sábado, dezembro 26, 2015

Fernando Henrique Cardoso


Tenho uma grande admiração por Fernando Henrique Cardoso. (Embora a alguns isso pareça incongruente e incompatível, tenho também forte admiração por Lula da Silva, mas isso são outras histórias). 

Desde o tempo em que fui embaixador no Brasil, FHC (é assim que o conhecem) foi sempre de uma extrema simpatia comigo. Tive gosto em ter sido ele e entregar-me o prémio "personalidade do ano" com que, em 2006, o mundo empresarial luso-brasileiro quis manifestar-me o seu apreço pelo apoio que a embaixada que chefiei lhe proporcionava. E guardo para memória futura uma longa conversa a dois, no restaurante Carlota, em São Paulo, onde falámos um pouco de tudo e muito de política brasileira. Temo-nos cruzado em Lisboa várias vezes, nos últimos anos.

Fernando Henrique Cardoso acaba de editar os seus "Diários da Presidência 1995-96", um volume de quase mil páginas com suculenta informação sobre a vida política interna do Brasil, que a mim me continua a interessar muito. O livro chegou-me há dois dias, oferta de um amigo brasileiro. Passei os olhos por ele e, de facto, é garantido que me vai acompanhar por algumas semanas. 

Não é de estranhar que as escassas referências a Portugal tenham chamado a minha atenção prioritária.

Há algumas notas pessoais muito simpáticas sobre Mário Soares, Jorge Sampaio e António Guterres ("ele pensa do jeito que eu penso"), bem como um apontamento breve de um encontro com Ricardo Salgado, que foi informar FHC, para grande surpresa deste, de que o grupo Espírito Santo pretendia investir no Brasil. Também idêntica intenção da Caixa Geral de Depósitos é assinalada. Sobre uma conversa com Durão Barroso, a referência é curiosa: "Falei bastante com DB, nada de mais extraordinário a não ser que foi muito grato e muito cansativo" (sic)!

(Um parêntesis para notar que o período coberto por este volume corresponde à chegada ao governo de António Guterres e à substituição de Mário Soares por Jorge Sampaio).

Sobre as relações luso-brasileiras, na ressaca da crise dos dentistas, diz FHC : "pela imprensa me parece que Portugal tem um certo ceticismo com relação ao Brasil, talvez até bem fundamentado. E não tem tanto entusiasmo quanto se pensa em relação às chamadas "relações especiais". A cúpula, o governo, todos os lados, mais a elite cultural, esses sim, mas não creio que isso tenha enraizamento maior na vida portuguesa propriamente dita, como não tem na vida brasileira". Interessante leitura.

O mais curioso destas referências a Portugal prende-se com a CPLP e a posição de José Aparecido de Oliveira, que havia sido embaixador brasileiro em Lisboa. Não estarei a revelar nenhum segredo se disser que, na percepção dos meios políticos portugueses (eu estava no governo nessa altura), ficou a sensação de que foi FHC quem se opôs a que José Aparecido de Oliveira fosse o primeiro secretário-executivo da organização. Ora o antigo presidente desmente essa versão nestes "Diários", e diz com clareza que a oposição foi do chefe da diplomacia brasileira: "O Luiz Filipe Lampreia não quer". Curiosamente, Lampreia não se refere a esta sua posição no livro "O Brasil e os ventos do mundo" (Rio, 2009), onde se limita a assinalar que a criação da CPLP se fez "por impulso do embaixador do Brasil em Lisboa, José Aparecido de Oliveira", encerrando com a brutal (mas muito verdadeira) constatação de que "no Brasil não existe nenhum entusiasmo com a instituição".

12 comentários:

  1. "tenho também forte admiração por Lula da Silva" porque não conhece-o o suficiente para dizer isso. Será porque ele se diz um $ocialista vermelho? $ocialista que toma uma garrafa de vinho de 6 mil reais e é a 8 fortuna do Brasi!!! Como disse anteriormente que essa amizade não fica bem para sua biografia, mas... foi "censurado".

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  2. Anónimo18:08

    FHC, um político que não tem nada a ver com Lula e sua amiga Dilma...

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  3. Anónimo19:15

    Amigo Maximiliano, o pior do descamisado Lula nem é a bebedeira. O pior dele é mesmo a profunda ignorancia, como aliás ainda há dias ficou registado em Madrid. Sou daesquerda, mas nao sou da esquerda descamisada do Lula, nem da esquerda neoliberal aqui do embaixador. Conheço bem o Brasil, muitos riem se para nós pela frente, mas por trás tentam humilhar Portugal, aliás a unica coisa que lhes ensianm nas escolas aos brasileiros é que nós viemos roubar o ouro deles. Leia o livro 1808 do Laurentino Gomes e verá o velhaquismo com que pseudo intelectuais brasileiros retratam Portugal e os portugueses em Geral. Deixei alguns amigos no Brasil de verdade, mas que uma grande parte tem inveja de Portugal isso tem.

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  4. Retornado21:21

    Os brasileiros sempre viveram sem CPLP, para quê esta coisa tão estranha agora?

    É esforço demais para aquele enorme corpanzil.

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  5. Anónimo22:43

    A ignorância é o pior que pode acontecer às pessoas!...

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  6. Anónimo00:07

    Enfim... o espectro politico atual parece ter uma nova distribuição nos dias que correm: extrema-esquerda, esquerda, esquerda liberal, esquerda neoliberal, pelo meio os descamisados, etc., isto em contínuo e, depois, tem uma descontinuidade lá mais para a direita...o PSD.
    Portanto, todos nascemos sábios e a ignorância deve ter atacado (acontecido ao) o Lula forte e feio!... coitado...Mas podia ter-lhe dado para pior: dizem que "juntou uns cobres largos"...

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  7. Os amigos de Lula estão todos presos, se não na Papuda, no Paraná, local onde atua o MERITÍSSIMO JUIZ MORO. Todos por roubos milionários com a total anuência do amigão Lula.

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  8. Anónimo16:46

    Seria simpático que o Senhor Embaixador pudesse partilhar com as suas leitoras que livros brasileiros publicados em 2015 nos aconselha a ler...

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  9. Será que o Povo Português sente alguma afinidade com o Brasil? Não creio!
    Eu,pessoalmente,sinto afinidade com a Europa pois temos a mesma cultura,Raça,etc.
    Também sei que a esmagadora maioria dos Brasileiros nutre por nós uma imensa inveja espelhada nesses comentários negativos sobre nós.
    Não precisamos da CPLP.

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  10. Anónimo00:18

    É impressionante como a maioria dos portugueses ainda não entendeu a relação do Brasil e dos brasileiros com Portugal. Para desilusão de muitos portugueses, os brasileiros não sentem qualquer tipo de inveja por Portugal. O sentimento dominante é antes de uma profunda indiferença, os brasileiros estão-se perfeitamente nas tintas para os portugueses e Portugal. Apreciam o bacalhau, azeite, vinho e pasteis de belém...e é isso. A referência cultural continua e vai continuar a ser o Roberto Leal. Fernando Pessoa e Saramago são para uma elite infima. Quem vos escreve é um português que reside há 17 anos no Brasil, acreditem que é assim que as coisas funcionam. Um brasileiro típico não tem qualquer interesse sobre Portugal. Para isso contínua também a contribuir o péssimo trabalho que as instituições portuguesas continuam a desenvolver na promoção de Portugal. Quando este embaixador esteve em Brasília, as coisas pouco ou nada mudaram também..contínua-se no mesmo marasmo.

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  11. Retornado09:56

    Desde 1822 até hoje, o Brasil foi colonizado por tanta gente que de Portugal só já resta uma certa mestiçagem sempre menosprezada, até por ela própria.

    Essas grandes colónias «estrangeiras» para se imporem, precisavam e presisam ainda de denegrir a velha colónia portuga.

    Também se dá esse fenómeno em Angola, Guiné e Moçambique.

    Mas tem a sua graça se passarmos por «estrangeiros» e ouvirmos as bocas.

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  12. Anónimo12:30

    Anónimo 28 de dezembro de 2015 às 00:18.

    Um outro Português muito querido por cá, é o talentoso Valter Hugo Mãe, embora seja Angolano, mas de origem portuguesa.

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Os saudosos

Observando a triste reação do governo face ao legítimo exercício do direito à greve, só posso concluir aquilo de que sempre suspeitei: um se...