A guerra contra o Irão, claramente impulsionada por Israel e pelo lóbi que, nos Estados Unidos, cobre qualquer aventura do Estado israelita — por mais ilegal ou desestabilizadora que seja —, assenta em alegações de ameaça iminente que nenhum serviço de informações credível confirmou até ao momento.
Anunciam-se agora ações militares devastadoras sobre o território iraniano, as quais, a acreditar na bravata jingoísta de Trump, podem ultrapassar as limitações que as Convenções de Genebra há muito colocam às próprias guerras, numa plataforma mínima de humanidade que o horror aceitava.
Em poucas semanas, as consequências do conflito para as economias mundiais já se revelam desastrosas: uma espiral recessiva começa a desenhar-se, mesmo que um improvável acordo negocial consiga travar ou conter o conflito a curto prazo.
No plano diplomático, a hostilidade e agressividade de Trump para com os aliados tradicionais dos EUA provocaram uma erosão profunda de confiança. Mesmo que algum dia seja parcialmente revertida, essa fratura levará anos a sarar. O desrespeito sistemático pelo direito internacional, as ações que mal disfarçam objetivos de pilhagem de recursos e a afirmação obscena de que os interesses nacionais americanos se sobrepõem a quaisquer direitos legítimos de outros Estados geraram um caos na ordem internacional sem precedentes recentes. Ver a principal potência mundial abandonar qualquer regulação global mínima oferece aos Estados que, no passado, apenas relutantemente a aceitavam um pretexto perfeito para se libertarem de compromissos e princípios que, ainda há pouco, muitos deles subscreviam e eram obrigados a aceitar como essenciais a um mundo minimamente cooperativo e civilizado.
Dia após dia, a atitude de Trump leva a temer que a sua megalomania sem freio o empurre para formas de subversão institucional dentro dos próprios Estados Unidos — uma fuga em frente destinada a preservar o exercício futuro do poder, independentemente do resultado das eleições intercalares de novembro, ou mesmo em substituição dele. Estarei a exagerar? Espero sinceramente que sim.
