sábado, abril 11, 2026

Maria Emília Brederode Santos


Um dia, escrevi aqui sobre as "giocondas" — as mulheres de sorriso enigmático que, ao entrarem numa sala, deixam um rasto de serenidade, ao mesmo tempo intrigante e elegante. Confesso que tinha na ideia duas amigas: Teresa Gouveia e Maria Emília Brederode Santos.

A Maria Emília morreu hoje, com 84 anos. Foi uma mulher de coragem, ao lado do grande amor da sua vida, José Medeiros Ferreira. Acompanhou-o no exílio e foi precisamente desse destino partilhado que a Maria Emília trouxe ao Congresso Republicano de Aveiro, em 1973, a comunicação em que Medeiros Ferreira, com inteligência premonitória, desenhou o quadro político-militar que iria “resolver” o 25 de Abril.

Mas a Maria Emília era muito mais do que a mulher do José Medeiros Ferreira. Tinha uma vida profissional e intelectual própria, centrada na educação, área onde assumiu responsabilidades singulares. Valerá também a pena recordar os seus excelentes programas na RTP.

Era irmã do Nuno Brederode — cuja obra quase completa ambos ajudámos a apresentar, há anos, numa bela sessão na Câmara de Lisboa. Espelhava, em tudo o que dizia, uma forte densidade. O seu humor, culto e preciso, tinha um registo deliberadamente diferente daquele em que o irmão mais novo era imbatível. Nas muitas e belas noites da tertúlia da “mesa dois” do Procópio, lembro-me de que tinha sempre uma palavra certa e delicada para todos.

Vimo-nos pela última vez há já algum tempo, numa boleia que lhe dei, depois de um almoço qualquer. Ela seguia para um evento público do PS a que eu disse que não tinha vontade de ir. Estranhou essa minha atitude: "Tem de me explicar um dia esse seu estado de espírito face ao PS". Deixei-a à porta.

Há meses, a propósito de um livro do Nuno Brederode Santos que jaz, sem préstimo, nos armazéns de uma editora — ah, pois é! Deixo a novidade — prometi a alguém falar com a Maria Emília. Ela talvez pudesse ajudar a desbloquear o impasse que está a impedir a saída do livro. 

Hoje, abri o “A fazer” no meu telemóvel e lá estava a nota, o nome dela, ao lado de outras dezenas de lembretes sem sequência útil. A procrastinação é um defeito que, com o tempo, tenho vindo a aperfeiçoar de uma forma que pede meças.

O Zé Medeiros partiu há muito. O Nuno também. E agora sai de cena a Maria Emília. Resta aceitar as leis da vida — estranha expressão que usamos para nomear o imperativo da morte.

Adeus, Maria Emília.

Dislate

Eu sei que, nos fins de semana, as redações têm mais estagiários. Mas devia haver um "adulto na sala" que impedisse este tipo de d...