No
domingo passado, o PS perdeu as eleições. Foi o segundo partido mais votado e
foi derrotado por essa formação política chamada PSD/CDS. Esta formação, que
havia governado os últimos quatro anos com maioria absoluta, perdeu no dia 4 esse
privilégio. Daqui em diante, só poderá aprovar medidas com implicação
legislativa se vier a contar com a abstenção ou o voto positivo do PS, partindo
do princípio que tudo aquilo que o PS não aceitar também não será aceite pelo
PCP ou pelo Bloco de Esquerda.
O
PS ganhou assim, no futuro parlamento, um verdadeiro direito de veto,
tornando-se o partido-charneira da política portuguesa. Porém, esse poder tem de
ser gerido com grande habilidade e sentido da medida.
O
PS está ciente de que corre o risco de ser chantageado pelo PSD/CDS, o qual, um
dia, confortado por uma pressão conjuntural europeia, pode querer dramatizar a
situação, alegar ingovernabilidade, ao não contar com uma pontual anuência ou
neutralidade socialista, apresentar a demissão e obrigar a eleições
antecipadas, em busca de uma nova maioria absoluta.
Mas
os riscos não vêm só daí. No outro lado do espetro, o PS sabe que pode ser confrontado
pelos partidos à sua esquerda com propostas irrealistas para combater a
austeridade, sendo assim colocado em potencial contradição com os compromissos
europeus que subscreveu, nomeadamente o Tratado Orçamental, pense-se o que se
pensar da racionalidade deste.
O
PS está assim “sozinho na praça”. Tem o seu programa, que foi aquilo que levou
os seus eleitores a confiarem-lhe o seu voto. É à luz desse programa que o seu
comportamento futuro será medido.
Não
é sensato pensar que António Costa poderia, algum dia, vir a obter um
mandato interno, num compromisso a prazo de uma legislatura, que desse ao PSD/CDS
a possibilidade de executar políticas num sentido contrário àquilo que o PS defendeu
durante a campanha.
Para
o bem e para o mal, o PS não é o Syriza, não dá o dito por não dito, ao virar
da esquina.
O
PS sabe que não tem condições para impor o seu programa, mas tem plena legitimidade
para decidir que tipo de medidas, que venham a surgir, à sua direita ou à sua
esquerda, podem merecer a sua aprovação.
Repito
o óbvio: o PS perdeu estas eleições. Por isso, estava e deve continuar na
oposição, embora agora numa posição mais forte do que aquela que tinha. Um seu
regresso ao governo só deve processar-se através de novas eleições, não por “maiorias”
contranatura à sua direita, nem por alianças oportunistas, não menos bizarras, com
o Bloco de Esquerda ou com o PCP. Porquê? Porque isso está fora da ordem
natural das coisas para uma formação política com uma história ímpar de
responsabilidade política no Portugal democrático. Não tenho dúvidas que
António Costa sabe isto.
(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")
