quarta-feira, setembro 09, 2020

Presidenciais


Por algumas razões, achei que não devia escrever sobre as eleições presidenciais. Por outras, que sobrelevam as primeiras, entendi dever fazê-lo.

Não há, por ora, verdadeiras surpresas no horizonte eleitoral que se aproxima.

A candidatura quase clandestina, sem a menor força nem prestígio, que entretanto surgiu no espaço da direita radical, entre André Ventura e Marcelo Rebelo de Sousa, acaba por servir muito bem a este último. Como praticamente ninguém irá por aí, aos eleitores de direita que vivem desencantados com o atual presidente restam duas opções: passarem um domingo em casa ou optarem pelo candidato do Chega, apostando na antecipada certeza da derrota deste, mas expressando, dessa forma, o seu mal-estar com o atual presidente, aproveitando para lhe dar uma "lição", quiçá na esperança de lhe reduzirem o "score".

No outro lado do espetro, os comunistas terão, como sempre tiveram, o seu nome oficioso, para fazerem as contas às suas fidelidades. Como não haverá segunda volta, terão um dilema a menos.

O Bloco de Esquerda vai a jogo, como expectável, com Marisa Matias, a qual, há cinco anos, foi uma interessante surpresa, que, desta vez, não parece ter condições de se repetir. É que, com Ana Gomes no terreno, o eleitorado do "pintasilguismo" de nova geração, que já esteve com Manuel Alegre, que sempre oscila entre o Bloco e a esquerda do PS, passa a ter uma opção alternativa. Foi claro o afã de Marisa Matias em surgir a terreiro, como o foi a determinação de Ana Gomes em também marcar, desde cedo, o seu espaço. São, de facto, áreas políticas que, de certo modo, se sobrepõem. Haverá, entre as duas, um "womenagreement" de não-agressão, atentas eventuais cumplicidades criadas no Parlamento Europeu? Logo veremos.

Não parece fácil a posição de António Costa, em todo este cenário. Desde o episódio da Autoeuropa que ficou claro que, para ele, uma reeleição, quase oficiosa, de Marcelo Rebelo de Sousa, seria o mundo ideal. Mas, para tal, terá de ultrapassar alguns meses em que sabe que a uma parte, não desprezível e não desprezável, do PS não agrada a ideia de ser dada uma bênção automática a um recandidato ao qual parte importante da direita acabará por se ligar.

O eleitorado do PS é mais rebelde do que foi o do PSD, em 1991, que não tugiu nem mugiu quando Cavaco optou por apoiar Soares. Ana Gomes sabe que a sua candidatura representa o desconforto de muitos socialistas, perante a perspetiva de terem de votar em Marcelo. Pelos vistos, até de setores da direita do PS!

terça-feira, setembro 08, 2020

Vicente


Estou a sair de casa para o velório do Vicente Jorge Silva, com cuja notícia da morte acordei, esta manhã. Nunca fomos íntimos, longe disso, mas tratávamo-nos por tu, desde sempre, desde que, numa tarde de 1990 (caramba, já lá vão trinta anos!), o José Mário Costa me levou à Quinta do Lambert, onde então se preparava o “Público” e ele, Zé Mário, organizava o “livro de estilo” do jornal.

Lembrei então ao Vicente dois artigos que eu tinha escrito no “Comércio do Funchal”, nos idos de 1972/73, que ele dirigia. Claro que ele não se lembrava, mas foi simpático: “Ah! Foste tu quem escreveu isso?”. E passámos adiante. 

A espaços, no último decénio, íamo-nos encontrando numa divertida tertúlia jantante em Campo de Ourique, à qual ele conseguia ser mais relapso do que eu. Vi-o, com a família, por uma última vez, na (sua) Madeira, à saída de um restaurante do Funchal. Exclamou: “O que é que andas a fazer na minha terra?”. 

O que penso de Vicente Jorge Silva está neste texto que escrevi, há seis anos, aquando da saída do livro que Isabel Lucas lhe dedicou: “Em Portugal, goste-se ou não, há um jornalismo antes e outro depois do Vicente Jorge Silva. Para quem, como foi o meu caso, começou a ler o "Comércio do Funchal" logo depois da "revolução vicentina" de 1966, e que, a partir de 1973, o acompanhou no "Expresso", apreciando depois essa aventura que hoje é só saudade que foi a sua “Revista", e, finalmente, que seguiu com admiração a sua criação maior - o "Público" -, Vicente Jorge Silva tem um papel de exceção no mundo mediático nacional. Pelo meio, ficaram os filmes, a "Invista" (onde me recordo de ter escrito algo, de que já me não lembro) e muito texto de opinião, com a política caseira no centro, a cuja momentânea sedução ele próprio não escapou.”

Teresa de Sousa escreve hoje sobre a genialidade do Vicente. É pura verdade! Vicente Jorge Silva era uma personalidade genial, como houve poucas, em Portugal, nestas últimas décadas. E não estou a exagerar, podem crer!

Os “números” do Avante



Sob palavra de honra, por alguns instantes, quando, no sábado, olhei para este título do “Expresso”, não pensei na Festa da Atalaia. Por uma deformação política geracional, imagino que residual, fiquei com a súbita ideia de que o PCP havia decidido, por uma qualquer misteriosa razão, “esconder” números publicados do seu jornal histórico.

O fascínio pelo “Avante!”, mesmo para quem não era comunista, era uma realidade para muita gente, no tempo da ditadura. Aquele jornal de papel muito fino, que escondíamos de olhares curiosos, fazia parte da mitologia da vida de quem detestava o regime e que, mesmo não concordando em muita coisa com o PCP, reconhecia a importância da sua luta política e a inultrapassável dedicação dos seus militantes.
Tenho uma historieta ligada ao jornal “Avante!”, com o seu quê de caricato, ocorrida logo após o 25 de abril.

Estávamos em 6 de Maio de 1974. Num jornal diário, surgiu a notícia de que o PCP iria abrir a sua primeira sede, numa certa noite, na rua António de Serpa (aquela que iria ficar eternamente crismada, na memória política portuguesa, como "a António Serpa", simplificando o nome do poeta), a sede central que viria a ser substituída pela Soeiro Pereira Gomes.

Na notícia, dizia-se que o partido, por essa ocasião, iria pôr à venda exemplares de documentos clandestinos editados durante a ditadura, em especial exemplares do “Avante!” e do órgão doutrinário “O Militante”. 

Eu era, à época, um colecionador dedicado de publicações desse género, não apenas do PCP mas de toda a parafernália de formações políticas anti-ditadura que então existia, dispondo de uma apreciável coleção, a qual, naturalmente, ficaria muito enriquecida com o que o PCP viesse a disponibilizar.

Assim, ao princípio dessa noite, apresentei-me no segundo andar esquerdo do nº 26 da avenida António de Serpa, em Lisboa. 

Atenderam-me com simpatia, dizendo-me que teria de aguardar por alguém, o responsável que ia pôr o material à venda. Os minutos foram, entretanto, passando. As salas, quase vazias de móveis, começaram a encher-se de pessoas, que se iam reconhecendo entre si. 

Eu tentava imaginar os encontros anteriores dessa gente, figurava as suas atividades no mundo clandestino dos comunistas, presumia alguns nas batalhas eleitorais em que se haviam envolvido, do MUD e de Norton de Matos a Humberto Delgado, de Ruy Luis Gomes à CDE. Mas, por muito que procurasse, nessas caras, figuras que tivesse encontrado no II Congresso Republicano de Aveiro, na célebre sessão do Palácio Fronteira ou por ocasião da Plataforma de S. Pedro de Muel, eu não conhecia ninguém. E continuava por ali sozinho. 

A certo momento, dei-me conta do ridículo da situação. Com efeito, ali estava eu, por um motivo mais do que fútil, numa festa que não era minha e que, para aquelas pessoas, era uma verdadeira ocasião histórica. É que aquela era a data em que um partido que entrara na clandestinidade 48 anos antes, cujos militantes haviam sofrido como nenhuns outros a violenta repressão da ditadura, abria, na legalidade, a sua primeira sede. E eu era, nesse evento, um verdadeiro intruso. 

Começava a ter a sensação, porventura exagerada, de que essa minha solidão já deveria estar a ser olhada, com estranheza, por alguns. É que eu não procurava estabelecer contactos, com receio que alguém me perguntasse qual era a minha relação com o partido, que não era nenhuma. Discretamente, fui-me aproximando da porta de saída.

Foi então que dei, de frente, com uma cara conhecida, um antigo quadro do movimento associativo de Medicina, que eu cruzara em várias "guerras" universitárias, que todos dávamos então como ligado ao PCP. Olhou para mim, com algum espanto, sabedor que aquela não era a minha "praia" política, seguramente perplexo com a minha presença no seio dessa festa do seu “Partido" - como, à época, a maioria de nós designava o PCP. 

Imagino a risível figura que eu devo ter feito, quando lhe revelei: "Vinha aqui comprar "Avantes!" antigos, que li que iam ser postos à venda...". E saí, escada abaixo.

segunda-feira, setembro 07, 2020

Força!


“Então tu viveste quatro anos em Londres sem aqui vires?”

Eu estava quase envergonhado. Eu, que me gabava de ter andado todo esse tempo com um guia anotado dos alfarrabistas londrinos no meu carro com volante à direita, que achava que, nesse início dos anos 90, tinha conhecido todas as Dillon’s e Waterstones da cidade, de cima a baixo (diga-se que, na prática, elas eram todas iguais, como o eram as Ryman), que descobrira algumas estantes da Foyle’s onde parecia não ter ido ninguém há anos, que coscuvilhava tudo o que eram casas de livralhada em Charing Cross, que me passeava pela Hatchard’s com a mesma cerimónia com que ia beber chá ao vizinho Fortnum & Mason, eu, afinal, não conhecia aquela formidável John Sandoe.

Uma livraria extraordinária que sempre havia estado ali, ao lado da “swinging sixties” King’s Road, do mais desinspirado mas mais eficaz armazém de Londres, o John Lewis, a dois passos da trotante Sloane Street, a duas ou três esquinas de um hotel (mais do que “de charme”) que, por muito tempo, havia sido um dos meus segredos na cidade, o “11 Cadogan Gardens”, até que lhe deu para disparar nos preços.

Pois é! Foi apenas nessa visita a Londres, para o jantar da Crabtree de 2009, quando já vivia em Paris, que o António me fez descobrir a mais amável livraria de Londres.

Hoje, o António não quer saber nada disso e pensa que a vida lhe pregou uma partida que não estava no “script” da dita.

Eu nunca esqueci que, um dia, perto do Natal de 2011, num hospital público parisiense, comigo saído da anestesia de uma operação delicada, com a minha família impedida subitamente de poder estar por perto, a primeira cara com que deparei foi a do António, que já então vivia, como eu, em Paris, e que me disse, com um sorriso amigo e bom, de que lembro para sempre: “Acorda, homem!”.

Mas ele hoje não quer ouvir falar em hospitais! Força António! Força Carol!

domingo, setembro 06, 2020

A máfia lusa


Uma bela série que passa na RTP2, filmada em Corfu, na Grécia, fez-me recordar uma semana que passei naquela ilha grega, há mais de 20 anos, integrado numa tertúlia política - o Symi Symposium - coordenada por Georgios Papandreou, à época ministro grego dos Negócios Estrangeiros.

Tal como veio a acontecer em outros anos, tinha sido convidado a participar nesse ciclo de debates sobre temas internacionais. Nesses exercícios, pagávamos do nosso bolso as viagens para a Grécia e duas fundações, uma grega e outra sueca, encarregavam-se depois por completo de nós, durante toda a estada no país - viagens internas, hotéis e refeições. Os debates tinham lugar, em cada ano, em locais diferentes do país. Em 1999, foi em Corfu.

Os cerca de trinta participantes, de quase tantas outras nacionalidades, tinham vindo conjuntamente de Atenas, de avião. À chegada ao hotel, os quartos já nos estavam atribuídos, pelo que cada um de nós se ia aproximando do balcão, para receber a chave.

Quando chegou a minha vez, verifiquei que houve uma pequena hesitação: “Senhor Costa? Aguarde um momento, por favor”. Fiquei intrigado. Vi então sair de um escritório um cavalheiro que, rodeando o balcão, se dirigiu a mim, em português, dizendo-me: “Seja bem vindo, eu sou português, diretor do hotel e queria dizer-lhe que tenho muito gosto em que fique instalado numa suite igual à do ministro Papandreou”.

Eu estava um pouco embaraçado pela discriminação positiva de que era objeto, tanto mais que os meus colegas olhavam já com alguma estranheza para aquela abordagem personalizada. Agradeci muito a gentileza e preparava-me para zarpar discretamente para os aposentos - que, vim a constatar, eram, de facto, deslumbrantes - quando o diretor, alto e bom som, no meio de toda aquela gente, chamou com voz forte um empregado para levar “a bagagem do senhor Costa à suite número tal”. Caí então no centro dos olhares, alguns irónicos, outros talvez invejosos, hesitante sobre se haveria de esclarecer que o privilégio era devido à boa “máfia” portuguesa que se espalha pelo mundo. Optei por calar essa cumplicidade.

Às vezes, penso que seria muito bom voltar de novo a Corfu, desta vez sem ter de participar em debates, de manhã cedo ao fim da tarde, durante todos os dias de estada, mas apenas para poder gozar as praias. Com o ambiente em que o mundo entretanto entrou, duvido muito que o venha a fazer. E “suites”, isso nem vê-las!, a menos que o nosso simpático compatriota ainda por ali tenha ficado.

sábado, setembro 05, 2020

sexta-feira, setembro 04, 2020

Saudades da Gôndola


Hoje surgiu-me na net esta interessante imagem da frontaria do restaurante “La Gondola”. Naquele espaço, quase em frente à Gulbenkian, vão agora surgir escritórios. 

A Gôndola nunca foi um marco gastronómico, longe disso, mas tinha uma indiscutível graça. Lembro-me de que, por ali, operavam umas empregadas de bata preta e avental branco, atavio de que, em Lisboa, só recordo usado em “A Quinta”, uma também “falecida” casa, situada no fim da ligação do alto do passadiço do elevador de Santa Justa para o Carmo.

Num belo dia como o de hoje, almoçar em boa companhia no jardim da Gôndola (lá dentro, o espaço era desinteressante, salvo o esconso bar à entrada) seria bem simpático. Mas nada de nostalgias: há hoje, por essa Lisboa, um mundo de sítios bem agradáveis para se almoçar ao ar livre.

quinta-feira, setembro 03, 2020

Cândida Pinto


A competência suscita sempre forte inveja à mediocridade. 

Um abraço solidário à Cândida Pinto, de um utente do serviço público de televisão.

BB


Gonçalo Pereira Rosa lançou, num artigo no “Público”, a ideia de ser dado o nome de uma rua de Lisboa a Baptista-Bastos.

Nada de mais justo!

Saloios

Se há algo que, pelas piores razões, define um certo país é a corrida de muitos portugueses a mudar as placas de matrícula dos seus carros, para deixarem de ter visível a antiguidade dos mesmos.

Pudor

Há poucas coisas que me irritem mais do que ouvir pessoas falar mal dos partidos que abandonaram. 

É uma atitude que tem a “elegância” de divorciados a falarem mal dos ex-cônjuges. 

A quem se separa do que esteve afetivamente próximo é, no mínimo, exigível o recato do silêncio.

Covid

Ou muito me engano ou a recusa em usar a app Stayaway Covid vai passar a ser, para muitos, uma patética forma de “resistência cívica”. 

Há quem ainda não tenha conseguido perceber que o vírus não tem qualquer ideologia, tal como o seu combate.

Cidadania

Espero que o programa de educação para a cidadania seja equilibrado, embora me pareça óbvio que nunca será 100% consensual. Mas uma sociedade que se preze tem de assegurar que a sua juventude é educada nos seus princípios básicos, desde logo constitucionais.

Venham lá essas teorias!

A questão do dia, para os adeptos das teorias da conspiração, é descortinar a razão pela qual este governo, tão “esquerdalho”, foi afinal o primeiro a autorizar um curso de Medicina numa universidade privada - e logo a Católica! Para malta que pensa assim, nunca nada é por acaso!

Claro está que, fora de questão, fica a hipótese da proposta ter sido aceite com base nos seus méritos. Isso não passa pela cabeça dessa gente.

quarta-feira, setembro 02, 2020

Trás-os-Montes no Avante




Nunca como este ano a Festa do Avante se tornou tão polémica. Tendo o debate começado por boas razões, de ordem sanitária, logo se percebeu que o argumento acabou utilizado como arma de arremesso por quantos diabolizam o PCP.

E se, na primeira questão, alguma razão se poderia reconhecer aos contestatários da festa na Atalaia, já o peditório anticomunista subsequente tresanda a áreas políticas insalubres.

Tendo um grande respeito pela luta dos comunistas contra a ditadura marcelo-salazarista, estive na primeira Festa do Avante, realizada na FIL, em Lisboa, em 1976. Depois, em 1978, voltei à festa, já então no Jamor. E, finalmente, em 1986, a uma outra edição, na Ajuda. Nunca estive no local onde o evento agora tem lugar, na Atalaia.

Mas a que propósito surge o título do artigo, perguntará o leitor? Por três razões.

Da festa no Jamor, guardo na memória uma cena passada no stand transmontano onde, naturalmente, fiz questão de ir jantar. Encontrei então por lá um velho colega de escola primária, de Vila Real, que eu sabia ser responsável do PCP local. Surpreendido com a minha presença, e suspeitando-me - e bem! - como mero "turista político", fez-me a pergunta: "Vieste cá à festa por vir ou vieste porque devias vir?". Saiu-me esta resposta: "Olha! Vim porque me apeteceu. E tu? Foste obrigado?" Não me recordo o que me respondeu.

A segunda nota transmontana prende-se com o pão da excelente padeira de Mirandela, de seu nome Seramota, que, ao que sei, todos os anos assegura uma presença comercial militante na festa comunista. No ano passado, quando, por esta altura do ano, passei por Mirandela para me abastecer do seu produto, fui informado de que a senhora estava de serviço na Atalaia.

A Festa do Avante tem ainda uma interessante nota final, bem ligada a Trás-os-Montes, terra onde as ideias comunistas nunca tiveram um acolhimento eleitoral por aí além. Foi em Tuizelo, no distrito de Bragança, que os comunistas portugueses descortinaram a dança popular que, desde os anos 80, abre e fecha os seus comícios e tempos de antena, a Carvalhesa. A música acabou por se transformar num verdadeiro segundo hino do PCP, muito pela mão de Rúben de Carvalho, uma simpática e dialogante figura, que há mais de um ano saiu da cena da vida e que, por muito tempo, foi a principal cara da Festa do Avante - e não escrevo "alma" por razões óbvias.

Todos os anos, a Festa do Avante termina com toda a gente a dançar a Carvalhesa. Só podemos esperar que, este ano, o façam em total segurança.

terça-feira, setembro 01, 2020

De verde


Foi vestido de verde que conheci o António Franco, que nos deixou há algumas semanas e que hoje vai ser evocado pela família. Ele também estava de verde. Foi em Mafra, na Escola Prática de Infantaria, na segunda incorporação de 1973.

Não estávamos sozinhos. Éramos umas centenas, creio que 900, todos vestidos do verde da farda, recém tirados à vida civil, por um período que não podíamos prever, mas que podia ir até mais de três anos, com guerra colonial em África pelo meio, para a esmagadora maioria daqueles que por ali estavam, nas lúgubres traseiras do convento que ainda não tinha obtido glória por via literária.

Éramos muito diversos. Havia por ali gente casada, com filhos, curso superior, vida organizada, alguns a aproximar-se dos 30 anos, ao lado de uns miúdos a quem a tropa tinha apanhado cedo, logo após a vintena. O António estava no grupo dos primeiros. Eu estava no meio da tabela etária, já empregado, prestes a casar.

Creio que foi um primo do António - engenheiro, Ribeiro, de seu nome, que perdi de vista desde então - quem nos apresentou. Despachada a “tropa”, saídos com alívio das tarefas castrenses, íamos jogar cartas e roleta para uma casa que o Vasco Bramão Ramos tinha na Ericeira.

O António, ao que recordo, terá trazido a roleta. As cartas existiam lá por casa. Eu levava apenas uma irritada irreverência que disfarçava um mal-estar crónico pela condição militar, que nunca me passaria. Esses fins de tarde só não eram de total diversão porque havia que estudar para os testes “americanos”, sem o êxito nos quais nos arriscávamos a perder a saída do fim de semana. Ali se aprendia que o sargento da guarda “rende e ronda”, decoravam-se magnas questões das temáticas da “ordem unida” (a coreografia militar na parada), inteirávamo-nos das subtilezas do funcionamento da culatra da G3 e de outros temas tão ou menos apelativos do que esses.

Julgo não macular postumamente a folha militar do António se agora revelar que ele tinha conseguido obter, por artes que nunca cuidei em saber, para não ter de partilhar o pecado, os testes do ciclo anterior ao nosso - e facilmente se perceberá que a imaginação militar nunca iria ao ponto de mudar o conteúdo das perguntas, de um ciclo para o outro. Aquele quarteto de soldados-cadete não só comungava esse imenso segredo como era mesmo obrigado, no momento do teste, a errar deliberadamente em uma ou duas questões, para não parecer excessivamente “perfeito”. Para que conste, nunca falhámos um fim de semana em casa.

O António, sem surpresa, era o soldado-cadete (já não me recordo como isso era designado) que sempre coordenava e apresentava o seu pelotão, bando de trinta cadetes em que se dividem as companhias. Ficou famoso pelo garbo com que o fazia, num estilo sempre irónico.

Um dia, creio que nas festas de Mafra ou da unidade, em que todos fomos obrigados a mudar de farda umas quatro ou cinco vezes, para atender à diversidade daa funções, ao ser inquirido na formatura da saída, por um tenente “chicalhão” (dizia-se dos milicianos que gostavam mesmo daquilo, ao ponto de algum sadismo sobre quem era comandado), como é que apreciara a forçada agitação de vestes durante a jornada, o António crismou uma frase que ficou nos anais do ciclo: “Saiba vossa senhoria, meu tenente, que, ao ter de me vestir e despir tantas vezes, no mesmo dia, por um momento senti que esta venerável Escola Prática se assemelhava a uma casa de meninas, sem qualquer ofensa para estas últimas, bem entendido!”

Mafra acabou, depois desses três meses que registei como dos mais sinistros da minha vida, mas que o António, surpreendentemente, achou divertidíssimos. E, sempre de verde, lá marchámos, salvo seja, para a Escola Prática de Administração Militar, no Lumiar, em Lisboa.

É que, dos 900 bravos cadetes de Mafra, nove havíamos sido os felizes eleitos, por testes psicotécnicos, para a simpática especialidade de Ação Psicológica, uma área em que se era “operacional” pela palavra. Desses nove, os primeiros três classificados ficariam garantidamente na “metrópole”, sendo os restantes seis destinados às “províncias ultramarinas”, mas sempre acolhidos no conforto dos respetivos quartéis-generais, onde a “Apsic”, com razão, era uma tarefa muito invejada.

Posso revelar que, ao final desses mais três meses de “instrução”, o António, o Jaime Nogueira Pinto e eu fomos classificados para não pôr os pés nas “possessões ultramarinas”. O Jaime, coerente, não aceitou e quis logo avançar para Angola “rapidamente e em força”, o António foi requisitado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (o que era possível, por não ter sido mobilizado para o “esforço de guerra”) e só eu fiquei pelo Lumiar, a dar aulas de patriotismo oficioso, até que Abril se proporcionou.

Tinham assim terminado os seis meses em que eu e o António Franco andáramos juntos, de verde, quase todos os dias. Ele voltou, entretanto, às gravatas das Necessidades, “farda” que, por sugestão dele, vim também a envergar, tempos mais tarde. O resto é sabido.

Tenho uma forte saudade do António, é tudo quanto se me oferece agora dizer, para usar o gongorismo que ele tão bem manejava, para raiva de muitos e gozo de quem lhe apreciava o humor, que nunca o abandonou até ao fim.

segunda-feira, agosto 31, 2020

Sérgio Godinho


Sérgio Godinho faz hoje 75 anos. Sem qualquer nostalgia pateta mas com um sincero reconhecimento pessoal, noto que a sua música me fez companhia serena por bem mais de quatro décadas. Alguns dos seus temas fazem parte da minha "playlist" íntima, interpretaram, às vezes na perfeição, sentimentos que fui tendo ao longo do tempo, das raivas às ternuras, das esperanças aos desencantos, confirmando-me que a sintonia geracional é uma realidade sem discussão. Godinho, porém, está mesmo um pouco para além disso, porque não ficou colado, como acontece com outros, a uma espécie de gueto etário. E não deu ares de ter feito um esforço especial para isso. A inteligência com que conseguiu fazer evoluir as suas palavras e melodias, dotando-as de uma contínua modernidade, nem artificial nem obsessiva, transformou-o num dos raros autores que mantêm hoje entre nós uma singular transversalidade de públicos. Sérgio Godinho tem 75 anos. Quem nos dera a todos envelhecer, e ver envelhecer aquilo que dizemos e fazemos, dessa mesma e alegre forma. Não conheço Sérgio Godinho. Se o conhecesse, dava-lhe hoje um abraço. Como se dá a um amigo.

domingo, agosto 30, 2020

Flagrantes da vida real


“Dois chás de camomila e um café”. 

Ela tinha um ar de vida próspera. Bem vestida, devia ter sido bonita, até que os quilos da cinquentena haviam chegado para ficar. Estava no início de algum desmazelo.

“Ponho na conta de que quarto?”, perguntou o empregado da Pousada.

Ela hesitou. Voltou-se para o marido, que ia a passar: “Qual é o número do quarto dos meus pais?”

“Não sei. Põe no nosso”.

“Isso é que era bom!”, disse, alto. E lá foi ela, três salas adiante, para poupar nove euros. Regressou com o número do quarto dos pais. 

Poupanças.Há um país de gente assim. Coitados! Devem estar ricos. Mereciam ser deserdados.

Vamos a isso!


Pela fúria organizadora com que me vejo a planear as próximas semanas, confirmo a velha perceção de que os anos começam em setembro e acabam em julho. Aquela coisa do início de janeiro, depois no Natal e no ano novo, é uma vigarice cronológica, sem a menor aderência à realidade. Nem imaginam as listas de coisas para fazer que estou a preparar neste fim de semana! Para mim, já “cheira a setembro”, como escreveu o Ary, embora falando de outra coisa.

sábado, agosto 29, 2020

Adiar o cifrão

Até hoje, nunca gastei um tostão (devia dizer um cêntimo, eu sei) com nenhuma rede social, nem fiz nenhum "upgrading" nos sites de...