domingo, abril 12, 2026

A voz húngara


Há cerca de seis anos, fui convidado pela fundação alemã Bertelsmann para representar Portugal como perito num estudo independente dedicado tema "Europe’s Coherence Gap in External Crisis and Conflict Management'', um trabalho ao qual associei, em co-autoria, Patrícia Magalhães Ferreira, e que foi posteriormente editado em livro.

A regra era esses trabalhos não terem um caráter oficioso. Era dada aos peritos a oportunidade de fazer uma apreciação independente da ação do seu Estado, de natureza crítica, com total distância face aos poderes políticos nacionais. O estudo sobre Portugal não passou pelo crivo de nenhum ministério.

Quando, numa das últimas reuniões em Bruxelas, que tinham lugar no Centre for European Policy Studies, entidade associada à iniciativa, foi abordada a questão da liberdade que reivindicávamos para cada um de nós, o nosso colega húngaro, a pessoa que a Bertelsmann tinha convidado para escrever o relatório sobre o seu país, afirmou mais ou menos isto: "Gostava que soubessem que não me posso comprometer a entregar o meu texto sem antes o fazer passar pelo crivo das minhas autoridades. As coisas são assim na Hungria. Não tenho, infelizmente, a margem de manobra que, pelos vistos, todos vocês têm. Vou ter de submeter o meu texto ao governo húngaro, antes de preparar a versão final do capítulo sobre a Hungria".

Fez-se um silêncio embaraçado na sala. Todos ali percebemos bem, nesse instante, que a Hungria tinha um regime político que, não obstante usufruísse de um estatuto formalmente idêntico ao dos restantes Estados-membros, vivia sob condicionantes muito próprias em matéria de liberdades.

Na noite de hoje, com Orbán fora do poder, quero crer que o nosso amigo Gyorgy Tatar deve estar a comemorar.

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A grande notícia que decorre da derrota de Viktor Orbán é o facto da democracia na Hungria, que esteve ameaçada nos últimos 15 anos por vári...