Tive o grato prazer de estar presente na cerimónia solene que, na Câmara Municipal de Lisboa, celebrou esta manhã o 105º aniversário do 5 de outubro de 1910, data que, estou seguro, o próximo parlamento não deixará de aprovar como feriado nacional, a par do 1° de dezembro. A identidade de um país também se faz das datas que marcaram o seu percurso histórico. E só uma insensibilidade insensata tirou dignidade institucional a estas evocações. Aguardo o seu rápido regresso ao calendário afetivo do país.
Fernando Medina fez um excelente discurso, com elevado sentido de Estado. A importância da questão europeia mas, igualmente, as linhas mestras do novo ciclo político que hoje se abre foram por ele realçadas com equilíbrio e rigor. O país deve seguir com atenção este jovem autarca, porque o vai encontrar muito num futuro em que, estou certo, terá um papel decisivo a desempenhar.
O presidente Cavaco Silva, frequentador regular deste evento outonal, só surpreendeu quem o não conhece ou anda muito distraído. Nesta cerimónia, e por uma vez, a sua palavra não suscitou a menor crítica, nenhuma afirmação controversa pôde ser-lhe assacada, evitou com maestria a injustiça de vir a ser acusado de uma leitura enviezada da situação decorrente do sufrágio de ontem. Gerir a palavra desta forma é uma consumada arte, embora a arte seja, como é sabido, uma coisa de leitura não unívoca. Cavaco Silva, que por algumas semanas mais representa a República que lhe saiu em sorte, pode hoje ter concretizado um sonho de mandato: fez o consenso, embora não necessariamente aquele que desejasse. Não teve palmas no seu discurso, não foi interrompido, os apartes que, a seu respeito, possam ter sido ditos foram-nos, seguramente, em voz bastante baixa, pelo que, como habitualmente, nada ouviu nem entendeu. Aplausos tiveram, e fortes, suspendendo o discurso de Fernando Medina, os antigos presidentes presentes, Mário Soares e Jorge Sampaio, já que Ramalho Eanes primou pela ausência.
Nesta bela cerimónia, só fez falta quem lá esteve.
