sexta-feira, fevereiro 28, 2020
quinta-feira, fevereiro 27, 2020
Tristeza
Há pouco, deparei, ali no Facebook, com uma troca acrimoniosa de comentários entre duas pessoas com quem tive o gosto de trabalhar num determinado posto diplomático.
Por essa época, essas pessoas mantinham entre si um esplêndido relacionamento pessoal, que muito ajudava ao convívio, são e descontraído, que sempre imperou naquela embaixada.
O que é que mudou? A política. Gente de esquerda contra gente de direita? Nada disso! Curiosamente, ambos de esquerda! (Ainda por cima simpatizantes doentios da mesma cor futebolística!)
Ao longo da vida, satisfaz-me muito constatar que nunca me zanguei com ninguém das minhas relações por motivos políticos. O contrário já não é verdade: houve amigos, muito poucos, é certo, que se foram afastando por divergências de opinião que eles terão considerado impeditivas da sustentação da normalidade da nossa relação anterior.
É triste? É, mas é a vida.
quarta-feira, fevereiro 26, 2020
Extremos
As expressões “extrema direita” e “extrema esquerda” têm duas similitudes. A primeira é semântica: em ambas, existe a palavra “extrema”. A segunda é que o passado em que essas correntes tiveram origem foi marcado por sinistras ditaduras - de um lado o fascismo e o nazismo, do outro os regimes comunistas, que resultaram num desastre totalitário. As similitudes acabam aí, pelo que é hoje profundamente desonesto procurar equiparar os dois conceitos.
A extrema direita é xenófoba, racista, discriminatória e promotora de políticas de ódio, obsessivamente securitária, cavalgando um sinistro nacionalismo.
A extrema esquerda, chamemos-lhe assim por facilidade, pelo contrário, defende políticas de igualdade e integração social, é anti-racista e anti-xenófoba e tem uma agenda política basicamente humanista - embora eu discorde do seu anti-europeísmo, do radicalismo simplista de muitas das suas receitas e ache irrealistas grande parte das suas propostas, por muito generosas que possam parecer.
Mas eu não esqueço nunca quem esteve do lado certo na 2ª Guerra Mundial, tendo tido um papel fundamental para a derrota do mais odiento projeto político que se conhece - o nazi-fascismo. E também me lembro bem de que, por cá, quando se tratou de ajudar a derrubar o projeto de fascismo saloio, mas criminoso, de Salazar, bem como lutar contra o colonialismo, essa esquerda foi essencial e, por virtude da sua luta corajosa, pagou um elevado preço, sofrendo o que nenhuma outra força de esquerda então sofreu.
Se é verdade que, nos anos de 1974/75 – vai para meio século! -, parte dessa esquerda foi tentada a uma deriva de populismo autoritário, é também uma evidência que a democraticidade da sua postura no sistema político tem sido, desde então, inquestionável. A sua participação na “geringonça” foi o reconhecimento natural desse seu pleno estatuto democrático.
Por isso, não votando eu nos partidos de Jerónimo de Sousa ou de Catarina Martins, de que muitas coisas me separam, deixo expresso que tenho consideração política (e, por sinal, também pessoal) por essas figuras e pelas formações que dirigem. E, como é óbvio, não tenho a menor consideração por quem titula políticas de extrema-direita, bem como por quem tende a desculpabilizá-las e por quem vier a prestar-se a estender-lhes a mão.
Há muito que me apetecia deixar isto bem claro. Seria porventura mais cómodo não o fazer, mas começo a estar cansado da fraude que é a recorrente tentativa de equiparar duas realidades que não se podem comparar.
terça-feira, fevereiro 25, 2020
Ansiedade
Estarei enganado ou deteto em algumas das nossas televisões uma espécie de ávida expetativa pelo primeiro caso de virus positivo em Portugal? Mas deve ser só impressão minha...
Pesar
Não confundo nunca as fronteiras da política com as relações pessoais. A grande perda que Pedro Passos Coelho acaba de sofrer, com a morte da sua mulher, somada ao desaparecimento, não há muito, do seu pai - pessoa por quem eu tinha estima e consideração -, configura para ele um tempo que imagino bem difícil. Deixo-lhe um abraço vila-realense de solidariedade e de pesar.
José Cutileiro
José Cutileiro escreve como poucos. O seu português de lei, culto e preciso, mas não gongórico, somado a um apurado sentido de observação, de onde ele parte para uma análise fina e percutante, torna a leitura dos seus livros um grande prazer. Acresce que a vida deu a Cutileiro a oportunidade de cruzar terras e gentes muito diversas, sabendo ele extrair disso notas inteligentes e divertidas.
Este seu novo livro, agora editado pela Dom Quixote, é uma colagem de textos curtos, muito diversos entre si, que podem ser digeridos autonomamente, o que transmite uma grande leveza à leitura, estendendo o prazer pelo tempo. Tenho apreciado bastante este “Inventário” e já estou com pena por estar a acabá-lo.
Eu gosto das palavras
E dos ecos que trazem à lembrança,
Dessas canções de frança e aragança
Que são só sons que cobrem, como um manto,
O que têm que cobrir, porque, entretanto,
Já há, profissional, uma ordenança
A recolher em fichas, sem parança,
O tom, o cheiro, o muco, do seu pranto
Que cante, e dance, e viva, e morra, e vibre,
Que se desdobre em nervos e minutos,
E seja para sempre eterno e livre
O grito que se ergueu irresoluto
Desse sítio onde o corpo se coíbe
E súbito triunfa do seu luto.
E súbito triunfa do seu luto.
Manuel Resende
segunda-feira, fevereiro 24, 2020
Daniel de Matos
Daniel de Matos é o médico que acompanhou os últimos quatro presidentes da República. No “Público” de ontem, Maria João Avillez traçou-lhe um interessante retrato humano, que vale a pena ser lido. Nele se descobre um homem sereno e de bem com a vida. Quem o conhece, sabe-o um profissional de grande qualidade, com uma lendária capacidade de diagnóstico. E sabe algo mais: a sua simpatia, o seu proverbial humor e boa disposição, meio caminho andado para a confiança que transmite.
USA
Era excelente ver Bernie Sanders no lugar de Trump na Casa Branca. Pergunto-me é se o facto dele poder vir a ser o candidato democrático não acabará por ajudar a que Trump permaneça no lugar por mais quatro anos. Logo veremos...
E se tentassem fazer jornalismo?
Será demais pedir à comunicação social portuguesa, em especial às televisões, que, perante a expectável extensão a Portugal do vírus, adote uma postura contida e não alarmista, deixando-se de bitaites e de especialistas paroquiais e dando relevo aos conselhos oficiais?
domingo, fevereiro 23, 2020
Palavras
Se a jornalista Ana Leal provar, sem sombra de dúvida, que o primeiro-ministro telefonou para a TVI a pedir a sua demissão, trata-se de um caso gravíssimo, que não pode passar sem sérias consequências políticas. Se não provar, a gravidade é idêntica e, de facto, é uma razão para ser demitida.
O país
Na consequência de corridas com automóveis, feitas de madrugada, bem acima dos 200 km/h, morreram anteontem quatro jovens na 2ª circular.
Ontem, em ”homenagem” às vítimas, amigos juntaram-se com carros no local do acidente, impedindo o trânsito, obrigando à intervenção da polícia.
Está tudo doido?
Está tudo doido?
Festival
A cançoneta apresentada num estilo muito La La Land foi a que mais me agradou no Festival da Canção, não obstante ter uma letra a armar ao intelectual, com um “name dropping” algo pretensioso.
Confesso que percebo muito pouco destas coisas, em que sou um assumido “achista”. Pergunto-me, contudo, se aquilo é um estilo para a Eurovisão. Alguns dirão, com razão: também a balada do Sobral não era...
sábado, fevereiro 22, 2020
“Les miens”
Ontem, a propósito da morte de Jean Daniel, citei por aqui o título de um seu livro. Hoje, olhando os mortos “notáveis” que este fim de semana nos trouxe, lembrei-me de outra obra desse jornalista (ou deveria dizer escritor?).
Há quem se queixe de que este meu espaço se converte às vezes num excessivo registo obituário. E quem diz isso, sem o dizer, é porque acha isso chato. Aceito o remoque mas a verdade é essa mesmo: cada vez tenho mais mortos conhecidos.
E há também quem entenda que “faltam” por aqui alguns mortos, que deixo “escapar” gente e que, numa espécie de hierarquia de destaque obrigatório de quantos se vão, isso deveria justificar uma nota.
Ora isto não é um órgão de comunicação social, ou melhor, isto é apenas um órgão de “comoção” pessoal. Por aqui vou notando algumas pessoas cuja saída da cena da vida me toca, umas vezes pela relação ou contacto que possa ter tido com eles, outras vezes pelo que representam na minha memória afetiva (e a afetividade tem dois sentidos, pelo que isso não significa necessariamente que deles goste). Outras vezes, essas notas surgem apenas “porque sim”. Tentar descortinar uma qualquer lógica definitiva na escolha do que aqui deixo escrito é, podem crer, um esforço vão.
O título do outro livro de Jean Daniel de que agora me lembrei é “Les Miens” e resume, em geral, o sentido das notas obituárias que aqui publico. Mas, aviso!, nem sempre!
(E a fotografia? Não tem nada a ver com isto, ou melhor, tem a ver com o facto de eu estar agora sentado num banco do Jardim da Parada, em frente da estátua da Maria da Fonte, uma figura do século XIX, período que, desde sempre, me habituei a ver refém de uma historiografia oportunista, com agendas que se projetam nos interesses políticos do tempo presente. E mais não digo, porque vou comer um pastel de nata à Aloma, para animar os meus açúcares)
Regresso à escola
Regressei ontem à minha escola, ao Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Fui convidado para ali fazer a conferência de abertura de um ciclo de doutoramentos em Ciência Política e Relações Internacionais.
Na ocasião, o presidente do ISCSP ofereceu-me um livro sobre a longa história daquela casa, em que acabo de verificar que surjo, numa fotografia de 1968, engravatado e de colete, com um ar de muito bem comportado, algo que, à época, estava longe de ser.
“Contumaz agitador académico” foi a expressão com que fui brindado num processo disciplinar que me valeu, dois anos mais tarde, uma suspensão de seis meses. Em duas das três eleições para os corpos diretivos da Associação Académica em que fui eleito pelo voto livre dos meus colegas, a longa mão do Ministério da Educação Nacional (tempos de Hermano Saraiva mas também de Veiga Simão) viria a determinar também a minha “não homologação”, pelo que não pude vir a exercer esses cargos.
Ganhei por essa época um cadastro e até alguma fama de “troublemaker”, coisa um pouco desajustada para quem, como eu, não estava então ligado a qualquer atividade política ou partidária e apenas me limitava a lutar pelos direitos dos estudantes. Aliás, devia ser curioso comparar a nossa agenda revindicativa desses tempos com as preocupações das estruturas associativas de hoje.
Questão de fusos
O episódio passou-se há mais de três décadas.
Estávamos num hotel de uma capital africana, integrados na comitiva de um membro do governo português. Nessa manhã, íamos partir para o palácio presidencial, onde o chefe de Estado receberia o nosso dignitário. Toda a delegação estava já no hall, pronta para embarcar nos carros. Toda, não! Faltava o nosso embaixador acreditado nesse país, que vivia no hotel, enquanto a residência oficial portuguesa não terminasse as obras que, sob o seu exigente critério, há meses prosseguiam.
Com o tempo a escassear, via-se que o nervosismo começava a apoderar-se no nosso governante, pessoa que os anos futuros mostrariam ser pouco dada a absorver com bonomia as contrariedades que a vida a todos traz.
Tomei a iniciativa de telefonar para o quarto do embaixador. Expliquei-lhe que estava tudo "em pulgas", já com algum atraso, pelo que era urgente que descesse. Como se tivesse à sua frente todo o tempo do mundo, e ignorando olimpicamente a minha observação de que o nosso político estava a ficar furioso, disse-me com a sua proverbial, mas muito simpática, displicência: "Tenham calma! Aqui ninguém chega a horas..."
Cinco minutos depois, desembarcou do elevador, sorridente, aproximando-se da nervosa comitiva. O governante não resistiu e, entre o ácido e o irónico, lançou-lhe:
- Então, embaixador?! Não acordou? Não tinha despertador?
O diplomata, homem há muito conhecido por olhar para as minudências do tempo com a serenidade de quem tem outras prioridades na vida, respondeu-lhe, sem perder o sorriso, quase sarcástico:
- Sabe, até acordei muito cedo. Foi esse, aliás, o problema! Tão cedo era que voltei a deitar-me e, olhe!, adormeci...
E já caminhando para a porta, comentou, comandando a mudança da conversa:
- Belo dia, não acha?
Entre as nossas gargalhadas abafadas e a fúria oficial do chefe da delegação, lá fomos para o palácio. Ainda por lá esperámos um bom bocado, é verdade.
sexta-feira, fevereiro 21, 2020
Mesas
A “Visão” desta semana traz um pequeno mas interessante guia de restaurantes, um pouco por todo o país.
Nenhuma listagem destas, como é sabido, é consensual, mas sempre pode ajudar bastante a quem anda por Portugal de viagem.
Foram pedidas cinco sugestões a três pessoas: à chefe Justa Nobre, ao cantor António Zambujo e a mim.
Em rigor, não se trata de “os meus restaurantes preferidos”, embora neles se incluam mesas que assim podem ser qualificadas.
Optei por indicar nomes de cinco restaurantes situados em localidades pouco comuns ao gastrófilo não iniciado, tal como Moreira de Cónegos, Valhelhas, Avelãs do Caminho, Praia d’El Rei e Vaiamonte.
Quem quiser saber mais, compre a “Visão”! É um belo número
Jean Daniel
Hoje, dia da morte de Jean Daniel, aos 99 anos, fundador do “Nouvel Observateur”, os jornalistas deveriam sentir-se felizes pela bela definição que, um dia, deles deu: os impacientes da História.
Joaquim Pina Moura
Morreu-me um amigo. Morreu Joaquim Pina Moura. Tinha 67 anos e estava doente, há muito tempo.
Conheci-o em 1995, quando ambos trabalhámos com António Guterres. Criámos, de imediato, uma magnífica relação pessoal, sempre divertida, recheada de humor e de crescente cumplicidade. Posso dizer que foi das pessoas com quem acabei por ter uma maior empatia, dentro dos dois governos a que pertencemos. Com uma inteligência fulgurante, rápida e arguta, apanhava o essencial num instante, sabendo transformar logo uma ideia numa proposta realista e com sentido. Ia “a todas”, sabia de tudo. Era um “mouro” de trabalho, uma figura em quem Guterres tinha uma extrema e justificada confiança, nele delegando imensas tarefas. Lembro-me das suas chamadas telefónicas pela noite dentro, ainda como secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro, quando alguns problemas europeus “apertavam”, sempre, mas sempre!, atuando com uma insuperável delicadeza para comigo.
Os obituários das próximas horas recolherão, com toda a certeza, o seu histórico afastamento do PCP, de que se tornou num dos mais famosos críticos, após aí ter sido uma “estrela”, em forte ascensão. Nesse percurso, a partir de certa altura, foi-se aproximando de António Guterres, tendo estado no centro da operação “Estados Gerais”, que catapultou o PS para o governo, entronizando Guterres como primeiro-ministro. Durante todo esse tempo, colaborou fortemente com o PS, mesmo sem ser ainda militante do partido. Atribui-se a Jaime Gama, com quem Pina Moura tinha uma excelente relação e uma visível admiração mútua, uma graça que ficou memorável nas hostes socialistas. Reza a “lenda” que, um dia, numa conversa nesse ano de 1995, com Pina Moura presente, Gama terá dito a Guterres que era importante ele entrar para o PS. E descreveu a forma como isso aconteceria: “Um dia, o Joaquim Pina Moura decide aderir ao PS. Vai ao largo do Rato, toca à campaínha e quem é que, do lado de dentro, lhe abre a porta? O Joaquim Pina Moura!”
Lembro-me agora do jantar que ele organizou, com o João Lima Pimentel, assessor diplomático do primeiro-ministro, e para o qual me convidou, no “Vela Latina”, para explorar a ideia, congeminada por ambos, da candidatura de António Guterres à presidência da Comissão Europeia. Pouco dado a ousadias, achei a iniciativa “louca” e sem pés para andar, mas, meses depois, verifiquei que era ele, e o João Lima Pimentel, quem afinal tinha razão - e eu não. O apoio a Guterres, por parte de vários líderes europeus, começou a ser esmagador e a discreta campanha de imprensa e de contactos que o Joaquim e o João tinham engendrado - o chamado “Plano Alfa “, como então foi ironicamente crismado, de que há mesmo um registo “gráfico” - foi de vento em popa. Guterres só não foi presidente da Comissão Europeia porque não quis. Foi ele próprio quem pôs fim à ideia, por razões que um dia serão devidamente explicadas, numa reunião a quatro, na Áustria, numa noite de 1999, com o Joaquim, o João e eu. Lembro-me de mim e do Joaquim Pina Moura, já então ministro da Economia, depois do jantar, a “digerir” a nossa frustração, passeando pelo Graben, na noite fria de Viena.
Tenho muitas recordações do Joaquim Pina Moura. Todas boas. A nossa última e longa conversa acabou por ser em Paris, há já quase uma década, num jantar muito simpático e, como sempre acontecia quando nos juntávamos, bem divertido. Depois do meu regresso a Portugal, a sua progressiva doença forçou o nosso afastamento, com grande pena minha.
Deixo um grande abraço de pesar a toda a família, em especial à Herculana, uma “mulher-coragem”, de uma lealdade inquebrantável, em especial no sofrimento que para todos foram os últimos anos.
quinta-feira, fevereiro 20, 2020
Falai no mal...
Às vezes, pergunto-me se as pessoas que passam o tempo a falar do deputado de extrema-direita, cujo nome agora me escapa, apenas querem obter “visitas” à sua pala ou se, lá no fundo, não se importam de lhe fazer o jogo. É que não vislumbro uma terceira opção.
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