Na véspera, na biblioteca da Escola Prática de Administração Militar (EPAM), onde eu era o bibliotecário, reuniram-se cinco oficiais milicianos que integravam o quadro de instrutores da Escola.
Era esse o núcleo que, desde havia algumas semanas, conspirava em ligação com o movimento dos capitães. Em sua representação, o António Reis e eu tínhamos estado em algumas reuniões, realizadas em casas particulares de Lisboa, para troca de informações sobre a organização dos oficiais milicianos do Exército, na Região Militar de Lisboa.
A biblioteca da EPAM era o nosso lugar de encontro. Haveria seguramente na unidade outros oficiais milicianos de confiança, instrutores como nós, que poderiam ter engrossado o grupo, mas alguma prudência conspirativa levou-nos a não alargá-lo. Paralelamente, no quadro permanente, a atitude detetada nos vários oficiais da unidade, aquando do falhado golpe das Caldas, pouco mais de um mês antes, havia permitido um separar de águas.
António Reis — homem com um passado político firmado na oposição democrática, mais tarde distinto historiador — era quem fazia a nossa ligação com os militares profissionais da unidade, em especial com o capitão Teófilo Bento e o alferes Manuel Geraldes, que viriam a revelar-se as figuras centrais do MFA na EPAM.
Nessa última conversa, no dia 24 de abril, ficou assente que nenhum dos restantes quatro oficiais milicianos — Otto Leichsenring, António Alves Martins, Carneiro e eu — pernoitaria na unidade. Por rotina, salvo se estivéssemos de serviço, todos íamos dormir a casa, ao contrário do que sucedia com a esmagadora maioria dos soldados-cadetes a quem dávamos instrução. Poderia causar estranheza se, nessa noite, por ali permanecêssemos sem qualquer motivo aparente, depois da hora normal de saída. Ficou então combinado que regressaríamos cerca das sete da manhã do dia seguinte.
Nenhum daqueles quatro oficiais foi informado da tarefa operacional que iria competir à EPAM nessa noite: a tomada das instalações da RTP, a algumas centenas de metros, na Alameda das Linhas de Torres. Nem tinha de o ser. A velha regra do "need to know" era respeitada. Hoje sou levado a presumir que António Reis estivesse no segredo dos deuses. Curiosamente, nunca lhe perguntei.
Nessa noite, depois de deterem os oficiais de dia e de prevenção, os conjurados tomaram a unidade e selecionaram um grupo de soldados-cadetes voluntários, que, chefiados por Bento, Geraldes e Reis, foi ocupar a RTP, onde chegaram às três horas da manhã. Integrou também o grupo de assalto o furriel José António Rosado.
Quando eu e os restantes três oficiais chegámos à EPAM, quatro horas mais tarde, o oficial de dia já era outro — o capitão Carlos Gaspar — e encontrámos a unidade sob completo controlo do movimento. Da RTP, entretanto, chegavam-nos notícias sossegantes: depois da ocupação, tudo continuava tranquilo.
Hoje todos conhecemos bem a saga das tropas de Salgueiro Maia, que por essas horas se encontravam no Terreiro do Paço, mais tarde no Carmo. Toda aquela valente e arriscada coreografia, que hoje faz parte da nossa História visual, só a viemos a conhecer depois. Na EPAM, na manhã desse dia a que ninguém ainda se referia como "o 25 de Abril", o nosso mundo era muito mais pequeno.
Por volta das oito, António Alves Martins e eu viemos a ter de acolitar o capitão Gaspar na tarefa de deter o comandante da unidade, o coronel Caldas Fidalgo, que inopinadamente tinha irrompido na parada, um episódio que acabou por ter alguns aspetos bizarros e divertidos. Pouco depois, fui incumbido de explicar ao segundo comandante, major Nogueira da Silva, a inconveniência de permanecer na Escola durante esse dia: tratava-se de uma pessoa que suscitava alguns anticorpos, pelo que estava a tornar-se difícil conter as palavras que alguns soldados lhe dirigiam, cavalgando a pontual fragilização da autoridade instituída que inevitavelmente se vivia nesse dia.
Depois da hora de almoço, fui reforçar o pessoal que estava na RTP. Integrei ali o grupo de oficiais que recebeu, já na madrugada de 26 de abril, a Junta de Salvação Nacional — que veio ler, pela voz de António de Spínola, a sua proclamação ao país. Deitei-me para umas horas de sono ao final da manhã de 26.
Durante toda a semana seguinte estive destacado na RTP. O papel da EPAM na televisão acabaria por se esgotar ao fim de alguns dias. Quase simultaneamente, foi determinada a minha saída da EPAM.
Sucessivamente, estive então colocado na Comissão de Extinção da PIDE e da Legião Portuguesa, pela qual representei o Exército na comissão de inquérito ao motim dos "pides" na Penitenciária de Lisboa, de que fui relator; estive como adjunto do gabinete do general Galvão de Melo, na Junta de Salvação Nacional; fui depois colocado na 2ª Divisão (Informações) do Estado-Maior General das Forças Armadas; fui indicado pelo EMGFA para a comissão de inquérito para investigar o "28 de Setembro"; assisti a algumas Assembleias do MFA (de dezembro de 1974 a julho de 1975, inclusivé a de 11 de Março de 1975); e integrei o grupo fundador do SDCI (Serviço Director e Coordenador de Informações), do Conselho da Revolução. Em agosto de 1975, depois de dois anos e meio fardado, saí da tropa para a diplomacia.
Foi assim o meu 25 de Abril e o tempo que se lhe seguiu. Olhando para trás, posso dizer que dei uma mão a Abril, e fiquei muito contente por ter tido esse privilégio. Mas devo mil vezes mais a Abril do que Abril me deve a mim.
