segunda-feira, dezembro 06, 2010

Sobre a crise

Algumas vezes, a pontual notoriedade dos embaixadores só emerge por motivos que nós próprios bem dispensaríamos. Mas que, nem por isso, deixam também de ser a razão pela qual estamos em posto e nele nos compete defender a imagem e os interesses do país. É o caso de "prestações" televisivas como a que fiz, há dias, na BFM Business, o canal de televisão económico-financeiro, e, ontem, na LCI, uma espécie de SIC-Notícias francesa.

Como não podia deixar de ser, foi a difícil posição portuguesa no quadro da crise internacional que esteve no centro dessas duas aparições. No somátório de ambas, tive oportunidade de reiterar:

- a intenção do governo português de não recorrer aos mecanismos europeus de ajuda financeira;
- o carácter muito rigoroso das medidas orçamentais recentemente aprovadas;
- o facto dessa aprovação ter sido feita depois de um acordo que envolveu as duas principais forças políticas do país;
- o facto de, entre 2005 e 2007, já termos feito uma contração do nosso déficite de 5,9% para 2,8%, isto é, mais de 3% - a comparar com os 2% que nos propomos fazer entre 2010 e 2011;
- a realização atempada de uma profunda reforma no nosso sistema de segurança social, que lhe assegura condições de sustentação no tempo;
- a circunstância do nosso défice face ao PIB, da nossa dívida face ao PNB e da nossa taxa de desemprego não terem divergências dramáticas das médias europeias e, em especial, das de outros países que ainda aparecem poupados pelo nervosismo dos mercados;
- o anúncio de um ambicioso plano de privatizações entre 2011 e 2013, com impacto importante sobre a redução da dívida e, por consequência, sobre o peso do serviço da dívida no défice;
- o não sofrermos das "doenças" financeiras (estatísticas pouco fiáveis ou disfarçadas, "bolha imobiliária", crise bancária) que afetam outros países que também sofrem dificuldades de financiamento.
- os sinais positivos da nossa balança comercial recente.

Em ambas as entrevistas, foi-me colocada a questão, bem francesa, sobre se as medidas de austeridade aprovadas podem vir a gerar desregulações sociais difíceis de controlar. Embora sem poder prever o futuro, e não deixando de reconhecer que o desemprego e as dificuldades económicas conduzirão naturalmente a algumas situações de tensão social, fui de opinião que a experiência histórica portuguesa não aponta no sentido de convulsões com impactos políticos diretos.

Uma coisa tenho deixado claro: não alimentamos teorias conspirativas e entendemos que os mercados se movem pela raiz natural da sua lógica - o lucro, seja a que preço for. Teríamos gostado, no entanto, de ver a atitude desses mercados - e das agências de "rating" que, frequentemente, os antecipam - basear as suas avaliações em números e em factos, não em perceções algo impressionistas. Mas, provavelmente, isso seria querer demais.

12 comentários:

  1. Anónimo23:50

    Os ossos do oficio...
    Isabel Seixas

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  2. Anónimo10:36

    Já agora, que grande osso!
    P.Rufino

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  3. Anónimo11:24

    Realmente...
    Deve ser difícil, sobretudo depois de uma notícias destas (http://www.cmjornal.xl.pt/noticia.aspx?contentid=9E359A98-FBF3-495B-A51F-3D44D3FA0BA0&channelid=00000090-0000-0000-0000-000000000090) continuar a defender as medidas de contenção orçamental de Lisboa aí por fora.

    P. Garcia

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  4. Dizem "osso"? "Ossos"? Eu até penso que o nosso Embaixador é vegetariano...

    Isto não é um link,mas eu gostei de ver:

    http://www.youtube.com/watch?v=E1Kzp5EVUWg&feature=player_embedded

    Interessante perspetiva sobre austeridade.

    Um abraço

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  5. uma coisa é a opinião pessoal, para consumo familiar e circulo de amigos; outra são as funções oficiais e publicas. Ossos (obrigações e regras)do ofício, portanto.

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  6. Csros comentadores: Aquilo que eu disse é aquilo em que eu acredito. Nem sempre o que um diplomata diz corresponde à sua opinião. Neste caso, corresponde 100%! Aliás, quem segue este blogue não deveria ter dúvidas quanto a isso.

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  7. Anónimo14:59

    Confesso que no meu comentário, mentalmente passei ao lado da substância, ou seja, o mesmo não se dirigia ao que disse, sei no que acredita, basta le-lo aqui, e respeito, sempre, a opinião dos outros, pessoais ou profissionais, no meu caso o tal "osso" a que me referia era mais dirigido ao ter de por vezes de conviver com os "media". Bem sei que há "media" e "media". Com uns é um prazer conversar, outros deixam a desejar.
    P.Rufino

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  8. Espero, Senhor Embaixador, que também acredite em Deus!

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  9. Dra. Helena Sacadura Cabral: Não vou tão longe...

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  10. A teor dominante, ainda que figurativo, da maioria dos comentários a este post, mais parece uma sessão de inspiração ortopédica do que um misto de observação política ou económica aos factos que o texto relata.

    Os ossos, que também se dizem "duros de roer", são aquela parte que fica no prato, mas junto dos quais a carne é mais saborosa. Por minha parte, e na onda dos comentários já publicados, eu citei, também no sentido figurativo, o vegetariano que o autor do post possa ser. Nem sequer será preciso conhecê-lo há muito, basta ser seguidor atento deste blog para entender que coisas destas não têm ossos, nem sequer lhe serão duras de roer.

    Quando muito, poderão assemelhar-se a umas tenras cartilagens, que até são gostosas de trincar.

    Porque mesmo que fossem ossos, não haviam de ser nenhum fémur. Quando muito, um pequeno escafóide...

    Um abraço

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  11. Anónimo11:24

    "Inspiração ortopédica"...
    In comentário de Guilherme Sanches

    Pois Personalizando...
    Articulação do Joelho; tendão de Aquiles"Rotuliano";Rótula(Osso Chato);Ligamentos(Todos, interativos)

    Até porque a crise é a vida...
    Isabel Seixas

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