terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Acolhimento

Era uma Embaixada longínqua, não muito grande. O embaixador, acompanhado por toda a família, deslocava-se a Portugal uma única vez por ano, pelo que a sua partida e a sua chegada eram momentos marcantes na vida daquele posto.

Tradicionalmente, toda a embaixada se deslocava ao aeroporto, para se despedir. À chegada, repetia-se o mesmo tipo de presenças. Nessas ocasiões, quase por rotina, o embaixador, ao agradecer a deslocação do pessoal, deixava cair uma frase do género: "Mas para que se estiveram a incomodar?...". Via-se bem, contudo, o agrado com que aceitava o gesto coletivo.

Uma madrugada, o nosso embaixador regressava de Lisboa, depois de mais de um mês de ausência e, cumprindo a tradição, toda a Embaixada o esperava. Toda, não! O Albuquerque, o homem do arquivo, não aparecera, por uma qualquer razão.

O embaixador foi acolhido pelos funcionários, que saudou com simpatia. Como de costume, foi dizendo: "Ora essa! Então os meus amigos tiveram a maçada de vir ao aeroporto? Não deviam..." Um segundo volvido, lançou, para o encarregado de negócios: "O Albuquerque está bem de saúde?"

8 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Apontamento delicioso!

Gil disse...

Acho que me lembro do Albuquerque.
Não foi para ao atendimento do público na Secção Consular?

Anónimo disse...

São pequenos gestos que acabam por criar momentos de grande cumplicidade... mas, infelizmente, tão raros nos tempos actuais.

Isabel BP

Anónimo disse...

Bis repetita placent
Agradam as coisas que são repetidas muitas vezes!
Gina Sanches

Anónimo disse...

Viva sr.Embaixador

O sr. tem 1 maneira deliciosa de contar as coisas.....
Claro q gosto.

1 abraço.
(sra da bata branca)

Anónimo disse...

Bem...
Gostei da versão unanimidade do sugestivo guloso filiado com o desejoso...
Isabel Seixas

patricio branco disse...

fazia falta a ilustração...optimo

Anónimo disse...

Imagem sugestiva...
Bem convenhamos que qualquer poder carismático requer uma passadeira para registo formal do carisma.

Pessoalmente gosto de pétalas e empatia,
há quem goste de alcatifa,
de capas negras,de serrim,folhas caídas, serviços militarizados, multidões anónimas, acenos estereotipados, olhares lânguidos e invejosos sempre no Bom sentido ,há quem suscite dependendo do contexto passadeiras de vermelho tomate,verborreias e blasfémias,urras e aplausos, agora acolhimento no sentido de se sentir mutuamente acolhido/acolhedor, hum...

É tão individual e indivisível...
Ah!fugindo ao protocolo.

Isabel Seixas