terça-feira, abril 07, 2026

Irão


Nos últimos dias, tenho estado a ler sobre o Irão, sobre o seu singular regime e a solidão da respetiva cultura estratégica. É um livro interessante — "Irão, A Grande Estratégia, uma história política", de Vali Nasr. 

Através dele, dei-me conta de que tinha imensas lacunas de informação no tocante à Revolução Islâmica, à figura do ayatolah Khomeini e ao papel que pretendeu conferir ao Irão, na região e no mundo. O livro, equilibrado e académico, é de 2024 e ajudou-me a entender melhor o que por ali se está a passar, por estas horas, num registo iminente de aceleração da tragédia. 

Fui ao Irão uma única vez, a chefiar uma delegação da União Europeia, em junho de 2000. Contudo, privei algumas vezes com colegas iranianos, diplomatas e políticos, em várias partes do mundo. Ainda falei com diplomatas do Xá, mas conheci bastantes mais representantes da Revolução. Cada um, a seu modo, defendia o modelo autocrático de turno.

Dos primeiros, guardo a imagem de um país fortemente ocidentalizado, “american-oriented”, então confortável nas trincheiras da Guerra Fria. Já os representantes da Revolução — e foram bastantes mais — projetavam algo diferente: uma forte contenção opinativa, em tudo quanto se afastasse do mantra oficioso, uma cordialidade atravessada por alguma distância pessoal. A sua identidade diplomática era marcada por um formalismo que começava no traje e se estendia a cada gesto, a cada palavra — e recordo-me da preocupação que eu sempre tinha, em ocasiões sociais, de alertar as senhoras para o facto de não lhes poderem estender a mão, dado o rigoroso protocolo religioso que observam. Eram, invariavelmente, profissionais de bom nível — como tantas vezes acontece com quem representa países cuja agenda é difícil de “vender” ao mundo. E também vim a conhecer, em especial em Paris, alguns iranianos expatriados, muito ricos, a quem a Revolução tinha feito perder o Xá, mas que tinham sabido preservar meios para garantir uma bela vida.

Contudo, neste tempo complexo que o Irão atravessa, veio-me à memória uma troca de palavras casual que, há cerca de uma década, tive em Istambul, com um médico iraniano, que ali estava de férias com a família. Metemos conversa, já nem sei como, a bordo de um barco turístico, no Bósforo. Curioso, como sempre fui, sobre o Irão, fiz-lhe algumas perguntas sobre a vida no país e, em particular, sobre o efeito das fortes sanções então em vigor. Recordo o tom de tristeza com que me disse, mais ou menos isto: “No passado, vínhamos à Turquia e sentíamos que estávamos a visitar um país bem mais pobre do que o nosso. Desde há alguns anos, as coisas inverteram-se por completo: os turcos vivem muito melhor do que nós. As sanções contribuíram muito para o empobrecimento brutal por que o meu país hoje passa.” E, na única crítica política que lhe consegui extrair, acrescentou: “Mas há exceções: a classe política quase não é afetada pelas sanções, continua a ter os seus privilégios e mordomias. Mas o povo, infelizmente, sofre muito com o condicionamento internacional a que o país está sujeito.” 

No dia de hoje, se acaso por lá ainda vive, a última coisa com que o meu interlocutor de Istambul deve estar preocupado é com as sanções económicas.

Triste

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