sábado, abril 25, 2026

Uma mão a Abril

Não fui um herói de Abril. Apenas dei uma mão a Abril. 

Na véspera, na biblioteca da Escola Prática de Administração Militar (EPAM), onde eu era o bibliotecário, reuniram-se cinco oficiais milicianos que integravam o quadro de instrutores da Escola.

Era esse o núcleo que, desde havia algumas semanas, conspirava em ligação com o movimento dos capitães. Em sua representação, o António Reis e eu tínhamos estado em algumas reuniões, realizadas em casas particulares de Lisboa, para troca de informações sobre a organização dos oficiais milicianos do Exército, na Região Militar de Lisboa. 

A biblioteca da EPAM era o nosso lugar de encontro. Haveria seguramente na unidade outros oficiais milicianos de confiança, instrutores como nós, que poderiam ter engrossado o grupo, mas alguma prudência conspirativa levou-nos a não alargá-lo. No quadro permanente, a atitude dos oficiais da unidade, aquando do falhado golpe das Caldas, pouco mais de um mês antes, havia permitido um separar de águas.

António Reis — homem com um passado político firmado na oposição democrática, mais tarde distinto historiador — era quem fazia a nossa ligação com os militares profissionais da unidade, em especial com o capitão Teófilo Bento e o alferes Manuel Geraldes, que viriam a revelar-se as figuras centrais do MFA na EPAM.

Nessa última conversa, no dia 24 de abril, ficou assente que nenhum dos restantes quatro oficiais milicianos — Otto Leichsenring, António Alves Martins, Carneiro e eu — pernoitaria na unidade. Por regra, salvo se estivéssemos de serviço, todos íamos dormir a casa, ao contrário do que sucedia com a esmagadora maioria dos soldados-cadetes a quem dávamos instrução. Poderia causar estranheza se, nessa noite, por ali ficássemos sem qualquer razão aparente, depois da hora normal de saída. Ficou então combinado que regressaríamos cerca das sete da manhã do dia seguinte.

Nenhum daqueles quatro oficiais foi informado da tarefa operacional que competia à EPAM nessa noite: a tomada das instalações da RTP, a algumas centenas de metros, na Alameda das Linhas de Torres. Nem tinha de o ser. A velha regra do "need to know" era respeitada. Hoje sou levado a presumir que António Reis estivesse no segredo dos deuses. Nunca lhe perguntei.

Nessa noite, depois de deterem os oficiais de dia e de prevenção, os conjurados tomaram a unidade e selecionaram um grupo de soldados-cadetes voluntários, que, chefiados por Bento, Geraldes e Reis, foi ocupar a RTP. Integrou também o grupo de assalto o furriel Rosado.

Quando eu e os restantes três oficiais chegámos à EPAM, às sete da manhã, o oficial de dia era outro — o capitão Carlos Gaspar — e a unidade estava sob completo controlo do movimento. Da RTP chegavam-nos notícias: depois da ocupação, tudo continuava tranquilo.

Hoje conhecemos bem a saga das tropas de Salgueiro Maia, que por essa hora se encontravam no Terreiro do Paço, mais tarde no Carmo. Toda aquela coreografia que hoje faz parte da nossa História só a viemos a conhecer depois. Na manhã de 25 de abril, na EPAM, o mundo era muito mais pequeno.

Por volta das oito, António Alves Martins e eu viemos a acolitar o capitão Gaspar na tarefa de deter o comandante da unidade, o coronel Caldas Fidalgo, um episódio que tem aspetos bizarros. Pouco depois fui incumbido de explicar ao segundo comandante, major Nogueira da Silva, a inconveniência de permanecer na Escola durante esse dia: era uma pessoa que suscitava alguns anticorpos, pelo que estava a tornar-se difícil conter as palavras que lhe dirigiam certos soldados, cavalgando a pontual fragilização da autoridade instituída que se vivia nesse dia.

Depois da hora de almoço, fui reforçar o grupo que estava na RTP. Integrei ali o grupo de oficiais que recebeu, já na madrugada de 26 de abril, a Junta de Salvação Nacional — que veio ler, pela voz de António de Spínola, a sua proclamação ao país. Deitei-me ao final da manhã de 26.

Durante toda a semana seguinte fui destacado para a RTP. Depois, saí da EPAM. 

Sucessivamente, estive colocado na Comissão de Extinção da PIDE e da Legião Portuguesa, representei o Exército na comissão de inquérito ao motim dos "pides" na Penitenciária de Lisboa, fui assessor do general Galvão de Melo na Junta de Salvação Nacional, fiz parte da 2ª Divisão (Informações) do Estado-Maior General das Forças Armadas, fui indicado pelo EMGFA para a comissão de inquérito para investigar o "28 de Setembro", assisti a algumas Assembleias do MFA (inclusivé a de 11 de Março de 1975) e integrei o grupo fundador do SDCI (Serviço Director e Coordenador de Informações), do Conselho da Revolução. Em agosto de 1975, depois de dois anos e meio fardado, saí da tropa para a diplomacia.

Foi assim o meu 25 de Abril e o tempo que se lhe seguiu. Posso dizer que dei uma mão a Abril, e fiquei muito contente com isso.​​​​​​​​​​​​​​​​ Mas devo mil vezes mais a Abril do que Abril me deve a mim.

Uma mão a Abril

Não fui um herói de Abril. Apenas dei uma mão a Abril.  Na véspera, na biblioteca da Escola Prática de Administração Militar (EPAM), onde eu...