domingo, 8 de dezembro de 2019

Um anão nas Necessidades


Nunca, em toda a minha vida, vi um anão no exercício de funções diplomáticas. O que não significa que não possa haver alguns, em alguma parte do mundo.

Foi essa constatação que me veio à ideia quando, há precisamente 25 anos, sendo eu membro do júri de acesso à entrada na carreira diplomática, me informaram, um dia, que um dos candidatos que, nessa manhã, viria àquilo que então se chamava “prova de apresentação” era anão. 

A “prova de apresentação”, à época, era uma conversa, parte dela conduzida em francês ou inglês, durante a qual, por cerca de 20 minutos, tentávamos perceber se o candidato tinha requisitos mínimos, em termos de expressão, cultura e até bom-senso, para o exercício da profissão. Era uma prova com um alto grau de subjetividade, mas através da qual eu tinha (e tenho) uma única certeza: nesses 20 minutos, eu percebia, sem a menor sombra de dúvida, se o candidato NÃO tinha as qualificações para integrar a profissão. E sublinhei o “não” porque o contrário não era necessariamente verdade: vários candidatos que nela vi aprovados (às vezes, também com o meu voto), viriam a revelar-se maus ou medíocres profissionais da diplomacia.

A “prova de apresentação” tinha lugar entre as várias e eliminatórias provas escritas e os exames orais, onde, nesse ano, também haveria examinadores de luxo: Marcelo Rebelo de Sousa, Miguel Beleza, Vitor Gaspar, etc. O júri era presidido pelo secretário-geral, embaixador Costa Lobo, vice-presidido pelo embaixador Luis Navega e integrado por Rui Quartin Santos, Manuel Fernandes Pereira, António Santana Carlos e eu próprio - estes últimos quatro funcionários no ativo, todos exercendo então funções de direção no MNE.

Dou estes pormenores para se perceber bem o contexto em que caía, sobre os nossos ombros, a responsabilidade de dizer sim ou não à entrada daquele candidato para a carreira. Recordo a primeira questão que se nos colocou: pode um anão ser membro de uma carreira diplomática? Seria uma situação, sem dúvida, estranha, mas lembro-me, como se fosse hoje e não sem algum orgulho, do sentido nossa atitude coletiva, tomada ainda antes da entrada na sala do candidato: se acaso viesse a constatar-se, na conversa que iríamos ter com o candidato (o qual, sublinhe-se, já tinha ultrapassado, com sucesso, todas as provas escritas), que ele reunia as qualificações tidas por necessárias, não iria ser o seu perfil físico, ainda que peculiar, que o iria impedir de ser aprovado. O facto de ser anão não iria por nós ser assumido como argumento para a sua exclusão.

A conversa com o candidato decorreu em moldes perfeitamente normais, ao que me lembro. Cuidámos em ser totalmente isentos nas questões que lhe colocámos e no grau de exigência que usámos. No final, a nossa decisão foi unânime: o candidato revelava várias e notórias insuficiências que, como acontecera a muitos outros sujeitos à mesma prova, o iriam obrigar a ficar pelo caminho, no seu desejo de ingressar no MNE, pelo menos naquele concurso. Mas, repito, isso nunca aconteceria, por nossa decisão, pelo facto dele ser anão.

Imagino que este post possa levar esta questão muito longe, até pela terminologia, não inclusiva e não atualizada (desde logo, a começar pelo título), que propositadamente usei, por se tratar de um episódio que ocorreu em 1994 - outros tempos bem diferentes no tratamento, nomeadamente semântico, deste tipo de questões!

E se, por acaso, o candidato fosse cego (em 1997, viria a entrar para o quadro técnico do MNE uma pessoa cega, mas não creio que isso fosse fácil de ocorrer se se tratasse do exercício de funções diplomáticas)? E se um candidato tivesse uma deficiência física limitativa, que o obrigasse ao uso permanente de uma cadeira de rodas, num tempo em que as acessibilidades eram muito escassas e viesse a ser necessário incumbi-lo, como a qualquer outro colega, de tarefas logísticas em tudo incompatíveis com tais limitações? E se acaso ele fosse muito gago, de uma forma quase limite, que afetasse fortemente a sua capacidade de expressão (recordo-me, porém, de um diplomata com algum grau de gaguez que chegou a embaixador), com todas as consequências na prática de determinadas diligências ou de intervenção ou tomada de palavra em negociações ou reuniões de trabalho? 

Imagino que haja respostas “politicamente corretas” para todas estas questões. Tenho mesmo a certeza de que contar aqui este episódio, bem como comentá-lo da forma como acabo de o fazer, é bastante delicado e até um pouco arriscado. Mas a maneira como interpreto a minha liberdade nas redes sociais é precisamente esta. E já não tenho idade, nem paciência, para prudências de conveniência.

12 comentários:

Anónimo disse...

Não sabia que havia por aí tantos anões ...
Mas também não sabia que o Embaixador António Costa Lobo tinha sido Secretário Geral do MNE . Como era uma pessoa excepcional e muito discreta , conseguiu esconder esse seu cargo de toda a gente ?

Anónimo disse...

Hoje há anões por todo o lado, pelos corredores das Necessidades. Aqueles que sabem tudo antes de terem aprendido o que quer que seja, são promovidos à velocidade da Luz, outros que redigem e enviam Telegramas para a Secretaria de Estado que são "pérolas" de leitura que um Vilhena aproveitaria para escrever um livro cómico, outros que para irem almoçar ali ao lado, no restaurante mais próximo, a 200m, vão de viatura do Estado, outros acabam por ocupar lugares de destaque que anteriormente implicavam uma exigência muito mais criteriosa e, cereja em cima do bolo, até podem, outras (como podiam ser outros) entrar na carreira diplomática sem provas de aferimento cultural porque não possuem a tal Cultura Geral que antes lhes eram exigida, isto a bem do "Género". E há anões que se passeiam pelas Necessidades, impunes após os actos que praticaram porque "não convêm que o MNE seja conspurcado por escândalos. E há anões que ocupam cargos para os quais não estão vocacionados e preparados, mas por lá continuam, alegremente. Hoje, qualquer "anão" pode ser grande desde que consiga os estratégicos apoios institucionais da "Casa", independentemente de ser bom - ou mau profissional.
Em resumo, hoje (quando digo "hoje" refiro-me aos tempos de hoe e não necessariamente aos avtuas) temos um MNE adaptado à realidade actual, onde valores profissionais e pessoas e até de caracter (e mesmo de conhecimentos culturais) vão rareando.
Um MNE a "modernizar-se". A adaptar-se aos tempos de hoje.

Anónimo disse...

Anónimo às 23.24,

Acha mesmo, que, as atuais provas escritas e orais de acesso à carreira diplomática, são insuficientes?

Acha mesmo, que, a eliminação da escrita de cultura geral, tem a ver com o "Género"?

A prova escrita de cultura geral era uma estupidez...e eliminava os mais jovens candidatos dos dois "Géneros".
Cultura geral é o que absorvemos pela leitura, pelas nossas experiências de vida.

Acha mesmo, que, aos vinte e tais anos, se possui tais experiências?
Mas, é a idade mais indicada para aceder à carreira diplomática, as cabeças ainda estão frescas...a arrogância ainda pode ser moldada...a manha ainda está verde...
Que tal um limite de idade para os candidatos?
Um adido de embaixada nos "entas" é diferente doutro com vintes.

"Aqueles que sabem tudo antes de terem aprendido o que quer que seja"

A frase é sua eu não diria melhor!

Anónimo disse...

Caro colega,
A essa sua pergunta, "Acha mesmo que a eliminação da escrita da cultura geral tem a ver com o Género"? respondo-lhe da seguinte forma: Foi o Ministro Augusto Santos Silva que decidiu acabar com a prova de aferição cultural, "porque uma larga parte das candidatas do sexo feminino chumbavam, ou não passavam". Assim, contacte o Ministro e fale com ele sobre o assunto, expondo-lhe as suas dúvidas.
2. Aos vinte e tal anos já se pode ter um grau razoável de cultura geral, basta ter-se interesse.
3. Um limite de idade para concorrer à carreira não me repugna nada, se quer saber. Todavia, julgo ser inconstitucional, por poder contrariar o "Princípio da Igualdade". O que acontece, nestes casos, que aliás são raros, penso, é o Júri "encontrar" razões para não fazer aprovar esse candidato.

Anónimo disse...

Caro "colega".

Sei bem o que disse ASS.

Onde escrevi, que, não concordava com o Sr. Ministro?

Aquela prova escrita de cultura geral era perversa...

Repito: "Acha mesmo, que, as atuais provas escritas e orais de conhecimentos, de acesso à carreira diplomática, são insuficientes?"

Para não contrariar o "Princípio da Igualdade":
TODAS as provas deveriam ser eliminatórias, também a de FRANCÊS!!!

Os 27 adidos de embaixada de 2019, não seriam os mesmos...

A resposta é não. Nunca concorri.

Anónimo disse...

Caro embaixador

em 1942 a embaixada portuguesa e o consulado portugues em berlim tinham, respectivamente, um preto e um anao.

cumprimentos

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao Anónimo das. 21:17. O anão não era diplomata e de uma coisa tenho a certeza: o outro funcionário não se chamava Jesse Owens...

Anónimo disse...

Caro "Colega",
Tem alguma razão. Sabe que mais? Ainda bem que não concorreu. Não perdeu grande coisa! Sobretudo, tendo em conta as tropelias a que se vai assistindo nos Claustros do Palácio das Necessidades".
Desejo-lhe felicidades!

jj.amarante disse...

A admissão de anões para a profissão de diplomata também me parece problemática. No seu texto parece-me contudo ser excessivamente assertivo na bondade das decisões de não admissão relativamente às aprovações que foram por vezes contrariadas pelo desempenho dos admitidos. Não rejeitando a vantagem de excluir alguns candidatos, a adequação da rejeição não é submetida a teste posterior, poderia ter acontecido que alguns rejeitados acabassem por ter sucesso, enquanto esse teste existe no caso das admissões.

Anónimo disse...

Muito interessante e curioso!

Anónimo disse...

jj.amarante,

Alguns rejeitados voltam a concorrer e são admitidos.
Acontece com frequência.

Pedro Furtado Correia disse...

Simplesmente agradeço a partilha, cujo conteúdo vai imensamente mais além do contexto que refere. Teoricamente propõe o início de um estudo acerca das limitações do juízo, não apenas o do precipitado e tampouco o do que peca por excesso de prevenção, as duas causas de erro do ajuizar em Descartes e nos dias de hoje e sempre. Mais longe está a sua proposta de reflexão que é a seguinte, neste meu ver, e para começo de um diálogo filosófico: Não se pode nunca ajuizar conclusivamente. (Seja em modo politicamente correto ou incorreto). Esta posição a ser melhor defendida que outra leva-nos direitinhos à essência da diplomacia (em meu entender) e ao início da civilização: Não se pode nunca ajuizar conclusivamente. Já Platão dizia isto, mas doutrinando, sobretudo em maturidade e maior aventura: Penso dar boa referência para isto se refiro As Leis.