sábado, agosto 08, 2020

Já chega!

Querer um Chega “moderado” é como querer um PCP “moderno” e “aberto”. O PCP ainda existe porque não é nada disso (ao contrário dos seus homólogos noutros países, que desapareceram por completo). Se o Chega se “moderasse”, não era o Chega e o seu líder regressava a Loures...

Juan Carlos

Curiosamente, Juan Carlos passou a ter nas mãos o futuro da monarquia em Espanha. Se acaso lhe passasse pela cabeça refugiar-se num país sem tratado de extradição com a Espanha, o trono de Filipe VI, com o qual pactou o seu exílio, ficaria por um fio.

Desventura

O deputado do Chega quer ser candidato à presidência da República. Está no seu direito. Para isso tem de prescindir, em definitivo, da função de deputado. Nem a mais benevolente interpretação extensiva das exceções para a supressão do mandato permitiria o seu regresso. É a vida!

E se Trump perder?

Não se sabe se Donald Trump vai ou não conseguir manter-se no poder, depois das eleições de novembro. Mas todos sabemos que, no caso de ele vir a abandonar a Casa Branca, isso se terá ficado a dever à gestão caótica que fez da pandemia, que é, visivelmente, a principal causa da forte erosão registada na sua popularidade. A não ter ocorrido esta crise, a probabilidade de Trump ser reeleito era muito elevada - hipótese que, aliás, não pode ainda ser descartada.

Todos também já perceberam, a começar pelos americanos, que, se Joe Biden vier a suceder-lhe, sê-lo-á menos por um entusiasmo popular ao seu projeto alternativo e, muito mais, pelos erros cometidos por alguém que, já é quase uma certeza, a História virá a consagrar como o pior presidente que a América alguma vez teve.

As hipóteses de sucesso de Biden, um político decente sem um brilho particular, assentam na continuidade do processo de desgaste político do seu adversário e na esperança de que, nos próximos meses, a imagem do candidato democrático não vir a degradar-se. Isso passa também por uma boa seleção da sua parceira (será uma mulher) no “ticket” presidencial, a qual também estará, até ao último momento, sob um forte escrutínio.

O lugar de presidente do EUA, como os anos de Trump mostraram à saciedade, é uma fonte extraordinária de poder. Pode dizer-se que, em regimes democráticos, em termos de personalização, o caso americano é quase único. A legitimidade oriunda das urnas (e é uma mera “technicality”, que não olha à singularidade do sistema federal, a questão de um presidente poder ser eleito sem ter sido o candidato mais votado) concede ao chefe do Estado americano uma discricionaridade dificilmente admissível noutros regimes. O modo como Trump tem vindo a exercer essa liberalidade dá ainda mais evidência ao facto. No passado, com presidentes “normais”, com os mecanismos equilibradores do Estado a funcionarem, podiam notar-se alguns exageros. Mas Trump levou tudo isso ao absurdo.

Um presidente americano, contudo, não é apenas presidente do seu país. A expressão global dos EUA converte qualquer gesto do líder americano, com implicações externas, num vetor de influência sobre toda a sociedade internacional. E se, em condições regulares, o mundo sabe que tem de contar com a atitude americana como um fator condicionante, e muitas vezes constrangente, Trump representa uma realidade verdadeiramente nova. Ao colocar em causa a ordem internacional que estava pactuada, Trump provocou uma subversão traumática nos instrumentos de regulação global, abalando equilíbrios que os próprios EUA tinham ajudado a dar por adquiridos.

O caráter “revisionista” (como a teoria política gosta de designar) de algumas das suas posturas abriu sérias feridas e trouxe ao mundo, pela primeira vez em mais de sete décadas, uma América imprevisível, egoísta, abertamente não solidária, que colocou em causa a sua autoridade moral, como maior potência ocidental. Ao rejeitar abertamente o diálogo e o compromisso, como fórmulas reguladoras da estabilidade do mundo internacional, substituindo esse entendimento por uma lógica de pura afirmação do seu poder nacional, esta nova América transmitiu um sinal negativo a outros Estados cujos regimes ansiavam há muito por uma libertação do espartilho multilateral. Nenhuma ordem internacional pode sobreviver se os seus principais atores se considerarem isentos dos mecanismos que a regulam. Esse terá sido um dos aspetos mais nefastos do período Trump.

E se Biden ganhar? Há uma perigosa ilusão de que, se Trump vier a ser derrotado, haverá como que um “reset”, uma espécie de idílico regresso à ordem do tempo de Obama.

Ora política não funciona assim. É claro que é expectável, nesse cenário, uma retoma da atenção face à Europa, uma atitude mais simpática face ao mundo multilateral. Mas não se espere um regresso à “square one”, no jogo internacional. Muitos dos interesses americanos, protegidos por Trump, procurarão acolhimento numa eventual administração Biden. E tê-lo-ão.

sexta-feira, agosto 07, 2020

O chato

- Ó diabo! Vem ali o Castanheira!

O comentário feito pelo chefe de repartição, voltando-se para o diretor-geral, quando ambos saíam para o almoço, alertava para um perfil rotundo, algo bamboleante, que, ao fundo, vindo da rua, se aprestava para circundar o jardim central do pátio das Necessidades.

O Castanheira era um daqueles funcionários, entre o caricato e o patético, que o ministério, para não ter de enfrentar a óbvia inadequação para ocupar lugares de responsabilidade na sede, optava por expatriar em serviço, esquecendo-o em consulados longínquos, na ilusão de que isso os tornaria inóquos para a imagem de uma carreira que, por incompetência e irresponsabilidade, os havia deixado entrar no quadro e, por cobardia e descuidada gestão de recursos humanos, não era capaz de isolar numa prateleira interna, para evitar piores males.

Os "Castanheiras" existem em todos os tempos do MNE, ganham lugares no quadro externo num qualquer "movimento diplomático" que deles acaba por ter piedade ("Coitado! Tem filhos..." ou "O homem já anda por aí há tanto tempo...") e, não raramente, transmitem uma medíocre imagem do país que lhes caberia saber representar. Não são muitos, felizmente, mas, por muitos poucos se sejam, são em número demasiado. Quem conhece bem a carreira sabe do que estou a falar.

Vindo de férias a Lisboa, do lugar distante para onde o "conselho" o tinha mandado já há anos, o Castanheira avançava então, nesse dia de verão do final dos anos 70, com um fato claro de mau corte, que denunciava os tristes trópicos por onde agora pairava, em direção às duas figuras da hierarquia que saíam do palácio. Era um homem conhecido pelo verbo balofo, pelo caráter prolixo dos seus comentários, enfim, para sintetizar, por ser um inenarrável chato, uma lapa oral, daqueles que nos agarram a manga do casaco e colocam a mão sapuda no ombro, que aproximam a cara para reforçar a cumplicidade, fazendo-nos partilhar a riqueza odorífera do seu bafo, coisa agora mais perigosa, em tempos de pandemia.

Ora o diretor-geral, um embaixador da velha escola, era um exemplo conhecido de quantos, na sua consabida snobeira e pesporrência, não tinham a menor paciência para conviver com esse estilo de figuras, algo untuosas e fátuas. Tinha apenas uma vaguíssima ideia do tal Castanheira, fruto de anedotas que dele ouvira, na tradição oral de escárnio em que o MNE é useiro, vezeiro e cruel. Nunca tinha falado com ele e, francamente, não era agora que isso iria acontecer, como desde logo avisou o amigo com quem ia almoçar. Este, por uma infeliz coincidência para o momento, tinha entrado para a carreira no concurso do Castanheira, o que o não dispensava de uma saudação mínima ao colega expatriado e que há muito não via.

- É pá! Vê lá se nos libertas logo do homem! Dizem-me que é um cretino de altíssimo coturno... - sussurrou o embaixador, com o Castanheira já quase à distância de um cumprimento.

O encontro deu-se à saída do pórtico de acesso ao palácio, sob o olhar atento, venerador e obrigado do Matos, o digno porteiro que, à época, por aí oficiava, no lugar onde, nos dias de hoje, pairam umas fardas anónimas da Securitas ou coisa parecida, uma espécie de genérico funcional, em tempos de seca orçamental.

Ao abraço entre o Castanheira e o chefe de repartição, seguiu-se o inevitável:

- ... não sei se se conhecem: o Castanheira, que anda agora pela América Latina, e o senhor embaixador...

O Castanheira nem deixou o amigo terminar a frase:

- O senhor embaixador?! Essa agora! Quem o não conhece?! Tenho imenso prazer em encontrar vossa excelência. O senhor embaixador é uma figura referencial da carreira, é - permita-me que lho diga!- uma das personalidades que mais honra a nossa diplomacia. Tenho por vossa excelência uma incontida admiração e andava, há anos, por ter o ensejo de lho expressar em pessoa. É para mim um imenso privilégio poder conhecê-lo e cumprimentá-lo. E diria mesmo, agradecer-lhe o que tem feito por nós, pela nossa casa, pelo prestígio da nossa profissão. Vossa excelência é um exemplo que todos procuramos seguir.

E o Castanheira, sempre ditirâmbico, continuou numa elegia gongórica sobre a figura do diretor-geral, lembrando os seus postos anteriores e os alegados feitos profissionais relevantes que bem ilustravam esse percurso. O amigo chefe de repartição só a custo conseguiu pôr cobro, ao final de uns minutos, a essa inesgotável verborreia.

Finalmente, lá se descolaram do Castanheira, que anunciou que ia ver umas "senhoras" ao "quarto andar", para tratar do telhado do consulado. "O senhor embaixador sabe, melhor do que ninguém, o que são essas coisas", deixou no ar, profissionalmente cúmplice, afastando-se, não sem uma respeitosa vénia ao superior hierárquico.

O chefe de repartição, aliviado, olhou para o diretor-geral e comentou:

- Ó pá! Desculpa lá teres tido que aturar este tipo. É um chato, nunca mais nos desamparava a loja...

- Essa agora! Até te digo mais: fiquei bem impressionado com o rapaz! Este Castanheira pareceu-me simpático e articulado. Mudei a ideia que me tinham criado dele. Como é que ele está na lista de antiguidade? Não lhe podemos dar uma mão, na reunião do "conselho" para as promoções, para a semana?

quarta-feira, agosto 05, 2020

As cartas de Paihama

Só há pouco soube da morte de Kundi Paihama, uma figura política, e depois militar, angolana que, nos tempos de José Eduardo dos Santos, ocupou diversas e importantes funções ministeriais, tendo também sido governador de várias províncias.

Kundi Paihama era vulgarmente tido por ser de etnia cuanhama (embora ele contrariasse essa ideia), que fugia à tradicional dicotomia entre quimbundos, como José Eduardo dos Santos, e ovimbundos, como Jonas Savimbi, que polarizou a vida angolana.

Acompanhei António Pinto da França, embaixador português em Angola, na visita que este lhe fez, em junho de 1984 (recordo bem, porque comemorávamos o 10 de junho), ao tempo em que Paihama era governador de Benguela.

Recordo-me que o António descreve, com a imensa graça que era a sua, no livro “Diário de Angola”, a audiência que Paihama lhe concedeu no fausto possível do palácio do governo do tempo colonial. Não tendo agora o livro à mão, não registei se ele também fixa a cena que se passou, nessa noite, na casa do nosso cônsul em Benguela, Fernando Coelho.

O Fernando, um bom amigo já falecido há muito, era uma figura extremamente simpática, popular, que conseguira garantir um grau de interlocução muito raro com as autoridades locais. Embora as relações de Angola com Portugal atravessassem então um tempo complexo, em Benguela elas viviam no melhor dos mundos. Fernando Coelho conhecia toda a gente, dava-se lindamente com todas as entidades da província, a começar pelo governador, assim conseguindo resolver muitos problemas. Embora frequentemente pouco ortodoxo, provou ser ali o homem certo no tempo certo.

A confirmá-lo, depois do jantar no dia da nossa chegada, Kundi Paihama bateu à porta da residência do cônsul, onde o embaixador e eu estávamos alojados, dizendo que vinha “beber um copo” com o seu “novo amigo português”. A hipótese dessa visita tinha-me já sido aventada pelo Fernando Coelho, mas não lhe conferi grande plausibilidade.

Mas ali estava o poderoso Paihama, para umas horas de boa conversa, em que nos falou do seu amor acrisolado pelo Futebol Clube do Porto e nos revelou a troca de mensagens que, no “jogo de espelhos” daquela infindável guerra civil, trocava, por vias travessas, com Savimbi, em cuja eliminação - física, militar e política -, duas décadas mais tarde, viria a estar diretamente envolvido.

A imagem mais impressiva que guardo dessa noite é, porém, o momento em que Paihama se volta para o Fernando Coelho e pergunta, com a maior naturalidade: “O senhor cônsul não tem um baralho de cartas, para jogarmos uma partida de sueca? O senhor embaixador sabe jogar sueca, não sabe?” O António Pinto da França sabia e ali formámos nós uma mesa de sueca, bem regada a cerveja.

Não tendo isso registado na memória, de uma coisa tenho a certeza: Kundi Paihama não perdeu aquela partida de sueca. Deixar ganhar o outro em coisas secundárias é uma arte que os diplomatas se habituaram a cultivar.

Destinos


Com a pandemia a colocar nuvens sobre o nosso futuro, dei comigo a pensar que, agora mais do que nunca, há lugares onde já não poderei ir. Nunca fui um viajante compulsivo, nos últimos anos aportuguesei imenso as minhas viagens, mas, claro!, há lugares que tenho pena de nunca ter conhecido. Não falo dos destinos óbvios, do turismo glamoroso. Desse, fiquei bem “servido”!

Há cidades, contudo, que, continuando a existir, deixaram de ser o que eram quando a minha imaginação me motivava para as visitar: Sana, no Iemen, Cabul, no Afeganistão, Cartum, no Sudão, ou Aleppo, na Síria. A vida que hoje por lá se vive deixou de me entusiasmar. Ainda serão visitáveis, há excursões de risco que se podem tomar, mas que graça pode ter ir numa viatura blindada entre um aeroporto e um hotel muralhado, passar a correr, dentro de um carro, por uma rua onde podemos ser assaltados, onde uma bomba pode estourar, um “rocket” pode cair, a qualquer momento? É que uma cidade, para mim, são passeios a pé, são lojas, é olhar a gente, entrar num café, numa casa de velharias, visitar, com calma, igrejas ou monumentos, experimentar (boa) comida local. E, agora, com a pandemia, como irá ser?

Certas paragens, na minha curiosidade contemporânea, deixaram de ter a menor prioridade. Quis ir e nunca fui a Pristina, no Kosovo, nem a Anchorage, no Alasca, nem a Ulan Bator, na Mongólia. Noutros tempos, tive essas cidades no meu potencial mapa de visitas, embora, devo confessar, nunca tenha feito um grande esforço para concretizar esses sonhos. Outras, como Juba, no Sudão do Sul, ou Skopje, na Macedónia, sobre as quais tenho alguma curiosidade, não me animam a uma deslocação.

Durante muito tempo, tive intenções de ir a Alexandria, mas desisti, por ter pouca graça, ao que me dizem, salvo a nova biblioteca. Nada me mobiliza ir hoje a Hanói, que já fez parte da minha mitologia, tal como aconteceu com Katmandu, no Nepal. E admito, sem dificuldade, que já não tenho paciência para ir a Alice Springs, na Austrália, que achava “o máximo” visitar. Mas, estranhamente, e ali ao lado, confesso que ainda gostava de ir a Hobbart, na Tasmânia. E também a Novosibirsk, na Rússia. E a El Aaiun, no Saara Ocidental. E a Stepanakert, no Nagorno-Karabakh. E ainda sonho ir um dia ao Okussi, em Timor-Leste, ou a Tete, em Moçambique, ou a Svalvard, na Noruega, e, talvez ainda, a Thimphu, no Butão, a Salem, no Oregon dos EUA, ou a Punta Arenas, no Chile. Terei tempo? E pachorra? Se calhar, não. Fica a nota, sem qualquer melancolia.

terça-feira, agosto 04, 2020

Ibérico


Olhando esta fotografia, tirada no “El Corte Inglés” de Lisboa, pode entender-se melhor por que razão havia, na diplomacia portuguesa, uma escola de pensamento que sempre se recusou a usar o termo “ibérico”, preferindo-lhe “peninsular”.

segunda-feira, agosto 03, 2020

O menino

Até ter sido colocado na embaixada em Luanda, em 1982, a minha experiência com africanos era muito escassa. Na minha terra, em Vila Real, havia um único negro, jogador de futebol. Na universidade tive vários colegas, negros e mulatos. (Já terão dado conta que não vou enveredar por um léxico politicamente correto). Eram oriundos de famílias das colónias com óbvias posses e, na sua relação com os restantes colegas, nunca detetetei a menor diferenciação ou discriminação. Alguns desses amigos ficaram-me, aliás, para sempre - em Cabo Verde, em S. Tomé, em Angola e em Moçambique. 

Tive o privilégio de viver um ambiente, familiar e social, que, por completo, me imunizou de quaisquer pulsões racistas. Mas mentiria se dissesse que nunca na vida contei anedotas “de pretos” e graçolas congéneres. Claro que contei, como as contei sexistas e de género. Não sou nenhum anjo!

Como diplomata, chegado a Luanda, fiz, entretanto, vários outros bons amigos, muitos dos quais de cor. Alguns conservo-os até hoje e, dentre todos eles, há um, orgulhosamente negro, que permanece como um dos meus mais íntimos amigos, que tenho para a vida. 

Cheguei a essa Angola num tempo tenso, quer na vida política interna, com guerra civil à volta, quer na relação com Portugal, que atravessava um dos seus piores períodos. Por um “milagre” que tem muito a ver com a cumplicidade de uma língua comum, mas igualmente de uma matriz comportamental com muitas proximidades, sendo um diplomata estrangeiro isso nunca me vedou minimamente o convívio com pessoas locais - negros, mulatos ou brancos. Devo aliás dizer, porque é pura verdade, que tive maiores dificuldades com alguns brancos angolanos, que pareciam pretender “fazer esquecer” a sua cor, do que com pessoas de outra cor, que viviam de forma descomplexada a independência do seu país. Às vezes, podia notar-se, aqui ou ali, a emergência de alguma arrogância, mas tudo era superável com diálogo e frontalidade respeitosa.

Com exceção do pessoal diplomático ou com estatuto equiparado, a generalidade dos funcionários da nossa embaixada em Luanda, nesse ano de 1982, era oriunda da administração ultramarina. O mesmo acontecia, aliás, nas restantes embaixadas nas antigas colónias.

Muita dessa gente sofrera o período de transição política, com guerra aberta nas ruas da capital do novo país. A maioria mandara a família para a “metrópole” e ficara para trás, a tentar ainda amealhar alguns tostões. Vivia, às vezes de forma precária, numa Luanda tensa, sem comércio, com “esquemas” para a sobrevivência, numa convivência complexa com o novo poder, muitas vezes titulado por pessoas com quem, menos de uma década antes, esses agora “expatriados” haviam partilhado uma diferente relação de forças. Era gente com sentimentos racistas? Muitos tinham amigos negros, mas em outros detetavam-se reações que relevavam de velhos vícios comportamentais.

Um dia, ao passar junto à sala de espera da embaixada, ouvi um diálogo entre um contínuo, homem já de uma certa idade, com décadas de Angola, e alguém que esperava por uma reunião e que terá inquirido sobre se o encontro ainda estava muito demorado. Foi isto que ouvi: “Ó menino! Tu vais esperar, está bem?” Voltei atrás, olhei de relance para dentro da sala e constatei que o “menino” a quem o contínuo se dirigira era um homem negro, de quarenta e tal anos, que se mantivera impávido.

Fui para o meu gabinete e mandei chamar o contínuo. Perguntei-lhe se conhecia a pessoa que estava na sala de espera. Disse-me que não, que era a primeira vez que a via, que ela estava à espera de ser recebido por outro funcionário. “Então o senhor não o conhece e trata-o por tu?”, perguntei. O contínuo sorriu, olhando para o jovem diplomata que eu era, recém-chegado de uma embaixada num país nórdico, “maçarico” nas questões africanas, e foi “pedagógico”: “Ó senhor doutor! Isto cá é assim! Eles estão habituados, já não estranham”.

Fiz uma cara séria e retorqui: “O senhor fica a saber que se me chega aos ouvidos que volta a tratar desta forma alguém - preto, mulato, branco ou às riscas - que venha à embaixada, participo imediatamente de si. E convém que se saiba que qualquer colega seu, que se comporte dessa maneira, terá uma participação idêntica”. O contínuo embatucou e saiu. Nem era mau homem, ao que vim a constatar nos tempos seguintes. Era, apenas, um produto de outros tempos.

Quando, nos anos que se sucederam, os administrativos, contínuos e porteiros da embaixada constataram que alguns dos amigos dos novo cônsul-geral, do novo ministro-conselheiro e de mim próprio afinal não eram só “caucasianos” (acho uma graça imensa à expressão, que, estou certo, à época ninguém ousava usar, com risco de ter uma gargalhada como reação!), devem ter aprendido alguma coisa. Podem não ter aceite, com sinceridade, o comportamento que lhes era imposto, mas lembro-me que as coisas, a partir dessa altura, melhoraram bastante.

Mas “old habits die hard”, como se viu em Moscavide.

domingo, agosto 02, 2020

Allen


Lembro-me como se fosse hoje, e já lá vão quase duas décadas. O meu pai, com 91 anos, que tinha ido passar uns meses connosco a Nova Iorque, anunciou-me, antes do jantar: “Hoje, com a tua mulher, vimos no Central Park aquele ator cómico de que vocês gostam muito. Como é que ele se chama? Allen, não é?”

Por mais estranho que isso pareça, pensei em Dave Allen, um fantástico intérprete irlandês de “stand-up comedy”, que tinha “sketches” televisivos magníficos e que víramos uma vez num espetáculo em Londres. Se toda a gente ia a Nova Iorque, por que diabo Dave Allen não estaria por lá? E esqueci o assunto, até que, minutos depois, a minha mulher me esmagou de inveja: “Sabes que nos cruzámos esta tarde com o Woody Allen?”

Nos Estados Unidos, por muito tempo, Allen estava longe de ter a popularidade que tinha na Europa. Talvez porque, para muitos americanos, ele fosse demasiado nova-iorquino. Para essas pessoas, Nova Iorque é a cidade mais “estrangeira”, quase europeia, do país. Além disso, aquele autor e ator é conhecido como um “liberal” (palavra que por lá tem o significado contrário ao que por cá tem, isto é, significa progressista e de esquerda), o que está longe de corresponder a um certificado automático de popularidade na América.

Lembro-me de, uma noite, em casa de um médico americano amigo, ter-se falado de Woody Allen. O jantar reunia gente rica (eu era o “pobre” do grupo, tendo apenas o “anel” de embaixador, o que sempre constitui um certificado de acesso conjuntural ao elevador social), na maioria judeus, votantes democratas, que apreciavam Allen. Mas conheciam mal a sua filmografia. Eu atrevi-me a dizer que, muito provavelmente, devia ter visto toda a obra de Woody Allen (o que não é invulgar, para algumas pessoas da minha geração portuguesa). Ficou tudo a olhar para mim, com ar espantado, tomando-me ou por mentiroso ou por um obcecado. Até que um deles “explicou”: “O Francisco é europeu e lá há uma ‘mania’ do Woody Allen.” Era isso mesmo!

Tinha visto Allen ao vivo, pela primeira vez, em 1992, também em Nova Iorque, naquelas que eram, ao tempo, as suas apresentações semanais no Michael’s Pub, tocando clarinete integrado numa orquestra. Sei pouco de música, mas pareceu-me um intérprete banal, o que não impediu, depois de um solo que fez, que a sala tivesse estourado de aplausos. Tenho na memória que, na mesa ao lado da nossa, visivelmente entusiasmado com Allen, estava o intéprete preferido de François Truffaut, Jean-Pierre Léaud. Na noite seguinte, fui encontrar este, de novo, desta vez a jantar no Elaine’s - o que prova que seguia o roteiro de uma Nova Iorque de turismo “intelectual” que estava na moda. Estranhei mesmo, na noite seguinte, não o ver no Blue Note...

Nesses anos mais tarde, em que vivi em Nova Iorque, um amigo português, de visita, quis ir ver Woddy Allen. Os shows semanais já eram então no Hotel Carlyle e lá fomos: para o meu incompetente ouvido de amante de jazz, o clarinetista não evoluíra nada.

Na sua autobiografia, que estou a acabar de ler, Allen reconhece, talvez com esforçada modéstia, que é um músico apenas banal. E conta que um amigo um dia lhe perguntou: “Não tens vergonha?” O amigo referia-se ao facto de, nas “tournées” do conjunto onde Allen se integra, um pouco por todo o mundo, as salas se encherem, não pela qualidade musical do produto oferecido mas, muito simplesmente, pelo desejo das pessoas de irem ver tocar (sofrivelmente) jazz um (genial) autor e intérprete de cinema. Allen não respondeu e, pelos vistos, continua a dar-lhe muito prazer esse vício musical.

Sobre as trapalhadas em que Woody Allen anda agora metido não falo aqui.

sábado, agosto 01, 2020

Europa explicada


Vale a pena ler o artigo de Fernando Neves, no “Público”, onde se explica, com clareza, a questão dos dinheiros europeus.

Jornaleiros

Nos últimos dias, por um conjunto variado e não uniforme de razões, tenho vindo a dar razão a Baptista-Bastos, quando falava de “algumas pessoas injustamente acusadas de serem jornalistas”.

Crise

Antes que as notícias da queda do PIB sejam apropriadas pelo tremendismo de um discurso cuja titularidade se conhece, gostava de lembrar que houve e há por aí uma coisa chamada pandemia. Só lembro isso!

Bom feitio

A prova provada de que tenho bom feitio é não ter emitido imprecações ao constatar que me esqueci dos carregadores do iPhone e do iPad em Lisboa. Talvez o facto da culpa ser minha e de poder carregar um deles no isqueiro do carro possa justificar esta relativa bonomia.

Posso começar a ler?


sexta-feira, julho 31, 2020

Os claustros


Bárbara Reis, jornalista do “Público” que conhece bem os corredores das Necessidades, está a publicar no seu jornal um interessante relato sobre os tempos de mudança, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, com o surgimento da democracia, em 1974. Hoje saiu o segundo desses artigos. Vale a pena ler!

Saudades do senhor Aguieira


Ontem, perto de minha casa, ocorria uma mudança. Uma camioneta recolhia caixas de cartão, com os pertences de alguém. Estou numa idade em que já me permito o luxo de fazer coisas menos curiais. Abri o vidro do carro e perguntei: “Na vossa empresa, ainda alguém se lembra do senhor Aguieira?”

Três funcionários suspenderam, por momentos, o trabalho e olharam-me, como que surprendidos pela questão, sem a menor reação. Aproximou-se então um quarto membro do grupo, mais velho, a quem repeti a pergunta e que respondeu: “Quando entrei para a empresa, ainda se falava muito dele. Mas nunca o cheguei a conhecer”. Nem eles sabem o que o nome daquela companhia deve ao senhor Agueira! 

No MNE, em matéria de embalagem dos nossos haveres, quando partíamos de Lisboa ou mudávamos de posto, houve duas épocas distintas: o tempo do senhor Aguieira e o tempo que lhe sucedeu. Não sou do tempo antes do senhor Aguieira.

O senhor Aguieira pertencia a uma empresa de transportes que, por um daqueles mistérios que já não vale a pena tentar esclarecer, em outros tempos ganhava, com insistente regularidade, quase todos os concursos para o transporte dos bens dos diplomatas. 

Meses antes da viagem, ainda antes dos decretos da nossa nomeação "saírem", quando a nova colocação era apenas um rumor consistente pelos claustros das Necessidades, os diplomatas eram aproximados, pessoalmente ou por carta, pela empresa a que pertencia o senhor Aguieira, com o objetivo de pôr à disposição os respetivos serviços. Outras surgiam, mais tarde, mas quase todos acabávamos por preferir a empresa onde o senhor Agueira trabalhava.

O senhor Aguieira circulava pelos corredores do MNE, sempre de pasta na mão, como se fosse dos quadros da casa. Tinha o ar daquilo a que, em certa época, se qualificava como "um velho ministro de segunda" (sendo que "ministro" significa, no nosso jargão interno, "ministro plenipotenciário", bem entendido!, e “de segunda”, era sinónimo de “2ª classe”, ou melhor, que não era de “1ª classe”, o que fazia toda a diferença). Sempre a caminho ou a sair do "quarto andar" (a área administrativa da casa), o senhor Aguieira distribuía cumprimentos a muitos que ia encontrando pelos corredores, porque era estimado e apreciado genuinamente naquela casa. 

Em situações complicadas, o senhor Aguieira "desenrascava" tudo, colocando-nos no estrangeiro, sem custo, caixotes com coisas de que só muito tarde nos tínhamos apercebido que necessitávamos e deixáramos para trás. E, em Lisboa, guardava em armazem, por meses, pacotes ou móveis que não tínhamos onde deixar. 

Entrar em contacto pessoal com o senhor Aguieira era uma experiência magnífica. Homem de grande cordialidade e muito educado, tinha toda a rede necessária para nos facilitar a vida. 

Na minha primeira mudança para o estrangeiro, não tínhamos a noção da importância de contactar diretamente o senhor Aguieira. A minha mulher ligou um dia para a empresa, para tratar de uma qualquer questão relacionada com esse transporte. Por minutos, a chamada andou de um lado para o outro. Até que, esclarecidos de que se tratava da mulher de um diplomata, a puseram em contacto com o senhor Aguieira. A reação deste foi extraordinária: "Ó minha senhora! Porque não falou logo comigo? Andou aqui pela casa a ser tratada como "louça de Sacavém" quando, afinal, se tratava de "porcelana da Vista Alegre"!". E logo resolveu tudo. De forma inexcedível.

Quando, ainda nessa primeira saída, os meus livros chegaram a Oslo, embrulhados dois a dois, antes de serem colocados nos caixotes de cartão, recordo os olhos dos abrutalhados vikings encarregados da desembalagem, surpreendidos com o esmero do empacotamento do pessoal do senhor Aguieira. 

Na minha derradeira mudança, saindo de Paris, tive imensas saudades do pessoal do senhor Aguieira, ao observar o modo primário como por ali se embalavam os livros (“só ligas aos livros”, ouvi alguém queixar-se), sem cuidar da delicadeza de alguns. Tudo a esmo!

O senhor Aguieira já não é vivo. Conhecendo razoavelmente muitos dos meus antigos colegas, tenho a certeza de não estar só neste meu sentimento de simpatia para com a sua memória. O MNE de hoje, mesmo não o sabendo, tem saudades do senhor Aguieira, podem crer.

quinta-feira, julho 30, 2020

A vida de cada um

Ontem, fui desafiado para um novo projeto. Era uma aposta muito interessante, estimulante, compensadora. Quem me convidou, fê-lo com genuíno empenho e simpatia. Tinha todas as condições para ser uma bela aventura. Pedi uns dias para pensar, mas acabei por responder ao final de escassas horas. E recusei, agradecendo, o que me foi proposto. Fi-lo com total convicção, sem hesitações, embora com a plena consciência de que o projeto “era a minha cara”, que me ia divertir imenso a fazê-lo e que o desenvolveria sem a menor dificuldade. Ao fim do dia, interroguei-me, intimamente: estarei eu já a desistir das coisas? A rapidez com que tomei a decisão poderia significar ter eu entrado numa espécie de “phasing out” de algumas das tarefas profissionais que, com gosto e convicção, tenho vindo a aceitar no mundo privado, desde que me reformei do serviço público? Concluí que não, embora também essas coisas tenham o seu tempo de validade e, em alguns casos, já tenha posto um ponto final em certas tarefas que vinha a desempenhar, embora outras tenham entretanto surgido, porque continuo a ter a rara sorte de poder escolher o que quero fazer. E dei comigo a pensar que também não era para evitar ser acusado de ir ter mais um “tacho”, porque esse é o lado para que durmo melhor - e, aqui entre nós, confesso que até me agrada provocar a matilha dos invejosos e dos “polícias” raivosos do sucesso dos outros. Não, a razão por que não aceitei aquilo que me era proposto foi muito simples: porque criava constrangimentos à minha vida atual, à minha liberdade temporal, aos meus dias, às minhas prioridades, ao meu lazer. A vida de cada um é de cada um. Aprendi isto com ela, com a vida.

quarta-feira, julho 29, 2020

Graça e desgraça


Estamos no auge da “época da caça“ à ministra da Cultura. Como todos já percebemos, os titulares da Cultura duram enquanto durar a ilusão de que podem satisfazer todas as clientelas.

Os políticos, nos cargos que ocupam, têm dois tempos. Um tempo de graça em que, por muitas asneiras que digam, são poupados pela comunicação social e um tempo de desgraça, em que, mal lhes saia da boca uma palavra menos sensata ou oportuna, é logo um pé de vento.

Abril


Chegou ontem, a cheirar a tipografia, numa edição da Colibri. É uma antologia de textos, dos mais diversos autores, contando a sua experiência do 25 de Abril ou a propósito da data. Por lá figuram 12 páginas minhas, com o texto “Abril no meio da vida”. Quando esgotarem os exemplares à venda, colocarei o seu conteúdo por aqui...

Tempus fugit

Com todo o respeito que uma declaração ministerial sempre deve merecer em democracia, por que será que está instalada na opinião pública uma...