domingo, maio 31, 2020

António Costa Silva


Viver no estrangeiro, durante bastantes anos, mesmo procurando estar atento à realidade portuguesa, traz como consequência que sejamos surpreendidos pela emergência de novas personalidades na cena pública.

Um dia, creio que de 2013, num debate em que participei no Teatro Nacional D. Maria II, “contracenei” com António Costa Silva. Não faço ideia do tema. Já nos tinhamos encontrado antes, num posto que eu ocupara, mas foi só durante esse colóquio que pude apreciar a sua exposição estruturada, informada e fundamentada, o saber “olhar em frente” sem cair na especulação irresponsável. Ligando uma sólida formação académica a uma relevante experiência prática no mundo dos petróleos, António Costa Silva é servido por uma capacidade pedagógica serena, o que dá imensa credibilidade às suas análises.

Daí em diante, e já lá vão alguns anos, sempre que penso em nomes para estruturar um colóquio ou conferência, sobre temáticas geopolíticas, o nome de António Costa Silva surge-me como uma obviedade. É o que tem acontecido em iniciativas do Clube de Lisboa, a que presido. E não posso deixar de destacar também a sua excelente contribuição no grupo de estudos criado pela Fundação Calouste Gulbenkian para pensar o seu futuro, a que ambos pertencemos.

Vejo agora que o primeiro-ministro decidiu recorrer a António Costa Silva para o ajudar a racionalizar a aplicação das novas ajudas europeias. Fá-lo, aparentemente, num modelo novo, desligado das estruturas institucionais tradicionais, o que já provocou uma expectável reação da “velha política”. Costa Silva estará nessa iniciativa “pro bono”, sem receber salário, apenas num ato de serviço público que decidiu assumir. Esperemos que, cedo ou tarde, da atual informalidade, essa sua relação com o governo possa vir a densificar-se. O país só ganharia com isso. É esse o meu voto.

sábado, maio 30, 2020

Mazagão Velho

 
Um dia, sendo embaixador no Brasil, recebi do governador do Estado do Amapá, Waldir Goes, um convite para estar presente numa solenidade em que seria feita uma homenagem aos fundadores da cidade de Mazagão Velho.

À época, 2006, tinha uma ideia muito vaga da história da localidade. Mazagão Velho fora criada, em 1775, para apoiar a fortaleza de São José de Macapá, na defesa do norte do Pará. O nome advinha do facto de ter sido fundada pelos antigos ocupantes da fortaleza de Mazagão (atual El Jadida), em Marrocos, a última que os portugueses haviam sido forçados a abandonar, já em 1769, dentre as várias que, desde o século XVI, haviam sido implantadas na costa marroquina.

É impressionante pensar, nos dias de hoje, como o poder político em Lisboa tomou a decisão de enviar, recém-saído da costa africana, depois de uma breve passagem pela Europa, um contingente mais de 300 famílias, mistas de portugueses e familiares marroquinos, para aquele remoto território, na fronteira norte do Brasil.

Olhando em perspetiva, em termos de resultados práticos, somos levados a concluir que essa terá sido uma decisão que acabou por contribuir para uma eficaz proteção dessa entrada do Amazonas, com vista à preservação da soberania setentrional do que é atualmente o Brasil.

É no Amapá, para quem não saiba, que o Brasil tem fronteira com ... a França! De facto, do outro lado do rio Amazonas, está a Guiana Francesa. É, no plano político-administrativo, um Estado brasileiro relativamente recente, fruto de uma divisão do Estado do Pará, ocorrida em 1943.

A data do evento era-me, contudo, bastante inconveniente: tratava-se do dia seguinte às eleições presidenciais em Portugal, a cujo encerramento da votação eu queria estar presente na capital federal. Isso obrigar-me-ia a sair de Brasília bastante tarde e chegar ao Amapá já bem dentro da madrugada, naqueles aviões noturnos que a insuperável imaginação brasileira crismou de "corujões", porque andam de noite, com preços mais baratos, que vão pousando, como se fosse um autocarro, por vários aeroportos, ao longo de milhares de quilómetros de território, o que transformava a viagem numa longuíssima jornada.

Foi a amável e reiterada pressão telefónica do governador Waldir Goes que me convenceu a ir. Cheguei ao aeroporto de Macapá, capital do Amapá, depois das duas da manhã, acompanhado por um diplomata marroquino, conselheiro cultural da sua embaixada. Esperava-nos uma simpática receção e, para nossa surpresa, aguardáva-nos uma ceia, no hotel, com convidados, tudo feito sem grandes pressas, com imensa cordialidade. No final, foi-nos dito que, às sete horas da manhã (!), passariam a buscar-nos... Se, depois do lauto repasto, acaso dormi uma hora, sob um inesquecível fundo musical, chegado das ruas de Macapá, terá sido já muito!

Logo de manhã, fomos levados do hotel ao porto, de onde embarcámos com destino a Mazagão Velho. A viagem acabou por ser problemática: a meio do rio, o barco avariou. Foi preciso mandar vir uma nova embarcação. O governador Waldir Goes mostrava uma serena fúria com o incidente, que perturbava o cerimonial previsto. Mas tudo se resolveu e a expedição continuou. Já perto do nosso destino, mudámo-nos para uma piroga, com remadores, em que havia músicos/cantores, com tambores e violas, que entoavam modinhas antigas, da tradição luso-mourisca do século XVIII, que viémos a saber ser a imagem de marca identitária da localidade. Uma experiência inesquecível!

Quer eu quer o diplomata marroquino estávamos comovidos. E mais ficámos ao aproximar-nos de Mazagão Velho, ao constatar que o que parecia ser toda população da cidade nos aguardava, na margem do braço de rio, chefiada pelo prefeito José Carlos "Marmitão", nome que condizia, à justa, com a dimensão da amável figura. Era enquadrada por garbosos cavaleiros, vestidos com coloridos trajes, que se pretendiam representativos da época remota de celebrávamos, das lutas entre os cristãos e os muçulmanos.

Dali saímos diretamente para o evento, pontuado por diversos momentos religiosos, que teria como ponto alto a inauguração de um memorial, onde ficaram depositados os restos mortais dos portugueses e das suas famílias marroquinas, que haviam sido descobertos em escavações recentes. Sentia-se um ambiente, ao mesmo tempo, de emoção e júbilo. Mazagão Velho tinha ali o seu momento de consagração histórica e eu senti o imenso privilégio que era poder representar Portugal naquela ocasião.

O calor do doa era imenso. Lembro-me de, na longa cerimónia, ter proferido, do palanque, à frente de uma multidão a perder de vista, um emocionado discurso, com os olhos a arder, pelo sal que vinha do suor que me caía da testa.

Seguir-se-ia um lauto almoço, no seio de uma multidão entusiasmada com o relevo que assim era dado à sua terra.

Hoje, sabendo o que sei, ficaria arrependido para toda a vida se acaso não tivesse estado, nesse dia, ao Amapá.

No regresso, bem mais longo, por terra a Macapá, tinha um pedido a fazer: queria visitar o Zerão. E foi feita a minha vontade. O que é o Zerão? É o estádio de futebol perto da capital do Amapá, cuja linha divisória, a meio, é ... a linha do equador. Tirar uma fotografia, com um pé em cada hemisfério, era uma experiência que eu, por nada, queria perder! E não perdi.

No dia seguinte, com o governador Waldir Goes, fui visitar a fantástica fortaleza de São José de Macapá, construída no tempo colonial português, um marco de soberania que, felizmente, nunca teve de disparar um único tiro, durante toda a sua história - o que é a glória máxima da eficácia da dissuasão.

Prometi então - e vim a cumprir, meses mais tarde - enviar o conselheiro cultural português no Brasil, o pianista Adriano Jordão, para fazer um concerto naquele belíssimo espaço, convertido em espaço cultural. Não foi fácil concretizar a iniciativa: os pianos não abundavam no Amapá! Mas essas são contas de outro rosário, que o Adriano, se quiser, contará.

Lembrei-me disto, há pouco, por uma razão triste, ao constatar, na televisão brasileira, que o Amapá é um dos Estados brasileiros onde a situação da pandemia é hoje bem trágica.

sexta-feira, maio 29, 2020

quinta-feira, maio 28, 2020

Modas


A máscara no queixo é o equivalente pandémico dos óculos de sol na cabeça.

Questões

Mafalda Anjos, diretora da “Visão”, suscita hoje uma questão que também já me tinha colocado: “Por que razão serão (...) menos independentes os meios (de comunicação social) que aceitam uma compra de espaço publicitário pelo Estado, que é “cega”, pública e indiscriminada, do que os que a recusam, mas vivem de subsidiação de dezenas de empresários com agendas políticas e interesses privados?”

Eu colocaria ainda a questão: se, desde o ínício, tivesse ficado claro que a ajuda do Estado era substancialmente maior, tê-la-iam recusado?

TAP

Percebo que a presença de capital público na TAP deva objetivar-se em orientações no sentido de interesses do país, definidos pelo Estado. Mas gostava de lembrar que foram decisões insensatas sobre “rotas políticas” que, no passado, ajudaram a levar a TAP ao descalabro.

Os novos libertários

Em alguns tolinhos, a moda começou mais cedo. Noutros, é coisa mais recente. É a “revolta”, o apelo à “desobediência” contra a “ditadura” do confinamento “oficial”, uma espécie de deriva libertária, a darem-se ares liberais.

E se tivessem um pai ou uma mãe no hospital, com respirador? Diriam o mesmo?

Será impressão minha?

É minha impressão ou Portugal paga hoje, nas idas ao mercado de dívida soberana, as taxas mais baixas de todos os países do sul da Europa?

O mundo adversativo

O jornalismo adversativo é uma forma muito triste de exercer a profissão.

Para compensar qualquer notícia que possa ser lida com tendo um tom positivo, algo que esteja a correr bem, é colocada logo depois uma frase antecedida de um “mas”, “porém” ou “contudo”.

Estejam atentos.

Adeus, CDS ?

O teor das declarações do nóvel líder do CDS, quanto ao Chega e a Orbán, deixa claro a que mercado de votos pretende aceder. Fica tudo mais claro, facilitando e legitimando a escolha dos adjetivos para qualificá-lo.

A Europa mexe

A acreditar na primeira leitura das medidas europeias anunciadas, há duas resistências que se quebram: a mutualização de alguma dívida e a eventual criação de novos recursos próprios. A Europa mexe.

quarta-feira, maio 27, 2020

Mobilidade humana


Hoje, 4ª feira, 27 de maio, entre as 17:00 e as 17:30, no Facebook e no YouTube, António Vitorino, diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações, falou comigo sobre o futuro da Mobilidade Humana depois do Covid 19.

Pode assistir aqui.

Nós por lá


Quando era embaixador em França, foi-me um dia chamada a atenção para o facto de um comediante, Patrick Timsit, ter feito comentários depreciativos sobre a comunidade portuguesa.

No meu anterior posto no Brasil, tinha-me defrontado, por mais de uma ocasião, com situações idênticas. Algumas vezes houve em que achei oportuno responder a esses comentários, às vezes com “estrondo” mediático. Outras, decidi não reagir.

Este é um problema que se coloca, de forma recorrente, aos embaixadores: avaliar se devem ou não atuar, em face de ataques públicos ao seu país ou aos seus cidadãos. Há que ponderar se tal reacção não acabará por ter um efeito desproporcionado, isto é, se não ajudará a chamar mais atenção para a questão do que aquela que ela teve no momento em que ocorreu. E, depois, nos casos em que decidirmos intervir, há que ainda que escolher e medir o tom que essa intervenção deve ter. Podem crer que é uma questão nada fácil.

No caso de Timsit, optei por aguardar, com vista a perceber se a questão tinha repercussão. Não teve e o assunto morreu.

Há dias, surgiu num canal televisivo um filme que tinha fados de Amália como banda sonora. Parei o zapping por ali. Era uma comédia francesa, com alguma graça, “Marie-Francine” - por cá seria chamada “50 são os novos 30” - assente num romance entre uma técnica de laboratório e um cozinheiro, cuja mãe era uma porteira portuguesa. O papel desse franco-português era desempenhado por Patrick Timsit.

Apetece-me dizer que tudo está bem quando acaba bem.

A dispensa do jornalismo


Os governos, todos os governos, pela natureza das coisas, querem dar de si próprios e da sua ação uma imagem favorável. E tentam que os cidadãos acreditem na narrativa que projetam. Em democracia, as oposições funcionam como contraponto às versões oficiosas. Mas é, muitas vezes, graças a intrusividade da imprensa, que se especializou em explorar os escaninhos do dissenso e a não se deixar encantar pelas versões únicas que se fica a saber, mais cedo ou mais tarde, que as coisas nem sempre são aquilo que nos foi apresentado.

Para isso, surgem versões dos factos, o diz-que-disse, os relatos parciais. É essa a riqueza do trabalho dos jornalistas, esses “impacientes da História”, como lhes chamou Jean Lacouture, para bem caraterizar a sua função antecipadora dos juízos definitivos, com o recuo do tempo.

Contudo, às vezes, vezes que são raras, a realidade dispensa o jornalismo. Há factos que são tão evidentes que não necessitam de mediadores de leitura.

Vem isto a propósito do vídeo que revelou a reunião do presidente brasileiro com os seus ministros e alguns convidados do inner circle. Embora estivesse a ser gravada, aquela reunião não estava destinada a vir a ser conhecida pelo grande público - e muito menos o seria depois do que ali foi dito, em especial da forma com o foi. Era uma reunião de pura coordenação política – e daí decorre a sua “riqueza”.

Naquelas escassas horas, todo o brasileiro ficou a conhecer a “cultura de balneário” do team Bolsonaro. Foi muito interessante perceber que o Brasil tem no topo do Estado uma figura que entende que o voto conjuntural que recebeu o ungiu de uma autoridade quase sem limites, só prejudicada, no seu exercício, pelo empecilho não resolvido de outros poderes, como o legislativo e o judicial.

Ouvir (e ver) o que ali disseram ministros como o da Educação, num arroubo filo-fascista não contraditado por ninguém, do Ambiente, com afirmações para além da decência básica para o exercício de um cargo público, da Economia, cheio da consciência de ser o derradeiro fiador de Bolsonaro perante o empresariado, com as certezas da “mão invisível” a orientar-lhe as escassas dúvidas éticas – tudo isso constituiu um espetáculo memorável. E, nessas horas, foi imperdível a cara do militar vice-presidente, com um auto-controlo no fácies que era um verdadeiro livro aberto.

São raros os momentos como este, em que História, por um acaso, se fez no instante, sem esperar pelo amadurecimento do tempo. Tudo ali ficou imensamente claro, para sempre.

terça-feira, maio 26, 2020

A voz do Porto


Ouvindo hoje Rui Moreira a clamar, lembrei-me do Porto e do seu poder ou falta dele.

Curiosamente, sendo embora a segunda cidade do país, o Porto só com a democracia conseguiu obter uma expressão significativa a nível do poder central. Se olharmos para a história da ditadura – e mesmo da primeira República, passado um tempo de evidência no republicanismo novecentista - verificaremos que a influência política do Porto, como cidade, junto do poder central, foi sempre muito escassa. E, curiosamente, é uma evidência que o Porto teve sempre, em particular nesse tempo, um forte tecido de instituições, formais e informais, desde logo na área empresarial, mas igualmente no domínio cultural e no terreno social.

Tudo indica que Salazar nunca gostou do Porto, talvez porque a cidade projetasse uma sofisticação, quiçá algo snobe e elitista, que se contrapunha ao ruralismo pretendidamente esclarecido que ele próprio representava e que Coimbra, com Lisboa, aqui também através da universidade, era suficiente na sua tarefa de cooptar o pessoal político da ditadura. 

Graças à sua força económica – recordo que então se dizia: “o Porto trabalha, Lisboa diverte-se” -, o Porto como que se isolou um pouco no processo político à escala nacional, mantendo uma dinâmica própria, uma burguesia longe do cosmopolitismo do dinheiro “novo” de Lisboa, mais Clube Portuense e muito pouco Linha do Estoril. O Porto ia fazendo pela vida...

Diga-se, contudo, que o Porto burguês não era maioritariamente anti-regime, muito longe disso. O peso da igreja e a proteção dos negócios encontraram sempre no Porto um terreno sólido de apoio ao salazarismo. Mas o Porto da ditadura foi também aquele que deu o maior banho de multidão a Humberto Delgado, em 1958, como já tinha proporcionado o maior comício a Norton de Matos, nove anos antes, na Fonte da Moura. E é o Porto que gera um bispo que atazanou o ditador e, verdadeiramente, abriu caminho às vias católicas dissidentes à escala nacional. Esse é, alias, o mesmo Porto que produziu Sá Carneiro, esse inesperado incómodo que veio a destapar a fraude da abertura marcelista.

Foi o 25 de Abril que levou o Porto a perder esse seu relativo isolamento político. Com Sá Carneiro e as suas adjacências, o Porto entrou muito cedo para a partilha do poder político central. E por lá tem ficado, às vezes de forma influente, outras numa presença simbólica. Quando se forma um novo governo, à esquerda ou à direita, imagino que a pergunta deve surgir: “E do Porto, quem é que se põe?”. Pode soar um tanto cruel estar a dizer isto, mas é esta parece ser a realidade. 

Desta vez, no governo, o Porto não se pode queixar... E tem mesmo a liderança da oposição. Porém, não obstante a inegável excelência de muito do pessoal que a política doméstica foi buscar ao Porto, nas últimas décadas, isso só marginalmente quis significar o peso real acrescido da cidade no jogo político nacional. 

Mas Porto desenha um outro modelo curioso, sendo nisso quase um “case-study”. Refiro-me ao seu perfil reivindicativo. A cidade do Porto assume sempre um discurso tenso, uma mostra de mal-estar permanente, uma queixa de quem se sente mal tratado. Até as distritais portuenses dos dois partidos do novo rotativismo sofrem desta obsessiva necessidade de terem uma idiossincrasia própria, um discurso façanhudo e de cara dura frente aos aparelhos de Lisboa. 

Com regularidade, o Porto convoca os poderes económicos e os seus nomes sonantes para a retoma dos vários episódios dessa espécie de permanente batalha virtual que mantém com Lisboa. E, com o tempo, mas sempre com o sobrolho cerrado, nas entrevistas e proclamações, o Porto lá vai conseguindo levar a água ao seu moinho de vento, melhorar o aeroporto, ter as suas novas pontes, o seu metro, as vias que o seu jogo de cintura interna é sempre capaz de arrancar.

Mas convém que fique muito claro: essa guerrilha política, nas formas curiosas, típicas e mediáticas que por vezes assume, não deixa de ter uma indiscutível legitimidade. Porque a verdade é que, neste país, continua a haver uma macrocefalia muito evidente em torno e em favor de Lisboa

A política e a Cultura

Os titulares da Cultura são, entre nós, uma espécie governativa com uma esperança de sobrevivência potencialmente escassa. O financiamento orçamental que é alocado ao setor é, desde há muito, bastante inferior às reais necessidades para satisfazer as esperanças dos vários lóbis. Alguns, com capacidade de movimentação nas franjas político-partidárias do poder, ainda conseguem assegurar umas linhas promissoras, mas genéricas, nos programas de governo. Esses grupos de interesses movimentam-se logo que chega um novo titular, na ânsia de serem eles, dessa vez, os beneficiados. Os governantes disfarçam quanto podem o óbvio “bluff” em que atuam e vão ganhando tempo junto dos agentes do setor, até ao momento em que, para alguns destes, fica muito claro que a manta está longe de poder cobrir todos e não vai abranger muitos. Entram então em processos reivindicativos - em si mesmos justos, porque foram iludidos nas suas expetativas - com forte cumplicidade dos media, onde, por natureza, encontram ecos de simpatia, facilitaos pela notoriedade de algumas das personalidades que são a cara do setor. Nessa altura, com um qualquer pretexto ou por desgaste, os titulares acabam por ser mudados e recomeça a dança. Esta é a minha visão. Corresponderá à realidade?

segunda-feira, maio 25, 2020

A sina dos diplomatas

Em democracia, um diplomata representa o Estado e executa as instruções que são emanadas dos governos que o voto popular escolheu para dirigir esse Estado.

Mas o diplomata não é um mero executante. À luz da sua experiência e da leitura que desta tenha extraído, ao longo dos anos que leva de serviço público, sobre aquilo que melhor defende o interesse nacional - que é algo que transcende os ciclos políticos -, deve ser criativo na sua tarefa de dar corpo à política externa do país, sugerindo caminhos, alvitrando formas de atuar. Mas, no derradeiro momento, deve obedecer às instruções definidas por aqueles a quem foi conferida a legitimidade democrática para decidir.

E se um diplomata estiver em desacordo com aquilo que o mandam fazer? Há duas hipóteses. Se acha que, ao executá-lo, isso fere a sua consciência ou valores limite, só lhe resta demitir-se e abandonar a carreira. Se se trata apenas de uma divergência de orientação, o diplomata tem obrigação de expor a sua leitura contraditória mas, se a decisão lhe for reiterada, deve cumpri-la, mesmo contra a sua vontade. E, ponto muito importante, a prova da lealdade de um servidor público está, não apenas no cumprimento das instruções recebidas, mas no estrito dever de não publicitar essa discordância.

Em quase quatro décadas de carreira, com 21 ministros dos Negócios Estrangeiros, algumas vezes houve em que, pontualmente, não estive de acordo com aquilo que me foi dito para fazer. Mas, em nenhuma dessas ocasiões, fiz algo contra a minha consciência.

Por que é que trago hoje esta questão? Porque acabo de ler uma carta dirigida pelo embaixador brasileiro em França ao jornal “Le Monde”, reclamando contra a cobertura crítica feita à situação da pandemia no Brasil.

A carta, compreensivelmente, defende a política de Bolsonaro. Quero crer que o argumentário deve ter chegado ao embaixador emanado da capital, dada a sensibilidade do tema. Mas devo dizer que me impressionou muito ver um profissional da diplomacia, embaixador num dos principais postos do mundo, oriundo de uma carreira que tem um património histórico de prestígio e qualidade, por sua iniciativa ou sob instruções, aceder a subscrever uma argumentação que, num determinado ponto, vai a este extremo: os governadores dos Estados brasileiros, quase esmagadoramente críticos da política de “portas abertas”, terão optado pela política de confinamento ou mesmo de “lockdown”, com o deliberado propósito de provocarem a destruição da economia do país, por forma a dificultar as condições para a reeleição do presidente em 2022. Como se fosse minimamente plausível que esses governadores, de vários partidos, se tivessem conluiado para arruinar a economia dos Estados que os elegeram! 

Assinar um pensamento tão mesquinho e absurdo como este não honra uma diplomacia como a brasileira. Tenho a certeza que muitos amigos que tenho na carreira diplomática do Brasil, patriotas e alguns até com iniciais simpatias por Bolsonaro, menos por ele e mais por rejeição da alternativa que se lhe opunha, devem ter ficado algo incomodados ao verem o bom nome do Itamaraty descer a este ponto.

Parabéns!


Hoje, celebram-se 98 anos de vida do arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles.

Somos um país com muito poucas unanimidades. Ribeiro Telles faz parte das escassas figuras, em Portugal, que merece um generalizado respeito, pela sua obra profissional mas, essencialmente, por ter visto, antes de quase todos, a importância das questões ambientais para o nosso futuro coletivo e de ter tido a coragem e o desassombro de nos alertar para elas, num tempo em que fazê-lo era considerado uma bizarria, quase uma ideia ridícula e sem sentido.

Deixo aqui a minha homenagem a essa grande figura de cidadania que é Gonçalo Ribeiro Telles.

domingo, maio 24, 2020

Bolsonaro (2)

O baixíssimo nível do discurso de Bolsonaro, que um vídeo de uma reunião ministerial revelou, pode acabar por ter um efeito positivo junto do eleitorado que o elegeu. Na realidade, muitas dessas pessoas, que têm, elas próprias, uma linguagem e estão num patamar cultural não muito diferente daquele que ali ficou projetado, sentem, afinal, que têm um presidente que está próximo de si.

sábado, maio 23, 2020

Bolsonaro

Para melhor se entender o caráter da reunião presidida por Bolsonaro, de que há horas foi divulgado um vídeo, é importante ter presente que, num regime presidencialista como o brasileiro (ou como o americano, mas já não como o francês), não existe o conceito de um “conselho de ministros” que reúne todas as semanas, onde é aprovada legislação, como sucede em regimes como o nosso. 

Reuniões como a que agora foi mostrada, ocorrem apenas ocasionalmente e têm um caráter de coordenação política, delas não emanando qualquer decisão de natureza colegial. O conceito de colegialidade governamental não faz parte, aliás, do ordenamento constitucional brasileiro. Neste, cada ministro faz chegar ao presidente os projetos de legislação do seu departamento, através da Casa Civil da Presidência da República, a cuja chefia compete, em princípio, assegurar a coerência da ação governativa.

Tempus fugit

Com todo o respeito que uma declaração ministerial sempre deve merecer em democracia, por que será que está instalada na opinião pública uma...