domingo, dezembro 01, 2019

Ximenes Belo


Na tarde cinzenta e húmida de sábado, vinha ajoujado com um saco de livros que o meu amigo Luís Alves me tinha “aviado” na “Ler”, no jardim da Parada, uma das últimas livrarias de Lisboa onde a conversa com o livreiro tem substância e verdadeiramente nos ajuda (“Cardoso quê?”, perguntava-me, há semanas, um analfabeto funcional, numa loja onde se vendem livros, o que é bem diferente de uma livraria, a quem eu inquirira se tinha um exemplar do “O hóspede de Job”).

Vi então o letreiro: “Aloma”. Nunca tinha visitado aquela confeitaria de cujos pastéis de nata me tinham dito maravilhas. Entrei e provei um: não era mau, mas também não fiquei deslumbrado por aí além. Depois, como acontece com o “já agora” que os mestres-de-obras nos sugerem, vi um bolo-rei e cometi a minha anual transgressão anti-republicana: mandei embrulhar. “Traí” assim a “Nacional” e a “Versailles”, e, claro, a “Gomes”, lá por Vila Real. De caminho, também levei uma caixa dos tais pastéis, para testar em casa, com companhia e mais calma.

Estava eu imerso nestes ansiosos pecados da gula, olhando para o lado na esperança de não me cruzar com o meu médico, que sempre me alerta para os excessos nos açúcares, quando vi uma cara que me pareceu conhecida. 

Não sei se lhes acontece o mesmo, mas, a mim, com a idade, tenho um “time-lag” cada vez maior de hesitação no reconhecimento de certos rostos. Vivo, aliás, crescentemente, no pânico de me dirigir, com estranha familiaridade, a pessoas que, afinal, apenas conheço da televisão ou de imagens publicadas. Já me aconteceu por mais de uma vez. Mas não foi este o caso. 

Era o bispo Ximenes Belo. Com a popularidade posterior que Xanana Gusmão e Ramos Horta vieram a ter em Portugal, muitos já não se lembrarão de que aquele religioso timorense foi, durante bastante tempo, a cara de um Timor sofrido, que nos entrava em casa pela televisão, com um sorriso simultaneamente simpático e magoado, com um discurso nem sempre “politicamente correto”, nesses anos em que o pragmatismo da diplomacia da Santa Sé, titulado por um papa que se chamava João Paulo II, que algum mundo viria depois a incensar e, dizem-me, a “santificar”, assumiu atitudes - sei que muita gente não vai gostar de ler isto, porque há verdades que são duras - que oscilaram entre o cinismo, a “realpolitik” e o puro oportunismo amoral. E mais não digo! 

Dei um abraço a dom Ximenes Belo. Recordei o tempo, no segundo semestre de 1999 (caramba, já lá vão 20 anos!), em que, durante dois dias, em Genebra, me havia juntado a ele e a Ramos Horta - precisamente as duas figuras que haviam sido distinguidas, em 1996, com o prémio Nobel da Paz.

Eu havia sido obrigado a abandonar uma tarefa que estava a fazer em Nova Iorque, no âmbito de uma Assembleia Geral da ONU, para ir destacado, como membro do governo, ajudar a procurar garantir a condenação da Indonésia na Comissão dos Direitos do Homem (era assim que se dizia, antes de passar a ser “Direitos Humanos”) das Nações Unidas, depois da violência que se desencadeara no território, na sequência do referendo que consagrou a vontade de independência dos timorenses. A Indonésia continuava numa posição muito relutante, pelo que forçar o seu isolamento político, no plano internacional, continuava a ser essencial. 

O governo de Jacarta havia mobilizado todos os seus recursos e influências para derrotar a moção que queríamos ver aprovada. O trabalho de sensibilização de várias delegações em Genebra, muito bem conduzido pelo nosso embaixador Mendonça e Moura, seria apoiado por nós os três, nas horas que antecederam a votação, numa ronda intensa de contactos. 

Na memória ficou-me a recordação, quase caricata, de ir, com o nosso embaixador, bater à porta da residência do representante diplomático de um país lusófono africano, que necessitava de algum “estímulo” para estar presente, na manhã seguinte, naquele importante sufrágio. Lá apareceu...

O dia do voto foi dramático. A Comissão era presidida pela irlandesa Ann Anderson, que, uma década mais tarde, vim a ter como minha colega como embaixadora em Paris. Outra irlandesa, Mary Robinson, era, à época, Alta-Comissária das Nações Unidas para o setor. Sem fazer a barba nem tomar banho, saí do avião, depois do voo transatlântico, e fui, diretamente do aeroporto, visitá-la imediatamente após a minha chegada à Suíça. Articulei depois com o bispo Belo e com Ramos Horta o teor dos nossos discursos. E tivemos sucesso: a Indonésia sofreu uma esmagadora derrota e saiu condenada dessa votação.

No dia seguinte, Ximenes Belo, Ramos Horta e eu regressámos a Lisboa de “Falcon”. Só me recordo de que a conversa foi, quase toda, sobre futebol português... Depois de um tinto do Douro (seleção minha, por assumido enviezamento regionalista!) e um prato de queijos lusos bem escolhidos pela nossa Força Aérea, cada um de nós dormiu o resto da viagem até chegar a Figo Maduro.

Gostei muito de reencontrar o bispo Ximenes Belo nesta tarde de ontem, em Campo de Ourique. E tudo por causa de um pastel de nata...

7 comentários:

  1. Anónimo10:58

    Convém sempre lembrar que o empenho no caso timorense se deveu a duas coisas: má consciência devida à descolonização (que nem chegou a acontecer) e interesse em "inventar" mais um país de língua portuguesa. Se não fosse isso, toda a "nobreza" e empenho da diplomacia portuguesa teriam sido dedicadas a outra coisa qualquer.

    Veja-se o caso da Catalunha, em que todos se calam (todos são "medricas", como diz - e bem! -, José Pacheco Pereira). A ONU emite comunicados chamando à razão a Espanha? Ignorem-se! A Amnistia Internacional condena a Espanha por más práticas da Justiça? Ignore-se! Entidades da UE contrariam o boicote da Espanha a deputados europeus eleitos pelo povo? Ignore-se! Observatórios internacionais põem em causa a imparcialidade em julgamentos que levam a pesadas condenações de independentistas? Ignore-se!

    E assim vamos, nobres e altivos. Pelo menos enquanto houver bons pastéis de nata.

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  2. Anónimo11:03

    (continuação)

    Aliás, não podia vir mais a propósito que hoje se celebre a tentativa de independência da Papua Ocidental. Independência da Holanda e que, tal como em Timor, contou com uma invasão indonésia e posteriores práticas genocidas. O cenário é igual ao de Timor.

    https://en.wikipedia.org/wiki/Western_New_Guinea

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  3. Anónimo11:29

    Esta gente heróica (Ximenes, Ramos Horta e Xanana), que foi tratada como tal, sofre, depois, um apagão mediático e cai no esquecimento. As gerações mais novas nem sabem quem eles são. O que faz com que andem por aí como anónimos. É estranho...

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  4. O Anónimo das 10:58 vive, desde há muito, nas praias da Catalunha. No dia de hoje, que coincide com uma data em que Castela por lá andava a pôr ordem naquilo, a dor deve ser maior.

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  5. Anónimo13:09

    Ó FSC, esse seu comentário sobre o anónimo e a Catalunha é de muito mau tom, que raio!

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  6. Anónimo13:36

    "...perguntava-me, há semanas, um analfabeto funcional, numa loja onde se vendem livros...", provavelmente porque as vendas dos livros caem a pique em detrimento de outros estímulos e/ou porque hoje está a vender livros e amanhã pastéis de nata, tal a precariedade do emprego que existe em Portugal.

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  7. Anónimo09:42

    Sr. Embaixador , os seus comentários sobre o Papa João Paulo ll eram desnecessárias e de mau gosto .

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