quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

O teatro da verdade

Há muitos anos, tive um chefe só com certezas: perante qualquer assunto, tinha sempre uma sólida opinião, que assumia com uma inabalável determinação. Porém, se as circunstâncias mudavam e, forçado pela realidade, se via obrigado a alterar o que pensava, era em absoluto incapaz de confessar que se tinha enganado. Afirmava a nova posição com total desplante, como se nunca tivesse dito algo diferente. E ai de quem tentasse sugerir que se estava a contradizer!

Quando passei pela política, aprendi que, por aí, a regra era exatamente a mesma. Raramente se ouve alguém dizer: "Enganei-me, procedi de forma errada e, porque aprendi com esses erros, vou de futuro fazer diferente". Um político que assim proceda teme que lhe seja atirado à cara que, afinal, era a oposição da época que tinha razão e que, se ele havia cometido então os erros que agora confessava, talvez não haja razões para o eleitorado voltar a confiar em que ele não venha a errar de novo no futuro. E, por isso, continuará, com a segurança de sempre, a dizer e a fazer coisas diferentes das que fez ou não fez no passado, mas sempre sem se retratar, como se nada tivesse ocorrido, incapaz de pedir desculpa pelos pecados cometidos.

Há quem, numa altivez política, teorize mesmo esse comportamento. A uma figura pública muito conhecida, perguntei um dia que erros reconhecia que cometera, face a uma realidade que se tinha revelado completamente adversa das soluções que ele empreendera. Abespinhou-se comigo e disse-me: "Eu não cometi erros. Atuei, da forma que me pareceu mais adequada, em face dos dados de que, à época, dispunha. Esses dados e os pareceres que recebi com base neles, apontavam para a tomada das medidas que tomei". Ingénuo, perguntei-lhe se, ao menos, se não arrependia de ter assumido as políticas que então preconizara. A resposta foi lapidar: "Arrependermo-nos é errar duas vezes..." E passou à frente.

Será inevitável que os políticos procedam sempre desta forma? É assim tão impiedosa, ao ponto do absurdo, a opinião pública? Não será esta capaz de apreciar a sinceridade, a honestidade e a franqueza, o humano assumir do que se fez de errado? Gostava de pensar que sim, mas não penso. E, por isso, aprendi a viver com os políticos: vendem-nos, na busca do nosso voto, programas que já sabem que não vão cumprir, mentem-nos com toda a verdade que sabem imprimir a um discurso em que, no fundo, nenhum de nós - a começar por eles - acredita. É o teatro da verdade.

7 comentários:

Pedro Furtado Correia disse...

Seria fácil responder com seriedade à sua questão: «Sim, erros foram cometidos, por imprevisibilidade da situaçáo que surgiu, felizmente, foi possível corrigir a trajetória.» O que aí expõe parece-me apenas arrogância, sempre estulta.

Anónimo disse...

"Raramente se ouve alguém dizer: "Enganei-me, procedi de forma errada e, porque aprendi com esses erros, vou de futuro fazer diferente". Um político que assim proceda teme que lhe seja atirado à cara que, afinal, era a oposição da época que tinha razão e que, se ele havia cometido então os erros que agora confessava, talvez não haja razões para o eleitorado voltar a confiar em que ele não venha a errar de novo no futuro. E, por isso, continuará, com a segurança de sempre, a dizer e a fazer coisas diferentes das que fez ou não fez no passado, mas sempre sem se retratar, como se nada tivesse ocorrido, incapaz de pedir desculpa pelos pecados cometidos." - aqui temos uma das principais causas da abstenção, que temo muito, vai continuar a aumentar.

Anónimo disse...

A teoria está certíssima mas, na prática não li qualquer texto do embaixador a pedir desculpa dos exageros, que já confessou, da sua actuação política pós 25 de Abril. É que são esses exageros, enquanto foram vencedores na prática política da altura, que nós continuamos a pagar quer materialmente quer, e muito infelizmente, culturalmente.
João Vieira

Joaquim de Freitas disse...

"Vendem-nos, na busca do nosso voto, programas que já sabem que não vão cumprir, mentem-nos com toda a verdade que sabem imprimir a um discurso em que, no fundo, nenhum de nós - a começar por eles - acredita.”

A sua melhor frase do ano, Senhor Embaixador. Há tantos nomes de políticos portugueses e estrangeiros que poderiam ser visados… Ah François Hollande, no Bourget :” A finança é o meu inimigo”! Que me fez quase desesperar do socialismo…quando vi o resultado da sua governação.

Neste aspecto a Confraria Francesa dos Vendedores de Chouriços foi mais honesta, que na sua Missa anual na Igreja de Saint Eustache, celebrou uma missa à Memoria de Jacques Chirac, que se não vendeu chouriços foi um grande admirador e consumidor de “cochonailles”, que honrou sempre nos Salões da Agricultura e nunca traiu os produtos da Confraria.

Anónimo disse...

A quem se está a referir?

Pedro Furtado Correia disse...

Anónimo 2, João Vieira? Estamos a ler o comediante?

Jaime Santos disse...

Se isso for verdade, Sr. Embaixador, então razão têm Trump e outros como ele, que são ao menos absolutamente consistentes, porque mentem o tempo todo.

O problema da política é, parece-me, que somos perfeitamente incapazes de prever o futuro (ainda bem), a navegação executada é meramente de cabotagem e não existe a capacidade de admitir isso, sob pena de que as pessoas percebam que quem as governa, afinal, não percebe bem o que está a fazer, dada a complexidade da tarefa e os múltiplos interesses em causa.

Não existe, em democracia, boa governação. Existe quando muito uma governação suficiente, se se tiver sorte e se se for probo e minimamente competente...

P.S. O Sr. João Vieira refere-se seguramente ao que se passou entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975. Não tem razão do ponto de vista material e não tem razão do ponto de vista cultural. Os desvarios da 'Economia de Abril' foram uma bagatela, no fim de contas, e Portugal rapidamente retornou a um rumo europeu, sob a batuta de Mário Soares.

A não ser que, claro, lamente a descolonização que teria sempre que ser feita e onde a atitude dos novos poderes perante aqueles que viam como antigos opressores nunca seria benigna, veja-se o que aconteceu nas colónias britânicas.

Depois, como alguém apontou recentemente, a revolução permitiu pelo menos um libertar das mentes. A Espanha continua presa ao espírito de Franco, graças à transição tutelada e 'exemplar' que ocorreu por lá. Nós, felizmente, já nos libertamos dessas peias bolorentas há muito...