Tenho bem viva uma conversa telefónica com o meu pai, no preciso dia em que foi derrubado o muro de Berlim, em 1989. Ele tinha então 80 anos.
Recordo que não pareceu nessa data excessivamente feliz com a unificação alemã, não porque tivesse a menor simpatia pelo regime comunista de Leste (longe disso!), mas porque, como "aliadófilo" ferrenho que havia sido e como eterno desconfiado da bondade do poder europeu da Alemanha, repetia por vezes o dito atribuído a Mitterrand: "Gosto tanto da Alemanha que prefiro ter duas..." Tenho, contudo, a certeza que, lá no fundo, ele se congratulou com a reconciliação europeia que isso representou.
Muita água passou sob as pontes. No dia de hoje, a Alemanha deu um passo importante no sentido de consagrar uma alteração radical à sua postura de contenção em matéria de política de defesa.
O meu pai já morreu há muito. Desconfio, contudo, que, se fosse vivo, e uma vez mais, não se sentiria muito confortável com os novos ventos que sopram de Berlim. Se nem eu me sinto muito...
