domingo, novembro 22, 2020

Chover no molhado

Um blogue com poucos ou nenhuns visitantes, onde nenhuma alma caridosa faz o menor comentário, com uma agenda que “não interessa nem ao menino jesus”, continua a produzir por aí incessantes textos. Até aqui, tudo bem: há quem escreva para a gaveta, para o ego e viva feliz assim. O tal blogue tem, porém, ao seu serviço, um fâmulo, com escasso jeito para o manejo da língua portuguesa e com frequentes calinadas na escrita, o qual, não devendo ter mais nada para fazer ou sendo pago para isso, passa os dias a enviar-me essas anónimas peças, em jeito de comentários, sempre a despropósito, aos posts deste espaço, seja qual for o assunto que eu aqui aborde. Às vezes, pelo meio, mete uns insultos, sempre em linguagem rasca. Como também já houve por ali algumas ameaças, decidi que era necessário fazer alguma coisa: fui ver o IP da origem, que nos referencia com muita exatidão a área, tendo já feito a devida participação às relevantes autoridades, as quais, em devido tempo, lá irão bater à porta desse corajoso anónimo. Note-se que esses textos, por aqui, sem uma única exceção, têm sempre como destino imediato o lixo, nem sequer me dando ao trabalho de abrir os links, porque “já sei do que a casa gasta”. Acho interessante o esforço dessa gente, embora debalde, porque nunca, em tempo algum, darei alguma vez acolhimento a tão sulfurosa prosa. Mas podem continuar a mandar: clicar na pequeno sinal, com a imagem de um caixote do lixo, que surge ao lado dos comentários, e que manda aqueles textos para a origem do esgoto de onde nunca deveriam ter saído, não me demora sequer um segundo.

sábado, novembro 21, 2020

Observare


Às 21:20, deste sábado, na TVI 24, estarei com Carlos Gaspar e Luís Tomé, no “Observare”, um programa sob a coordenação de Pedro Pinto, a analisar a atualidade internacional.

Tempos de pandemia



Disclaimer: sou um forte adepto do uso das máscaras e da sua obrigatoriedade. Dito isto: detesto andar de máscara, recuso tirar uma fotografia com ela posta, só uso máscaras descartáveis, para não lhes “dar confiança” e não criar a ideia de que elas vieram para ficar nas nossas vidas para todo o sempre.

Disclaimer: concordo em absoluto com as medidas de confinamento em vigor. Dito isto: detesto ver cidades desertas e, ainda mais, num dia de sol como o que Lisboa hoje teve. Este vazio urbano é um retrato da tristeza. Mas é verdade, é assim, o país está triste.



João Flores


Acabo de saber que morreu, em Madrid, João Flores. Era um empresário de sucesso, tendo uma formação académica em economia. Desde há muito que dividia a sua vida entre Portugal e Espanha.

Em 2002, com Raul Capela e Stefano Saviotti, criou uma tertúlia a que foi dado o nome de “Clube Amizade”, constituída por cerca de uma trintena de amigos, com profissões muito variadas, que se juntavam, aperiodicamente, para almoçar, fosse no restaurante “Trattoria”, de que João Flores era proprietário, ou em outros locais, de Lisboa e não só.

Comecei por ser orador convidado de um desses repastos, ao tempo em que vivia em Paris. Quando regressei definitivamente a Lisboa, passei a integrar o Clube, por proposta de Leonardo Mathias.

O João era um homem muito agradável, com um sorriso sempre simpático e acolhedor. Várias vezes, ao longo destes anos, me telefonou de Madrid, para conversas que incluíam a troca de impressões sobre nomes possíveis para serem nossos futuros convidados, nos “episódios” seguintes da tertúlia. Sem ele, sem o seu entusiasmo e empenhamento agregador, creio que. será difícil aquele grupo vir a manter-se. A ver vamos.

O meu sincero pesar à sua família.

Reformados ao café


Há dias, fui jantar ao que julgo ser o último restaurante de Lisboa em que ainda se serve, se pedido, um café feito em balão. Ainda sou do tempo em que, por ali, não havia sequer café “expresso”. 

Em miúdo, na casa dos meus avós, em Vila Real, tenho memória de que se fazia, embora julgo que só episodicamente, café de balão. 

Lembro-me de ver o meu pai com “a mania” de que preparava aquilo melhor do que ninguém, aquecendo previamente e só depois enchendo de água bem quente, o recipiente inferior, olhando a sua subida no tubo, sabendo o tempo certo em que começava a mexer, com uma colher de pau (sempre de pau!), a mistura que se ia criando no topo, da água ascendente com o café que já lá estava (muito importante é a moagem certa da mistura usada), definindo, com rigor laboratorial, o momento exato para a retirada da lamparina, acompanhando depois a coagem, para baixo. De seguida, servia-o, em chávenas sempre escaldadadas (nunca se serve café sem escaldar antes as chávenas, como sabe quem gosta de um bom café). Depois, era a cena do regresso da lamparina, para manter aquecido (mas sem deixar ferver!) o café que sobeja no recipiente de baixo. Uma arte! O café de balão, quando bom, pode ser magnífico. Daqui a umas horas, vou fazer o meu melhor.

Quando saí do restaurante onde bebi aquele belo café de balão, teimei comigo mesmo que ia adquirir uma máquina para mim. Lembro-me de, há meses, não ter aproveitado os saldos de liquidação do Pereira, no Chiado, onde havia montes dessas máquinas. Erros da vida!

Anteontem, andei de ceca para meca, por quatro casas comerciais da especialidade, de Lisboa, sem conseguir descobrir máquinas de balão à venda. À noite, ao telefone, um amigo deu-me uma dica: “Vai ao Chaimite!”. Tratava-se da Pérola do Chaimite, na avenida Duque de Ávila. 

Ontem, liguei para lá: tinham acabado de chegar máquinas de balão! E fui logo, claro, porque já não tenho tempo para perder tempo! Estacionei em frente (vantagens do Covid), comprei a máquina, adquiri uma mistura de robusta com arábica, de S. Tomé e Cabo Verde, respetivamente, e ainda me dei ao luxo de trazer mais uns doces, para provocar um pouco a minha glicémia, que já anda “radiante” com o início do desbaste de mais de meio quilo de chocolate negro, que há dias tinha buscar à Arcádia, no jardim da Parada.

Saí do Chaimite e virei a esquina, para um chá à Versailles, onde agora, feliz e infelizmente, os lugares não faltam. Não sem antes me ter munido do último “Spectator”, numa tabacaria “de luxo”, pela extraordinária variedade, logo ao lado do Chaimite. A revista rimava muito bem com o ambiente.

À minha frente, vi um cavalheiro, muito idoso, a tomar café, sozinho. Há pouco mais de um ano, ele estava ali com uma senhora, também de muita idade, sentados numa mesa ao lado da nossa. Era médico, disse-me, metendo conversa connosco. Ela tinha Alzheimer, contou-me então ele, revelando um carinho imenso pela senhora. A certo ponto, pediu-nos se podíamos olhar por ela, enquanto saía da mesa, por uns minutos. Fizemos isso e, instantes depois, logo tivemos de acalmar a senhora, desestabilizada com a ausência súbita do marido. Agora, ao vê-lo tão só e com ar tão triste, não tive coragem de perguntar-lhe por ela. Se calhar fiz mal.

Lisboa, terra de reformados ao café. Que falta faz o O’Neill!

sexta-feira, novembro 20, 2020

Rudy Giuliani


Não, não vou colocar aqui a fotografia do advogado de Trump, Rudy Giuliani, com o suor tingido pela tinta do cabelo, como muita imprensa está hoje a fazer, um pouco por todo o mundo. A baixeza que a utilização dessas imagens representa coloca quem recorre a esse expediente ao nível de Trump e dos seus sequazes, de que Giuliani é um dos expoentes notórios.

Quando, há quase 20 anos, fui viver para Nova Iorque, já conhecia Giuliani de nome, como presidente do município local. Era então notado por ter introduzido um estilo de rigor securitário na cidade, sendo com isso acusado de ter fomentado arbitrários controlos a suspeitos, normalmente negros. Mas, numa lógica de “law and order”, tinha imensos admiradores.

Giuliani era defensor de uma particular teoria com que eu simpatizava (e simpatizo, aplicando-a sempre que posso, na minha vida diária, pessoal ou profissional): a da “broken window”. A ideia é simples. Se uma janela aparece partida, se uma porta fica com ar degradado, se uma lâmpada se funde, se algo surge estragado, deve proceder-se de imediato ao respetivo conserto: a degradação “chama” degradação, banaliza o desleixo, cria um ambiente que favorece quem fomenta o tipo de atitude do “deixa andar”. 
No caso de Nova Iorque, Giuliani atacou e reduziu o vandalismo, criando uma forte consciência pública contra a degradação da cidade. Dizia-me quem vivia em Nova Iorque que a cidade ficou bem melhor para viver no período de Giuliani.

Com Giuliani, que já antes perseguira a máfia e desmantelara o “red light district” que enchia a zona de Times Square (de que eu bem me lembrava, quando visitei a cidade em 1972), o crime urbano baixou drasticamente, embora a doutrina se divida sobre se parte desse mérito não se deverá a fatores demográficos e económicos de outra natureza. Não sei o suficiente para ter opinião nesse debate. 

Numa das primeiras vezes que saí de casa, nesse mês de março de 2001, para dar um passeio pelas redondezas depois do jantar, apercebi-me de que havia um batalhão de viaturas de televisão à volta de uma moradia, situada a escassas centenas de metros do prédio onde ficava o meu apartamento. Se, em lugar no “New York Times” e do “Washington Post”, eu lesse o “Daily Mail” ou o “New York Post”, teria logo percebido o que isso queria significar.

A casa chamava-se Gracie Mansion e era a residência oficial do chefe da municipalidade nova-iorquina, Rudy Giuliani. Mas ele já não vivia lá. O “cerco” mediático devia-se à circunstância da sua mulher “oficial”, com quem tinha rompido pelo facto do marido se exibir publicamente com outra senhora, se recusar a abandonar a casa. Giuliani estava a acabar o seu tempo de “Mayor” mas a sua vida sentimental e respetivo escândalo pública tinham então maior relevo do que os seus feitos no município.

Isso iria mudar radicalmente, meses depois. Com um comportamento exemplar no 11 de setembro, passou a figura venerada e, até, um pouco por todo o mundo, a personificação da cidade agredida barbaramente. A sua ambição política ressurgiu então, embora sempre com limitado sucesso. Este só viria a surgir na sua qualidade de advogado, de que Trump se tem utilizado, no seu esforço patético para se agarrar ao poder.

Ontem, voltámos a vê-lo, na defesa de Trump. Por muito qualificado que Giuliani, como advogado, possa ser, a verdade é que vê-lo titular este combate contrasta um pouco, para pior, com a elegância da figura de James Baker, que, em 2000, na Flórida, tinha conduzido com sucesso a batalha legal que levou à eleição de George W. Bush.

quinta-feira, novembro 19, 2020

“The Crown”


A série “The Crown”, de que agora passaram mais dez episódios na Netflix, tem um imenso e perverso defeito. Ao dar um tom de verosimilhança a cenas que mais não são do que um mero produto de ficção, esses filmes podem levar os espetadores incautos a tomarem por verdadeiro o que mais não é do que uma mera suposição, por muito imaginativa que esta seja, sobre o caráter das pessoas ali retratadas, sobre a plausibilidade das cenas e diálogos apresentados. Para quem não possa ter tido acesso a outras fontes de informação, a rainha Isabel II ou o seu marido, o príncipe Carlos ou Margareth Thatcher, a princesa Ana ou Diana Spencer, são “mesmo assim”, comportaram-se “dessa maneira”, tanto mais que os filmes, para credibilizarem os seus argumentos, colam factos verdadeiros com outros totalmente inventados, à luz da criatividade dos escribas do “script”. E, deste modo, na cabeça de milhões de visualizadores da série, tudo isso passa logo a ser “História”. Por muito bem construída que a série esteja, um seu espetador mais atento deve ter sempre a consciência de que aquilo a que está a assistir não é um documentário e que há um elevadíssimo grau de arbítrio interpretativo - e, às vezes, claramente preconceituoso - no modo como a família real britânica e outras figuras surgem caricaturadas. No sentido positivo ou negativo, note-se.

quarta-feira, novembro 18, 2020

A Europa é isto



Só quem for ingénuo, ou quiser fazer-se passar por tal, pode dizer-se surpreendido com o bloqueio colocado por dois governos ao acordo que pode permitir um importante, e inédito, desembolso financeiro com origem na União Europeia, com vista a ajudar os Estados membros a enfrentarem o surto pandémico que está a devastar as suas economias.

Os sinais estavam todos aí, desde há muito, de que esses países iriam aproveitar a ocasião para exercerem uma forte e oportunista chantagem junto dos seus parceiros.

O que está em causa, nesta barganha e braço-de-ferro, só mediatamente tem a ver com esses dinheiros europeus. O que esses governos querem significar, com este seu gesto de força, é que a Europa tem, de uma vez por todas, de aceitar a legitimidade da leitura que fazem do que significa o respeito pelo Estado de direito e pela separação de poderes, isto é, a sua peculiar interpretação sobre os deveres que decorrem da subscrição dos tratados.

Esta, como se sabe, não é uma questão nova. É um problema que anda, desde há anos, pelas mesas e corredores da União e – vamos chamar os bois pelos nomes – que a cobardia e a pusilanimidade dos parceiros tem deixado prolongar e, pelos vistos, prosperar, em total impunidade. O constante conforto, feito de sorrisos e de palmadas nas costas, dado aos líderes desses países, em especial por parte dos seus parceiros do PPE (Partido Popular Europeu), mas não só, configura uma atitude obscena e denuncia bem o medo que sempre houve em os confrontar e isolar. A paga aí está agora.

Este não é, também, um problema apenas jurídico, como alguns exegetas dos tratados querem fazer crer. Trata-se de uma questão política de fundo, que vai ao âmago da identidade europeia, isto é, da filosofia comum a que um país se obriga quando entra para o “clube” comunitário.

Trata-se de garantir à totalidade dos cidadãos, cujos Estados estão inseridos no projeto integrador, que, independentemente das respetivas ordens constitucionais, usufruem de um corpo de direitos que lhes advém da sua cidadania europeia e que essas ordens internas não podem derrogar.

Este problema, porém, tem precedentes. Lembremo-nos no fechar de olhos que se verificou quando alguns países bálticos se comportaram miseravelmente face às minorias russas que tinham herdado. À época, porque do outro lado da cerca estava Moscovo, imperou o cinismo da realpolitik.

Nessa altura, alguns não quiseram perceber o precedente que se estava a abrir. Talvez entendam melhor agora.

terça-feira, novembro 17, 2020

Gaimusho


Almocei, há pouco, com diplomatas japoneses. Lembrei-me e lembrei-lhes uma história.

Quando entrei para a carreira diplomática, ao ler telegramas da nossa embaixada em Tóquio, comecei a ficar intrigado com um interlocutor regular do nosso embaixador naquela capital, fonte credível de interessantes informações. 

Assim, lia frequentemente nas comunicação que nos chegavam do Japão coisas como "apurei junto de Gaimusho", "a opinião de Gaimusho é", etc. Com a patetice de um caloiro que hesita em perguntar o que teme que deva ser óbvio, terei andado umas semanas até descobrir quem era o tal Gaimusho. 

Um dia, lá resolvi o mistério: Gaimusho era nome pelo qual era conhecido o ministério dos Estrangeiros japonês.

De certo modo, há a tendência de pensar que uma diplomacia que é conhecida pelo nome da sede da sua chancelaria assume, aos olhos das outras carreiras externas, uma dignificação especial, pelo peso histórico que o nome representa. 

Seja assim ao não, um diplomata que se preza sabe que o seu colega de Madrid dirá que “fui ontem a Santa Cruz”, o de Roma reportará que “fiz a diligência solicitada na Farnesina”, o de Londres dirá que foi “ao Foreign Office” (ao apenas, “ao FO”), o de Paris “ao Quai” (se for “maçarico”, dirá “ao Quai d’Orsay”). Na Alemanha, terá que saber interpretar a sigla AA (Auswärtiges Amt), tal como, na Rússia, o MID. Quase tudo o que sair desta lista já é um preciosismo. É que a esmagadora maioria das diplomacias, na realidade, não têm um nome de referência, pelo qual seja internacionalmente conhecida.

O “poder” desse nome é tal que pode “migrar”. É o caso do Brasil: ao falar-se do Itamaraty, toda a gente sabe tratar-se do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, em Brasília. Porém, alguns não saberão que, na realidade, o original Palácio do Itamaraty se situa no Rio de Janeiro e foi, de facto, a sede da diplomacia brasileira antes de se mudar para Brasília. Porém, levou consigo o nome para o novo e belíssimo edifício onde hoje se situa na nova capital.

Também nós, portugueses, temos a tentação de assumir que os diplomatas estrangeiros em Lisboa devem dizer, nas comunicações para as suas capitais "apurei hoje nas Necessidades" e frases do género. A nossa esperança é que nunca traduzam o nome do palácio...

segunda-feira, novembro 16, 2020

A ver se

Quando vivia em Brasília, havia um empregado na residência, o excelente Romário, que tinha por atitude fazer, de imediato, tudo o que se lhe pedia para ser feito. “Ó Romário, quando puder, compre pilhas para os comandos da televisão”, um de nós dizia-lhe. Minutos depois, era certo e sabido, ouvia-se o ruído da carrinha: era o Romário, a caminho da Quadra comercial. E as pilhas lá surgiam. Um dia, perguntei-lhe por que procedia assim: “Para não ficar preocupado com nada, senhor embaixador”. 

Quando, cá por casa, andamos dias para comprar alguma coisa, a frase clássica é: “Se fosse o Romário, já estava feito!”.

Nunca consegui ser assim, como o Romário. Pouca gente consegue, aliás. Na minha família, ouvi sempre uma expressão que traduzia a vontade de só fazer amanhã o que já devia estar feito ontem. Era o “a ver se”. Volta e meia, perante o chiar de uma porta, um de nós dizia: “A ver se se põe um pingo de óleo naquela corda da roupa”. Ou o “a ver se se compram envelopes cá para casa”. O mais clássico é o “a ver se um destes dias telefonamos a... “ Como quase cinco décadas de casal já nos aculturaram mutuamente, estamos bem um para o outro, ambos “a ver se“ esse outro faz as coisas.

O “a ver se” é sempre um voto piedoso que, ao mesmo tempo que nos confere o meritório crédito de ter tido a consciência da existência de um problema, “passa a bola” da respetiva resolução para uma entidade indefinida. Desejavelmente, não nós.

Mas o “a ver se” também tem outra aplicação. Ajuda a procrastinar - um verbo que eu adoro praticar mas que detesto ter de assumir que sigo cada vez mais.

Há horas, o tal Ventura parece que deu uma entrevista à TVI. Não me apeteceu ver em direto. Aliás, não me apeteceu sequer ver hoje. Vou ler o que vai surgir nas redes sociais e na imprensa de amanhã sobre o assunto e, depois, com a calma que ter televisão por cabo permite, talvez amanhã (mas não é garantido) voltarei atrás. 

Um amigo, daqueles que vê telejornais em direto (a maioria vê, eu só por muito raro acaso) telefonou-me, há pouco: “Viste o facho?”. Respondi: “Não, não vi. A ver se amanhã arranjo tempo para isso...”

domingo, novembro 15, 2020

Blogue da semana

 


O blogue “Delito de Opinião” é, reconhecidamente, uma referência nacional no mundo da blogosfera. Contemporâneo deste bem mais modesto e artesanal “Duas ou Três Coisas” (ambos nasceram no início de 2009), o “Delito” é um blogue coletivo com larga e sustentada audiência. 

Hoje, o “Delito” teve um gesto de simpatia, pela tecla de Alexandre Guerra (também autor de um interessante blogue dedicado à temática internacional, chamado “O Diplomata”, criado em 2007), para com este espaço. Fico muito grato.

O fim do Navegador


Ao “abrir” (pode dizer-se isto, fazendo referência a uma edição on-line?) o Público de hoje, dei de frente, num texto sentido de Alexandra Prado Coelho, com uma notícia desagradável: a falência de “O Navegador”. 

Era um restaurante situado no topo do Clube Naval do Rio de Janeiro, um lugar que tinha o ar decadente das coisas fora do tempo, um estilo que nos conduz frequentemente à frase nostálgica de “já não é o que era”. O que, no caso, até era gastronomicamente injusto.

Há um Brasil de outros tempos, com arquitetura datada, que sobrevive ainda em muitas da suas cidades. Nada tem a ver com Portugal, para quem esteja à cata de referências saudosistas. Liga-se a períodos da história brasileira contemporânea que, a partir de um certo momento, entraram em dessintonia com o mundo. O Rio tem muito disso, em especial depois que a “cidade maravilhosa” se viu desapossada, por Brasília, do papel político que tinha e, no plano económico, foi suplantada por S. Paulo. O chamado “centro da cidade” do Rio de Janeiro - que, olhando para o mapa, fica tudo menos no centro - é disso um flagrante exemplo.

Fui algumas, poucas, vezes ao “O Navegador”. A única que anotei na memória foi em 2005. Acedia-se ao restaurante por elevadores marcados pelo uso. Não dava tempo para nos preocuparmos... 

Anotei então que espaço era muito agradável, com um toque “rétro”. Creio que o local do almoço foi escolhido pelo Pedro Corrêa do Lago, que, ao tempo, dirigia a Biblioteca Nacional. Estava com a mulher, Bia, e o sogro, que era, nem mais nem menos que Ruben Fonseca, um génio da escrita e uma figura que eu sabia que raramente surgia a público. Não deu para falarmos.

Foi um almoço por ocasião da atribuição do Prémio Camões. O Adriano Jordão, conselheiro cultural da embaixada em Brasília, deve lembrar-se. Fiquei sentado entre a vencedora do prémio desse ano, Lygia Fagundes Telles, e Agustina Bessa Luís. 

Ao final de uma vida em que, por acasos de função, encontrei gente muito interessante - ou outra, que, não o sendo, era relevante por si mesma - dou comigo a pensar que deveria ter tomado muitas notas da interlocução com essa gente. Nunca o fiz. Não tenho o menor apontamento. Depois, pensando melhor: se estivesse preocupado a coligir apontamentos desses instantes, “perdia-os”... Por isso, sobra o que tiver de sobrar. Adiante.

Até esse dia, nunca tinha encontrado Agustina. Era uma mulher com um olhar vivo, perscrutante. Com surpreendente à vontade, ia fazendo comentários, de caraterização caricatural, às vezes cruel, sobre algumas pessoas à mesa. “Não acha que aquela tem ar de ...” Tinha imensa graça mas eu, confesso, estava espantado: não me conhecia de parte alguma, eu estava ali formalmente como embaixador de Portugal, e ela dava-se ao luxo (e dava-me a confiança para me introduzir nessa intimidade) de elaborar, ludicamente, sobre os circunstantes. Sem peias, com toda a liberdade.

Num certo momento, puxei a conversa para Manuel de Oliveira, perguntando-lhe por filmes que este tinha feito com base em romances seus. Quando esperava loas ao parceiro da passagem a filme das suas criações, saiu-me o contrário: críticas ao feitio de Oliveira, que era um “chato”, com quem tinha discussões. “Algumas vezes, deu-me cabo de boas ideias. Tem muitas manias”. Eu estava siderado, mas, pensando bem, acho que Agustina estava a fazer “um número”, a que achava graça.

Nessa mesma noite, no Copacabana Palace, quando Helder Macedo a elogiou, dizendo que “a Agustina é uma mulher feliz, só tem amigos, não tem inimigos”, guardei a réplica rápida: “ Não tenho inimigos? Posso não ter, mas faço-os...”

Volto ainda ao almoço no Navegador. A figura do dia, que eu tinha à minha direita, era Lygia Fagundes Telles. Eu (confesso!) tinha lido poucas coisas dela, mas agarrei aquilo que dela conhecia para ancorar a conversa. (Em voz não muito baixa, minutos antes, Agustina tinha sido franca: “Não gosto muito do que ela escreve!”). Lygia era uma figura pessoalmente muito interessante, com alguma doçura, nos 82 anos que então já tinha. Disse-me coisas simpáticas sobre Portugal e os seus amigos portugueses, que eram muitos. E, nunca mais o esqueci, repetiu uma frase que ouviu um dia ao seu pai, sumariando a sensação que ele tivera, numa viagem de barco a Lisboa: “ir a Portugal é como atravessar a rua para ir visitar um parente”.

O que a notícia sobre a falência de um restaurante nos pode suscitar!

Voto


Não deixa de ter graça comparar os sistemas eleitorais dos dois maiores países das Américas.

O mais rico, os EUA, tem o sistema de apuramento de votos que temos visto - indutor de dúvidas, suspeitas e atrasos.

O Brasil, bem menos rico, também com uma grande população, distribuída por um território imenso e com limitadas infraestruturas, dispõe de um sistema de voto eletrónico fiável, com resultados na hora, como hoje se verá.

sábado, novembro 14, 2020

Cozido pandémico


E amanhã, em “take away”, lá virá a casa o clássico cozido à portuguesa do “Faz Figura”. No próximo domingo, será o do “Nobre”. A pandemia combate-se com colesterol. Sempre do bom!

A cidade e a alcatifa



Nem me perguntem para que é que eu queria um pedaço de alcatifa, em Luanda. A verdade é que, tendo sido obrigado, por falta de casa, a ir ocupar um pequeno apartamento que, na altura da independência de Angola, tinha sido acabado por um “pato bravo”, a “mata-cavalos”, com torneiras cimentadas à parede (sem nenhuma canalização por detrás, é verdade!), havia nele partes da sala com um “soalho” de cimento, que só um pedaço de alcatifa disfarçaria. Mas onde comprá-la, nessa Luanda sitiada pela guerra civil, quase sem lojas, no início dos anos 80?

O chanceler da embaixada, Novais Ferreira, que conhecia os escaninhos de Luanda como os dedos das suas mãos, disse-me que, em tempos não muito distantes, um determinado comerciante português tinha tido alcatifas. Não custava nada passar por lá, embora a esperança de que ainda houvesse algo à venda fosse ínfima.

Mas eu, que estava farto daquela nódoa na minha sala, que lhe dava um ar de terraço, nem quis ouvir outra coisa. E partimos para a loja do tal português, Lousada, de seu nome, situada num edifício relativamente novo da zona baixa da cidade, na rua paralela à marginal, à Avenida 4 de Fevereiro.

Era uma sala comprida, com escassíssimos produtos, a maioria dos quais com ar de ali estarem, não para consumo, mas “para encher montra”, como então por ali se dizia muito. Ao fundo, estava um homem na casa dos 60 anos, refastelado numa cadeira, em frente a uma mesa de vidro. Era o tal Lousada, disse-me, baixo, o Novais Ferreira.

O Lousada falava, num tom bem audível e que era para o ser, para uma pessoa que entretanto ia saindo, cruzando-se connosco, dizendo: “Ó homem! Nem as pense! Alcatifa? Por estes tempos, o meu amigo não encontra um metro que seja de alcatifa em Angola. De Cabinda ao Cunene! Tire daí o sentido!”

Que raio de coincidência! Olhei para o meu companheiro de diligência, disposto a acabar logo com a aventura. O Novais Ferreira continuava, contudo, a avançar pela sala, até que chegámos junto do homem. Apresentou-me como um dos diplomatas da embaixada, chegado a Luanda há uns meses. O Lousada não pareceu muito impressionado: estendeu-me a mão, mas não se levantou.

Nesse instante, vislumbrei, debaixo do vidro da mesa, uma fotografia. Era do próprio Lousada, com duas crianças pela mão. Atrás, na imagem, estava a estátua de Carvalho Araújo, na avenida com o mesmo nome, em Vila Real. Arrisquei: “O senhor Lousada tem alguma coisa a ver com Vila Real? É que eu sou de Vila Real.”

O Lousada abriu-se num sorriso, levantou o corpo, que então vi ser pequeno mas pesado, da cadeira onde até aí se tinha mantido sentado, deu a volta à mesa e veio dar-me um abraço. “Eu sou de ...” e disse-me um nome de uma localidade do distrito que tanto podia ser Justes como Alijó ou Murça ou outra por ali; tenho boa memória, mas nem tanto! Voltei a atirar ao alvo: “Por caso, não é parente do senhor Lousada, da tipografia da rua Central?” Algo me sugeriu essa hipótese.

O sorriso do homem aumentou. Era, era de facto irmão daquela figura muito pequena, casado com uma senhora do mesmo porte, que, desde a minha infância, eu via passear, de costas muito estendidas, pela ruas da cidade. Pelos vistos, não eram uma família que se distinguisse pelo grande porte físico. Talvez mesmo pelo inverso.

Com a Minerva, o Vilarealense e o Agostinho da Travessa, a indústria do Lousada fazia parte do quarteto de tipografias locais. Tinha porta aberta entre a tabacaria do Fernando Choco e a sapataria do Julinho, em frente à casa fotográfica do Marius e aos eletrodomésticos do irmão deste, o Dionísio. Inundei o Lousada de Luanda com estes pormenores, para adensar a confiança e a cumplicidade regionalista.

No final deste reconhecimento mútuo, embora ainda sem a menor esperança, adiantei: “Indo agora ao que me trouxe aqui, senhor Lousada. Ando à procura de uns metros de alcatifa, mas, pelo que lhe ouvi dizer ao cliente que ia a sair, não há hipóteses, não é?”

O Lousada olhou para mim, sempre sorridente, pôs-me a mão no braço e disse: “Não faça caso! De que cor quer a alcatifa?”

Pandemia

Para que se não venha a dizer que houve falta de planeamento, não seria de montar, desde já, uma estrutura que estabelecesse uma criteriosa e transparente hierarquia de prioridades na distribuição das futuras vacinas contra a covid? Já existe? Ótimo, então é bom que se saiba.

É a vida!

Almocei, a dois, com uma pessoa. No dia seguinte, essa pessoa sentiu-se menos bem. No outro dia, fez o teste à Covid. Ao quarto dia, chegou o resultado: positivo. Avisou-me. Eu alertei a Saúde 24 e, por duas semanas, segui todos os procedimentos que me indicaram. Nunca tive o menor sintoma, nem fiz qualquer teste. Hoje, ao final da manhã, acabava o meu “recolhimento” em casa. Logo hoje, começa o primeiro dos fins de semana de confinamento obrigatório parcial. Já é azar! Cumpro com gosto cívico, embora com custo pessoal. É a vida!

sexta-feira, novembro 13, 2020

Brasil - Portugal


Farei a conferência inaugural do XVII Seminário Brasil Portugal sobre internacionalização de empresas, organizado pelo Instituto Superior de Economia e Gestão, da Universidade de Lisboa, e pela Universidade Federal de Minas Gerais. Pode saber mais aqui.

O alívio


A vitória de Joe Biden - pedindo desde já desculpa a quem acredita que, qual Elvis Presley, Trump ainda vai voltar - criou uma onda de alívio em todo o mundo.

Se, em 2016, não obstante a estranheza de ver surgir na Casa Branca uma figura com aquele recorte, alguma réstia de expetativa de bom senso ainda podia existir, depois destes quatro anos, a simples possibilidade da renovação do seu mandato era um susto para a sensatez.

Há mais de um século que América é uma potência que determina ou influencia fortemente, pela positiva ou pela negativa, os rumos da vida internacional. Mesmo em cenários onde não se jogam os seus interesses diretos, os Estados Unidos acabam por funcionar sempre como um poder condicionador dos movimentos de terceiros.

Sempre assim tem sido, mas nunca se tinha assistido a uma afirmação tão despudorada da preeminência dos interesses americanos, em detrimento dos interesses dos outros, sem o menor respeito por regras e com total descaso, não apenas dos compromissos, mas igualmente do comportamento que, em todos os casos, se esperaria de um aliado.

O que se passou na atitude de hostilidade que a América de Trump assumiu face à Europa - combatendo a União Europeia, nomeadamente favorecendo o Brexit, criando tensões na Nato e revelando uma imensa falta de atenção por aliados fiéis - ultrapassou tudo o que se supunha possível numa ordem global que, mesmo sob crises, costuma respeitar algumas “liturgias”, que são uma espécie de “boas maneiras” em que se baseia o diálogo e a convivência internacional.

Um mundo em paz é gerido por um misto de interesses e de princípios, com estes a limitarem a expressão crua dos primeiros – assim diferenciando a convivência entre os países de uma selva institucional. A cooperação, a solidariedade e até um certo património histórico de relacionamento fazem parte da matriz dessa convivência.

Ver a maior potência mundial tornar-se no principal fator disruptor dessa ordem, ao assumir-se como um ator egoísta, imprevisível e quase sem baias normativas, foi uma imensa surpresa para os amigos da América.

O alívio de que falei no início do texto foi assim um sentimento comum em várias partes do mundo. Pensar em quem pode estar a lamentar a saída de Trump talvez nos ajude a perceber melhor o que essa saída traz de benéfico.

Tenho para mim que, por muitos que tenham sido os efeitos negativos do consulado de Trump, à escala global – e poderia elencar vários – nenhum teria maior gravidade, se acaso ele tivesse sido reconduzido na Casa Branca, do que a questão climática.

O negacionismo ambiental que levou Trump a abandonar o Acordo de Paris foi uma atitude de uma extrema gravidade, porque todos sabemos o efeito simbólico, para os mais graves poluidores mundiais, que a auto-exclusão americana representa. Só por isso, se mais não houvesse, e há, a vitória de Biden deveria ser amplamente saudada.

A exportação e a pandemia


No número relativo a novembro de 2020, da revista PortugalGlobal, publico, a convite da AICEP, um artigo sobre os efeitos da pandemia no setor exportador português. Pode ser lido aqui.

Tempus fugit

Com todo o respeito que uma declaração ministerial sempre deve merecer em democracia, por que será que está instalada na opinião pública uma...