sábado, janeiro 23, 2021

Larry King


Aprendi muito sobre o mundo e a política a assistir às entrevistas de Larry King na CNN. Vou ter saudades daqueles suspensórios. A pandemia levou agora Larry King.

Olrik por Védrine



Para parte da geração portuguesa que teve a infância ou juventude nos anos 50 do século passado (por alguma razão, custa-me sempre escrever a expressão "do século passado"), as aventuras de "Blake et Mortimer", da autoria de Edgar P. Jacobs, são, ainda hoje, uma recordação muito viva.

Figura importante da excelente escola belga de banda desenhada, de que Hergé é, sem a menor dúvida, o maior expoente, Jacobs abria-nos o mundo através de álbuns de uma fantástica qualidade e fruto de cuidado estudo, que agarravam a nossa imaginação e nos transportavam para cenários muito realistas, às vezes quase plausíveis.

Quando vivi em Londres, não resisti a reproduzir a pé os percursos do "Marca Amarela" e do Dr. Septimus. Ao entrar, um dia, no museu do Cairo, no Egito, a figura do Professor Grossgrabenstein (que só pode ter sido inspirada, "avant la lettre", no meu amigo Caetano da Cunha Reis) veio-me logo à memória - este último saído desses dois álbuns sem par que constituem "O Mistério da Grande Pirâmide". Até os Açores passaram pelas histórias de Jacobs, no "Enigma da Atlântida".

A trama jacobiana centra-se sempre numa dupla de amigos, um militar e um cientista, envolvidos na luta eterna, pelo lado do "bem", contra um inimigo permanente, Olrik, que encarna os vários males e que tem uma capacidade de sobrevivência que acaba por nos causar mesmo alguma admiração. As mulheres, confirmando uma misoginia muito própria de um certo período da banda desenhada europeia (mas não, curiosamente, dos "comics" americanos, sendo embora da mesma época), têm sempre um papel muito escasso nestas tramas, surgindo apenas com algum relevo nos álbuns desenhados pelos seguidores de Jacobs, já após a sua morte, em 1987.

A que propósito vem esta evocação? É que, há dias, dei conta de que tinha sido publicada uma “biografia” dessa “infamous” figura que é Olrik. E quem é que a escreve? O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Hubert Védrine e o seu filho Laurent, cineasta.

A Amazon fez-me hoje chegar o livro, num pacote de “takeaway” livresco que, às vezes, me dou ao luxo de consumir, nestes tempos de confinamento.

Hubert Védrine foi ministro dos Negócios Estrangeiros de França, durante o governo Jospin. Antes, havia sido íntimo colaborador de François Mitterrand, em torno de cuja figura fez um livro que considero essencial para melhor se perceber o antigo presidente - "Les Mondes de François Mitterrand".

É um homem sereno, que pensa a política externa com grande cuidado, sublinhando as vantagens de olhar os tempos em perspetiva, evitando juízos radicais ou moralistas, mas não caindo nunca num relativismo de "realpolitik".

Conheci-o bem quando, ao tempo em que ele era homólogo de Jaime Gama, nos cruzámos em dezenas de horas de reuniões, nos idos de 90, e, em especial, no processo de sucessão das presidências portuguesa e francesa, em 2000.

Foram tempos complexos, em que nem sempre estivemos de acordo, antes pelo contrário. Mas guardámos uma excelente relação pessoal, que prolongámos em encontros em Nova Iorque e, mais tarde, por várias vezes, em Paris. Falámos de muitas coisas, mas nunca calhou falarmos de Olrik...

Aproveito para contar um episódio passado com Védrine, há 21 anos, quase dia por dia, em Paris. 

Estávamos em finais de janeiro de 2000. Como secretário de Estado dos Assuntos Europeus, eu tinha ido a Paris, a convite do meu contraparte Pierre Moscovici, ministro-delegado para os Assuntos Europeus. Reuni com ele no Quai d’Orsay, onde almoçámos. Durante a refeição, chegou a indicação de que Hubert Védrine queria ver-me, no final da refeição.

Notei que Moscovici ficou intrigado. Védrine era o seu chefe, mas não era segredo para ninguém que as relações entre ambos eram muito difíceis. Imagino que, no momento, lhe tivesse passado pela cabeça que o ministro, que ele sabia que me conhecia pessoalmente muito bem, quisesse dizer-me algo à sua revelia, em particular. Porque sempre gostei de jogar com as cartas em cima da mesa, Lancei-lhe, de chofre: “Não queres vir comigo?” Hesitou, mas foi.

Quando entrámos no gabinete de Védrine, ainda nos não tínhamos sentado, este, sorrindo, disse-me: “Sabes que este é um momento quase histórico?”. Não percebi, mas ele explicou, com o esgar “mitterrandiano” que tinha: “Porque esta é uma das muito raras ocasiões em que o Pierre aqui veio, desde que ambos estamos no governo.” Moscovici riu, mas o riso foi bastante amarelo.

sexta-feira, janeiro 22, 2021

O novo amigo americano


Os Estados Unidos da América são um país amigo de Portugal. A nossa relação é muito assimétrica: para Portugal, a ligação transatlântica é um eixo central da nossa postura externa - o único que sobreviveu ao 25 de abril. Para os Estados Unidos, Portugal tem uma escassa importância como aliado. Pelo meio, estão, claro, as Lajes, mas até aí as coisas são o que são: para Washington já não é um dossiê vital, para Lisboa é um tema com diversos impactos, em especial internos. Por isso, existe sempre a expetativa de que uma nova administração o venha a tratar de uma forma que leve em conta os interesses que temos por relevantes. As desilusões, neste domínio, costumam ser bastantes, vale a pena dizer.

Não estou no segredo dos deuses, mas posso crer que foi imensa a satisfação, nas Necessidades e em S. Bento, pela saída de cena de Trump. E, em Belém, não deve ter havido luto.

Para aquilo que é a aposta externa portuguesa, o multilateralismo é uma doutrina que Lisboa de há muito cultiva. Ora Trump tinha enterrado essa via. Por isso, e porque a reeleição de Guterres é algo que agora também renasce com grande plausibilidade, a chegada de Biden é mais do que bem vinda. Custa-me dizer isto com estas palavras, mas, para nós, é muito confortável ver um país amigo, com a importância dos Estados Unidos, chefiados por um homem decente.

A administração Biden, muito “graças” a Trump, criou grandes expetativas por todo o mundo. Muito provavelmente muito maiores do que aquelas que conseguirá concretizar. A América de Trump não é a mesma de Biden, mas é importante ter presente que muitos dos interesses americanos, que a este vai cumprir defender, são precisamente os mesmos s que, de uma outra forma, Trump prosseguia. Por isso, para além do imenso mundo de mudanças que uma nova e constrastante administração acarretará, há “adquiridos” consagrados nos último ciclo político que não serão deixados cair nos anos que aí vêm. E a área das relações externas é, muito provavelmente, aquela onde isso poderá ser mais sensível. Posso estar equivocado, mas o Médio Oriente é o terreno onde, provavelmente sob uma nova linguagem, a fórmula clássica de Lampedusa tem mais condições para ser aplicada.

A Europa sofreu um trauma profundo com Trump. A Alemanha, em especial, ficou muito marcada pelo descaso a que foi votada pelos EUA, nos últimos anos. Enquanto que, num país como a França, Macron pode ter tido ainda a ilusão fátua de que poderia ser singularizado como o interlocutor europeu - como único poder nuclear e com capacidade militar significativa, depois do Brexit -, na Alemanha, a atitude de Trump foi sentida como uma rutura com os EUA. Há a sensação de que, mesmo que Biden possa tentar recolar o que se partiu, nada será igual no futuro. A menos que um pós-Merkel nos possa trazer sinais diferentes. A pressão alemã para fechar, mesmo à pressa, o acordo económico europeu com a China, sabida a importância que ao assunto seria sempre dada pela futura administração Biden, parece revelar que a ferida é muito profunda. 

Quando se acorda de um pesadelo, há uma sensação imediata de bem estar. Depois, damo-nos conta de que, embora tudo podendo ser pior, como no pesadelo, afinal, no dia a dia, também temos de reduzir ou atenuar as nossas ambições, porque a vida é o que é e não aquilo para que os sonhos apontam. A América de Biden é, antes de tudo, a América. Mas, para já, os aliados dos EUA parece terem ganho um novo amigo americano. E isso, aconteça o que vier a acontecer, é uma excelente notícia!

Lembrei-me do Luís


O Luís morava num primeiro andar na esquina da rua das Trinas com a rua das Praças, por cima do Berimbar. (Passei lá, há pouco, na minha caminhada noturna). O Luís era arquiteto e vivia com o Afonso, um brasileiro divertido, amigo de Malú Futscher Pereira. Com eles e com ela, algumas vezes, fomos jantar à “Adega dos Macacos”, uma tasca na praça dom Luís, que, por razões misteriosas (e gastronomicamente injustificáveis), a todos eles, que não a mim, caíra no goto. 

Um dia, em Angola, nos anos 80, o José Guilherme Stichini Vilela, que, como eu, era diplomata na embaixada, revelou-me que conhecera, já não sei por que luas, um arquiteto, a quem tinha encarregado da renovação de um velho apartamento que comprara, em Lisboa (e que, curiosamente, fica hoje a menos de 100 metros da minha casa, porque isto é uma aldeia). Olhei os desenhos e vi que estava perante um homem de extremo bom gosto. Chamava-se Luís Gomes de Abreu.

Nesse entretanto, também eu acabei por comprar um apartamento antigo, para os lados do Campo Pequeno, que queria remodelar. Escrevi ao Luís uma carta com 27 páginas dactilografadas, dizendo, com precisão, o que queria fazer na casa, que visitara por um quarto de hora e de que apenas tinha uma planta e fotografias. Respondeu-me com uma de 15, manuscrita, com uma letra curiosa. (Ele, entretanto, também escreveu ao Zé Guilherme, perguntando se “o seu amigo por acaso não é maluco”. Eu tinha era tempo!).

Fiz de conta que não sabia do comentário. Numa vinda a Portugal, conhecemo-nos e acordei tudo quanto ao trabalho. O vai e vem da mala diplomática já tinha arrumado todos os pormenores.

Não podia ter feito melhor opção. O seu profissionalismo era imenso, a sua engenhosidade era inesgotável, embora o seu preço não fosse nada barato. A obra saiu mesmo muito bem.

O Luís era uma figura interessante. Pesado, jovial, com um sorriso aberto, um pouco sarcástico, o que me dava justificação para o provocar. Andava sempre impecavelmente vestido. Não tinha um feitio fácil, era muito teimoso, muito orgulhoso daquilo que fazia, renitente, até à exaustão, às sugestões dos "donos das obras". Mas eu conseguia ser ainda mais obstinado e, como cliente, era “chatíssimo” (expressão dele, assumida). Exigi-lhe pormenores impensáveis: "nunca encontrei um cliente que me pedisse um desenho de uma sanca em tamanho natural, sem aceitar um desenho em escala", disse-me um dia: "só você!".

Tinha um atelier no Bairro Alto, ao lado de um dos mais sinistros restaurantes de Lisboa, o “Pucherus”, pouso de dias pouco abonados no final dos anos 60. Às vezes, partíamos do ateliê para jornadas bem divertidas. Ah! E, politicamente, o Luís era um reacionário “de primeira”. Discutíamos imenso e acho que ele se vingava cobrando caro. Mas as nossas "pegas" foram sempre cordiais, em noites de conversa e copos, divertidíssimas, em que ficámos amigos e, depois, quase vizinhos.

Recordo uma noite nossa com o Luís, no velho "Botequim", da Graça. Havia eleições uns dias depois, e, a certa altura, ele disse, em voz alta, que se ia abster. O que ele foi dizer! A boquilha da Natália avançou logo para nós, com o Luís a envolver-se numa homérica discussão com ela, que acabou por se mudar para a nossa mesa. A certa altura, o Luís disse para a Natália: “Mas nós até estamos de acordo na política! Este meu amigo é que é de esquerda!” Desastre! De repente, passei a alvo de Natália Correia, com o Luís divertido e o meu argumentário já um pouco debilitado pelo consumo líquido da noite. Já nem sei como aquilo acabou, lá para as quatro da manhã! Até o Dórdio a veio chamar várias vezes!

Voltei a ter o Luís como arquiteto, na casa onde hoje vivo. E, claro, voltámos a "pegar-nos" sobre a obra... Mas continuámos amigos. E ele continuava a fazer as coisas sempre muito bem.

Desde sempre, o Luís tinha uma rotina ímpar: era a primeira pessoa a mandar-nos boas-festas. Chegavam sempre no início de Dezembro. Já não chegam. O Luís morreu em 2012. A casa lá está, como a fotografia, de há minutos, mostra. Lembrei-me dele.

quarta-feira, janeiro 20, 2021

Dez “tweets” para uma posse


* Acho que a única pessoa que respeitou bem o distanciamento social na posse do presidente dos EUA foi Trump.


* Este é o dia em que devemos ter um pensamento para o pessoal de limpeza que, desde a saída de Trump, operou na Casa Branca. Que desinfeção não terá havido por lá em poucas horas!


* O dia ofereceu, finalmente, algum sol em Washington. Que tempo fará na Flórida? “Who cares?”, responde-me alguém ao meu lado.


* Lá vi na posse de Biden uma figura da pequena História americana a quem só Trump faria subir na hierarquia da competência política: Dan Quayle.


* Mike Pence foi o que foi e é o que é. Mas há que reconhecer que teve alguma dignidade, e não menor jogo de cintura, na pilotagem da transição. E não deve ter sido fácil.


* Na perspetiva do “establishment” republicano dos EUA, o preenchimento dos lugares do Supremo Tribunal feito por Trump passou a constituir uma imensa ajuda para a proteção futura da sua agenda ideológica.


*Quando ouço as marchas nas cerimónias americanas, não consigo desligar-me da “Tarde Desportiva da Emissora Nacional”: “Alô Nuno! Passo às Antas!”. Mas isso sou eu que tenho tempo para ter memória!


* Raramente vi tanta incompetência na gestão do protocolo de uma cerimónia desta envergadura. As pessoas andavam perdidas, as esperas foram imensas, até o tipo que desinfetava o podium dos oradores parecia tirado de uma comédia.


* A inabilidade política de Trump ficou demonstrada no seu patético discurso de despedida. Fazê-lo de improviso foi um imenso erro histórico. Foi uma mensagem errática, com referência ridículas e a adjetivação habitual. Não conseguiu roubar minimamente o “show” a Biden.


* O discurso de Biden foi bom, mas sem nenhum rasgo. Biden não “diz” bem, nem empolga, mas transpira decência e desejo de fazer bem. E não é Trump!


Bom senso e bom gosto


A experiência demonstra que o sistema político, instituído em 1976, privilegia a reeleição do presidente em exercício. A cada inquilino que colocou em Belém, o eleitorado concedeu sempre uma década no cargo.

A eleição intercalar nem sequer obrigou nenhum incumbente a uma segunda volta. Acaba por funcionar apenas como um retrato do estado da arte no mundo político. Estando o resultado determinado, o exercício permite, contudo, testar a fidelidade dos eleitorados partidários.

Em 1981, Eanes foi quem teve a tarefa mais complexa, ao ser confrontado por um desafio conservador que, no entanto, já havia morrido, de véspera, em Camarate. Soares viria a ter pela frente, em 1991, um Basílio Horta surpreendentemente radical. Isso nem sequer se repetiria em 2001, quando Ferreira do Amaral se prestou a marcar apenas o ponto contra Sampaio. Alguma exasperação face a esta inevitabilidade da recondução automática foi notória no confronto a Cavaco por Manuel Alegre, em 2011. Mas acabou por ter o grau habitual de sucesso, isto é, nenhum. E o mesmo vai suceder no domingo.

Por que será que as coisas se passam sempre assim? Não há a quem perguntar, mas, muito provavelmente, isso deve-se ao facto do presidente que “já” está em Belém ser visto pelos eleitores como um fator de estabilidade do sistema. Mais do que isso: pela circunstância da maioria dos votantes parecer não descortinar razões para introduzir, com a afirmação de uma nova cara, uma rutura com essa normalidade instalada.

Um observador exterior será levado a questionar-se sobre se, afinal, neste meio século, o eleitorado apenas fez escolhas quando isso se tornou constitucionalmente inevitável. No fundo - e já estamos a ver o olho guloso de alguns monárquicos a reluzir - o país dá sinais de pretender preservar o máximo de estabilidade possível na chefia do Estado.

Olhadas as escolhas feitas, o eleitorado deu sempre mostras de querer ter, nessa função superior, senadores políticos.

Eanes terá sido um caso especial, porque trazia já os galões de ser um dos fundadores militares da democracia.

Marcelo Rebelo de Sousa era, de há muito, um estadista em construção e, sem que isso seja passível da menor contestação, confirmou sê-lo, nos cinco anos que agora se concluem. A preservação da estabilidade em democracia, o primado do diálogo e um forte sentido de responsabilidade de Estado foram sempre a sua imagem de marca. Por essa razão, a sua reeleição consagra-se como um ato não apenas de bom senso mas igualmente de bom gosto democráticos.

No dia em que...



 ... até a imagem histórica de Richard Nixon sai reforçada na História.

Nem gato!


Dei a minha volta noturna. Perto de casa, claro. Lisboa está com imensa humidade, mas o frio, mesmo com algum vento, faz-me sentir bem. Estar encafuado o dia inteiro, como as circunstâncias obrigam, entre zooms e telefonemas, faz com que o fresco do ar da rua, agora bem menos poluído, me revigore. Tal como nas noites anteriores, nestas peregrinações solitárias a que já me habituei, cruzo-me com muito pouca gente, mesmo muito pouca. Quase todas essas pessoas trazem cães pela trela. Ora eu nem gato tenho, mas, se tivesse, numa interpretação extensiva da lei (como parece que está na moda incívica fazer, durante a pandemia), poderia passeá-lo? Creio que não. Pensando bem, não me lembro de ter visto alguém passear um gato, alguma vez, pelas noites de Lisboa. E, no entanto, interrogo-me: os gatos não passeiam? Tenho de perguntar à minha sobrinha, que os não dispensa por companhia, mas que nunca vi andar com eles no Jardim da Parada. Com o que a gente finge que se preocupa, quando queremos “assobiar para o ar”, a afugentar as reais questões da vida em que agora andamos! Boa noite.

terça-feira, janeiro 19, 2021

“Trump ganhou!”

Quando disse a alguém que ia publicar o texto que vem a seguir, ela tentou dissuadir-me: “Não publiques! Há pessoas que podem não perceber.” Decidi correr o risco.

Na noite de 4 para 5 de novembro de 2020, quando estava a ver os resultados das eleições nos Estados Unidos, houve um momento em que me convenci de que Trump ia ser reeleito.

Para encher o tempo, entre a irritação e alguns nervos, coloquei rapidamente no papel (falso, no iPad) um texto de comentário à “vitória” de Trump. Não o publiquei, por prudência. E fui-me deitar. Acordei, surpreendido, umas horas depois, com a possibilidade de uma vitória de Joe Biden. Mal eu sabia a “novela” que essa eleição ainda iria ser.

Trump perdeu, Biden ganhou. Há dias, ao fazer uma limpeza dos rascunhos que tinha “em caixa”, dei com isto. Achei que era curioso publicar este texto contrafactual, precisamente na véspera da posse de Joe Biden. É que é tão raro ficarmos felizes por nos termos enganado. 

Trump, again!

Contra o mundo, contra a pandemia, uma vez mais contra as sondagens, Trump renova o seu mandato. É obra!

Biden, mesmo com a novidade de ter Kamala Harris a seu lado, revelou-se um candidato pouco mobilizador. E vai desaparecer rapidamente, na reciclagem da História.

É a vida!, como costumava dizer um cidadão português, hoje em Manhattan, que tem razões para ver a vida da organização que dirige a andar para trás.

Com esta nova vitória de Trump, com grande probabilidade, vamos ver ruir, com fragor, um sistema multilateral no qual grande parte do mundo colocou, por décadas, as suas esperanças de paz e de progresso. Dossiês vitais para a sustentabilidade global, como o das alterações climáticas, vão ter um destino previsivelmente adverso e trágico para toda a humanidade.

Mas o que tem de ser tem muita força, e o mundo tem de se adaptar à realidade de ter de viver com Trump por mais quatro anos: com a sua megalomania, com as suas mentiras, com o seu autoritarismo, com as suas bizarras opções políticas. O anti-americanismo, que por cá tem raízes profundas, que partiram do salazarismo bafiento para chegarem ao esquerdismo auto-iluminado, vai encontrar novas razões para prosperar. 

A América pode vir a ter ainda um outro desafio: a reconstrução de uma alternativa, no período pós-Trump. É que o Partido Democrático, que tinha encontrado em Biden, conjunturalmente, um denominador comum centrista, de natureza tática, pode vir a ser tentado a uma deriva radical, o que reduzirá ainda mais as suas hipóteses de um regresso futuro ao poder.

Para o que mais diretamente nos importa, a Europa terá de fazer pela vida e aprender a conviver com a continuação de um aliado hostil na Casa Branca. Restará saber se o laço transatlântico conseguirá resistir a mais estes anos de Trump. Imagino mesmo os sorrisos no Kremlin, esta madrugada. E algo me faz pensar que os chineses preferem Trump a uma alternativa democrática, que teria uma muito maior capacidade para gizar uma frente de democracias contra os interesses da China.

Finalmente, sejamos justos: há que dar os parabéns aos populistas, aos demagogos, aos Bolsonaros e toda a casta de autoritários que, neste dia, saem reforçados nas suas agendas.

Valha-nos, porém, uma certeza: com ou sem Trump, a vida continua! Não vai ser fácil, mas na História não há becos: há sempre saídas! Pode é ser mais difícil e demorar mais tempo a encontrá-las.”

Uma pátria de sábios

O tanto que por aqui se aprende sobre o que “se deve fazer” para combater a pandemia! Terá havido cursos, nestes meses, para toda esta gente?

A minha dúvida é já a minha pena: quando a pandemia acabar, o que irão fazer estes grandes especialistas? Incêndios? Novo aeroporto? TGV?

Mesas perdidas




Foi no início deste século. Tinha tido o cuidado de telefonar para aquele restaurante, nas cercanias de Vila Real, por terras por onde Camilo tinha andado, pedindo para terem preparado um determinado prato, para ser servido logo que chegássemos.

A pressa era justificada pelo facto do levarmos connosco uma pessoa muito idosa, cujo tempo de permanência à mesa queríamos encurtar, por razões de saúde. Explicámos isso mesmo. Foi-nos prometido que tudo seria feito como desejávamos.

Chegámos, naturalmente, à hora acordada. Era um domingo soalheiro, com uma luminosidade que entrava pelo envidraçado da sala, já com alguns clientes. A nossa mesa lá estava, indicada pelo empregado que nos recebia, que constatei ser a pessoa com quem eu havia combinado as coisas. Era, aliás, o único empregado visível no restaurante.

Notei-o, desde o início, um tanto tenso. O tempo foi passando e começámos a perceber que o pedido que eu tivera o cuidado antecipado de fazer afinal não estava pronto. Chamei o empregado e fiz notar o meu desagrado. Já não sei como, percebi que comungava do meu mal-estar, com uma atitude que revelava a sua impotência.

Não tinha passado um minuto quando, entre a sala e a cozinha, entre o empregado e um cavalheiro de dava ares de dono, se criou uma altercação ruidosa. Os nossos pedidos estariam, ao que parece, no centro da polémica: o empregado havia-os transmitido, a tempo e horas, mas não fora dada sequência útil à sua indicação. Agora, era a sua cara, perante o cliente, que estava em causa. Daí a indignação, pelo descaso que afetava a imagem profissional do seu serviço.

Os olhares das mesas convergiam para a troca de argumentos, a qual, na lógica habitual destas coisas, sabíamos que acabaria por ser resolvida a favor do patrão.

Naquele dia, porém, as coisas passaram-se de forma diferente. O incidente com o nosso pedido fora, aparentemente, a gota de água que faz transbordar o copo. Mas, com toda a certeza, haveria por ali muitas coisas acumuladas do passado. A voz do empregado foi subindo de tom, sem que o que dizia o seu interlocutor acabasse por prevalecer: “Sabe que mais? O senhor não sabe dirigir um restaurante! Estou farto! Vou-me embora!” - e a sala, incrédula, viu aquele que era o único empregado atirar o avental para um balcão e sair porta fora.

O patrão, desautorizado, de cara fechada, teve de tomar conta das mesas, Da cozinha, em emergência, avançou, para o ajudar, uma figura feminina, como último recurso. Já nem recordo como se comeu, embora tenha, na memória acumulada de todas as vezes em que por ali passei, a ideia de um declínio inexorável da oferta. Há restaurantes que passam, perdidos no tempo.

Devo ser um recordista mundial de cenas similares. Por duas vezes, ambas nos anos 70, assisti a episódios com idênticos contornos, uma vez num restaurante de Loures, outra, não muito longe, na Flamenga, junto a Santo António dos Cavaleiros, onde então vivia. Da segunda vez, houve mesmo pugilato à mistura, somando uma coreografia de espetáculo à refeição. Sem preço acrescido, diga-se.

Passaram alguns anos. Estava num grande jantar de aniversário, na sala do único hotel de Vila Real. Já tínhamos ouvido o Abreu ao piano e a refeição corria normalmente. A certo passo, o empregado que me servia perguntou-me, em tom baixo, com um sorriso: “Já não se lembra de mim, pois não?”. Olhei para ele e, de facto, a cara nada me dizia. Ele adiantou: “Não está recordado de uma cena num restaurante, aqui perto da cidade, com o empregado a ir-se embora a meio de uma refeição?” Fez-se-me luz! Era ele! Ali estava, felizmente com emprego! Fiquei com uma grande simpatia por aquele homem. Afinal, eu estivera na origem imediata de um capítulo marcante da sua vida.

segunda-feira, janeiro 18, 2021

Pandemia

Gostei bastante da prestação de hoje de António Costa. Quase tanto quanto me tinha desagradado o modo de apresentação demasiado improvisado na passada quinta-feira.

Sei que isto vai irritar muita gente, mas, numa crise desta gravidade, sinto grande segurança em tê-lo como primeiro-ministro.

Hipocrisia

Não é popular dizer isto, mas exonerar os cidadãos das suas responsabilidades cívicas, pelo seu comportamento na pandemia, fazendo do governo o bode expiatório de todas as culpas - por não forçar os portugueses a fazer aquilo que eles não querem fazer - é uma imensa hipocrisia.

Voto eletrónico

Num mundo em que a necessidade da deslocação física tenderá a ser progressivamente atenuada pelo recurso aos meios digitais, não seria sensato começar a discutir - com serenidade, sem preconceitos e sem teorias conspiratórias à mistura - a questão do voto eletrónico?

domingo, janeiro 17, 2021

Então e a reflexão?


Há anos que ando a dizer que o “dia de reflexão”, as 24 horas sem campanha antes do dia do voto, é uma coisa ridícula, um atestado de menorização da capacidade dos eleitores decidirem por si próprios.

A possibilidade do voto antecipado revela ainda melhor o contrasenso da medida.

sábado, janeiro 16, 2021

“Observare”


Nesta altura em que passam 30 anos desde a primeira Guerra do Golfo, na qual uma coligação de 35 países, liderada pelos Estados Unidos, munida de um mandato do Conselho de Segurança da ONU, reagiu militarmente à invasão do Kuwait pelo Iraque, o “Observare” convidou a professora Patrícia Galvão Teles para connosco analisar o estado do multilateralismo. E também abordaremos a diplomacia das vacinas. Por ali falarei também da tomada de posição coletiva dos chefes militares americanos e da recandidatura de António Guterres a secretário-geral da ONU.

Pode ver este programa na TVI 24, de sábado para domingo, depois do noticiário da meia-noite.

Confinamento ?

Ontem, o anunciado confinamento claramente falhou.

Hoje, ao que consta, há imensa gente por aí a gozar o sol, “nas tintas” para a lei de exceção.

Quando um governo dramatiza uma situação - e bem, em função de uma tragédia coletiva cada vez mais evidente - e aquilo que esse governo determina não é cumprido, ao que parece por uma utilização abusiva das exceções que se pensava irem ser utilizadas com honestidade e bom senso, somos obrigados a concluir que estamos perante uma diluição perigosa da autoridade do Estado. 

Ao contrário do que se possa pensar, a democracia não concede aos cidadãos o direito individual de decidir sobre aquilo que devem cumprir, dentro daquilo que lhe é indicado como devendo ser cumprido. A lei não é “facultativa”.

Como cidadão, tenho o direito de ver respeitado pelos outros aquilo que a autoridade democrática - isto é, o poder legítimo, que o nosso voto coletivo escolheu - determinou que deva ser feito.

Ao contrário do que uma leitura primária - mas também saloia e egoísta - pode concluir, cada um poder fazer “o que lhe der na real gana” não significa liberdade, representa apenas o primado de um arbítrio que acaba por limitar os nossos direitos cívicos.

sexta-feira, janeiro 15, 2021

A Europa e o unanimismo


Deve uma Presidência portuguesa da União Europeia obrigar todas as forças políticas a um compromisso de lealdade, ocultando divergências, para não pôr em causa a imagem externa do país, no semestre de exercício?

Sendo desejável que todos possam remar para o mesmo lado, creio que, nos dias de hoje, num ambiente político tão tenso como o que se vive, será pedir demais que essa tendencial regra possa ser aceite como incontroversa.

Daí que não tenha ficado surpreendido ao ver a denúncia política, feita lá fora pela oposição interna, a propósito do nome de um magistrado indicado pelo governo para um cargo europeu.

Embora num registo bem diferente, decidi lembrar hoje um episódio antigo.

Há mais de duas décadas, quando, no governo, me coube coordenar a fixação do programa da Presidência europeia que iria ser exercida por Portugal, fui a Estrasburgo, para reuniões preparatórias no Parlamento Europeu.

Para além do “caminho das pedras” dos diversos órgãos da instituição, pedi para ver, em privado, os líderes parlamentares dos deputados portugueses.

Expliquei a cada um, com pormenor, a racionalidade das escolhas que o governo tinha feito, na elaboração da agenda para o semestre. (Escusado será dizer que a nossa margem de manobra era então muito maior, encontrando-se hoje as presidências mais limitadas na sua liberdade de ação).

Nas conversas, revelei que não tínhamos colocado no texto do nosso programa a realização de uma Cimeira UE-África, que era nossa intenção organizar e que, aliás, acabaria por vir a constituir um grande sucesso da nossa Presidência.

Porquê essa omissão? Porque, naquele momento, não tínhamos ainda a certeza de poder organizar esse evento. A então Organização da Unidade Africana (OUA) , interlocutor africano da UE, não admitia que Marrocos - país que estava fora da organização - estivesse presente na reunião. Para Portugal, por razões óbvias, era impensável organizá-lo sem um parceiro como Marrocos. Em confidência, dei então a conhecer as diligências que estávamos a empreender, mas não me comprometi com um eventual sucesso dessa nossa atividade.

Tinha seguido esse procedimento - uma partilha no pressuposto do sentido de Estado dos meus interlocutores, que julguei unidos pelo desejo de ajudarem ao sucesso da Presidência do seu país - porque me pareceu ser, da minha parte, a assunção de um mínimo de lealdade: os deputados ficariam surpreendidos se um dia tal cimeira viesse a surgir e eu os não tivesse alertado para tal, naquela conversa.

Fui ingénuo. No dia seguinte, um dos responsáveis políticos da oposição em Estrasburgo não resistiu e comentou com os correspondentes da nossa imprensa que sabia que o governo português estava a ter dificuldades em organizar uma cimeira euro-africana.

Os jornalistas, claro, caíram logo sobre mim, inquirindo sobre esse ponto, do qual, na conversa que com eles tivera, eu lhes não havia falado. Felizmente que foi possível concretizar a reunião, caso contrário a grande notícia iria ser esse “falhanço” da nossa Presidência...

Hortaliças de Estado

Há poucas semanas, soube da morte de Carlos Westendorp. Foi uma figura relevante da diplomacia espanhola: ministro dos Assuntos Exteriores, ...