No sistema político português, há uma tragédia que, por anunciada que seja, não deixa de se repetir: a vontade incontida de um presidente de ser reeleito. Se Marcelo tivesse saído ao final do primeiro mandato, seria hoje quase um rei, com estátuas em rotundas. Mas nem ele nem ninguém resiste à tentação de voltar a ser feliz onde já antes o tinha sido. A história prova, porém, que em política os milagres não resistem ao cansaço — e que ninguém sai de Belém com a aura de “santidade” que um primeiro mandato às vezes pode gerar.
No caso de Seguro, há um fator acrescido e perigoso: o risco de poder querer conquistar, agora por mérito próprio, todos quantos nele votaram apenas por exclusão de partes — porque não tinham à mão ninguém com maiores hipóteses de sucesso e porque queriam evitar o que todos sabemos. Essa seria uma guerra perdida à partida. Seguro nunca conseguiria esse pleno — ou, se o tentasse, seria à custa de um mandato feito de compromissos de “média aritmética”, o tal "ni-ni" que os franceses conhecem bem, e que acabaria por desiludir toda a gente.
Convém, pois, recordar o seguinte: António José Seguro não deve rigorosamente nada a ninguém. Pelo contrário — os que nele votaram por falta de alternativa é que lhe ficam a dever o facto de ele ter sido o seu porto de abrigo, quiçá provisório e conjuntural.
Uma nota final, simples e direta. Todos recordamos o que o candidato Seguro disse durante a campanha sobre as alterações à lei laboral. As palavras ficaram. E em política — como ele sabe melhor do que ninguém, porque estava lá quando isso foi dito um dia com estrondo — não há uma segunda oportunidade para criar uma primeira impressão.