terça-feira, abril 14, 2026

Sarko


O antigo presidente francês Nicolas Sarkozy prossegue o seu longo calvário nos tribunais. Embora já condenado em termos definitivos em diversos processos, tem outros em curso — e alguns podem agravar em muito a sua situação penal. Já passou uns dias na Santé (a clássica prisão de nome irónico) e não é impossível que lá regresse. O caminho que o espera é o das pedras.

Nos últimos dias, Sarkozy colocou-se, em tribunal, contra Claude Guéant, aquele que foi o seu mais íntimo colaborador — desde o Eliseu, de que foi secretário-geral, até ao (em França) muito poderoso cargo de ministro do Interior. Guéant está gravemente doente, com problemas cardíacos sérios, e não pode comparecer às audiências. Contudo, no dia de hoje, deixou por escrito uma resposta dura a insinuações, que me pareceram muito baixas, do ex-presidente. Tudo isto a propósito de alegados financiamentos da Líbia de Kadhafi para efeitos eleitorais.

Destruído politicamente, derrotado pela justiça francesa, sem hipóteses de qualquer retorno, Sarkozy mantém viva uma imagem positiva junto de muita gente no seu país. Muitas pessoas da direita francesa têm saudades dele — o que também é alimentado pela atual má gestão do património político que deixou, entretanto bastante absorvido por Macron e por Le Pen, cada um à sua maneira.

Mas as decisões da justiça não apagam certas lealdades. Há não muito tempo, num jantar em Lisboa, fiquei sentado ao lado de uma senhora francesa. Falou-se da política do seu país e, como é natural, não tardou a surgir o nome de Sarkozy, cuja prisão efetiva, por alguns dias, tinha tido lugar semanas antes. Eu disse que conhecia muito bem o pensamento político dele, que tinha lido todos os livros de Sarkozy, com exceção do último, em que ele relatava precisamente a sua breve experiência na prisão. A cara animou-se-lhe: por ser leitor, julgava-me fã do político.

A senhora, curiosamente, de Sarkozy, só tinha lido esse tal livro. E disse-me: “Devia ler. É muito bom.” Expliquei que não tinha curiosidade e que me parecia uma obra um tanto oportunista. Ela percebeu que se tinha enganado a meu respeito e escandalizou-se: “Oportunista? Mas ele está completamente inocente, como toda a gente sabe…” Aí fui eu quem reagiu: “Mas se toda a gente sabe, por que é que ele tem vindo a ser condenado, processo atrás de processo?” Ela foi perentória: “É uma invenção dos juízes!” 

Não resisti, e até porque a senhora tem residência em Portugal, conhece nossa língua e foi casada com um cidadão português, inquiri: “E Sócrates? Qual é a sua opinião? Também está inocente? Se a justiça o condenar será um erro judiciário? Ao contrário de Sarkozy, Sócrates ainda não foi condenado por nada, em nenhum processo.” 

Tergiversou na resposta — o que me fez pressupor que a minha companheira de mesa tinha mais fé na assertividade da justiça portuguesa do que na do seu próprio país. Mudámos de conversa.

Sarko

O antigo presidente francês Nicolas Sarkozy prossegue o seu longo calvário nos tribunais. Embora já condenado em termos definitivos em diver...