deve ser lido em termos de eleições legislativas. Nele votou muita gente PSD que quis punir não só Rio mas também Marcelo, na certeza que tinha de que este último ganharia. Em legislativas, tudo será diferente.

* O PCP tem hoje um dia histórico, mas não pelas melhores razões.

* Ventura deve fazer parte dos “homens de bem” que o slogan do Chega apregoa. E, como é sabido, as pessoas de bem cumprem sempre a sua palavra. Assim, se ficar atrás de Ana Gomes, o seu partido fica esta noite sem líder, porque vai demitir-se, não é?

* Brinquem, brinquem, mas se não fosse o apoio do CDS, Marcelo estava agora a lutar pelo segundo lugar. Essa é que é essa!

domingo, janeiro 24, 2021

“Observare”


Pode ver aqui o último “Observare”, o programa de relações internacionais da TVI 24.

Dias de presidenciais


Baptista-Bastos tinha, como pergunta sacramental das suas entrevistas, o “onde é que você estava no 25 de Abril?”. Hoje, deu-me para perguntar a mim mesmo onde estava nas datas das nove eleições presidenciais até hoje realizadas em democracia.

Em 1976, estava em Lisboa, já era funcionário diplomático, e a vitória de Eanes não me sossegou nada. Achei que poderia vir aí o pior. O futuro veio a provar que estava errado! Cinco anos depois, votei nele, sem entusiasmo mas com convicção, contra um Soares Carneiro que - esse sim! - me assustou muito. Hoje, tenho grande consideração por Ramalho Eanes, não obstante algumas críticas que nunca escondo.

Com Mário Soares, em 1986, na disputa contra Freitas do Amaral, a noite da sua vitória foi uma imensa alegria. O pessoal de chapelinhos de palha à volta do candidato da AD causava-me forte urticária política. Eu, que nem sequer era então um soarista, senti um grande alívio ao vê-lo entrar em Belém. Não tenho memória de ter tido a menor reação aquando da sua natural reeleição, em 1991, comigo já a viver em Londres.

Verdadeiramente empolgante foi, para mim, a campanha de Jorge Sampaio, em 1995/96. Tinha-me envolvido no lançamento da candidatura, entrara entretanto para o governo e lembro-me bem da grande satisfação que senti nessa noite! Se a vitória de Soares, uma década antes, era quase “existencial” (porque achei, sem razão, que a democracia podia estar a correr riscos), a de Sampaio representava colocar mais uma pedra sobre o cavaquismo, o qual, três meses antes, já tinha sido afastado do poder executivo. Para pessoas como eu, eleger Sampaio era o culminar de um projeto geracional. Mais tarde, a sua reeleição, em 2001, foi um “passeio”. Nem recordo essa noite, num tempo em que eu estava a mudar de vida e de geografia, com problemas familares graves a preocuparem-me muito.

Em 2006, estava embaixador no Brasil quando Cavaco Silva chegou a Belém. Não era uma data feliz, mas era a democracia a ser cumprida. Recordo, nessa tarde, ter encerrado as urnas, na embaixada em Brasília, e ter partido para o Amapá, no extremo norte do país, onde tinha uma cerimónia no dia seguinte. Cheguei lá de madrugada e esqueci o sufrágio. Meses depois, passei por Lisboa, e fui o primeiro embaixador a ser recebido por Cavaco Silva, com quem tive um relacionamento sempre muito correto, durante a sua década em Belém. Mas não esqueço, em 2011, comigo embaixador em Paris, o incrível discurso azedo de Cavaco no CCB, na noite da sua reeleição. Costuma dizer-se que há candidatos que não sabem perder. Cavaco provou, nessa noite, que não sabia ter grandeza na vitória.

Em 2015, não votei em Marcelo Rebelo de Sousa. A minha aposta foi Sampaio da Nóvoa, que fez uma campanha com grande dignidade, tal como a minha amiga Maria de Belém Roseira. Nunca tive dúvidas sobre o sentido de Estado de Marcelo, pelo que, sem hesitação, lhe dei o benefício da dúvida, desde a posse. E ele mereceu em pleno essa minha confiança, por muitas críticas que se possam fazer ao exercício do seu mandato. Por isso, é com satisfação que hoje vejo a sua reeleição.

Carlos Antunes


Não sei exatamente quando conheci o Carlos Antunes. Ele era, para mim, uma figura quase mítica, desde antes do 25 de abril, na oposição violenta contra a ditadura.

Nos “anos da brasa” de 1974/75, não me recordo de nos termos cruzado alguma vez, embora isso pudesse ter acontecido. 

Tenho, assim, quase a certeza de que foi o Nuno Brederode Santos quem nos apresentou, numa noite dos anos 80, na Mesa Dois do Procópio, na primeira das vezes em que o encontrei por lá, quase sempre com a Isabel do Carmo.

A partir daí, nas ocasiões em que por acaso nos juntávamos, belas conversas pela noite dentro fomos tendo! O Carlos era um conversador magnífico, tinha um estilo, ao mesmo tempo empolgado mas com grande serenidade, de contar histórias, sempre com um sorriso a acompanhá-las! E que vida para contar que ele tinha!

Seria também no Procópio, em inícios de 1995, e isso recordo muito bem, que o Carlos se envolveu numa discussão acesa com o Agostinho Roseta, a propósito de um episódio passado em 1975, cujos pormenores não vêm para o caso. Seria essa, aliás, a última noite em que eu vi o Agostinho, um grande amigo, antes dele morrer.

O Carlos e a Isabel passaram a fazer parte da lista de convivas que, desde 2004, eu convocava para o jantar anual da Mesa Dois, uma organização que assegurei por uma década. Lembro-me de, por duas vezes (no “Manel” e no “Vírgula”), o ter deliberadamente colocado ao lado do Caetano da Cunha Reis, testando assim a convivialidade obrigatória do grupo: o Carlos vinha das pontas extremas da esquerda política, o Caetano havia sido fundador da Juventude Centrista. Deram-se lindamente! Tenho prova fotográfica disso! Essa era uma das “artes” da Dois!

Guardo, em especial, um almoço magnífico com o Carlos, organizado pelo António Dias, também com o José Manuel Correia Pinto, no restaurante do Teatro Aberto, numa data do início do século que não consigo precisar. Foram quase três horas memoráveis (o restaurante queria fechar e nós continuávamos vidrados na conversa), com o Carlos, naquele seu jeito suave e envolvente, a contar-nos os seus tempos da clandestinidade, de Bucareste a Paris, de Argel a Moscovo, com histórias passadas em reuniões com Álvaro Cunhal, em países do Leste europeu, quando ainda andava nas águas do PCP. Fiquei com pena de não ter ali um gravador, porque só aquilo tinha dado um livro muito interessante. Depois disso, várias vezes o estimulei a um exercício desse género, com o qual a história da oposição à ditadura e das dissidência do PCP muito ganhariam. Não sei se o fez.

Vi o Carlos, pela última vez, no Chiado, já há uns tempos. Meia hora de conversa na rua do Carmo soube a pouco. Ficámos de marcar, para um dia futuro, mais um almoço. Afinal, não há futuro para esse almoço. Acabo de saber que o meu amigo Carlos Antunes morreu do vírus que por aí anda. Começo a ficar muito chateado com o destino!

“Casa Carlucci”


Não tinha notado que, à residência do embaixador americano em Portugal, havia sido dado o nome de “Casa Carlucci”, como se vê num azulejo na parede. (Passei por lá há pouco).

Constato que essa foi uma decisão do representante diplomático que Trump manteve por cá nestes quatro anos.

Daqui a uns meses, chegará a Lisboa um novo embaixador americano.

Depois de escolhido pela nova administração, o novo representante passará por um escrutínio parlamentar, como é de regra em algumas democracias presidencialistas, e por um “curso” acelerado de diplomacia no “State Department”. Oriundo da sociedade civil, o novo nome será uma escolha política da equipa do novo presidente. Será, como é de regra, acolitado por uma equipa competente de profissionais, na excelente escola da diplomacia americana, que o ajudarão à sua tarefa em Lisboa.

Dada a importância do país que vai representar, o novo embaixador americano vai encontrar, no seio da sociedade portuguesa, todas as portas abertas, desde logo começando pelas institucionais.

Se souber transmitir uma mensagem de simpatia e respeito pelo país onde está acreditado, pode vir a criar um terreno muito positivo de trabalho. Muitos dos seus antecessores souberam fazer isso, criaram uma excelente relação com Portugal, ganharam aqui amigos, prestigiaram o nome dos Estados Unidos entre nós e, dessa forma, foram muito eficazes.

Se, pelo contrário, o futuro embaixador, a exemplo de outros de quem não ficam saudades, optar por uma outra atitude, as coisas não se passarão assim.

Ao seu lado (geograficamente, quase em frente, como se vê na outra fotografia, também de há pouco), a embaixada e o seu titular terão a FLAD, a Fundação Luso-Americana, uma instituição que liga os dois países e que pode ter um papel muito interessante na relação bilateral. Nenhum outro Estado tem, por cá, uma instituição similar, com o prestígio que a Fundação tem sabido ganhar, embora apenas em alguns dos seus ciclos, como é o caso atual. Aproveitar bem a FLAD é algo que muito poderá contribuir para uma sã e proveitosa relação bilateral.

Termino com um mistério, na presença diplomática americana em Lisboa, que nunca consegui desvendar.

Com muito raras exceções, nunca vi os representantes diplomáticos americanos a associar-se à promoção da fantástica literatura que se produz no seu país, nunca ligamos a sua imagem à divulgação dos artistas plásticos americanos, nunca os colamos à sua extraordinária produção musical, da música clássica ao jazz e a tudo o resto. E o cinema? Onde é que vemos a embaixada americana dar nota de interesse pelo ímpar cinema que se produz no seu país? Onde para a cultura na ação diplomática americana em Portugal? Digo isto também na qualidade de frequentador do Centro Cultural Americano que existia na Avenida Duque de Loulé, em Lisboa, nos anos 70.

A América oficial que por aqui, em regra, se mostra parece sempre muito longe disso. Fala de comércio e de investimento, fala da NATO e das Lajes, refere-se à nossa diáspora por lá e aos políticos com origem portuguesa que vão emergindo. E de pouco mais. Os amigos portugueses da embaixada são, por regra, gente ligada à política, raramente à cultura. Será que o futuro embaixador (ou embaixadora, como já aconteceu no passado) nos vai surpreender?



sábado, janeiro 23, 2021

 


“Observare”



Depois do noticiário da meia-noite, de sábado para domingo, na TVI 24, Carlos Gaspar, Luís Tomé e eu, sob a moderação de Filipe Caetano, estaremos em mais um “Observare”, onde analisaremos a posse e o início da presidência Biden, a prisão de Alexei Navalvy e o que isso pode revelar da atual situação política na Rússia.

Pela minha parte, salientarei também duas questões africanas: a possível recandidatura presidencial de Sassou Nguesso, no Congo-Brazaville, depois de 37 anos de exercício do cargo, e a deslocação do MNE português, Augusto Santos Silva, a Moçambique, representando a União Europeia, com vista a dialogar sobre o que a Europa poderá fazer para acorrer às dificuldades humanitárias e securitárias no norte daquele país.

Por razões óbvias, mas muito especialmente para enviar um sinal público para a necessidade de prudência nos contactos físicos, o programa foi feito com meios telemáticos.

Máscaras de pano

Não sei se já notaram que, em vários países europeus, começaram a ser desaconselhadas as máscaras de pano. Desde há muito que gente qualificada afirmava que esses trapos de cores, às vezes a “rimar” com a roupa, eram um adereço pouco eficaz. Agora, ao que parece, essa ineficácia tende a confirmar-se!

Reconhecimento

Seria justo que as autoridades manifestassem publicamente o reconhecimento da comunidade aos cidadãos que fazem parte das mesas de voto, neste momento complexo. Por muitos cuidados que existam, atendendo à exiguidade de muitos espaços, alguns vão correr riscos. 

Eu agradeço-lhes.

Incivilidade espertalhota

Devia ser tornado público o “quadro negro” dos espertalhões que, usando abusivamente as suas funções, “furaram a fila” para se poderem vacinar antes de quem tinha prioridade.

Neste tempo difícil para todos, não me repugnaria ver legislação de exceção para punir essa gente.

Hortaliças de Estado

Há poucas semanas, soube da morte de Carlos Westendorp. Foi uma figura relevante da diplomacia espanhola: ministro dos Assuntos Exteriores, ...