sexta-feira, abril 03, 2026

As ferramentas


As eleições para a Assembleia Constituinte ocorreram vai para 51 anos. Num desses dias agitados de abril de 1975, pouco antes do sufrágio, numa deslocação de Lisboa a Vila Real, fiz a minha habitual visita às tias. As “tias”, como eram simplesmente designadas na nossa família, eram quatro irmãs da minha avó — duas solteiras e duas viúvas — que viviam nas Pedras Salgadas.

Tanto quanto me recordo, a política nunca fora tema de conversa entre nós. Mais por curiosidade do que por outra razão, perguntei-lhes se já tinham decidido em que partido, ou partidos, tencionavam votar nas eleições que se aproximavam e de que tanto então se falava. 

Com exceção de uma, a mais nova, que vivera no Porto até poucos anos antes e que talvez votasse no PS, eu estava absolutamente convicto de que o CDS ou o então PPD seriam o destino natural dos votos das minhas outras tias. Talvez tivessem mesmo já sido discretamente aconselhadas pelo prior da freguesia, o excelente e simpático padre Domingos — o homem que me batizara e que celebrara casamentos e funerais de toda a nossa família. Embora liberal noutros domínios, suspeitava que acompanhava a corrente dominante do clero nortenho, que à época diabolizava fortemente a esquerda. 

As tias mostraram-se, porém, muito hesitantes. Creio que chegaram mesmo a perguntar-me a minha opinião (eu ia votar no MES, mas não tinha coragem de as tentar convencer…), ainda que sem qualquer compromisso de seguirem o que eu lhes dissesse. Até que uma delas contou: 

“Esteve cá, há dias, a dona Albertina — que tu conheces! — e falou-nos das eleições, dos comunistas e dessas coisas. Deu-nos um conselho…” 

Fiquei imensamente curioso sobre qual teria sido o conselho da dona Albertina, uma senhora bastante mais nova, que vivera até há pouco em Lisboa e que, supus, andaria a fazer proselitismo conservador. A curiosidade foi prontamente satisfeita: 

“Disse-nos que não se deve votar em partidos que tenham ferramentas no emblema…” 

Soltei uma gargalhada. Vieram-me à memória as inúmeras foices e martelos que marcavam a iconografia partidária, bem como enxadas e rodas dentadas que ilustravam outras formações. O conservadorismo da dona Albertina revelava-se, afinal, de uma moderação quase ingénua. Acrescentaram ainda que ela própria lhes dissera que iria votar no “partido da mãozinha”, de Mário Soares, que “parecia boa pessoa” e que “não gostava dos comunistas”. 

Nunca soube ao certo em quem votaram as minhas queridas tias. Essa era, aliás, a minha menor preocupação.

25 de Abril, ainda e sempre

Lembro-me bem do nascimento deste livro. Num fim de tarde, há uns anos, na saudosa esplanada no Pereira, em Soltróia, entre duas cervejas, o...