segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Pedro Canavarro


Gosto de biografias. E bastante das que são assinadas na primeira pessoa, de autobiografias. Já me aconteceu, aliás, ler algumas biografias que mais não eram do que “autobiografias” envergonhadas, a que terceiros haviam dado o nome e a pena (agora, a tecla), para fingir “distância”.

Há dias, deparei, numa livraria, com uma autobiografia de Pedro Canavarro. Trata-se de um livro bem escrito, com notas muito pessoais, de alguém que resolveu “pôr as cartas na mesa”, com rara franqueza. Um retrato de vida corajoso, de uma figura pública que, passados os 80 anos, decidiu não deixar nada do que considerava importante por dizer. Fá-lo com aquilo que foi sempre a elegância pessoal que, ao longo dos anos, lhe colamos à imagem, aqueles que com ele nos cruzámos, em diversas circunstâncias. No meu caso, apenas circunstancialmente.

Este livro acaba por ser um retrato, interessante e culto, de um certo Portugal. Nele surgem muitas pessoas que conhecemos, onde está plasmada uma certa época, em especial de Lisboa, que muitos de nós vivemos, de perto ou de longe. E, mais do que isso: estão presentes as ideias e perceções dessa época, que tendemos a esquecer.

Confesso que já não me recordava de que Pedro Canavarro havia sido presidente do PRD (Partido Renovador Democrático), mas lembrava-me bem de o ver como parlamentar europeu e, antes disso, como comissário da “XVII”, a interessante exposição sobre os Descobrimentos que, nos anos 80, constituiu um importante marco em Portugal.

Em Bornes de Aguiar, perto das Pedras Salgadas, terra do meu avô materno, existe um Solar dos Canavarros, edifício de que, por coincidência, vim a encontrar um dia uma aguarela, na residência da nossa embaixada em Londres. Terá alguma ligação à família nortenha de que Pedro Canavarro nos fala no seu livro?

Nele também se contam histórias e impressões de algum mundo onde a vida o levou, com o Japão a ocupar um lugar muito especial, por aí ter tido uma experiência universitária, que veio a criar-lhe uma permanente relação afetiva com o país. Tudo escrito, como referi, sempre com elegância e equilíbrio, por vezes até com alguma candura, para o país onde vivemos. É este tipo de livros, com visões pessoais mas muito informadas e cultas, que, no tempo de um quotidiano apressado e de notas instantâneas e perecíveis, no rolo compressor dos factos e das sombras que eles deixam, nos pode ajudar a fixar um pouco melhor a história recente deste país. 

Confesso que li, com gosto, a autobiografia de Pedro Canavarro.

4 comentários:

Anónimo disse...

Pedro Canavarro é descendente de Passos Manuel e tem, em Santarém, nas Portas do Sol,aberta ao Público, uma interessante Casa Museu.

Teresa Silva

Anónimo disse...

Essa Casa Museu ainda se encontra aberta? É que a Fundação Pedro Canavarro foi extinta. Já tentei visitar mas ainda não consegui. Conheço muito bem Santarém e as Portas do Sol e a Igreja de Stª Maria da Alcáçova, mesmo ao lado.

Anónimo disse...

Esta casa é onde vive o Pedro Canavarro , é natural que não a encontre pois não é propriamente aberta ao público ...

Anónimo disse...

Não gosto. De Biografias. São e serão sempre uma versão muito pessoal de ver as coisas, aquilo que se fez. Não é sequer uma autocrítica. E mesmo que fosse. Uma outra coisa é um livro sobre como se viu as coisas, situações e porque se agiu de uma determinada forma. Como uma decisão política, por parte de um político. Aqui há uma explicação ou interpretação dos factos políticos por parte daquele político, que depois o leitor avaliará. Agora uma autobriografia, de um modo geral - há sempre geniais excepções - são uma perda de tempo. Inúteis.