sábado, dezembro 07, 2013

Argel antes de abril

"Amigos, companheiros e camaradas, esta é a Rádio Voz da Liberdade". Era assim que, duas vezes por semana, antecedido de um coro das "canções heróicas" de Fernando Lopes Graça, nos chegava pela noite a emissão da rádio que, de Argel, divulgava a mensagem da Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN). O endereço que nos era oferecido para correspondência ("rue Auber, 13, Alger, Argélia") era então uma referência forte da luta exterior contra a ditadura.

Para o jovem estudante de liceu que eu era, nesses anos 60, com o ouvido colado à rádio para não despertar ouvidos hostis nos silêncios da madrugada de Vila Real, posso imaginar a curiosidade sobre quem seriam as vozes que, num tom épico, "conclamavam" as "massas populares" para, no dia seguinte, "saírem à rua" e derrubarem a ditadura - o que a dura realidade desse dia seguinte sempre teimava em desmentir. A mais marcante dessas vozes era Manuel Alegre - de quem, à época, creio que não conhecia sequer o nome.

Ontem, em Argel, passei por lá, pela "rue Auber", que agora se chama Mohamed Chabani, situada na zona antiga de uma cidade onde, a cada canto, surgem edifícios belíssimos de uma arquitetura colonial francesa onde se pode presumir uma vida urbana excecional. As coisas mudaram bastante, como a fotografia do estado do "nº 13" bem o demonstra.

Por uma curiosidade que sempre tive por esse tempo argelino da nossa vida política - Argel foi o mais importante centro da Oposição à ditadura, seguido de Paris, do Rio e S. Paulo e de Moscovo - fui ver também o (que deve ter sido o) imponente edifício em cujo 5º andar a presidência argelina instalou o general Humberto Delgado, depois da sua chegada, em 27 de junho de 1964. É o 118 do boulevard Salah Bouakouir, sede da Junta Revolucionária Portuguesa, de que também deixo uma foto.

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Mandela, nós e os ingleses

Numa inóspita sala de embarque de um aeroporto, dizem-me de Lisboa que, na blogosfera portuguesa, "se ha armado un follón" (uso a linguagem do local onde estou) a propósito do voto negativo que Portugal deixou nas Nações Unidas, perante uma resolução na Assembleia Geral, em dezembro de 1987, que incluía o pedido de libertação de Nelson Mandela. Já há semanas o assunto havia sido ressuscitado na nossa imprensa, depois de, em tempos, o deputado António Filipe o ter referido. Portugal aparece isolado nesse voto com os EUA e o Reino Unido.

Devo dizer que não entendo o espanto. Numa leitura extrema do que considerava ser o seu compromisso nas trincheiras da "guerra fria", Lisboa seguia, por esses tempos, uma linha de constante colagem às posições britânicas. Pergunto-me mesmo quantas vezes, numa contabilidade de tomadas de posição neste domínio, o nosso país - repito, por esses tempos - deixou de acompanhar Londres.

Desde então, as coisas mudaram muito. Um dia de 1997, em Bruxelas, depois de eu ter anunciado à imprensa uma posição que assumira nas negociações do tratado de Amesterdão, um jornalista belga perguntou-me: "Coordenou essa posição com os ingleses?" Devo ter mostrado uma cara surpreedida, pelo que o homem continuou: "Vocês não se articulam sempre com eles antes?" O curioso é que eu nem sequer sabia que posição o Reino Unido tinha na matéria. Continuávamos a ser "the oldest ally", mas, desde 1995, deixáramos de ser "the oldest follower".

quinta-feira, dezembro 05, 2013

Portugal - ascensão e queda

Não dá! Anteontem, ao final da tarde, tinha quatro compromissos, precisamente à mesma hora. Um deles era, como agora se diz, incontornável. Dois outros eram ocasiões "sociais", uma delas para honrar uma amiga que muito prezo*.Outro ainda era o lançamento do último livro do meu amigo Jaime Nogueira Pinto, "Portugal, ascensão e queda". Falhei o encontro. Chegado a casa, tinha o livro à minha espera. Vou ler. Mas o mistério continua: como é que o Jaime Nogueira Pinto organiza os seus dias e horas, por forma a publicar a este ritmo?

* o que um lapso suscita, conforme os comentários

quarta-feira, dezembro 04, 2013

Argel

Amanhã, farei em Argel, no "Institut Diplomatique et de Relations Internationales", uma palestra sobre o tema "Mediterrâneo - o diálogo entre as margens", para explicar a atividade do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa. A palestra insere-se no quadro de uma visita oficial, para contactos com o Ministério dos Negócios Estrangeiros e outras entidades locais.

Já não vou a Argel há alguns anos, uma cidade cuja carga histórica compreendi melhor aquando da minha estada em França. Estou com alguma curiosidade em revisitar a belíssima "cidade branca", embora o tempo de permanência não dê para grande turismo.

Em tempo: constatei, in loco, que a bela Place des Martyrs, que a foto mostra, é hoje um imenso estaleiro para a construção do metro de Argel. Quem constrói? A "nossa" Teixeira Duarte, ora bem!

terça-feira, dezembro 03, 2013

A fechadura

Foi há cerca de uma hora. Ele estava com um "pifo" medonho, à saída do bar. Achei que devia levar aquele amigo. Chegado a casa, tentou abrir a porta do automóvel, mas a fechadura tem um truque:

- Tens de pressionar duas vezes. Só funciona à segunda.

Olhou-me com um ar estranho. 

- Arranjas cada carro! Como é que se faz à terça?

segunda-feira, dezembro 02, 2013

A ver navios

Nos muitos anos em que férias foram para mim sinónimo de Viana do Castelo, os Estaleiros faziam parte da paisagem de fundo. Amigos do meu pai trabalhavam "nos Estaleiros", raramente havia uma família de alguém conhecido que não tivessem gente ligada a essa indústria central na vida da cidade, atravessava-se os Estaleiros, de onde saíam sirenes e barulhos estranhos, para ir à praia norte, onde se dizia que as virtudes do iodo compensavam a ventania das tardes desabrigadas, logo que passado o Campo. Na minha memória, os Estaleiros fazem parte da identidade de Viana tanto quanto as lavradeiras da Senhora da Agonia, as montras do Valencinha da Praça ou do Eugénio Pinheiro, os doces do Natário, o mazagran do Límia Parque ou do Girassol ou o escadório de Santa Luzia. E, mais modernamente, a fama dos ouros da ourivesaria Freitas ou os advogados espertalhotes do prédio Coutinho, para dar dois exemplos de sentido contrário.
 
Com tudo em crise por aí, só espantaria que os Estaleiros não seguissem a sina da pátria. A espaços, Viana apareceu nas televisões com façanhudos operários reclamando de problemas na empresa. Com os empregos em risco, percebi entretanto que se justificava amplamente serem façanhudos. E com a gestão errática dos últimos anos - em que "dom Sebastião" oscilou entre os russos, os Açores, Hugo Chavez e, agora, as ventoínhas da nossa poluição visual (uma das quais já emerge lá pela zona) -, assistimos a decisões e contra-decisões ministeriais (com trapalhadas europeias à mistura) que, para o cidadão comum como eu sou, têm um ar de ligeireza e de aparente irresponsabilidade. Ou os estaleiros são para fechar ou são para ter futuro. Este vai-e-vem de manifs e de declarações oficiais com ar de Estado, com os Estaleiros a ver navios, é que tem de acabar. 

domingo, dezembro 01, 2013

Pronto!

Era o que mais faltava não darmos uma abada ao Paços*!

O mais difícil era chegar ao topo. Agora, caramba!, é só segurar o lugar. É canja! Pergunto-me mesmo: valerá a pena continuar com o campeonato? Evitavam-se humilhações para a rapaziada do Colombo e das (antigas) Antas. Eles deviam pensar bem nisto! E dedicavam-se à Taça! Já não seria mau... coitados!

* Para um comentador: eu escrevi "Paços", com "cê de cedilha". Cada coisa a seu tempo...

A vez da Ucrânia

Ver muitos milhares de pessoas nas ruas de Kiev, lutando contra a "finlandização" da Ucrânia, apelando por uma maior ligação à Europa comunitária, não nos deve iludir. Não é o atual projeto baço, titulado pelas "entusiasmantes" figuras de Van Rompuy e Barroso, que necessariamente seduz essas pessoas. É a perspetiva de procurar um caminho de fuga à tutela moscovita que anima parte de um país hoje prisioneiro da guerra "morna" que se estabeleceu nas margens da Rússia.

Com a queda da União Soviética, o ocidente deixou-se seduzir pela possibilidade de fazer chegar tão perto de Moscovo quanto possível as fronteiras da sua segurança e da sua liberdade democrática. Para isso, alargou a NATO e a UE até aos bálticos, utilizou oportunisticamente o alibi da luta anti-terrorista para pescar em "águas" estratégicas russas, com uma aberta influência na Geórgia, com a utilização de bases aéreas no Usebequistão e no Quirguistão. 

Bruxelas, mobilizada pelo zelo anti-moscovita dos recém-convertidos, aproveitou a porta aberta pelos EUA e agravou o seu discurso face à Rússia, na ilusão de que assim reverteria a relação de forças. A liderança russa, já de si propensa a derivas autoritárias, viu nisso uma ocasião para impor soluções de proteção geopolítica. E aconteceu o que aconteceu na Geórgia. Na Bielorússia as coisas são já hoje o que são. Agora, noutro modelo, parece ser a vez da Ucrânia. Haveria outra solução ou outra política possível por parte da Europa? Talvez houvesse. Mas, para isso, a UE não deveria ter sido cúmplice das provocações anti-russas que alguns dos seus parceiros insistiram (e insistem) em tentar. Não é por acaso que estes acontecimentos coincidem com uma cimeira europeia que tem lugar precisamente em Riga (como poderia ser em Tallin ou Vilnius). Aí está o resultado da estratégia enviezada de um ator secundário na cena internacional, que dá pelo nome de União Europeia.

O meu fado


Faço uma declaração prévia de interesses: gosto muito de fado. Mas não de todo o fado. Abomino o fado-canção, não aprecio demasiado o fado com orquestras por detrás, há algumas vozes que por aí andam (alguns há muito) como as quais "não vou à bola". E - expondo-me agora às balas - também afirmo que não partilho o culto do Marceneiro. Mas gosto, e muito, do Manuel de Almeida, da Argentina Santos, da Fernanda Maria, do Carlos Ramos, da Maria Teresa de Noronha, do Fernando Maurício, da Ada de Castro, da Celeste Rodrigues, da Lucília do Carmo e de muitos outros clássicos. E, claro, da Amália, "cela va sans dire".

Em França, quando por lá vivi por quatro anos, ouvi imenso fado, porque a nossa comunidade emigrada é apreciadora de bom fado. Em Paris, cruzei-me com excelentes fadistas. Desde que regressei a Portugal, devo dizer que vivo entusiasmado com o "renascimento" do fado a que estou a assistir. Cada vez há mais gente nova a cantar e a ouvir muito bom fado. Primeiro, foi a geração que João Braga apadrinhou, de onde surgiram algumas vozes magníficas. Conviviam então com um "novo" fado tipo "avenidas novas" ou "da linha" que, felizmente, desapareceu no gosto de um público que começa "a saber da poda". Agora há para aí gente de grande qualidade, onde Ricardo Ribeiro e Carminho surgem com imensa força, a provar que a qualidade de grandes vultos, como Camané ou Mariza, tem continuadores assegurados. Acho fantástica Aldina Duarte. E Ana Moura. E Cristina Branco, quando decide cantar fados. E Joana Amendoeira. Acho bastante graça a Marco Rodrigues, ando a tentar gostar de António Zambujo e de Cuca Roseta. E ouço com muito agrado Kátia Guerreiro. E, claro, Gisela João!

Ontem à noite, fui apreciar o espetáculo de Carlos do Carmo no CCB, depois de já ter ouvido o seu CD de duetos. Uma oportunidade para revisitar uma figura a quem a projeção do fado muito deve e que, com Amália, foi responsável por colocar excelentes poetas na boca do fado bem cantado. Carlos do Carmo aproveitou para saudar nessa noite dois grandes instrumentistas: o viola José Maria Nóbrega, que o acompanhou durante 45 anos, e o jovem José Manuel Neto, um guitarrista que agora o acompanha, que é simplesmente genial.

O bom fado está aí para ficar. Vão aos fados, caramba!

sábado, novembro 30, 2013

Marinho Pinto

Conheço António Marinho Pinto há cerca de 50 anos. Recordo-me de conversas, muitas vezes políticas, que tivémos à volta das mesas da pastelaria Gomes, em Vila Real, no final dos anos 60. Nestas décadas, fomo-nos encontrando, muito pouco, a espaços - por Coimbra, por Lisboa ou pelo Porto. À distância, e depois de o ter visto como jornalista e comentador televisivo, fui acompanhando a sua prestação à frente da Ordem dos Advogados, um seu tempo de grande visibilidade pública, com forte dose de polémica, servida pelo verbo fácil, pela palavra desassombrada, pela vontade de chamar as coisas pelos nomes, na área da Justiça. Que justiça lhe fará a Justiça?

Marinho Pinto acaba agora o seu tempo à frente da Ordem. Com toda a franqueza, não tenho uma opinião concreta sobre o saldo que fica da sua ação no setor. Mas o facto da sua sucessora, hoje eleita, o ter sido num registo de continuidade, leva-me a pensar que o trabalho de Marinho Pinto deve merecer um apoio maioritário junto dos seus pares. Estarei certo?

Uma coisa tenho a agradecer ao meu amigo António Marinho Pinto: o inesquecível momento de televisão que ofereceu ao país, diante de uma conhecida figura televisiva. A frontalidade de Marinho Pinto ficou na história da nossa vida mediática. Quem quiser, relembre aqui o episódio.

Terras do fim do mundo

Na passada semana, numa palestra que fiz para quadros superiores de empresas que operam em Angola, durante a qual analisei a política externa daquele país, dei conta da circunstância de, nos tempos imediatamente após as independências das antigas colónias portuguesas, Moçambique e Angola manterem entre si muito escassas relações: passaram bastantes anos antes que trocassem embaixadas, o comércio bilateral era praticamente nulo e não havia ligações aéreas diretas entre Luanda e Maputo. Agora já há, como a tragédia de ontem o atestou.

Numa pausa dos trabalhos, o representante de uma das empresas, que aliás fora mesmo a primeira pessoa a colocar-me uma questão no debate, um homem muito simpático e cordial, aproximou-se de mim e disse-me que já me "conhecia bem" através de familiares, entre os quais um meu amigo muito próximo. Essas pessoas tinham-lhe falado do meu culto do humor. Disse que percebia isso muito bem porque partilhava essa forma de estar, que, também para ele, era uma atitude fundamental a assumir na vida. Soube que essa vida acabou ontem. Ele era um dos passageiros portugueses do voo do qual não restam sobreviventes, caído nas "terras do fim do mundo".

sexta-feira, novembro 29, 2013

Primeiro de dezembro


Enquanto republicano empedernido, dou a minha total solidariedade ao movimento mobilizado pelo deputado José Ribeiro e Castro para a reintrodução da comemoração da data da restauração.
 
Acho, aliás, surpreendente (mas significativo) o facto do país ter assistido, impassível, à decisão governativa que colocou em causa a celebração de uma das datas fundacionais do nosso país, assunto, aliás, que foi tratado no âmbito do ministério da Economia (!).
 
E, já agora, devo dizer que teria uma imensa curiosidade em ouvir o que o dr. Paulo Portas terá a dizer sobre este assunto.

Em tempo: Marcelo Rebelo de Sousa, ontem na TVI: «Temos de voltar a ter o feriado do 1º de Dezembro. A abolição dos feriados foi uma das coisas mais demagogicamente estúpidas deste governo, que para acabar com as "pontes" acabou com os feriados. Uma coisa completamente tonta.»

A política externa e a Europa

Ontem à noite falei da crise portuguesa e da crise na Europa, na perspetiva como ambas afetam e condicionam a nossa política externa - ou o que dela resta. Devo esclarecer que o tema não me agrada muito, porque sinto sempre alguma relutância em tratar, num registo de inevitável polémica, um assunto que, desde há anos, me esforço por consensualizar. Mas achei que tinha de corresponder ao amável convite do Instituto D. João de Castro e procurar refletir sobre algo a que consagrei uma importante parte da minha vida e cujo destino, muito simplesmente, me preocupa nos dias de hoje,

Com a quase meia centena de pessoas que, na noite frígida de ontem, se incomodaram para ir ouvir-me àquele simpático espaço no Restelo, conversei durante mais de duas horas, relembrando constantes do nosso posicionamento externo, assinalando as mudanças que as últimas décadas induziram no nosso cenário estratégico, refletindo sobre o "estado da arte" da nossa diplomacia, sobre meios, humanos e materiais, alocados à nossa dimensão internacional. Não foi um tempo de grande otimismo, devo esclarecer.

O professor Adriano Moreira presidiu à sessão e, no final, encerrou com um curto mas sábio testemunho, ao mesmo tempo ousado e sereno, sobre os riscos que entende que o país atualmente corre pelo menosprezo a que são votadas algumas da suas políticas públicas, aquelas que mais diretamente afetam a identidade e a memória do país.

quinta-feira, novembro 28, 2013

Mário Soares


O ativismo político do Dr. Mário Soares está a polarizar o país. O tom e a natureza de algumas das suas tomadas de posição entusiasma uns e choca outros. 

Gostava de dizer duas coisas apenas sobre esta nova visibilidade do meu amigo Dr. Mário Soares.

A primeira é que eu também me sinto, algumas vezes, pouco confortável com algumas expressões utilizadas, em entrevistas e intervenções, pelo anterior presidente português e creio mesmo que a eficácia do seu discurso ficaria melhor servida se outro tipo de linguagem fosse adotada.

A segunda é dirigida a quantos hoje o contestam e combatem o que entendem ser a deriva radical de Mário Soares: acho que deveriam sentir-se satisfeitos pelo facto dessas tomadas de posição acabarem por polarizar, numa figura que pede meças a quem quer que seja em Portugal, em termos de luta pela liberdade e pela democracia, muito daquilo que hoje configura um profundo e inorgânico descontentamento popular que atravessa o país. Deviam pensar nisto.

Conversas

Na quinta-feira, dia 28, pelas 21 horas, no Instituto Dom João de Castro (rua D. Francisco de Almeida, 49, no Restelo), a convite do respetivo presidente, professor Adriano Moreira, irei falar sobre "Política Externa Portuguesa - impacto e condicionantes da crise europeia".

quarta-feira, novembro 27, 2013

Das escadas às portas

Muitos amigos meus não gostarão do que vou escrever a seguir. "Tant pis"!

O que ontem se passou, com a ocupação das entradas de alguns ministérios por sindicalistas, associado aos acontecimentos que ocorreram há dias na escadaria da Assembleia da República, representa uma forma de expressão de interesses particulares que, a prosseguir e a ser tolerada, coloca em causa os fundamentos do sistema democrático. Entendo perfeitamente a revolta, mais do que justa, de quem vê o seu emprego ameaçado, vantagens adquiridas em causa, a sua vida e a dos seus em frangalhos, por uma política que parece indiferente ao sofrimento das pessoas. Mas é por demais evidente que todos os cidadãos portugueses - esses e outros - continuam a poder usufruir livremente da plenitude dos direitos de expressão política e de manifestação que a Constituição e a legalidade democrática lhes concedem. E que só quando esses direitos fundamentais eventualmente tivessem sido colocados em causa é que se justificaria o recurso a métodos alheios à legalidade vigente. O que ontem e há dias se passou assume o caráter de uma perigosa abertura da "caixa de Pandora" que, a meu ver, não é uma situação favorável à democracia portuguesa. E eu, julgo que como muitos portugueses, não me sinto representado por quem utiliza métodos de expressão cívica que se afastam da estrita observância da legalidade democrática em que pretendo continuar a viver.

Admito estar enganado nesta minha forma de ver as coisas, mas é, muito simplesmente, o que eu penso.

Católica?

Desde há muito, é para mim um insondável mistério o modo como a Universidade Católica Portuguesa consegue compatibilizar a observância e o respeito pela doutrina social da sua igreja, que deveria ser a matriz identitária da casa, com a promoção obsessiva de um liberalismo económico radical, que constitui a imagem de marca de muita da "produção" saída da sua linha de montagem académica, nas últimas décadas.

Não está em causa a qualidade intelectual desses quadros, gente tecnicamente muito bem preparada, com alguns dos quais convivo no meu dia-a-dia profissional e em outros círculos em que me movo. A UCP é indiscutivelmente uma das melhores universidades portuguesas. Mas esse fascínio cego e absoluto pelas virtudes da "mão invisível", parece ter-se convertido na doutrina oficiosa da casa (e leiam-se os textos que ela produz para não se ter, sobre isto, a menor dúvida), e baseia-se no culto de modelos extremos de competição e de destruição, por opção ideológica, de todas as estruturas de defesa do bem público comum. Assim se sacrifica a vida de gerações, forçadas à crença salvífica num novo tipo de "amanhãs que cantam", como o comprova a orientação política que entre nós prevalece, com os resultados que estão à vista de toda a gente. E assim se empurra, pelos vistos sem remorso, os excluídos da sorte dos mercados para as margens do sistema e para os caminhos da caridade, que remendam os efeitos das políticas que geraram essas desiguadades. Tudo isto é feito em lugar de colocar as pessoas no centro dos interesses das políticas económicas, as quais, pela ética católica (e não só), existiriam para construir o bem-estar dos homens e não para a "réussite" dos mais fortes entre eles. Se isto é ser católico, então vou ali e já venho...

Por essa razão, estou muito curioso para saber a opinião da escola económica da UCP sobre aquilo que ontem foi dito pelo papa Francisco a propósito da economia e do sistema prevalecente na sociedade em que vivemos.

terça-feira, novembro 26, 2013

Águias ao alto!

O presidente do Sporting, numa evidente graçola em ambiente clubístico, terá dito que "quando quiserem começar a resolver os problemas de Portugal, é fácil: tiramos o vermelho da bandeira e é tudo nosso".

Um anónimo escriba à solta no "Público", com falsa inocência, logo correu a titular: "Presidente do Sporting sugere que se tire o vermelho da bandeira de Portugal". E, vai daí!, o mundo da blogosfera, em especial o submundo dos comentaristas dos jornais, iniciou uma "desanca" no autor da expressão, tomada oportunisticamente à letra. Aguarda-se ainda, com ansiedade, a rubra nota de desagravo da Soeiro Pereira Gomes.

Não conheço o sr. Bruno de Carvalho de parte alguma. E até desconfio que ele é capaz de nem reconhecer este magistral desenho que Siné nos dedicou, nos idos de 1975. Mas identifico, com facilidade, outros terrenos onde a burrice se cola à má fé. Lampião que (não) vai à frente alumia duas vezes?

Vicente

Em Portugal, goste-se ou não, há um jornalismo antes e outro depois do Vicente Jorge Silva. Para quem, como foi o meu caso, começou a ler o "Comércio do Funchal" (e nele meti uma "colherada" escrita em 1972) logo depois da  "revolução vicentina" de 1966, que, a partir de 1973, o acompanhou no "Expresso", apreciando depois essa aventura que hoje é só saudade que foi a "Revista", e, finalmente, que seguiu com admiração a sua criação maior - o "Público" -, Vicente Jorge Silva tem um papel de exceção no mundo mediático nacional. Pelo meio, ficaram os filmes, a "Invista" (onde me recordo de ter escrito algo de que me não lembro - contradição possível, como se vê) e muita opinião, com a política caseira no centro, a cuja momentânea sedução ele próprio não escapou.

Isabel Lucas, uma jornalista inteligente que "deixa respirar" os entrevistados (sei do que falo), fez ao Vicente uma longa entrevista que deu origem a um interessante livro, que li de um fôlego, com a atenção própria de quem sempre seguiu com atenção esse percurso ímpar, o qual, em si mesmo, espelhou muito de um certo país.

Ontem, durante uma bacalhauzada num lugar de amesendação onde, às segundas-feiras, uma heteróctlita e divertida gente (onde sou um cooptado recente), numa tertúlia improvável, troca graças e historietas das vidas, dei um abraço ao Vicente por esse seu excelente retrato, ele que nasceu numa consagrada família da fotografia madeirense.

Camaradas

“Escreve sobre Angola. É o que está a dar!”. “Não o metas por aí! Depois do que se passou no sábado? Só vai estragar as coisas! Fala sobre as eleições em Moçambique. Uma nota de acalmia vai cair bem”. “Não, isso pode ser visto como ingerência. O acordo sobre o nuclear no Irão seria uma boa malha”. “Nem penses! É terreno movediço. Não viste a reacção israelita?”. “Mas, afinal, se ele anda pelo Centro Norte-Sul, porque não aborda o estado em que estão as “primaveras árabes?” “É insensato! Seria delicado o homem abordar temas desses. Então ele não disse que vai à Argélia, para a semana?”

Interrompi o simpático ping-pong de dicas, sugestões para o meu primeiro artigo no “Económico”, dizendo àqueles dois amigos: “Vou falar da Europa”. A decepção coreografou-se nas suas caras. Há anos que me andam a ler e a ouvir sobre as sucessivas Europas. No topo das suas estantes, jazem volumes nos quais, sobre o tema, encadernei o ego e contribuí para os saldos editoriais. “O artigo vai ser sobre as divergências dentro do BCE e da Comissão Europeia quanto ao processo de ajustamento em Portugal”. Ganhei a noite! Ambos olharam para mim com um ar surpreendido. O que é que eu sabia que eles desconheciam? Um era um reputado economista, eurocrítico, sempre de “FT” à ilharga. O outro, jurista com sólidos contactos, “bebia do fino” em nichos do poder de turno. Nunca ninguém lhes falara da existência de opiniões diferentes, dentro das instituições europeias da “troika”. No FMI, sim! Esse órgão de Bretton Woods já gerara textos contraditórios sobre Portugal, numa heteronimia bizarra, que deu para manchetes e confusões.

Mas, afinal, que sabia eu sobre as conflitualidades no seio da dupla europeia? Pacientemente, expliquei uma coisa bem simples. Desde logo, no BCE. Quem é, por ali, o único vice-presidente, a figura mais proeminente, e presume-se que preeminente, depois de Mário Draghi? É Vítor Constâncio, não é? Vocês conhecem um socialista português, por mais moderado que seja, que esteja de acordo com o rigor do ajustamento que o BCE impõe no seio da “troika”? Nenhum, claro! Imaginem então o que devem ser as “peixeiradas” no “board” do BCE, com Constâncio a partir a loiça financeira da casa. O que, no futuro, não revelarão aquelas actas! E na Comissão? Já pensaram aquilo pelo que estarão a passar os vários comissários socialistas e sociais-democratas (lá fora, isso é outra coisa, como se sabe), camaradas dos socialistas lusos, os esforços que terão feito para flexibilizarem juros e maturidades, para aligeirar a carga infernal de austeridade que cai sobre os portugueses? É que não haverá só falcões liberais nos comissários que cada país escolheu (fora o país que não pôde escolher) para o representar.

Acabámos a conversa pensando nesses heróis solidários. Gratos mas curiosos.   
Artigo que hoje publico no "Diário Económico"

O minilateralismo

Não tenho a certeza do ano, mas recordo bem a cara indignada daquela minha assessora, entrando-me pelo gabinete dentro, ao anunciar, escanda...