Nuno Saraiva, a abrir uma crónica ontem no DN, a propósito do livro "O Independente - a Máquina de Triturar Políticos", de Filipe Santos Costa e Liliana Valente, escreve esta frase: "Foi dos livros em que mergulhei nos últimos tempos o que mais prazer me deu". Ora eu gostava de dizer que o Nuno me tirou as palavras da boca. Foi exatamente isso o que eu senti.
Se, neste final de ano, me é permitido aconselhar a compra e a leitura de um livro, esta seria a minha escolha. Está ali o essencial para se perceber a evolução daquilo a que, em tempos, se chamou o "cavaquismo" e do Portugal desse tempo. Há por ali retratos imperdíveis de figuras cuja importância se esvaiu com o tempo, mas que pareciam então ter um destino nacional assegurado. Mas também por ali está o perfil, a preto e branco, de um jornal que, com muita arte e às vezes com muito pouca ética deontológica, não deixou de marcar um tempo importante no jornalismo português, por muito que isto possa parecer algo incongruente.
Durante esses anos em que foi dirigido por Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, "O Independente" foi um ator central na vida política portuguesa. "Queimou" pessoas, destruiu carreiras, bombardeou inimigos de estimação, protegeu amigos do peito, desenvolveu uma espécie de jornalismo onde, lado a lado, o brilhantismo convivia com alguma canalhice, numa total impunidade. O livro retrata tudo isso sem estados de alma, mas também sem contemplações. Lê-lo é um prazer, difícil é pô-lo de parte quando o tempo do dia não é suficiente. Recomendo-o vivamente.
