Não tenho a certeza do ano, mas recordo bem a cara indignada daquela minha assessora, entrando-me pelo gabinete dentro, ao anunciar, escandalizada: "O Francisco sabe se o ministro "tal" protestou, ao ter conhecimento de que cinco dos seus colegas europeus se reuniram em separado e escreveram um documento conjunto?"
Quando com ele trabalhei nos serviços secretos militares, o general (na altura, brigadeiro) Pedro Cardoso tinha-me ensinado que, em face de uma informação que nos surpreenda, devemos ter uma reação ínvia, que não demonstre abertamente o nosso desconhecimento. Nunca segui o conselho, mas tenho colegas diplomatas que fizeram toda a carreira a tentar responder a uma pergunta com outra pergunta, para ganharem tempo para não terem que assumir posição ou simplesmente para não terem de revelar a sua ignorância. Não sei assim o que terei respondido, mas não faço parte dessa escola "escapista" — que, a bem dizer, em três ou quatro casos, deu pasto a razoáveis carreiras.
Devo ter perguntado: "Quem foi?" Verdade seja que eu desconfiava. A área em causa, que não vem aqui para o caso, até porque à época estava muito menos integrada no plano comunitário, proporcionava-se a esse tipo de golpada e de falta de solidariedade de grupo. Pena tinha sido que o secretário de Estado dos Assuntos Europeus, que eu então era, não tivesse sabido antes — como era da lógica do funcionamento colegial do governo.
Mas teria o tal ministro informado o primeiro-ministro? Fui saber. Guterres não sabia — e, sem mo dizer, percebi que não gostou. E o ministro dos Negócios Estrangeiros? Gama também desconhecia, não reagiu, e "passou-me a bola": "Porque é que você não pergunta ao ministro se ele sabia e se protestou?"
Assim fiz. O ministro em causa, homem experiente, explicou-me que tinha tido uns "zunzuns" sobre a possibilidade desses seus colegas se reunirem separadamente. Tinha esperado para ver. O resultado não era alarmante. Disse-lhe a minha opinião franca: era um péssimo precedente, deixando implícito (não tinha autoridade política para o fazer) que ele devia ter protestado. Referiu que "daria uma palavra" a alguns dos seus colegas. Que eram os "suspeitos do costume", como diria o capitão Renault no "Casablanca": a França, a Alemanha, o Reino Unido, a Itália e a Espanha.
Essa reunião seria apenas "o princípio de uma grande amizade" entre esses cinco, repetindo a frase de Rick, segundos depois, no mesmo filme. A partir de então, o "minilateralismo" multiplicou-se e hoje faz escola. Alguns estão sempre no "núcleo duro", outros são cooptados "ad hoc". Portugal é quando calha.
Nos dias de hoje, com grande regularidade, por uma razão ou por outra, com Londres a ser substituído por Varsóvia, esse inefável quinteto, alegando eficácia mas querendo com isso dizer, sem o dizer, que tem força para tal, passa o tempo em cimeirinhas de "petit comité", pretendendo dar ordens aos outros. Ah! E até levando a essas reuniões entidades que deveriam representar a União como um todo e não apenas os "happy few" que exercem o poder pelos outros: a Comissão e a presidência do Conselho de Ministros.
É a vida? É. Mas depois não se que queixem de que "intendence ne suit pas", ao contrário do que De Gaulle disse sobre a guerra. Isto é, que os eleitores de quem fica para trás nas decisões se sintam pouco solidários com o curso da União que esse "núcleo duro" impõe.
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