Não obstante o respeito que devo ter pelas crenças dos outros, a cada dia que passa encontro mais razões para me manter distante das religiões — aliás, como sempre estive. Não tenho a menor dúvida de que grande parte das tragédias que hoje assolam o mundo é potenciada pelas leituras radicais da fé.
A história foi pródiga em exemplos: das cruzadas às guerras sectárias do Médio Oriente, das fogueiras da Inquisição aos atentados suicidas justificados em nome de um deus — há um fio condutor perturbador entre a certeza absoluta da fé e a violência que dela pode emanar.
Não é a crença em si que me inquieta, é a arrogância que frequentemente a acompanha: a convicção de que se possui a verdade última, revelada, inacessível à razão e, por isso mesmo, imune à dúvida. E onde a dúvida é proibida, a barbárie encontra sempre uma porta aberta.
A imagem deste post é de uma das torres sineiras da igreja de São Pedro, em Vila Real. Em criança, durante alguns anos, morei perto dessa igreja. No que me ensinaram serem os sábados de Aleluia, cedo pela manhã, os sinos de São Pedro tocavam, em uníssono com os da Sé, os da Misericórdia e imagino que de outras torres. A cidade acordava sob aquele forte eco metálico, o que, para um miúdo confortável no seu vale de lençóis, soava a uma espécie de competição entre campanários.
Com os anos, percebi que, para os católicos, havia naquele som uma espécie de urgência coletiva, como se o mundo precisasse de ser acordado — convocado. Afinal, como a vida me ensinou, essa era a forma de ser lembrada uma dívida que nunca ninguém contraiu, uma culpa artificial que atravessa gerações. Por isso, passei a ouvir aquele estrondo de bronze com a mesma distância com que um estrangeiro ouve cantar numa língua que não é a sua: reconhecendo que ali deve existir significado, sem o sentir como próprio. E sem qualquer angústia ou mesmo dúvida.
Há quem precise de mitos fundadores, de narrativas que deem sentido ao sofrimento e à morte. Compreendo, respeito, mas não partilho minimamente esse sentimento. Não sou sensível à certeza pré-fabricada ou à incerteza alimentada como prova da fragilidade humana. Prefiro um universo sem propósito declarado, aberto à investigação, à maravilha e à ética construída entre iguais, do que um qualquer outro universo administrado por entidades que exigem obediência antes de merecerem qualquer questionamento. E apenas porque sim.
O silêncio que se segue ao último badalo do sino de uma igreja hoje não me angustia — é nesse silêncio, afinal, que sempre aprendi a pensar. E isso dá-me uma imensa serenidade, a mim que nasci com a alma blindada por um ateísmo tranquilo.
