Um dia, escrevi aqui sobre as "giocondas" — as mulheres de sorriso enigmático que, ao entrarem numa sala, deixam um rasto de serenidade, ao mesmo tempo intrigante e elegante. Confesso que tinha na ideia duas amigas: Teresa Gouveia e Maria Emília Brederode Santos.
A Maria Emília morreu hoje, com 84 anos. Foi uma mulher de coragem, ao lado do grande amor da sua vida, José Medeiros Ferreira. Acompanhou-o no exílio e foi precisamente desse destino partilhado que a Maria Emília trouxe ao Congresso Republicano de Aveiro, em 1973, a comunicação em que Medeiros Ferreira, com inteligência premonitória, desenhou o quadro político-militar que iria “resolver” o 25 de Abril.
Mas a Maria Emília era muito mais do que a mulher do José Medeiros Ferreira. Tinha uma vida profissional e intelectual própria, centrada na educação, área onde assumiu responsabilidades singulares. Valerá também a pena recordar os seus excelentes programas na RTP.
Era irmã do Nuno Brederode — cuja obra quase completa ambos ajudámos a apresentar, há anos, numa bela sessão na Câmara de Lisboa. Espelhava, em tudo o que dizia, uma forte densidade. O seu humor, culto e preciso, tinha um registo deliberadamente diferente daquele em que o irmão mais novo era imbatível. Nas muitas e belas noites da tertúlia da “mesa dois” do Procópio, lembro-me de que tinha sempre uma palavra certa e delicada para todos.
Vimo-nos pela última vez há já algum tempo, numa boleia que lhe dei, depois de um almoço qualquer. Ela seguia para um evento público do PS a que eu disse que não tinha vontade de ir. Estranhou essa minha atitude: "Tem de me explicar um dia esse seu estado de espírito face ao PS". Deixei-a à porta.
Há meses, a propósito de um livro do Nuno Brederode Santos que jaz, sem préstimo, nos armazéns de uma editora — ah, pois é! Deixo a novidade — prometi a alguém falar com a Maria Emília. Ela talvez pudesse ajudar a desbloquear o impasse que está a impedir a saída do livro.
Hoje, abri o “A fazer” no meu telemóvel e lá estava a nota, o nome dela, ao lado de outras dezenas de lembretes sem sequência útil. A procrastinação é um defeito que, com o tempo, tenho vindo a aperfeiçoar de uma forma que pede meças.
O Zé Medeiros partiu há muito. O Nuno também. E agora sai de cena a Maria Emília. Resta aceitar as leis da vida — estranha expressão que usamos para nomear o imperativo da morte.
Adeus, Maria Emília.
